Ah, uma pessoa sempre pode pagar sua língua!

Caroline colocou os óculos escuros e saiu em busca de um táxi. Quem diria!

Aquela semana parecia tão normal...

Primeiro, visitara o irmão e o encontrara pior do que antes. E há muito Charles não aparentava estar feliz.

Quando o confrontou, a resposta de sempre: Jane.

- Jane, Charles? De novo? — A irmã o abraçou. — Nós erramos com ela, tenho de admitir, — ignorou o olhar espantado do irmão. — mas se 10 anos de redenção e dedicação não são suficientes...

- O problema sou eu, Carol. Jane não consegue confiar em mim.

Ela revirou os olhos. Estava bastante mudada, era verdade, mas algo se mantivera em seu ser: a praticidade.

- E o que você quer, irmão?

- Eu quero que ela me ame, quero me casar. Tirando este problema da confiança, Jane é perfeita. Nunca vi uma alma tão bondosa, tão brilhante como a dela! Somos tão parecidos. — Foi até uma gaveta e retirou um pequeno pacote. — Comprei o anel há alguns anos, mas não tive coragem. Ela certamente me rejeitaria e poderia nunca mais querer algo comigo. Tê-la ao meu lado era o que bastava, agora... Não mais.

Caroline o abraçou novamente.

- Vamos dar um jeito, Charles. — A irmã olhou em seus olhos.

- Como?

- Vamos organizar um jantar romântico e você a pedirá em casamento.

O irmão sorriu, mas seu semblante estava desconsolado.

- Não vai funcionar.

- Jane está chateada, eu sei, mas não será um simples, Charles. Você falará tudo o que sente, não deixará que nada fique pairando sem solução. — A moça balançou a cabeça. — Se Jane ainda não o quiser, terá de me prometer que seguirá em frente.

O semblante do irmão estava tenso, mas Charles anuiu.

____

- Darcy, preciso de sua ajuda.

O coração de Caroline se entristeceu ao vê-lo. Ela e Gigi não eram muito próximas, mas ficara sabendo o que houvera.

Ah, que situação!

E o que mais a deixava triste era ver a reserva com que seu amigo a tratava. Agora Caroline via a víbora que devia ter sido.

- Charles está sofrendo muito e esta situação é insustentável. Vamos ajudá-lo a conquistar de vez Jane ou, ao menos, seguir em frente.

O rapaz concordou.

- Charles é um grande amigo e parte deste sofrimento é culpa minha. Farei o que for possível.

Caroline agradeceu e se levantou, esquecendo a bolsa.

Quando ele a alcançou, a moça conversava com Elizabeth Bennet no Hall.

Surpreendera-se ao encontrá-la ali, mas sabia bem o motivo. Há alguns meses, aquilo a teria corroído de ciúmes. Os tempos eram outros...

___

Caroline chegou ao flat de Jane com o coração aos pulos. Quando planejara toda aquela grande operação, estava segura e confiante. Começava a tremer nas bases agora. O ressentimento de Jane deveria ser enorme.

Foi com curiosidade que a modelo a recebeu.

- Olá, Caroline — E pediu para que se sentasse. — Como vai?

A moça se acomodou.

- Sem rodeios, Jane. Venho em benefício de Charles. — O olhar surpreso da outra não lhe passou despercebido. — Tenho certeza de que sabe o quanto meu irmão a ama.

A outra anuiu lentamente.

- Charles está muitíssimo magoado. E confuso também. — Caroline apertou as próprias mãos. — Há 10 anos ele tenta remediar a situação, mas não tem sucesso algum.

- Não é bem assim e...

Caroline levantou a mão.

- Não precisa me explicar. Aliás, sou eu que devo fazer reparações. — Suspirou. — Jane, tente enxergar o outro lado da história. Charles era muito novo e posso garantir que muitas moças tentaram ganhá-lo com beleza e palavras bonitas, quando o que as atraía de verdade era o dinheiro. Meu irmão era facilmente enganado, então Darcy e eu formamos um escudo protetor em torno dele até que fosse plenamente capaz das próprias decisões.

Um brilho triste passou pelos olhos de Caroline.

- Não conseguimos perceber que este momento chegara quando a conheceu. Sei que é madura e dona de si agora, mas tente voltar 10 anos no tempo e se pergunte: se Lizzie, outra pessoa de sua família ou alguém em quem você confia muito lhe dissesse que tal pessoa não a ama, você escutaria?

Jane pensou por um momento e, chocada, assentiu.

Caroline sentiu-se feliz por dentro, mas não externalizou o sentimento.

- Percebe? Meu irmão é culpado de confiar demais em nós. Quando revelamos nossa intromissão, Charles logo tentou remediar a situação, porém já era tarde. — Tomou as mãos de Jane nas suas. — Não vou pedir que me perdoe, Jane, pois não mereço e, na verdade, não me importo muito com isso. O que realmente me preocupa é Charles. Não o vejo sorrir verdadeiramente há muitos anos e, sinceramente, isto me machuca demais. Faça um favor a todos: permita-se perdoar ou, se não for capaz, permita que ele prossiga com a vida. Não o deixe mais nesta situação.

Despediu-se com um meneio de cabeça e saiu.