Já se aproximavam de sua casa quando ele permitiu-se parar de usar sua forma de transporte youkai para a caminhada. Nobuko estava completamente enraivecida e encorajada por sua falsa razão. Yosuke segurava seu braço fortemente, suprimindo todos os seus instintos contra ela.

Passaram pela entrada de sua casa e por todos os youkais sem qualquer tipo de cumprimento. Telepaticamente, Yosuke mandou uma mensagem para Kenichi avisando-o que deveria permanecer em seu quarto até que fosse ordenado o contrário. O youkai e sua esposa entraram na sala de negócios de sua casa e ele praticamente a jogou lá dentro.

Nobuko amparou-se sobre a mesa e olhou para ver o que o youkai fazia. Ele fechou a porta atrás de si e caminhou em direção a sua mesa e Nobuko tremeu um pouco achando que ele a machucaria. Yosuke passou direto e pegou o pergaminho que ela havia lido, o mesmo estava jogado e aberto sobre a mesa.

– Você gosta muito de ler, não é?! – O youkai questionou com o tom de voz alterado.

– O que vai fazer? Vai me obrigar a conhecer os detalhes de sua traição? – Nobuko indagou debochadamente.

Outra vez Yosuke segurou seu ombro e agora seus olhos estavam vermelhos. Ela estava o tirando do sério. Ele apertou seu braço com força e estendeu o pergaminho.

– Termine de ler. – As palavras foram quase rosnadas.

– Solte o meu braço! – Ela se esquivou e pegou a carta. Olhou para as letras arrumadas em palavras carregadas de sentimentos e iniciou a leitura. — Meu querido Yosuke, Como todas as vezes que inicio algo a você...

– Daí não. – Ele a interrompeu. – Da onde você parou de ler.

Nobuko engoliu a seco naquele momento. A voz e expressão de Yosuke eram assustadoras. Ela voltou o olhar para o papel e fez como ele ordenou.

Prometa que virá me ver em uma das minhas tardes, só para que possamos desfrutar dela juntos e também para que possamos conversar. Eu tenho precisado disso ultimamente. Alguém para conversar.

Com toda essa agitação em torno de Natsumi eu mal consigo respirar. É muito difícil ter alguém que depende de você para tudo, inclusive para se alimentar. Ah! Esse é um fato muito estranho também! Às vezes é difícil acreditar que alguém depende do meu seio para sobreviver.

Já se passaram algumas semanas desde o seu nascimento e agora me sinto quase completamente recuperada, embora minha mãe e sua leal companheira não me deixem fazer nada. Você me conhece e sabe o quanto eu odeio ficar presa a um só lugar.

Agora sem falar de mim, gostaria de saber como você está e como estão Kenichi e bem, Nobuko. Espero que tudo se acerte para vocês e que sejam muito felizes. Sei que não deveria perguntar também, mas... Bom, acho que já chega.

Estamos com saudades e venha nos ver logo. Precisamos de você.

Com carinho,

Akiyo.

As mãos de Nobuko começaram a tremer e ela não conseguia tirar os olhos daquelas palavras. Sua respiração falhou e ela sentiu todo o sangue de seu rosto esvair. Por um momento sua visão ficou turva e ela sentia o peso do mundo cair sobre seus ombros. Sentia o peso do olhar de Yosuke sobre si e também podia sentir o desprezo e o nojo que eram direcionados a ela.

– Durante todo tempo em que esteve fora e que passou aqui, Akiyo jamais tentou me jogar contra você ou mesmo fazer-me esquecê-la. Mesmo quando você veio até mim para dizer que me amava e eu me recusei a aceitar seu pedido até que se decidisse entre Raiden e eu, ela nunca tentou tomar o seu lugar. Nem em minha vida, nem na vida de Kenichi e muito menos em meu coração. Contudo, você continuou armando e fazendo do seu choro um meio de dissuadir Raiden para que ele a odiasse ainda mais do que antes.

– Yosuke...

– Cale-se! – Ele gritou e ela estremeceu outra vez. – Agora você irá ouvir tudo o que tenho a dizer. Quando Akiyo disse que você era uma invejosa tinha razão. Quando Akiyo disse que você era uma falsa tinha razão.

– Eu não sou uma invejosa!

– É. Você nunca aceitou o fato de Raiden amá-la. Nunca aceitou o fato de eu ter sentimos por ela e nunca aceitou o fato de Katsuo tê-la escolhido ao invés de você. – Os olhos de Nobuko se arregalaram. – Acaso pensou que eu não sabia? Pensou que poderia me enganar? Eu sei Nobuko. Você foi apaixonada por ele e ele se apaixonou por Akiyo. Quando estavam prestes a ficar noivos você aceitou o encontro sabendo das artimanhas que ele usava e bebeu o líquido que ele lhe ofereceu sabendo o que havia dentro. Acredita mesmo que poderia me enganar Nobuko?! – Yosuke gritou a ultima frase.

