Minha Rachel...

3 Capítulo 3 - O jantar...


Quinn chegou ao apartamento de Rachel dois minutos adiantada. Em frente à porta, olhou para as próprias mãos vazias e se perguntou se não deveria ter levado flores. “Não... Explícito demais!” Concluiu. Precisava que a morena se sentisse bem em sua presença e não assustada. Precisava manter um clima amistoso de dúvida. Poderia flertar discretamente, sem deixá-la desconfortável. Jogar a isca e esperar para ver se ela morde. Ou se pelo menos tem a intenção de morder.


O som da campainha assustou a morena. Rachel estava insegura quanto à roupa que deveria usar. Pensou em ligar para perguntar para onde iriam, até em tentar arrancar essa informação de Santana, mas não queria demonstrar sua ansiedade. Optou por um simples vestido azul de mangas longas, justo no corpo, mas com um comprimento razoável e um discreto decote nas costas, delicadas sandálias na cor “nude”, cabelos soltos e um casaco preto para o caso de sentir frio.


Quando a porta abriu, os olhos de Quinn foram atraídos por toda a extensão do corpo da morena. A loira sabia que estava sendo indiscreta, mas não conseguia não admirá-la e não se esforçou em disfarçar sua reação. Rachel corou imediatamente, ao mesmo tempo em que sentiu um calor estranho ao ver Quinn tão linda, com um rabo de cavalo, uma calça jeans na cor clara, botas pretas de cano longo, uma blusa amarela de botões sobre uma camiseta branca, e uma jaqueta de couro surrada pendurada em um dos braços. Completamente diferente do visual sério do dia anterior. A loira tinha pensado em algo mais elegante, mas não queria transformar esse jantar em algo formal, muito menos num primeiro encontro. Queria que Rachel estivesse ciente do primeiro encontro quando ele acontecesse. E o mais importante: queria que ela quisesse o encontro mais do que qualquer coisa...


R: Oi... [tentava disfarçar a timidez que lhe acometeu]

Q: Espero não ter demorado... [sabia que estava sendo pontual, mas precisava ser charmosa]

R: Mais pontual impossível! [deu-lhe um sorriso amplo]

Q: Vamos?

R: Vamos! [apressou-se em sair] Aonde vamos? Não sei se escolhi a roupa certa para o lugar e...

Q: Você está linda! [interrompeu] Linda para ir a qualquer lugar... [Rachel estremeceu]


A segurança na voz de Quinn era algo impressionante. Não tinha qualquer hesitação. Qualquer vacilo nas palavras pronunciadas. Ela queria mesmo que Rachel percebesse seu charme. Queria que a morena tivesse dúvidas quanto ao clima ali. Quinn queria controlar a situação. E era o que estava fazendo...


Rachel ficou impressionada com o carro da loira. Um veículo preto que ela não saberia dizer o modelo, apenas que era caro. O interior confortável confirmava que não era um veículo popular. Era difícil para Quinn não ficar encarando as pernas da morena. Mas ela não podia, simplesmente, agir como se estivesse excitada o tempo inteiro. Rachel precisava se sentir à vontade ao seu lado e ela não faria qualquer besteira que colocasse isso em risco.


R: Vamos buscar a Santana ou ela nos encontra no restaurante? [perguntou casualmente]

Q: A Santana não vai jantar conosco. [respondeu de forma natural]

R: Não vai? [surpreendeu-se] Eu pensei que...

Q: Nunca foi um jantar para nós três. [interrompeu] Eu quero jantar com você. [segurava-se para não elogiá-la novamente] Conversar com você. Faz tempo que não temos uma conversa. Algum problema em sermos só nós duas? [perguntou de forma segura]

R: Claro que não! [garantiu] Desculpe... Eu só... Me enganei... [deu de ombros com um sorriso tímido]


Quinn a levou a um restaurante francês com receitas vegetarianas. Não era um restaurante simples, mas também não era chique a ponto de fazer a morena se sentir incapaz de pagar uma conta.


