Minguante

22 I Still Feel Like We're Tied


Notas iniciais
0...

Quando Go Hajin acorda, ela sente que tem algo faltando.

As luzes fortes a ofuscam e o cheiro de éter machuca suas narinas. Ela olha desnorteada à sua volta por um instante até que alguém se choca contra ela, braços envolvem seu corpo magro com força, e antes que ela consiga dizer uma única palavra para expor sua confusão a ficha dela cai, o aroma familiar da pessoa que a abraça ajuda seu cérebro a voltar aos poucos à realidade.

— Eomma... — ela tem dificuldade de falar. A garganta dela dói e todos os músculos que ela precisa usar estão doloridos. Ela tosse um pouco, suas cordas vocais protestam por ficarem adormecidas por um tempo, e então percebe que sua boca está seca.

A leve tosse vira uma crise, e sua mãe começa a ficar histérica, até que finalmente lhe dá um copo de água fria. Depois que ela acalma seus pulmões e cai de volta na cama, encarando o teto branco, seu cérebro tenta associar o que está acontecendo, onde ela está, o que está houve.

Hajin ouve sua mãe falar e ela move a cabeça para responder suas perguntas. Sim, ela entende o que ela está falando. Não, ela não está sentindo dor. Sim, ela está completamente acordada. Não, ela não se lembra do que aconteceu antes de te apagar apagado.

Não, péra.

Eu acho que lembro.

Daehyeon e Yewon estavam me traindo e eu os confrontei. Mas eles levaram tudo o que eu tinha e me deixaram as dívidas deles.

Os agiotas me perseguiram a noite toda e eu acabei passando a noite na rua.

Tinha um lago e um sem-teto que gostava de beber, mas não de falar. Eu vi um acidente, um menino cair na água, e eu tentei salvá-lo meio sem jeito.

E então aconteceu um eclipse.

E então...

Aconteceu alguma outra coisa, não foi? Eu tenho certeza que sim.

Mas o que foi?

Os médicos entram e saem como se fossem uma miragem. Eles fazem perguntas, examinam o seu corpo e receitam remédios. Eles recomendam tratamentos e dietas, e dizem para ela ter uma boa vida, uma vida normal.

Apesar de ter passado um ano em coma, ela não tem sequelas permanentes. Só as dívidas no seu nome, que seus pais se esforçaram para resolver depois que a filha pulou na água para salvar uma criança e não acordou depois de se afogar.

Algumas semanas depois que ela acorda do coma ela recebe alta e a recomendação de não forçar o corpo até que eles tenham certeza que ela não vai terá outras consequências nem exaustão – os sinais vitais dela estão bem, mas os músculos ficaram inertes por muito tempo e vão demorar para se recuperar.

Mas não é o seu corpo que a incomoda. É o sonho estranho que ela vem tendo desde que acordou.

A primeira vez que ela o menciona, seus pais ficam preocupados e um pouco apreensivos. Uma psicóloga foi até o seu quarto e a fez falar sobre as constantes noites que ela via o fundo de um lago, o sol desaparecendo e então um homem com cabelos longos a puxando e a carregando num cavalo.

A mãe e o pai dela se preocupavam que o afogamento tivesse causado algum tipo de trauma nela. A médica sorriu e disse que não era nada para se preocupar – é só um sonho.

Se Go Hajin estivesse preocupada, ela poderia começar outro tratamento, mas com um terapeuta. A mulher sorriu e explicou com calma os benefícios de fazer algumas sessões, e de como o sonho iria sumir com um acompanhamento profissional, mas ela recusou.

Afinal, o sonho não a incomodava. E ela não queria que ele sumisse.

Diferente dos pesadelos, ela não se sente ansiosa nem com medo quando está presa nele. E quando ela acorda não há um pânico súbito, nem alívio por ter finalmente acordado.

O problema é que ela também não sabe sobre o que o sonho é.

Apesar das poucas informações que ela consegue coletar nas primeiras vezes, ela não consegue se lembrar de outros detalhes depois que acorda. Ela tem certeza que tem mais coisas, mas ela não consegue dizer o que é, nem porque ela se importa tanto com elas.

Uma semana depois de receber alta o sonho ainda é como uma memória perdida; como uma palavra que ela esqueceu, mas que está bem na ponta da língua. Mesmo que a siga quando ela dorme desde que saiu do coma, as coisas que ela vê continuam a ser só um sonho que ela lembra que teve, mas não consegue se forçar e lembrar o que era.

Um dia, já ficando louca de tentar lembrar do que mais tinha no sonho, ela faz a mãe se sentar ao seu lado na cama.

Hajin repousa a cabeça no travesseiro, encarando o teto, como se estivesse fazendo uma sessão de hipnose, e sua mãe tenta sugerir coisas que ela pode ter visto enquanto dormia. E embora ela tenha começado sendo construtiva e paciente, logo sua mãe também começa a enlouquecer e a esbravejar suas ideias.

