Quando ouvi a voz de Ariel, não consegui me impedir de ficar boquiaberto.

Naquele momento, Bach parecia ciumento, latindo na direção do som puxativo que vinha de Ariel.

— A-Ariel? — falei quase incrédulo.

— Eu saio por uns dias e você ganha um cachorro... Qual o nome dele? — Ariel falou em meio aos latidos agudos de Bach.

— Bach... É um labrador.

— Ele é lindo! — ouvi Ariel exclamar. — Os olhos azuis dele combinam com os seus!

Cores nunca fizeram diferença para mim, mas o tom com o qual Ariel falou me fez pensar que olhos azuis são legais.

— Obrigado... Mas onde você est...

Antes que eu perguntasse, fui surpreendido por aquela sensação inesperada pela qual tanto esperei.

Foi sutil. Sequer ouvi seus passos virem até mim. Tudo o que eu senti foi seu corpo se jogando contra o meu e envolvendo os braços no meu tronco, quase que me apertando.

— Você fez falta esses dias, pianista...

Meu rosto estava fervendo. Tal fervor induzira mil borboletas a voarem umas contra as outras em meu estômago.

Com delay, toquei as costas de Ariel com as mãos trêmulas e também apertei aquele abraço.

— Você... também fez. M-Muita.

Bach estava calado, espremido e curioso entre nós dois.

Notas finais
A palavra do dia foi "puxativo". "Accentus" é como é chamado o canto do celebrante que preside na Liturgia Romana, ao qual o coro ou os solistas respondem em uníssono ( quando vozes são emitidas de modo que soem como um único som.)