R: Então... Como você chegou onde está? [perguntou sorrindo, enquanto o garçom lhe servia vinho]

Q: Bom... [agradecia ao garçom com o olhar] Antes um brinde ao nosso reencontro! [ergueu a taça fazendo a morena imitar sua ação sorrindo. Ambas beberam um gole com seus olhares magnetizados. Então, Quinn começou a responder] Digamos que eu estudei muito e foquei no que queria. Prestei muita atenção nas coisas que realmente importavam e adquiri uma visão profissional que muitas pessoas não têm. Tem dado certo... [falou tranquila]

R: Seja mais clara! [pedia atenta]

Q: Não sei explicar... Sou realmente boa no que faço, mas não sei como falar isso sem parecer arrogante. [sorriu]

R: Eu jamais te acharia arrogante! [sorriu de volta, fazendo o coração de Quinn disparar]

Q: Ontem eu menti pra você. [bebeu outro gole de vinho]

R: Mentiu? [perguntou confusa]

Q: Sim... O que me levou ao seu apartamento não foi a Santana insistir em ir pra lá. Na verdade, eu queria ir. Mas era tarde e aquela desculpa ridícula foi o que me veio à cabeça na hora, para justificar nossa chegada. [não havia timidez na expressão da loira e Rachel sorriu]

R: Foi uma boa mentira... [baixou os olhos sorrindo, sem conseguir sustentar a intensidade da segurança com que Quinn se portava]

Q: Eu poderia ter me esforçado mais... [piscou-lhe assim que os olhos castanhos cruzaram com os claros novamente]

R: Fico feliz por você querer me ver! [sorriu sincera]

Q: Por que não iria querer?

R: Eu não sei... Nunca fui muito querida... [deu de ombros]

Q: E de onde vem essa autoestima tão baixa que não faz parte de você? [repreendeu suavemente]

R: Só sou realista, Quinn...

Q: Isso não é ser realista.


Foram interrompidas pelos pratos que chegavam e Quinn agradeceu mentalmente por isso. Não achou que aquele fosse o melhor momento para entrar num assunto tão profundo como a autoestima de Rachel Berry.


R: Posso fazer uma pergunta?

Q: Quantas quiser...

R: É pessoal... [enfatizou corada]

Q: Fique à vontade... [tranquilizou-a]

R: Você namorou outra garota além da Santana? [Rachel não percebeu, mas começou a tremer nervosa]

Q: Eu não namorei a Santana. [respondeu calma]

R: Ok... Mas você se envolveu com ela. Também se envolveu com outra garota? Sei lá... Com outras? [continuava sem graça]

Q: Sim. [respondeu tranquila, disfarçando completamente a felicidade por presenciar a curiosidade da morena em sua orientação sexual]

R: Você se apaixonou? [perguntou temerosa]

Q: Por quem?

R: Não sei... Por Santana, por alguma garota depois.

Q: Eu não me apaixonei pela Santana nem por qualquer outra garota em Yale. [ela não mentia, afinal, a única garota por quem se apaixonou não estava em Yale, mas sim em NYADA e, agora, à sua frente]

R: Desculpe! [pediu encabulada]

Q: Por que se desculpa? [realmente não havia entendido]

R: Estou sendo invasiva. [justificava-se] É só que, tudo o que sei sobre você é profissional. Só que você virou um sucesso em sua área. Depois que nos afastamos, fiquei totalmente por fora da sua vida pessoal e é curioso pensar que você mudou tanto. [justificava-se ainda mais]

Q: Não encare como uma mudança. Encare como uma descoberta. [enfatizava]

R: Explique. [relaxava]

Q: Só abri os olhos para enxergar o que sempre esteve à minha frente.

R: Que você gostava de garotas?

Q: Sim...

R: Você ainda se interessa por homens? [Rachel não entendia porque estava tão curiosa sobre a intimidade de Quinn, só sabia que precisava perguntar e saber, saber, saber...]

Q: Não.

R: Então você é...

Q: Definitivamente gay? Sim! [respondeu sorrindo]

R: Os homens devem pensar que isso é um desperdício. [sorriu corada]

Q: Não me importo com o que eles pensam... [piscou-lhe]

R: Você está envolvida com alguém agora?

Q: Não.

R: Por quê?

Q: Rachel Berry, Rachel Berry... Sempre curiosa! [sorriu ainda mais]

R: Desculpa… [ficou completamente sem graça]

Q: Não se desculpe! [tranquilizou-a] Voltamos a conviver. Não precisamos esgotar todas as dúvidas hoje. [sorriu suavemente]

R: Mesmo assim desculpa... É só que... [tentava explicar] Nunca entendi muito bem o que havia entre você e Santana. A única vez que tentei perguntar, ela não reagiu muito bem, respondendo com gracinhas, então eu nunca mais perguntei. Não me senti à vontade para te perguntar e depois nos desentendemos...

Q: Era importante para você entender? [perguntou cuidadosa]

R: Não sei... [realmente não sabia] Talvez não fosse da minha conta...