A humana desatou a chorar e não havia mais nada que pudesse fazer.

– Como se não bastasse o fato de ter vivido com Raiden durante todo esse tempo, como se não bastasse o fato de ter tentando piorar a situação de Akiyo perante Raiden durante o tempo em que viveram juntos, você ainda cria uma traição que não existiu.

Nobuko caiu sentada no chão chorando compulsivamente. Ela sentia no tom de voz de Yosuke o quanto ele a desprezava naquele momento.

– Depois de todos esses anos você continua sendo a mesma inútil e desprezível humana que eu sequer conheço. – Yosuke deu passos lentos em sua direção e ela levantou o olhar para ele. Seu rosto estava coberto por uma máscara fria. – Levante-se do chão e limpe seu rosto. Você tem um pedido de desculpas a fazer.

– Se não estavam se encontrando, o que você fazia com ela?! Akiyo estava com o quimono aberto! Vocês saiam todas as tardes!

– Akiyo sempre saiu todas as tardes e disso você sabe por que saía com ela e as duas têm o mesmo costume. Eu saía todas as tardes para encontrar minhas irmãs. Elas estão com problemas em suas terras. Agora levante do chão.

– Não! Eu não vou pedir desculpas! Akiyo roubou tudo de mim! Nada que eu faça será suficiente! Eu a odeio! Eu a odeio! Você sequer está com ela! Você dorme comigo todas as noite e ainda tenta defendê-la! Quero que ela morra! Quero que Raiden a mate como deveria ter feito há anos atrás!

Yosuke estava quase perdendo o controle.

– Levante do chão e limpe seu rosto, enquanto você ainda pode.

Nobuko chorou mais e sabia que não teria como resistir. A dor em seu peito era enorme e a humilhação que viria a seguir seria ainda pior. O youkai caminhou a sua frente em direção a porta e ela teve de segui-lo.

Desejou que Yosuke tivesse a espancado até a morte. A dor da agressão seria muito mais agradável do que a dor de ouvir suas palavras.

*

Com um enorme sentimento de perda, Natsumi soltou-se da mão de Seiko e correu em direção ao quarto de sua mãe. Ela tinha tanto medo e não sabia por que. Queria certificar-se de que estaria tudo bem com ela, embora algo a avisasse que não estava.

Quando chegou ao corredor, começou a caminhar. Com medo, deu passos lentos em direção a porta do quarto de seu pai e seus batimentos cardíacos apenas aumentaram quando uma youkai saiu do quarto com lençóis manchados nas mãos.

Chegou à porta do dormitório e teve medo de entrar. Viu sua mãe deitada na cama e ela parecia dormir. Tremendo um pouco, caminhou em direção ao leito e ignorou completamente a presença de seu pai no recinto.

Quando estava ao lado da mãe, segurou sua mão e percebeu que a mesma estava fria e sem vida. Os lindos cachos em tom de cobre escuro estavam espalhados pela cama e sua progenitora parecia não dar sinal de vida.

– Mamãe. – Chamou à pequena. – Mamãe, por favor, me responda. – O silêncio de Akiyo fez com que seus olhos vermelhos enchessem de lágrimas. – Mamãe, por favor, fale comigo. – O silêncio continuava a castigar-lhe. – Se a senhora acordar, eu juro, nunca mais fico sem comer. – E mais uma vez nada.

Natsumi apertou sua mão, mexeu em seus cabelos, chamou-a mais algumas vezes e ela não respondeu. Raiden tinha esperança de que sua filha pudesse acordá-la, mas nem ela foi motivo para que a humana voltasse.

Percebendo que ela não iria acordar, Natsumi começou a chorar e cada lágrima de sua pequena filha era um golpe no coração de Raiden.

– Mãe! – Ela gritou e jogou-se ao corpo de Akiyo. – Mamãe!

– Já chega Natsumi. – A voz do pai se fez soar, mas ela não o ouviu.

– Mãe! Mãe! Eu quero a minha mãe! – Raiden aproximou-se dela e pegou-a no colo. A menina chorava compulsivamente e não consegui a acreditar que aquilo havia acontecido.

Ao chegar à porta de seu aposento, Raiden olhou para trás mais uma vez e sentiu uma onda de arrependimento afogar-lhe. Ele não deveria tê-la trazido da casa de Yosuke. Pelo menos lá ela estava viva e parecia feliz.

*

O clima de tensão cercava a todos naquele luxuoso e enorme palácio. De um lado os mais fortes e poderosos Inu Youkais estavam sentados com os olhos em direção a ele e do outro Sesshoumaru olhava a todos com iminente desprezo não somente em sua voz, mas também em seu rosto.

– Temos assuntos gravíssimos a tratar, meu querido filho Sesshoumaru.

