Minha Rachel...
1 Capítulo 1 - Nova York...
Notas iniciais
O café quente em sua mesa era apenas uma de suas várias manias adquiridas com o passar dos anos. Fotografias espalhadas pelas paredes e pensar diante da janela eram algumas delas. A roupa social impecável e a postura irretocável eram apenas algumas das características que se destacavam nela. A inteligência e perspicácia eram o que mais chamavam a atenção. Que ninguém ousasse dizer que a beleza também, pois ela não suportava ser considerada apenas um rostinho bonito.
Nova York era sua nova casa. Convidada a assumir um cargo importante numa empresa na Califórnia, recusou educadamente para virar sócia em um escritório na “Big Apple”, com alguém de confiança por perto. Quinn Fabray tinha virado uma executiva. E das grandes!
Max: Senhorita Fabray, espero que tenha gostado de sua sala! [disse seu novo assistente, animado com a nova chefe]
Q: Aparentemente, tem o que preciso... [olhava ao redor, verificando que suas coisas estavam nos devidos lugares, como havia recomendado]
Max: Tentamos seguir suas instruções.
Q: Ótimo! [mexia no celular] Eu preciso fazer uma ligação, você poderia me dar licença?
Max: Claro! Seja bem-vinda! [sorriu cortês enquanto fechava a porta, dando-lhe privacidade]
Alguns poucos toques depois e a voz familiar ressoava no outro lado da linha:
S: Fabray! Nem me diga que vai desmarcar nosso jantar! [Santana tentava ser ignorante, mas seu sorriso estragava tudo]
Q: Não, S. Não vou desmarcar o jantar. [revirava os olhos] Só não posso garantir que conseguirei sair cedo. É o meu primeiro dia aqui e eu preciso me organizar. Tenho algumas reuniões importantes no decorrer da semana. [segurava o copo de café, levando-o à boca]
S: Você sabe que eu não estou nem aí pra isso, não sabe?! Eu só quero saber do jantar!
Q: Obrigada por sua compreensão! [sorriu sarcástica]
S: Não há de quê, sócia!
Q: Por que você não está aqui?
S: Porque eu tinha outras coisas para resolver. Mais tarde conversamos.
Ela não perdia tempo em sua profissão. Não havia espaço para brincadeiras. Era conhecida como uma leoa, ainda que sua calma inatingível sempre prevalecesse. Escolheu o mundo dos negócios ao invés de advogar nos tribunais. Era a melhor recrutadora executiva da atualidade. Selecionava os melhores profissionais das mais variadas áreas e intermediava contratos importantes e milionários, encontrando as brechas e preenchendo-as. Sabia, como ninguém, fazer pesquisas de mercado e estatísticas, analisando a viabilidade de acordos e projetos, vendas e compras de empresas, fusões de marcas... Prestava uma minuciosa consultoria, decidindo muitas vezes o destino de complicadas negociações. Vários dos maiores escritórios de advocacia de Connecticut, Califórnia e Nova York já haviam feito ofertas quase irrecusáveis para ela. Até Londres estava na cola da loira. Mas tudo o que ela queria era liberdade.
Buscou em sua mesa as pastas contendo os documentos que deveria analisar. E lá estava a que considerava a mais importante: papel timbrado com uma série de nomes que não lhe importavam. Apenas um chamava sua atenção: Rachel Berry. Já havia lido aquelas páginas dezenas de vezes e, a cada vez, riscava mais. Fazia anotações nos cantos das folhas, grifava termos... Era um contrato para um filme. Junto dele havia uma breve sinopse do que se tratava, um minucioso dossiê com estimativas de público, retorno, publicidade. Claro que o dossiê era feito por sua empresa, afinal de contas, o contratante, ao elaborar o contrato, exaltava o projeto como uma ótima empreitada. Era Quinn Fabray quem determinava se isso era verdade ou mentira.
A loira, nesse caso, foi contratada pelo estúdio para analisar o investimento neste projeto e estabelecer todas as diretrizes das negociações que deveriam ser feitas. Quinn se especializou em tudo relacionado às artes, marketing e negócios, o que foi fundamental para a loira construir uma sólida base de conhecimentos que fizeram dela a profissional que é hoje, em tempo recorde...
Então ela analisava toda a cadeia jurídica, publicitária e econômica que envolvia o projeto. Desde os contratos com funcionários das futuras filmagens, até os contratos com atores, a situação dos diretores, roteiristas... Locações, tempo de filmagem... Gastos com equipe, deslocamentos. Taxas, autorizações. Tudo! Criava o dossiê perfeito para concluir se aquilo era uma barca furada ou não.
E lá estava o nome de Rachel Berry. Indicada, nos documentos, como uma das atrizes do filme. Quinn não via aquilo com bons olhos. Não parecia uma boa oportunidade para ela. Mas seu trabalho não era cuidar dos interesses dos atores. Seu trabalho era cuidar dos interesses do estúdio, ainda que para eles não houvesse qualquer problema se ela fizesse uma análise por conta própria de qualquer outro fator.
Q: Nem protagonista ela seria... [resmungou sozinha, relendo a sinopse]
Era um projeto com muitas falhas. Mas sabia que não teria dificuldades em deixá-lo perfeito para o estúdio. Mas aquilo não parecia a melhor opção. Se aquele projeto fosse aceito, Rachel Berry estraria no cinema, e não seria uma boa estreia.