— Ah, eu não sei, Hajin-ah, — a mãe dela suspira, se movendo impaciente na cama, tão frustrada quanto a própria Hajin, — Você nunca montou um cavalo na sua vida, eu não sei porque você está sonhando com um. Talvez você esteja sonhando que está na floresta ou algo do tipo?

— Na floresta, — Hajin repete com a cara séria para a mãe dela ver o quão ridícula é a ideia.

Ela também nunca foi numa floresta.

— É, na floresta, — a mãe dela insiste e começa a declamar todas as características das florestas que ela se lembra, — Na floresta cheia de animais, nenhuma tomada e nem água encanada. Só aquelas árvores altas e velhas.

Ela está prestes a bufar e dizer que se ela não quer ajudar ela não precisa continuar ali, mas algo que a mulher diz faz uma luz acender na sua cabeça.

Tinha um quintal bonito, cheio de árvores.

— Árvores? Tinha árvores, — Hajin se senta de supetão e sua mãe fica em silêncio ao seu lado, mas ela está concentrada em ver além das memórias turvas que já começam a se apagar mais uma vez, — Também tinha uma casa. Era pequena e um pouco velha, mas tinha muitas árvores em volta. Ele amava aquelas árvores.

— Ele?

— Sim, o... — ela se vira, irritada por sua mãe não saber quem ele é, mas quando ela abre a boca para dizer o que deveria ser óbvio, nenhum nome sai. Seus lábios tentam formar vários sons, mas nenhum deles parece ser o certo, e antes que ela consiga tentar falar o que está na ponta da língua, ela continua de onde a última pista de sua mãe a deixou, — Ele amava árvores. Ele sabia o nome delas e ele...

Ela agarra um lápis e começa a desenhá-las, dar-lhes vida antes que elas também desapareçam da sua mente. Ela desenha árvores de diversas formas e tamanhos, tentando encontrar a certa, a árvore que finalmente vai fazer tudo ter sentido na sua cabeça. Ela força seu cérebro a encontrar cada detalhe, cada peça de informação, cada pista sobre quem ele é.

Ao lado dela, sua mãe parece estar completamente envolvida e mais calma agora que a situação mostra progresso.

— Ele amava árvores. Ele era um jardineiro? Quem sabe um naturalista? Um Ent?

— Tinha outra árvore, — Hajin fala em voz baixa, mais para si mesma que para outra pessoa, e mais coisas escapam de sua boca sem ela sequer tentar pensar nelas, — Uma bétula branca. Três homens podiam se pendurar nela e ela não dobrava.

— Anham... Isso deve ser... Notável, eu acho?

As mãos dela param de desenhar de vez, e é aí que ela percebe que, apesar de saber coisas sobre ela, ela não consegue encontrar a imagem da bétula na sua mente.

— Ele a queimou, — a explicação vem da própria Hajin, e ela desvia o olhar do papel, dos desenhos e rabiscos, e olha para...

Para onde? Eu me pergunto.

Para quem?

— Ele de novo?

— É melhor eu deixar pra lá.

— O quê? Deixar pra lá? Hajin-ah, você tá quase conseguindo.

O grito de protesto da mãe dela é que nem quando ela está revoltada com um personagem ou uma reviravolta num dorama, e é alto o bastante para trazê-la de volta à realidade. Ela pisca uma vez, e então duas, e quando olha nos olhos agoniados e ansiosos de sua mãe, Hajin percebe que estava num transe.

E então ela começa a chorar.

As lágrimas vêm antes que ela perceba. Elas caem lentas e pesadas primeiro, mas então começam a jorrar, e antes que ela consiga se controlar ela começa a soluçar e a tentar secar o rosto.

— O que essas coisas são? Era pra eu saber, — ela chora miseravelmente, odiando e agonizando a sensação de que falta algo, desapontada por só entrar em becos sem saída.

— Eu não sei, meu bem. Eu não sei, — ela sente o abraço cálido e firme, os tapinhas de conforto nas suas costas quando sua mãe tenta acalmá-la e encontrar uma explicação ou uma solução para um problema que ela nunca viu antes, — Talvez seja melhor assim?

Go Hajin não consegue concordar com isso. Porque as pessoas e as coisas que ela vê no seu sonho não eram para ser esquecidas e ela se sente mal por não lembrar delas. Especialmente quando ela se lembra que isso era tudo o que ela podia fazer para que eles continuassem a viver, pelo menos na sua memória.

E agora ela nem lembra os seus nomes.

— Me diz, eomma... É normal sentir saudade de um sonho?

Os sonhos não são a única diferença nela depois que ela acorda do coma.

