Minha Vida em Anonimato
1 A Noite em que Assisti ao jogo
Hoje resolvi assistir ao jogo de futsal das garotas da minha sala. Bem, eu não sou do tipo de pessoa que "participa" das coisas, eu geralmente nem me faço presente nesses tipos de eventos, como jogos, jantares e confraternizações. Não tenho uma razão. Às vezes até quero ir, quero deixar minha solidão de casa e socializar. Mas eu não consigo. Entristece-me tanto, porque eu realmente tento, juro. Eu não queria ser assim, porém, na hora de por em prática meus discursos de "garota-normal-de-dezesseis-anos" é como se uma grande rolha tapasse minha garganta e eu me tornasse incapaz de desenvolver uma frase mais complexa do que "Aham".
De qualquer maneira, meu táxi disse que atrasaria para me pegar no colégio e eu pensei "por que não?" Eu vejo essas meninas todos os dias, deveria pelo menos incentivá-las no jogo.
Claro que esse também é o máximo que faria. Provavelmente qualquer pessoa diria que "participar" seria jogar, e assistir seria apenas "observar". Mas, sinceramente, nem eu, nem elas gostariam de que eu jogasse. Eu tenho meus incontáveis motivos (falta de agilidade, medo das jogadoras, visão
limitada, medo de quebrarem meus óculos, carência de conhecimento sobre as regras, medo da bola...) e acho que eu sei o delas. Sabe quando dizem "Mais ajuda quem não atrapalha"? Então, nem isso eu sei fazer. Se me colocarem no meio do campo, lá ficarei plantada, a não ser por espasmos ocasionais quando a bola vem em minha direção. Logo, viro uma barreira no caminho de quem quer que vier para cima de mim. Com sorte, seria uma adversária. Infelizmente, a sorte parece nunca estar ao meu favor.
Enfim, saí da aula e me dirigi à quadra, onde encontrei um espaço vazio na arquibancada entre as mochilas. Nunca havia comparecido a um jogo e surpreendi-me com a pequena quantidade de espectadores. Deveríamos somar uns 10 ao todo: uns 3 do meu time, mais meia dúzia do outro e o juiz, um velho professor de educação física nosso ( Que, por sinal, está meio perdido no tempo. Enquanto os jogos aconteciam, largou a playlist mais 2010 que você pode imaginar para nos animar. Realmente, fiquei super animada ouvindo Hey Soul Sister, Call Me Maybe, Dynamite.). Porém, meu plano de socializar foi por água abaixo quando as garotas pediram para que eu sentasse no banco das reservas para fazer companhia e tomar conta de seus celulares. Isso não foi de todo ruim, tenho que admitir que até fiquei um pouco feliz de poder estar ao lado de minhas amigas e não de gente que não conheço. Sinto-me culpada de dizer isso, mas adorei ter uma desculpa para não fazer algo que eu queria fazer. Parece estranho? Talvez, muito provavelmente.
Entraram as garotas do time adversário, todas de camisetas iguais com o nome nas costas, muito animadas. Então chegaram as minhas amigas, sem uniforme ou padrão, apenas a monocromia preta que escolheram para diferenciarem-se das outras, de vermelho. Nem os "equipamentos" pareciam certos: apenas duas meninas de chuteira, o resto de tênis e até uma de alpargatas, a qual foi escolhida para ficar no gol para não machucar o pé. A avó de nossa goleira estava de aniversário, por isso essa não apareceu. Com isso, já estávamos em desvantagem, mas acreditávamos que ganharíamos, afinal, precisávamos. Se perdêssemos este jogo para elas, sua posição no placar subiria e empataria conosco. Já se vencêssemos, ficaríamos em primeiro lugar.
De qualquer maneira, como se já não fosse o suficiente estarmos praticamente sem goleira (sua substituta era um pouco distraída, preciso dizer), nossa zagueira tem asma e estava com dificuldades para correr longas distâncias, precisando ser frequentemente substituída pela atacante reserva (mais uma coisa em falta: zagueira reserva!), que teimava em correr para o meio de campo, deixando nossos fundos livres para o ataque adversário.
Posso estar sendo deveras muito específica em relação aos acontecimentos do jogo, mas não posso mentir: estava tão entediante. Por isso escrevo. Sou brasileira, eu sei, mas o futebol nunca me atraiu como atraem livros, músicas e filmes. Era um alívio quando a reserva, muito amiga minha, voltava ao banco e eu tinha com quem conversar. Falávamos de nada em especial, o jogo, a escola, como as jogadoras do outro time se jogavam no chão para marcarem falta, mas me aliviava.
Então veio o intervalo, e eu não pude ficar mais, pois meu táxi chegou para me levar para casa a tempo de preparar o jantar e queimar o liquidificador na voltagem errada (quando digo que a sorte nunca está ao meu favor não estou brincando.). Não vi o segundo tempo, porém notícias correm rápido como eu corro para debaixo dos cobertores em dia de chuva: perdemos de 1x 6.
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