Minha Querida Alexandra

1 O que há depois do por do sol?


Eu tinha certeza de que a sensação de paz interior era algo que se encontrava entre a felicidade e a calma, o fato de se sentir tão leve que poderia simplesmente tirar seus pés do chão e tocar os céus. Era algo que não me lembrava de ter sentido em nenhum momento passado de minha vida, que era relativamente alegre e harmoniosa ao lado de meus pais e meus amigos, mas eles nunca me fizeram sentir algo tão bom quanto o que eu sentia no momento. Era quente e calmo, eu tinha medo de abrir os olhos e acordar do melhor sonho que já tive, mas algo interrompeu meus sentimentos de maneira inesperada, batendo em minha nuca.

-Ouch...!

Eu abri meus olhos e de repente minha pele se tornou mais sensível e meu corpo mais pesado do que antes, eu percebi que estava dentro d’água e em um lugar que eu nunca havia visto em minha vida, era lindo em ângulos que não poderiam ser explicados, apenas observados. Um enorme lago negro que era cercado por uma mata distante e pantanosa, o céu possuía as três tonalidades do mais belo fim de tarde, o azul, o roxo e o laranja. Antes de olhar para trás, olhei para meu reflexo na água, meu cabelo estava diferente e saldável, cachos macios ao toque, algo que eu não via desde meus 13 anos de idade, por eu estava sempre alisando e pintando meu cabelo. Era um sonho muito real, por o calor daquele lago comparado à fria brisa era aconchegante. Finalmente decidi me virar e encarar o que bateu em minha cabeça, que por mais forte que tenha batido não doía mais, era um pequeno cais um tanto acabado porem firme o suficiente para que eu subisse por suas estacas. Ele abria caminho para uma pequena casa feita de madeira no meio do lago, eu podia ver claramente que ela estava fixa ao cais, mas não ao chão do lago. Ela flutuava com leves balanços, mas nada que deixasse alguém incomodado.

-Olá? – Eu chamei, estava com um pouco de medo de me aproximar da casa. Eu não estava exatamente vestida de maneira apropriada para visitar alguém, ou pelo menos para causar uma boa impressão para que a pessoa não estranhasse uma menina completamente encharcada que apareceu de repente em sua casa no meio do nada.

-Você é idiota, Alexandra? Isso é um sonho... – Resmunguei para mim mesma e fiz meu caminho até a porta da casa.

Sua madeira possuía um aroma agradável, suas janelas eram enfeitadas com vários e pequeninos vasos de plantas, mas foi um recado sobre o tapete azul-marinho da porta que mais chamou minha atenção. Eu me abaixei e o peguei, não me era estranho o fato de estar adereçado a mim, uma vez que o sonho era meu.

“ Minha querida Alexandra,

Eu deveria estar aqui para recepciona-la adequadamente, mas um pequeno infortúnio em meus afazeres me fez mudar um pouco minha programação, não se preocupe! Coloquei a chave da casa no bolso esquerdo do seu vestido, sinta-se a vontade, não demorarei muito.”

Até aquele instante eu não havia reparado que estava usando um vestido, era branco e leve como seda, coloquei minhas mãos dentro de ambos os bolsos, do esquerdo tirei uma chave que parecia feita de vidro, do direito uma moeda de prata.

-Minha mãe vai rir muito disso quando eu acordar e contar para o pessoal, — Coloquei a chave de vidro no buraco da maçaneta e rodei com força, pois estava emperrando. – por que não abre...?! – Mesmo forçando e empurrando a porta não abria. Fala sério, era uma chave de vidro, que tipo de coisa como essa funciona?

-Madame. – Uma voz que parecia a de uma criança me assustou.

O susto me fez derrubar a chave, que infelizmente caiu dentro d’água. Eu me virei e me deparei com um pequeno pardal que olhava para mim. Olhei envolta, mas não havia mais ninguém.

-Madame. – Repetiu a voz, que vinha do pardal.

-Oi... – Eu não sou muito de beber, mas mesmo que eu não lembre muito bem, acho que isso aconteceu antes de dormir. – Passarinho.

-Perdoe-me se estou sendo muito obvio, mas acho que deixou sua chave cair.

Ele era tão fofinho.

-Foi você que deixou o recado?

Ele voou até meu ombro e eu pude sentir a maciez de suas penas tocando em minha pele ao pousar. Era estranho, pois bichos geralmente tinham medo de mim, mesmo que eu os adorasse. Nunca nenhum animal gostava de mim, foi algo que me magoou a vida inteira.

-Não madame, foi outra pessoa.

-Bem... parece que agora estou presa do lado de fora até essa “pessoa” chegar, ou pelo menos até eu acordar.

Ele voou para a maçaneta e me encarou com uma expressão confusa.

-Acordar?