Q: Santana foi importante pra mim nessa descoberta. [explicava] Eu negava meus próprios sentimentos, meus desejos... Ter resolvido me assumir com a ajuda dela foi fundamental, já que ela era, e é, minha melhor amiga. Ela soube me dar o suporte que eu precisava para entender se era só uma experiência ou se eu era mesmo gay. Não namoramos, nem nos apaixonamos uma pela outra. Mesmo porque, nossos corações eram de outras pessoas...

R: Você estava apaixonada por outra pessoa?

Q: Mais vinho? [interrompia o assunto propositalmente, sem se importar em disfarçar]

R: Não desconversa, Quinn! [pedia sorrindo]

Q: Essa conversa fica pra outro dia... [piscou-lhe] Vamos falar de você agora...

R: Não há nada para falar de mim.

Q: Há sim! Por exemplo: por que você agora quer fazer cinema?

R: Como você sabe? [surpreendeu-se]

Q: Só me responda.

R: Santana te contou?

Q: Só me responda, Rachel!

R: Dinheiro! Preciso de dinheiro e o teatro não me dá. [deu de ombros, mas não conseguiu esconder sua frustração com essa frase]

Q: Desistiu da Broadway?

R: Minha cabeça sim.

Q: E seu coração?

R: Jamais... [suspirou]

Q: Meu escritório foi contratado pela MGM para analisar um projeto de um filme para o qual você foi escalada. [começou a contar]

R: É você quem decide se o filme vai sair do papel? [perguntou ansiosa]

Q: Não. Eu analiso a viabilidade do projeto e aponto falhas. Posso intermediar as negociações, se for o caso, mas não sou eu quem decide. [explicou]

R: Seria estranho eu te dizer que esse filme é muito importante pra mim? [perguntou cautelosa]

Q: Seria estranho eu dizer que essa não é uma boa oportunidade pra você? [perguntou segura]

R: O quê?

Q: Se você quiser um conselho, eu digo que não aceite o papel.

R: Desculpe. Eu não preciso de conselho. [tentou ser o mais amável possível] Eu falo sério quando digo que preciso de dinheiro, Quinn. [manteve-se firme, apesar do constrangimento que sentia ao admitir isso] Eu não posso me dar ao luxo de escolher mais o que fazer.

Q: Seu único interesse nesse filme é pelo cachê?

R: Sim. Eu não sou idiota! Sei que não terei destaque. Não serei protagonista e a publicidade não girará em torno de mim.

Q: Não é só isso. O filme é uma porcaria! [enfatizou] Vai ser um fracasso de bilheteria se lançado. E ele, provavelmente, será lançado, porque eu consigo transformar o projeto em algo barato, sem grandes custos para o estúdio. Mas não haverá retorno de público e ele ficará encalhado. Assim como a carreira de quem participar dele. [analisava]

R: Eu não vejo dessa forma. Não significa que minha carreira vai acabar por causa dele. [defendia-se]

Q: Acabar, acabar, não. Mas ficará marcada negativamente. Eu entendo disso. É meu trabalho. [dizia segura]

R: Podemos mudar de assunto? [perguntou incomodada]

Q: Não. Eu preciso que você desista desse projeto. [insistiu]

R: Eu não posso, Quinn!

Q: Pode! [manteve-se firme]

R: Eu tenho dívidas! [irritou-se] Meu aluguel está vencido há não sei quantos meses e eu nem me lembro a última vez que comprei alguma coisa pra mim. Eu não posso recusar trabalho. [dizia angustiada]

Q: Pode! [insistiu novamente]

R: Você está me escutando? [perguntou agoniada]

Q: Volte à Broadway!

R: Não tem espaço para mim na Broadway!

Q: Lá é o seu lugar!

R: Podemos pedir a conta? [afastou o prato de si, largando o guardanapo] Eu não estou me sentindo bem...

Q: Trabalhe comigo! [finalmente convidou]

R: O quê? [assustou-se]

Q: Trabalhe comigo! [amansou a voz]

R: Desculpe. Eu ainda não entendi...

Q: Você me disse que precisa de dinheiro. Eu tenho uma empresa que vai muito bem das pernas. Posso contratar você. [disse calma, mas estava completamente nervosa, com medo de que Rachel interpretasse isso da forma errada]

R: Pra fazer o quê? [perguntou com a voz mais baixa do que pretendia]

Q: Tem muitas coisas que você pode fazer lá. [animou-se em começar a explicar ao ver a curiosidade da morena] Você é inteligente, perspicaz. Sempre foi! [sorria para ela] Preciso de alguém como você, com a mente aberta, artística, ágil. Garanto que, financeiramente, valerá muito mais a pena do que este filme. E não vai comprometer sua reputação. Você poderá pagar suas contas e ter tranquilidade para continuar tentando a Broadway.