Mas é claro, ela só percebe depois, quando está concentrada em agir normalmente e não como uma pessoa que dormiu por um ano inteiro e acordou com sonhos que a faziam chorar até adormecer de novo.

Mas, diferente do sonho, que voltava todas as noites e se recusava a passar despercebido, ela só percebe a nova mudança quando suas colegas de trabalho fazem uma visita.

Hajin consegue manter a conversa sem soar ou parecer louca, e por alguns minutos ela sente que os sonhos nem chegaram a acontecer. Elas se sentam na sala de estar e sua mãe traz um lanche enquanto suas amigas atualizam com tudo o que aconteceu no trabalho e com os conhecidos em comum no último ano.

Hajin ri e se choca quando as histórias a fazem perceber quanta coisa mudou em tão pouco tempo, mas ela fica mais surpresa com as mudanças dentro dela do que com outra coisa.

Claro, isso passa despercebido até que uma delas menciona o bastardo do ex-namorado dela e a traidora da sua ex-melhor amiga.

— Parece que eu realmente perdi muita coisa! Isso tudo aconteceu e agora não consigo acompanhar! — O comentário de Hajin é brincalhão e leve, algo que alguém diria ao voltar para a cidade natal depois de um tempo fora, mas ele cessa a risada na sala e faz suas amigas desviarem o olhar para suas mãos, aflitas.

Ela pausa, sem ver o problema com o que ela disse, mas então percebendo que, mesmo que tenha sido um piscar de olhos para ela, elas tiveram que suportar um ano com ela jazendo numa cama de hospital, sem saber quando ela acordaria.

— E pensar que nada disso teria acontecido se você não tivesse ficado na rua naquela noite, — Jinhye diz depois de alguns segundos de silêncio, porque esse é o tipo de coisa que uma amiga diz quando fala mal de um casal de mentirosos e enganadores.

— Bem, eu acho que foi pro melhor, — ela responde numa tentativa de reerguer os ânimos na sala, já se arrependendo do que diz, mas sinceramente acreditando que o que aconteceu com ela foi o melhor que poderia ter acontecido.

— Hajin-ssi! — Sua outra colega, Nari, a repreende, e seu semblante triste faz Hajin lembrar da aflição que todas elas passaram quando ela se afogou e não recuperou a consciência por um ano, — E se você nunca mais acordasse?

— Eu? Como se eu fosse desistir tão fácil, — ela põe essa possibilidade de lado e tenta animá-las, mudando o assunto antes que elas comecem a chorar por lembrar dos dias ruins, — Mas eu sempre me perguntei, o que aconteceu com eles? Eu nunca os agradeci direito por terem arruinado a minha vida naquele dia.

Nari e Jinhye se entreolham, seus semblantes tristes agora revoltados.

— Eles fugiram depois que você entrou em coma.

— Eu falei com ela uma vez, — Jinhye continua, pegando um biscoito na mão só pra quebrá-lo no meio de raiva, — Mas ela só chorou e disse que sentia muito.

Essa já era uma fala diferente comparada à última vez que Hajin conversou com ela, que fora acompanhada de tapas na cara, monólogos egocêntricos e palavras de desprezo de sua até então melhor amiga e melhor namorado. Nenhuma vez ela ouviu algo semelhante a um pedido de desculpas deles.

— Mas ela realmente sentia muito?

— Por você quase ter morrido? Talvez. Por te trair? Duvido, — Jinhye revira os olhos, claramente cheia das besteiras de Yewon, — Se ela sentisse, ela já teria terminado com ele. Até onde eu sei eles ainda estão juntos.

— Vivendo numa lua de mel às custas da sua poupança, — Nari pensa em voz alta, abana a cabeça e suspira antes de falar numa voz gentil, — Eu sinto muito, Hajin-ssi.

— Eu também. A gente devia ir atrás deles e pensar num jeito de fazer eles pagarem.

— Não precisa, — Hajin sacode a mão, sem querer continuar falando sobre eles, — Eu vou ganhar dez mil vezes mais do que eles roubaram de mim. Vou ser rica e bem sucedida sem precisar de um centavo de volta.

Há uma longa pausa na conversa, as meninas olham para ela com uma expressão cuidadosa e empática, e quando Hajin começa a se perguntar se ela disse algo errado, Nari quebra o silêncio, falando devagar.

— Mas não é só pelo dinheiro.

— Hm, — Hajin pisca rapidamente, percebendo que elas estavam falando sobre ela ter sido traída e abandonada, mas ela não se sente afetada por isso, — É, eu não ligo muito pro resto.

Só que ela deveria.

Um relacionamento longo ser quebrado tão abruptamente, e com tantas mentiras sendo reveladas, tantas traições e enganos quanto um dorama, certamente deixariam alguém de coração partido. Um ressentimento tão profundo que levaria um tempo para superar de verdade. Uma dor tão dilacerante que certamente faria ela querer que sua vida acabasse logo.