-Sim. Mas não se preocupe pardalzinho, geralmente não me esqueço de sonhos longos e complicados que nem esse, então é até provável de acabar sonhando com você de novo.

Ele ria de maneira que me fazia querer rir junto dele.

- A madame é engraçada. Mas está errada, não esta presa fora da casa. Por que não pede para que sua chave volte, afinal, o “sonho” é seu, não?

-Tolice minha, você está certo.

Eu me coloquei de joelhos do cais e aproximei meu rosto da água. Era tão escura que não se podia fazer a menor ideia de onde estaria a chave, muito menos uma chave de vidro. O pequeno pardal pousou ao meu lado e se pôs a observar a água também. Eu estava em dúvida de como começaria com aquilo, então virei meu rosto para ele.

-Então... Não vai pedir sua chave? – Ele me olhou confuso novamente.

-Tá certo. – Olhei para a água e pensei: “Não acredito que isso poderia funcionar, só na minha cabeça mesmo.” – Chave volta aqui!

-Há! –O pardal começou a rir.

-Ué, o que foi? Eu pedi...

-É uma chave madame, ela não tem raciocínio porque não é um ser vivo.

-Mas as leis científicas não funcionam nos sonhos. – Eu estava ficando confusa com aquele sonho. Devo estar vendo desenhos demais com meus primos.

-Por que não pediu aos peixes?

-... Certo... Algum peixe ai embaixo poderia, por favor, trazer minha chave de volta. – Eu não conseguia me manter séria falando aquilo, logo caí em risos.

O pardalzinho se afastou de mim enquanto eu rolava no chão sem controle sobre mim mesma, eu simplesmente nunca pensei que um dia acabaria falando uma frase como esta.

-Madame! É falta de educação rir da boa vontade dos outros.

Ele parecia chateado, ainda com um sorriso gigantesco em meu rosto me virei novamente para a água, deparei-me com um peixe bagre com uma expressão tristonha e de boca aberta olhando para mim. Meu rosto mudou de risonho para surpreso.

-M-Me perdoe, eu não quis ser mal-agradecida... – Ele então cuspiu a chave sobre o cais. – Eu estava rindo de minha pessoa.

Ele então mergulhou de volta para a escuridão do lago, talvez magoado, aquilo partiu meu coração, agora sei porque bichos nãos gostam de mim. Eu apenas me levantei após pegar a chave, mas mesmo com um esforço maior do que o que eu estava fazendo antes ela não sedia.

-Para que tanto esforço, madame?

-A porta não abre de jeito nenhum...!

O pardalzinho voltou para a maçaneta, começou a pular sobre ela e a examinar a fechadura. Como se estivesse testando sua qualidade.

-Mas é uma maçaneta em perfeito estado... talvez a casa esteja dormindo...

-Agora deu! A chave não tinha raciocínio no meu sonho, mas a casa pode dormir?

-Não é só uma casa, madame. Ser um lar é muito mais que ser apenas uma casa, alguém gastou tempo, carinho e esperanças construindo ela. Tudo isso... a água, os peixes, as plantas distantes, o céu sobre sua cabeça e até mesmo as nuvens. Alguém fez tudo isso só para você.

-O que acontece se eu acordar a casa.

-Ela nunca mais irá dormir, pois ela foi feita para estar sempre ao seu dispor. Igual a mim.

Aquilo me confundia cada vez mais, pois era tudo muito real mesmo que ilógico, eu comecei a ficar com medo. Então me afastei dele, eu não estava mais curiosa sobre aquele sonho, eu queria acordar.

-Eu não estou me sentindo bem, eu quero acordar.

-Não se pode acordar de um sono eterno, madame.

-O que...? – Um calafrio subiu em minha espinha.

O pardal voou e passou por mim em vez de pousar sobre meu ombro novamente, eu não podia me virar, estava vendo uma sobra formada pela luz alaranjada do por do sol se formar atrás de mim. Então ouvi passos pesados se aproximarem mais e cada vez mais, a medida que a sombra se tornava maior. Quando enfim alguém abraçou minhas costas.

-Há quanto tempo, minha adorável.

Eu finalmente pude me virar e confrontar a pessoa. Era um homem alto e de um rosto triangular e bem delicado, possuía traços finos e orelhas pontudas, seus olhos eram dourados como a cor das nuvens no fim de tarde. Ele usava roupas estranhas que pareciam bem velhas como as da época clássica. Ele percebeu que eu estava assustada e deu um paço para trás.

-Q-Quem é você?

Ele abriu um sorriso travesso e malicioso, como se fosse uma criança que sabia que tinha feito algo de errado.

-Eu sou Aeron, madame.

Ele se colocou de joelhos e me estendeu sua mão. Eu coloquei minha palma sobre a sua e ele beijou as costas de minha mão.

– Eu sou o dono de tudo o que você vê aqui. Inclusive você.