Minha Protetora
2 Capítulo 2 - A Idiotice Fala Mais Alto
Notas iniciais
Espero que gostem
Na lanchonete, nós nos sentamos numa mesa próxima da janela. Aquilo era realmente estranho. Primeiramente, porque estava falando com sua anja da guarda, e depois, porque ela havia me salvado, e ainda por cima, porque a garota/anja, num estalar de dedos, trocara de roupa, deixando de lado sua armadura e vestindo uma roupa normal.
Ela nos teleportara da rua sombria para uma lanchonte. Estávamos os dois lá, e ninguém parecia notar nada de anormal. A anja era muito bonita, e agora me contava tudo, enquanto esperávamos nossos sanduíches; o meu era com carne, o dela, apenas com um queijo. — Então você pode curar e proteger qualquer pessoa? — perguntei. — Não. Eu posso proteger apenas você. — E você é imortal? Como vocês surgem? Como é lá em cima? — Sim, eu sou imortal. Surgimos da mão de Deus, e essa é a única vez que vemos o céu por dentro, digamos assim. Passamos o restante de nossa existência na terra, protegendo os humanos. Apenas os mais valorosos guardiães retornam ao céu. — E vocês mudam de hospedeiro ou são fixos pela eternidade a uma pessoa? — Nós mudamos de protegido. Quando um morre, bem... coisas ruins acontecem e... — de repente, ela parou de falar, virou o rosto e começou a chorar. Certamente, coisas ruins aconteciam. Era melhor não insistir. Segurei sua mão e a afaguei, porém, ela retirou a sua das minhas. — Olhe, me desculpe, eu não queria... — Tudo bem, tudo bem... não foi sua culpa. Não irei perturbá-lo novamente. — disse ela, se levantando. — Ei, espere! Qual o seu nome?! — Um outro dia... — e, dizendo isso, saiu pela porta. Corri para lá, porém, não havia mais nada o que ver: ela sumira. Aquela anja era um tanto perturbada, meio lelé da cuca, mas, mesmo assim, ela havia mexido comigo, deixando em meu peito uma vontade louca de ver ela novamente. Desde então, procurei por ela. Sabia que ela devia estar logo atrás de mim, mas não conseguia vê-la. Após uma semana, já estava com torcicolo, de tanto olhar para trás, na esperança de vê-la. Eu precisava vê-la. Eu queria vê-la. E eu iria vê-la. Tinha um plano, e ele iria funcionar, pelo menos eu esperava que isso acontecesse. Acordei e escovei os dentes. Desci para a ingerir o café da manhã, todavia, não o fiz. Não comeria nada naquela semana. Fui para a escola e tentei arranjar o máximo de encrencas que poderia suportar: valentões, professores, garotas, funcionários do colégio. Em três dias eu já estava todo dolorido pela surra que levara de alguns meninos, com muita fome e dor de cabeça. E nada da anja. No quarto dia, decidi que não dormiria mais. Dois dias se passaram, e eu havia apanhado mais, ficado mais dolorido, com muitos vergões pelo rosto, com muita fome e com muito sono. Não seria de se espantar que, caso um membro de uma entidade beneficente me visse, me recolhesse para um abrigo, prendendo meus pais em seguida, sob pena de maus tratos. E ainda assim, nada da anja. Resolvi tomar uma atitude drástica. Havia um viaduto na cidade, e por baixo deles havia um grande movimento, independente de ser uma cidade do interior. Decidi que iria amanhã para o local, e hoje eu aproveitaria cada segundo de minha tristeza, de minha fome, de minha dor física. Faria um texto explicando minha atitude, caso eu não sobrevivesse. Agora eu vejo que foi egoísmo com meus pais aquele desejo, como eu os faria sofrer. Como eu era idiota. Após todas as providências, me dirigi ao ponto de minha ceifação. Respirei profundamente. Era tão bom respirar! Sentia meus órgãos trabalhando, o vento soprando, o barulho do lago à distância. Até mesmo aqueles veículos coloridos e poluidores pareciam belos. Toquei minha face e meu peito, sentindo mais vividamente meu corpo. Era algo assombroso e irônico, eu me sentir tão vivo quando estava prestes a morrer. Na verdade, acho que hoje sei o porquê disso. Era minha esperança de reencontrar minha guardiã que me aquecia o peito e me dava vida. Fiquei de pé sobre as barragens do viaduto, inpirei e pulei. Me sentia leve, alegre, pronto para ver aquela anja. Instantaneamente me arrependi de fazer aquilo. Existiam outras maneiras de revê-la! Eu nem conhecia direito ela! Eu nem sequer sabia se era tudo obra da minha cabeça! Não sabia nem o nome daquela criatura! Não sabia nem se ela era real ou um fruto da minha imaginação! Como eu fui estúpido! Mas, por alguma estranha razão, eu desejava ver aquele rosto mais uma vez, ouvir sua voz, sentir seu toque sobre minhas feridas. Quando pulei, nada me segurou, nada me impediu. Senti meu corpo cair, minhas pernas quebrarem, o sangue jorrar e eu bater a cabeça no asfalto, após ter a queda amortecida por meu corpo. Mas o pior ainda estava por vir. Um carro em alta velocidade estava vindo em minha direção, tentando freiar. Ele ia me atropelar, cumprir o que minha idéia insana previra. Olhei mais uma vez para o carro, e logo desmaiaria. Antes disso, porém, vi um escudo branco-azulado, projetando-se do nada, esmagando a lataria do carro.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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