Q: Por que a Rachel se interessa por cinema agora? [não disfarçou sua curiosidade]
S: A Broadway não é o que ela pensava. [deu de ombros, enquanto degustava o jantar]
Q: Algum fato específico?
S: Diretores escrotos, atores escrotos, peças escrotas... Os grandes musicais parecem estar cheios demais para darem espaço a ela.
Q: Temos o contrato dela. [chamou a atenção da amiga]
S: Como assim?
Q: Um dos contratos que devo analisar é da MGM com uma nova produção. Um filme onde ela está escalada como parte do elenco.
S: Hum... Ou seja, a real razão de você estar em Nova York agora é essa?
Q: Seria mentira se eu dissesse que não.
S: Isso já é obsessão, Fabray!
Q: Chame do que quiser. Eu poderia escolher qualquer lugar pra ir. Por que não aqui onde ela está? Eu só sei que não é uma boa oportunidade e ela precisa ser convencida disso.
S: Não estamos sendo pagas pra isso, Quinn.
Q: Não se trata de dinheiro.
S: É mesmo! É a obsessão... [cantarolou]
Q: Que seja! [deu de ombros, bebendo seu vinho]
S: Você quer que eu a convença?
Q: Não. Claro que não! É minha chance de me reaproximar dela, não vou desperdiçá-la fazendo você assumir o meu papel.
S: Bom... Eu não posso criticar essa sua loucura de recusar aquele cargo em Los Angeles para vir pra cá por causa dela, porque você vai me pagar um salário maravilhoso nessa nossa sociedade em que você manda em tudo!
Q: Hahahahahahahaha Mas você acha loucura?
S: Você sempre consegue tudo o que quer, Fabray! Eu ainda me pergunto por que você demorou tanto tempo para vir pra cá.
Q: Ela não estava solteira, Santana! E eu tinha que construir minha vida antes de saber o que fazer. Ela nunca me daria uma chance antes. Éramos imaturas. Agora somos adultas e eu sei bem o que quero. Quero o que sempre quis. [piscou-lhe]
S: Você sabe que ela não é gay, não sabe?!
Q: Acha que não vou conseguir? [arqueou a sobrancelha]
S: Acabei de dizer que você consegue tudo o que quer! E mesmo assim, ela pode não ter sido, nem ser gay. Você pode transformá-la em dois segundos.
Q: Hahahahahahaahhaa
S: Sempre existiu essa coisa estranha entre vocês. Não vou me surpreender quando vir Rachel Berry caindo aos seus pés apaixonada.
Q: Eu preciso que você me ajude.
S: A fazê-la se apaixonar por você?
Q: Claro que não! Isso eu consigo sozinha. [disse orgulhosa] Eu preciso que você facilite meu acesso a ela. Eu não quero nada cinematográfico, nem dramático. Nem quero nada cheio de surpresas. Eu só não posso aparecer na porta dela de repente.
S: E por que não?!
Rachel chegava em seu apartamento cansada, depois de mais um dia de testes. Filmes, comerciais, seriados. Já não tinha preferência. Esperava conseguir qualquer um. “Muito baixinha”, “Muito étnica”, “Muito jovem”... Eram várias as razões que ouvia para não conseguir os papéis. Esperava ansiosa a confirmação de um novo filme para o qual tinha sido escalada depois de alguns testes, mas seu telefone não tocava em dia nenhum. No fim das contas, estava cheia de contas para pagar e um cartaz de “Wicked” pendurado na parede da sala para lembrá-la de, todo dia, sentir-se como uma fracassada. Sua gata, “Diva”, era sua melhor companhia, sempre atenciosa e carinhosa. Deslizava alegre por entre suas pernas sempre que chegava e se aconchegava em seu colo quando se esparramava no sofá para ver televisão. Rachel Berry não estava feliz.
Depois de um longo período de indecisão entre Finn e Brody, acabou optando por ficar sozinha, pois nenhum dos dois conseguia dar a ela o que ela precisava. Mas a morena não sabia o que faltava e estava cansada de tentar descobrir. Sua amizade com Kurt continuava ótima, mas resolveu sair do apartamento que dividiam para dar mais privacidade ao amigo, que passou a viver com Blaine de vez. Santana, por incrível que pareça, era uma de suas amizades mais constantes, mas a latina não era muito dada ao carinho, então ela não a via todos os dias. Tinha notícias de Quinn através dela e sentia muito orgulho da loira. Era fato que ela era a única realmente bem sucedida de todos do New Directions. E Rachel achava que ela era merecedora...
Já estava caindo de sono quando desligou a tv para ir ao quarto. Diva a seguia fielmente quando ouviu o barulho da fechadura. Arrependeu-se mentalmente por deixar que Santana tivesse uma chave de seu apartamento, pois a latina nunca avisava quando apareceria por lá e parecia que desconhecia o dispositivo chamado “campainha”. Quando deu meia volta, seu queixo praticamente caiu. Quinn Fabray estava (linda!) em sua sala, às 11:15 da noite, numa segunda-feira.
Ela estaria sonhando?
[Continua...]
Notas finais
Beijos!
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