O youkai sorriu debochadamente ao ouvir aquelas palavras. Nelas, não havia qualquer sentido ou sentimento.

– Encerremos logo com isto. – Pronunciou-se.

– Direto como sempre. – Disse uma youkai fêmea que estava sentada próxima a sua mãe. – Existem contas que devem ser prestadas Sesshoumaru e você é o responsável por elas.

– Este Sesshoumaru não deve explicações a ninguém.

– Ah... Deve sim. – A youkai o desafiou. – Você uniu-se a uma humana que procriou, gerando um hanyo. Você não odiava aos humanos? Não desprezava híbridos? – O youkai manteve-se em silêncio. – Mesmo seu pai, que se relacionou com Izayoi, relacionou-se primeiramente com sua mãe tendo um filho youkai.

Sesshoumaru arqueou uma sobrancelha. Como aquela fêmea sabia o nome da mãe de Inuyasha?

– Aonde quer chegar? – Foi direto.

– Em Rin. Em sua adorada e amada fêmea marcada Rin. – O sorriso que sustentava o rosto da youkai desapareceu e agora uma expressão assustadora assumiu o rosto da mulher. – Livre-se dela e do hanyo que ela gera. Caso contrário, você perderá seu reinado e será morto por nós.

– Isto tudo me dá sono... – Disse a mãe de Sesshoumaru. – Se ele herdou do pai manias estranhas, que o deixem assim. Aquela humana e seus filhos não farão mal a nenhum de nós assim como a humana que meu marido tomou não fez.

A Inu youkai ao seu lado se levantou furiosa.

– Humanos não podem se misturar com youkais! – Bateu com força sobre a mesa.

Alguns dos outros youkais que estavam sentados concordaram. Boa parte daqueles acreditava que era uma grande perda de tempo. O conselho se reuniu para decidir se interfeririam ou não e logo a votação seria iniciada.

– Então que terminemos de uma vez. Tenho certeza de que meu filho e eu preferiríamos estar em outro lugar.

– Se meu pai a negou no passado, não há nada que se possa fazer. – Disse Sesshoumaru. – Inu no Taisho foi o ser mais poderoso e mais sábio que já conheci. Certamente ele sabia que você era uma youkai desprezível Mai.

As palavras de Sesshoumaru deixaram-na ainda mais enraivecida e seus olhos ficaram completamente vermelhos.

– Você é um moleque desaforado Sesshoumaru. Da primeira vez deu errado, mas agora meu plano não falhará.

Sesshoumaru ficou em atenção assim como sua mãe e ambos sabiam o que viria a seguir.

– Takemaru foi um idiota que se deixou ser morto e tanto Izayoi quanto aquela maldita criança que deu à luz sobreviveram, mas dessa vez aquela a quem eu designei a tarefa não falhará. Diga adeus a sua esposa e ao filhotinho que sequer verá a luz do mundo Sesshoumaru.

No mesmo Sesshoumaru deu as costas a todos os youkais ali e caminhou em direção a Rin. Sua esposa estava longe de casa e ele não sabia se estava na Aldeia de Inuyasha ou se já havia retornado. Ela certamente estaria em perigo.

*

Rin andava calmamente enquanto a noite já havia caído. Gostava de caminhar por ali e matar a saudade das cachoeiras em que tanto se divertiu quando era criança. De repente, ouviu passos em sua direção e sacou sua espada. Virou-se para trás e deparou-se com Inuyasha e Kagome.

– Ah! – Gritou devido ao susto que levou.

– Rin-chan! Sabe que não pode andar na mata durante a noite. É perigoso e além do mais, está serenando. Isso é ruim para seu estado.

– Keh! Se acontecer alguma coisa a você e ao seu bebê Sesshoumaru com certeza virá atrás de mim e eu não quero vê-lo. – Inuyasha cruzou os braços e fechou os olhos.

– O quê?! – Rin questionou completamente incrédula.

Kagome percebeu por seu tom de voz que ela não sabia do que se tratava, então ponderou suas palavras para lhe dar a notícia.

– Rin-chan você está grávida. – Ela abriu um enorme sorriso e após o choque ter passado ela sorriu da fala de sua amiga.

– Grávida?! Eu estou grávida?! – E gargalhou mediante a realidade de suas palavras.

Pousou a mão sobre sua barriga e sentiu pela segunda vez seu coração inundar-se da felicidade de gerar uma criança. Naquele exato momento, toda e qualquer dúvida que antes estivera em sua mente desapareceu. Ela precisava voltar para casa. Ela precisava voltar para o primeiro fruto de seu amor, Hideaki. Ela precisava voltar para Sesshoumaru, o grande amor de sua vida.

Notas finais
Justamente agora que está em perigo, Rin decide que deve voltar para casa. Será que em movimento, no meio da mata ela conseguirá ser encontrada por Sesshoumaru? Beijo e até a próxima.