Tudo parecia ter perdido a cor e o significado. O sofrimento de sua amiga ainda estava ali com ela e o coração estava apertado por não poder continuar a consolá-la. Rin sentia-se presa em um covil. Era nítido o fato de todos tentarem ser gentis para com ela.

Quando uma youkai se aproximou dando-lhe as costas e sorrindo sedutoramente para Sesshoumaru, sentiu que era a gota d’água. Levantou-se e foi respirar ar puro.

Kaname acompanhou toda a cena e não pode deixar de notar como a energia de Rin parecia densa. Colocou de lado a taça feita do mais puro cristal e seguiu seus passos.

A humana aproximou-se da sacada e suspirou pesadamente, como se não o fizesse há tempos.

- Sua energia mudou. – Iniciou o youkai fazendo com que ela se sobressaltasse e o olhasse.

- E isto é bom ou ruim? – Disse sem animo.

- Depende. Como está se sentindo? Bem ou mal? – Ela sorriu um pouco, apoiando suas mãos na mureta da enorme sacada.

- Só estou cansada. – Ela suspirou e baixou a cabeça.

O youkai aproximou-se dela e apoiou seus braços sobre a mureta, olhando a frente. Parecia focar em algo bem distante. Rin o olhou naquele momento e percebeu que sua expressão estava diferente, parecia relaxada.

- Como está sua amiga humana? – Indagou pegando-a desprevenida.

- Péssima. Acho que para um youkai como você, nem é preciso dizer.

- De fato, sua energia era angustiante.

- Eu a entendo Kaname, mas não entendo a Raiden! É nítido que ele a ama, mas insiste em ser orgulhoso! – Ela dizia irritada. O youkai sorriu.

- Isto nem ao menos é um problema seu. Por que o incômodo?

- Porque sei o quanto Akiyo sofreu longe daqui e o quanto Nobuko aprontou. Sei que Raiden sentiu sua falta, enquanto Yosuke tentou durante todos esses anos reconquistar sua esposa. Mas por que agora? Por que justamente quando Akiyo retorna, eles decidiram ser marido e mulher?

- Lamento não poder responder seus questionamentos Rin. Mas se bem sei da história, Yosuke e Akiyo foram os traidores então...

- Eles já sofreram o suficiente. Acha que foi fácil para Akiyo ficar longe? Acha que foi fácil para Yosuke ver sua mulher o rejeitar por outro macho?

- Embora acredite nisso, ambos não são dignos de confiança. Traição é algo imperdoável.

- Para vocês youkais que preferem o orgulho ao amor. – Ela disse pesarosa.

- Amor é um sentimento humano que somente atrapalha. – Disse Kaname agora com um tom de voz diferente. Rin o olhou naquele momento, parecia haver muito mais ali.

- Por que atrapalha? – Ela questionou intrigada.

- Amor é uma distração. Guerreiros não deveriam amar. – A expressão no rosto do youkai era muito séria.

- Você já se atrapalhou Kaname? Já se distraiu? – Ela dizia audaciosamente. – Ou melhor, você já amou alguém?

O youkai olhou profundamente nos olhos de Rin e ela sentiu como se ele o estivesse invadindo. Mas não sabia que tinha o mesmo efeito sobre o youkai. A verdade é que ela o lembrava muito aquela fêmea... Aquela que um dia ele chamou de sua fêmea...

Lindos cabelos negros, olhos de um castanho tão claro que pareciam mel. Lábios tão convidativos que pareciam enfeitiçá-los. A personalidade era extremamente forte, conseguia ser uma exímia guerreira, assim como uma doce fêmea.

Percebeu que novamente estava sendo absorvido por aqueles pensamentos e então se virou para frente a fim de evitá-los.

- Kaname... – Disse Rin calmamente, ansiosa por saber.

- Uma única vez experimentei tal coisa. – Disse ele a contragosto.

- E o que aconteceu? Onde ela está agora? – Quis saber curiosa.

- No mundo dos mortos.

Então esse era o motivo pelo qual ele simplesmente parecia não se agradar do assunto? Era difícil para Rin imaginar como ele se sentia por perdê-la.

- Por que ela morreu? – Perguntou com ternura.

- Porque eu a matei. – Disse o youkai firme e Rin se assustou.

- Como assim você a matou? – Ele não respondeu e Rin ficou ainda mais curiosa. — Kaname!

- Isto é algo do qual não devemos falar agora, visto que existem duas vontades que lhe tomam a mente. – Ele a olhou.

- E quais são essas vontades? – Questionou intrigada.

- Ir até Akiyo e dançar. Qual delas acha que devemos fazer?

- Como assim devemos? Como assim nós dois faremos algo juntos? – Ela protestou confusa.

- Decida-se e eu farei. – Rin sorriu nesse momento.

- Sabe Kaname, você pode ser um bom youkai. Isso é claro, quando não age como um idiota. – O youkai sorriu debochado. – Sabia que algumas das empregadas do castelo têm medo de se aproximar quando você está lá?!

Kaname gargalhou pela fala de Rin e então olhou para ela novamente. Sabia que a humana não iria até a casa de Akiyo, então a reverenciou e se aproximou, dando início a dança.

A humana sorriu abertamente, ele era um youkai perigoso, ardiloso, mas ela já havia aprendido a lhe dar com sua personalidade, a descobrir suas verdades, decifrar seus enigmas. Estavam se entendendo. Finalmente.

*

Os olhos estavam vermelhos e inchados. As lágrimas haviam se secado de tanto chorar. Mesmo que tentasse, não poderia esconder toda a dor que sentia. Era nítido: Ela ainda o amava, ainda tinha esperanças e ele já não mais se importava.

Sem saber ao certo o que viria a seguir, percebeu que Yosuke também precisava desabafar e mesmo com um plano em sua mente, Akiyo decidiu questionar-lhe sobre qual decisão ele tomaria.

- O que vai fazer? O que decidiu a respeito de Nobuko depois do que presenciamos? — Questionou com a voz vazia.

- Vou fazer o que já deveria ter feito. Vou mandar que ela volte para casa de Raiden e que viva com ele como é seu desejo. – Respondeu o youkai seriamente, ainda não fitando a humana.

- É isso mesmo o que quer? Tem certeza de que deixá-la livre será o melhor caminho? – Perguntou ela olhando fixamente para o nada.

- Não continuarei mais com esta situação, tendo em vista o que presenciamos hoje.

- Você a ama.

- E ela o ama. Sendo assim a história está finalizada. Esse é o caminho a seguir. – Concluiu o youkai.

Para Akiyo, nada do que ele dissesse serviria como consolo para seu coração. Só havia um jeito. Só havia uma solução.

Notas finais
Parece que Kaname e Rin estão muito próximos, não?! E Akiyo? O que pretende fazer?

Beijo e até a próxima.