R: Você está falando sério? [perguntou insegura]

Q: Você é Rachel Berry! Desculpe, mas você não nasceu para ser coadjuvante em filme de quinta categoria por dinheiro. Pior: por pouco dinheiro! Mesmo assim, seu talento não pode ser medido financeiramente. Você é uma artista excepcional, Rachel! [elogiava-a sincera] Você nasceu para ser uma estrela!

R: Eu não... [estava completamente sem palavras para agradecer pelo que ouvia]

Q: Eu não sei quem transformou você nessa pessoa insegura. [queria abraçá-la ao ver seus olhos marejados] Aposto que os seus ex-namorados babacas têm um bom crédito nisso. [alinhou a postura ainda mais, dando mais firmeza ao que falava] Mas eu só sei que você tem a chance de reverter isso e voltar a ser a Rachel impetuosa que sempre foi.

R: Por que você está fazendo isso por mim? [enxugava os olhos]

Q: Porque eu acredito em você e quero que você cresça! Como você sempre disse que seria...

R: Mas você não tem que fazer isso...

Q: Eu me importo com você! Nunca deixei de me importar... [confessava com doçura]

R: Eu... Eu preciso pensar! [tentava organizar os pensamentos]

Q: Entenda que eu sou capaz de tornar esse projeto inviável, só para que você não tenha outra opção, além de desistir dele. [avisou]

R: Mas isso seria errado! [surpreendeu-se]

Q: Errado é você desistir do seu destino. [corrigiu]

R: Eu não posso viver de sonhos... [disse desanimada]

Q: Eu disse “destino”, não falei em sonhos... [corrigiu novamente] Esteja amanhã em meu escritório e conversaremos. [finalizou] Por hoje, deixaremos de falar de trabalho. [deu-lhe um sorriso terno]

R: Ok... [deu-se por vencida, com um sorriso encabulado]

Q: A propósito... Espero não te deixar sem graça, mas você está muito mais bonita do que sempre foi! Isso deveria valer muito para levantar sua autoestima.

R: Obrigada... [corou ainda mais]


Quinn lhe sorriu segura e segurou sua mão sobre a mesa para lhe confortar, sabendo que a morena tinha ficado frágil após aquela conversa toda sobre dinheiro. O arrepio causado em ambas as peles pelo toque de suas mãos foi percebido pelas duas. Rachel não conseguiu sustentar aquela sensação e puxou a mão para seu colo, com um sorriso sem graça. Quinn fingiu não se abalar, mas se chateou um pouco com o gesto da morena. Chamou o garçom e pediu a conta. Quando Rachel fez menção de pegar a bolsa para pagar sua parte, a loira a impediu:


Q: Não. Eu pago!

R: Eu sei que reclamei de dinheiro, Quinn, mas eu posso pagar minha parte. [disse um pouco arisca]

Q: Abaixe a guarda, Rachel [tentou acalmá-la] Eu não estou pagando a conta por pena de suas dívidas, mas porque eu convidei e é assim que ajo quando convido. É assim que se deve agir! [explicou calma]

R: Me desculpe... [tentou consertar a gafe que tinha cometido] Desculpe, eu só...

Q: Vai começar a parar de se desculpar e tudo ficará bem! [sorriu, fazendo a morena sorrir também]


No carro, enquanto Quinn a levava para casa, Rachel conseguiu relaxar mais um pouco, sentindo-se mais leve por ver que a loira estava disposta a ajudá-la. Quinn era como a sua luz no fim do túnel, talvez... Sentia-se tão bem perto dela que ficava confusa com a profusão de sensações! A loira falava tranquilamente, contando coisas engraçadas sobre um show que tinha ido da banda que tocava no som do carro, fazendo a morena rir. Quanto mais se aproximavam de sua casa, mais Rachel queria prolongar aquela noite e tentava a todo custo pensar numa boa desculpa para fazer Quinn subir ao seu apartamento. Não sabia o porquê, mas precisava ter a loira por perto naquela noite, mesmo sem entender de que forma seria...



Notas finais
Espero que gostem!
As coisas vão avançando entre elas e Rachel vai ficando confusa pelos sentimentos que a proximidade de Quinn lhe provoca. Como será o próximo capítulo? ;)
Comentem!
Beijos