Minha Protetora

1 Capítulo 1 - A Guardiã


Lá estava eu. Olhava distraído para fora da sala de aula, através da janela, sem prestar atenção ao que o professor de Matemática falava. O professor era legal, e eu, Vinícius, tinha um desempenho aceitável em sua diciplina, porém, eu já não mais ligava para os estudos. Queria viver o mundo, sair da bolha que era minha cidade, sem novidades, sempre igual. Desejava descobrir, me divertir. Tinha ambições maiores do que as que minha mãe queria para mim: uma boa mulher para casar, emprego na prefeitura, missa todos os domingos.

Olhando pela janela, ficava imaginando, pensando, elaborando, desejando. Havia uma garota da qual eu gostava. Seu nome era Maria, e era bonita como... bem, era meio estranho, mas eu achava ela tão bonita quanto uma atriz de novela. E seu jeito era gracioso, leve, pacífico, como se ela fosse dama de novela antiga, do jeito que minha mãe queria como nora. Eu gostava dela, não a amava, nem gostava muito, mas gostava. Quando em pensava em alguma garota, era o rosto de Maria que surgia em minha mente.

Após o sinal, ajeitei meu material. Era hora da saída, e precisava sair logo da escola, não agüentava mais um segundo sequer naquela prisão de aprendizado, e, sobretudo, porque hoje havia estrogonofe para o almoço, minha comida favorita. Atravessei as portas de metal que guardavam o colégio e tomei meu caminho para casa. Todos os dias eu fazia o mesmo caminho. Fazia aquele trajeto sozinho desde a quarta série, e o caminho nunca mudava. Estava sempre com as mesmas casas, as mesmas pessoas, as mesmas árvores. Porém, hoje estava um tanto estranho. Não haviam pessoas na rua, e as sombras das casas e árvores, juntamente com a umidade característica do local, associada a um estranho vento gélido que batia em minhas costas tornava o local meio assombroso, maligno.

Da esquina, dois jovens, talvez de dezessete anos cada, apareceram. Um carregava algo prateado na mão, e ambos tinham uma fisionomia um tanto rude e ameaçadora. De repente, eles atravessaram a rua e vieram em minha direção. Não, eu devia estar imaginando coisas... a coisa prateada na mão de um deles parecia uma faca... não deveria ser, não podia ser, justamente quando não tinha ninguém na rua, nenhum local para me esconder, nada.

— Ei garoto, que que você tem na mochila? — falou o que segurava a faca.

— Nada apenas... apenas livros!

— O.K., então. Edson, reviste essa mochila.

Então eu levei um soco na barriga, e fui içado para o alto, enquanto o maldito chamado Edson segurava minha mocilha. Acabei me desprendendo das alças dela, e cai no chão, em cima de meu braço esquerdo. Senti uma grande dor percorrer meus nervos, fiz uma careta, mas agüentei, não derramei nenhuma lágrima, nem emiti nenhum uivo de dor. Não iria me humilhar, iria manter minha honra.

— Ei, Igor, esse muleque estava mentindo! Tem aqui um celular, dez reais, videogame daqueles portáteis, iPod... esse pestinha mentiu pra gente, esse mauricinho pão duro! — disse Edson. Após ele dizer isso, o outro, chamado Igor, que segurava a faca, aproximou-se de mim. Encostou a faca em minha barriga, e pressionou ela um pouco contra meu ventre.

— Sabe o que nós fazemos com mentirosos como você? Sabe o que fazemos com quem não coopera, com quem tenta fazer eu e meu colega de idiotas? Sabe?

— Não...

— Calado! Eu não deixei você falar! — disse ele, e agora sentia um pouco de sangue molhar minha camiseta no local onde era fincada a faca. — Edson, espanque esse pestinha. Esmurre ele até deixar a cara irreconhecível! Até sair sangue pelos ouvidos dele!

Então começou a sessão de pancadas. Edson, comigo no chão, deu-me um potente chute nas costelas, depois na minha bochecha e na têmpora. Socou minha barriga e rosto, com força total. Apertou meu pescoço e me deu mais dois socos na barriga, deixando-me sem ar. Já sentia o sangue aquecendo minha face e boca. Edson tomou impulso e me deu um soco de partir ossos na cabeça. Porém, não senti. Mechei os olhos e esperei pela dor que jamais veio. Quando os reabri, dez segundos depois, uma luz branca e azulada me cegava. Essa luz falava. Não, não era uma luz... era uma pessoa, uma garota! Ela brandia uma espada e um escudo.

Quando menos esperava, a espada perfurou o peito de Edson. Porém, não jorrava sangue. Jorrava um líquido branco, com uma luz amarelada em torno da lâmina. Após isso, a espada ficou negra, e começou a deixar a ferida preta, recoberta de trevas. A garota virou-se, e seu rosto era belo, com olhos verdes e uma expressão voraz e preocupada. Usava uma capa branca, com uma armadura de metal por baixo. Ela andou até mim e me estendeu a mão. Agarrei-a com a mão direita e fui levantado por ela. Ela parecia ser forte demais para uma garota, pois parecia nem sequer fazer esforço para me levantar.

— Está tudo bem?

— Eu pareço bem?! Da onde você surgiu?! Por que você brilha?! Que espada...

— Calma, posso explicar... oh meu Deus! Seu braço está quebrado! Seu rosto! Seus órgãos estão doloridos! Que horror! — disse a garota, num tom histéricamente preocupado, e como se tivesse olhos com visão de raio-X.

— Eu estou bem, estou bem! Agora responda-me...

— Não, não está! Parado um momento! — então ela veio até mim e colocou a mão sobre meus ferimentos. Eles começaram a se recuperar, como se, ao seu toque, o tecido se regenerasse mais rápido... o que eu suspeitava ser isso mesmo.

— Como você fez...

— Chega de perguntas! Ai meu Deus... por onde posso começar? Eu nem deveria estar aqui! Não deveria interfirir... escute, você já ouviu falar de Anjos da Guarda?

— Sim, claro. Mas que que isso tem...

— Ótimo! Eu sou sua Anja da Guarda! Respondido?! Ai meu Deus, que confusão!

— Como assim, você está tirando onda com a minha cara?! Já não basta essa situação, você ainda fica falando essas asneiras! Anjos da guarda não existem!

— Não? Tem certeza? Como acha que eu posso aparecer do nada e te defender?! Como acha que posso te curar?!

— Sei lá... talvez eu esteja sonhando! Ou então esteja louco!

— Escute, vou te levar para um lugar mais apropriado. Explicarei tudo.