Notas iniciais
Tudo contado pelo ponto de vista de Jean, a garotinha de seis anos. ♥

Eu estava com medo. Por mais que papai me dissesse que tudo estaria bem agora, ainda me sentia um pouco mal. Tinha saudades da mamãe. Não a via desde que o bebê começou a machucar a sua barriga uns dias atrás. Papai correu para levá-la ao hospital me dizendo que meu irmão iria nascer. E por mais que ele sorrisse, tinha algo em seus olhos.

Talvez ele não quisesse me dizer que eu iria embora. Eles não precisavam mais de mim agora que tinham um bebê para eles. Eles sempre me disseram que eu era a filha deles, mas eu sabia que não. Eles tinham me escolhido, tirando-me de perto das freiras e das outras crianças, dizendo que era especial. Sua menina especial. Mas agora seria diferente porque eles teriam outra criança especial.

Papai estava alegre. Mal se continha no banco, sempre me dizendo que queria ver o quanto o bebê era parecido com ele ou com a mamãe. E eu me encolhia ainda mais no banco. Não queria saber, porque eu não era parecida com o papai e com a mamãe. Mamãe tinha o cabelo vermelho e cacheado muito bonito e papai tinha a pele escura que destacava os dentes muito brancos. Eu tinha o cabelo escuro e muito liso. E sardas. Não gostava das minhas sardas. E meus olhos eram mais azuis do que os da mamãe. Só isso que era parecido.

Eu estava com medo porque não queria dizer adeus para eles. Eu amava o papai e a mamãe. Eu só não amava o bebê, porque ele seria a nova criança especial. Ele tinha machucado a mamãe e mesmo assim o papai queria olhar para ele. Queria brincar com ele. Cruzei os braços, emburrada e isso fez com que o papai me olhasse estranho. Confuso, talvez.

— Está tudo bem, Jean? — Ele perguntou. Continuei emburrada e ele suspirou. — Sei que não estamos te dando atenção nesses últimos dias, mas vai ser assim de hoje em diante. Owen vai precisar de mim e da mamãe algumas vezes. E ele vai precisar de você. Você é a irmã dele.

Eu queria dizer que não. Eu não era a irmã dele e nem era filha deles dois. Queria chorar e espernear. Mas continuei emburrada. Estava com saudades da mamãe e sim, gostava de brincar com a barriga dela, porque ela ficava bonita de qualquer jeito. Mas quando eles disseram que o Owen – o bebê – iria ficar comigo no quarto, não gostei. Não queria dividir meu quarto e nem meus brinquedos.

Não queria dividir o papai e a mamãe. Eu os escolhi para serem meus.

— Querida, não fique assim. Vai chatear a mamãe. — Papai tentou novamente. — Você sabe que nós te amamos.

— Vocês vão me deixar de lado e parar de gostar de mim por causa do bebê — murmurei emburrada. Meus olhos ficaram molhados e meus ombros tremiam. — Não quero voltar para o orfanato. Vocês queriam um filho e agora tem. Vão me jogar fora.

A boca do meu pai se abriu surpresa e ele parou o carro no primeiro acostamento que encontrou. Olhei para ele querendo saber o porquê tinha feito isso, quando ele me abraçou. Gostava de quando o papai de abraçava e depois ele fingia ser o meu cavalo enquanto eu montava em suas costas. Agora ele iria fazer isso com o Owen. Estava chorando alto e sabia que incomodava. As freiras do orfanato sempre diziam isso. Por isso fechei a boca e tentei engolir o choro.

— Jean, pode chorar — Meu pai disse passando a mão na minha cabeça ainda me abraçando. — Não precisa esconder os seus sentimentos. Já dissemos isso. Mas não tem motivos. Nós amamos você e já tínhamos uma filha antes de Owen nascer. Você. Não importa se você foi de alguém antes, nós nunca te largaríamos. Não depois de lutar tanto por você.

Demorei um pouco para ver que o papai também estava chorando. Eu não gostava quando ele chorava. Estiquei minha pequena mão e limpei sua pele escura daquela água salgada. Ele sorriu e beijou o topo de minha cabeça.

— Sei que ainda não se acostumou, mas Owen está louco para te conhecer. Nós falamos muito de você enquanto estava com a babá. — Ele ligou o carro novamente e o colocou na estrada. — Sempre que falamos o seu nome ele sorri. Acho que te ama mais do que ama a mim e a Sarah.

Isso me fez arregalar meus olhos. Surpresa. Owen gostava de mim? Meus pais sempre diziam para que eu não afastasse as pessoas que gostassem de mim. Mas eu iria gostar de Owen? Ele só tinha pegado as minhas coisas e isso antes de nascer. E ele machucou a mamãe. Só que o papai disse que ela está feliz. Mesmo ele tendo machucado ela, ela ainda o amava. Eu poderia errar e eles ainda me amariam?

Assim que chegamos ao hospital, dei a mão ao papai como haviam me ensinado. Alguns adultos sorriam para mim e uma enfermeira disse que eu era muito bonitinha. Ela iria dizer a mesma coisa se soubesse que o papai não é meu papai? Um médico sorridente apareceu e se abaixou para falar comigo. Gostava quando as pessoas faziam isso. Era como eu não fosse mais pequena. Eu sorri para ele.

— Sua mãe não para de falar de você, Jean. — Ele disse e esticou sua mão na minha direção. — Sou o doutor Norton. — Apertei a grande mão dele. — Você é muito bonita mesmo. — Levantou os olhos para o papai. — Ela está pronta para que a vejam.

Papai suspirou e riu ao mesmo tempo, assentindo sem parar. Abaixou-se e me pegou no colo. Papai é forte. Ele fazia isso mesmo algumas pessoas dizendo que por eu ter seis anos já era velha para colo. Mas papai não liga e ainda me pega do colo.

— Vamos ver a mamãe? — Ele perguntou sorrindo.

Levantei os meus braços, alegre.

— Vamos!

Papai e o médico riram da minha alegria e nós fomos para um dos quartos brancos do hospital. Mexi-me inquieta assim que vi a mamãe sentada na cama. Ela tinha um embrulho estranho no braço e o balançava de um lado para o outro. Mamãe sorriu quando entramos no quarto.

— Jean! — Exclamou. Depois fez uma careta e olhou para o embrulho que fez um barulho estranho. — Jean, querida. — Repetiu com a voz mais baixa. Papai se aproximou dela, levando-me em seu colo. — Obrigada por trazê-la rápido, Ian. Estava morrendo de saudades dela.

Papai se abaixou e beijou minha mãe na boca. Fiz um barulho de nojo e eles riram.

— Estou louco para ver esse campeão. — Papai disse e me olhou. — E você, Jean?

Balancei a cabeça, procurando.

— Cadê ele? Mãe, cadê o Owen?

Mamãe sorriu e veio mais para frente, mostrando o embrulho. Papai arfou – um barulho engraçado – e eu fiquei sem voz. Owen era lindo. Tinha a pele do papai e os cabelos cacheados da mamãe. Seus olhos eram escuros e tinha o tamanho das minhas bonecas. Talvez menor. Queria pegar ele igual a mamãe estava pegando. Papai também, eu achava.

— Quero sentar com a mamãe. — Pedi para o papai. Ele concordou e me colocou sentada na cama. Puxei um pouco do cobertor e sorri para Owen. — Oi, Owen. Eu sou a Jean, sua irmã. Te amo.

Owen fez um barulho engraçado e – como o papai disse que fazia quando falavam o meu nome – sorriu. Olhei para os meus pais que nos encaravam.

— Acho que ele me ama também. — Sorri. — Ele pode ficar com a gente.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!