Já quis dormir por cem ou mil anos?

Como minha vida acabou assim?

Ela lembra de ter feito essas perguntas a um sem-teto perto do lago em que ela afogou. Ela lembra de chorar a noite toda e beber para tentar aliviar a dor. Ela lembra de ficar devastada depois da traição de Daehyeon e Yewon, mas por que ela não consegue nem se importar com eles agora?

Hyorin parece estar se perguntando a mesma coisa também, já que ela começa a rir.

— O coma fez você superar Lee Daehyeon?

— Eu não sei. Parece que sim, — ela ri também e depois faz uma cara de raiva, seguindo o exemplo de Jinhye e quebrando um biscoito no meio, imaginando que é a cara dele, — Ou talvez foi eu ter descoberto que ele é um ladrão mentiroso e traidor!

E, fácil assim, elas voltam a rir juntas, quebrando mais alguns biscoitos para apoiar a amiga enganada.

— A gente vai te ajudar a se recuperar. Não se preocupe.

— Com amigas como vocês, eu nem preciso, — Hajin diz, aliviada por, apesar de todas as mudanças no seu corpo e no mundo, ela ainda ter alguém em quem confiar além de seus pais, — Só me prometam que nunca na vida vão roubar meu homem e meu dinheiro.

Ela só está brincando e elas sabem, já que riem e erguem as mãos para fazer juramentos solenes num misto de zoação e seriedade, mas a mente de Hajin já se desviou com a sua última fala.

Ela reflete todas as traições e desilusões que sofreu, e como, depois de uma soneca bem longa, ela sentiu a alegria e o alívio de um coração restaurado e curado. Ela pensa em pessoas que não conseguiam abrir mão de antigas paixões e que estavam determinadas a não se separarem delas. Ela lembra da visão de uma mulher altiva com um sorriso arrogante, declarando guerra contra ela, tentando separá-los e roubar ele dela, e sua mão coça de irritação.

Mas a mulher não é Park Yewon.

E ele não é Lee Daehyeon.

De onde vem essa sensação?

A terceira mudança nela demora um tempo para se manifestar, mas depois não pára mais.

Ela está limpando os pincéis de maquiagem, passando o excesso do limpador num lenço antes de colocá-los de volta na bancada, desenhando corações e flores no tecido quando começa a se entediar e sua mente fica à deriva. Mas então ela desenha outra coisa.

Os traços são feitos inconscientemente, e só depois que ela ergue o pincel ela percebe o que fez.

Poderiam ser só linhas aleatórias.

Mas Hajin sabe exatamente o que é, embora isso não explique como ela acabou de escrever em Hanja. Nem como ela consegue ler.

Depois de olhar em diversos dicionários e tradutores online, ela confirma. O tamanho, o alinhamento, até mesmo a ordem dos traços estão corretos. Depois de confirmar, ela tenta escrever o mesmo caractere de novo, com outro pincel, com outro material servindo de tinta, com caneta e então com lápis, e todos eles saem sem qualquer esforço, numa bela caligrafia que ela nunca teve antes.

Primeiro é só um caractere – 昭 – em diferentes tamanhos e lugares. As vezes ela escreve vários, um do lado do outro, na margem de um caderno; outras, ela cobre uma página inteira, cuidadosamente. E quando ela vê, ela está cheia de papéis rabiscados espalhados no quarto.

Depois é um poema inteiro.

A mãe dela, é claro, entra em pânico e começa a se preocupar de novo quando ela o vê – os vê, várias cópias do mesmo – jogado na mesa dela, aparecendo debaixo de livros e de caixas, sua expressão como se tivesse acabado de encontrar dinheiro roubado no seu quarto.

— Hajin-ah, o que é isso? — Ela pega um deles e Hajin se pergunta por quê ela escreveu tantos e por quê ela nunca se importou em guardá-los.

— Se não me engano, — ela responde sua mãe com um sorriso, tentando aliviar seu coração já aflito, — São caracteres chineses.

— Sim, mas porque você os escreveu?

— Ah, — a pergunta soa aflita, como se ela estivesse esperando algo anormal como resposta, então ela inventa uma desculpa que pareça plausível, — Eu achei bonito, então eu tentei copiar, sabe? Pra exercitar os músculos do pulso.

A mãe dela parece ficar mais aliviada e sua expressão agora parece como se ela tivesse encontrado dinheiro legal no quarto de sua filha, seus olhos brilhando ao apreciar seu trabalho duro e caligrafia precisa – o que mostra que ela está se recuperando rápido e que logo a reabilitação será concluída.

— O que eles querem dizer?

— Eu não sei, eomma. Eu não sei ler Hanja, — ela dá de ombros, um sinal de indiferença pelos caracteres, a escrita e o próprio poema, — Mas eu sei que é algo sobre rios e nuvens, sabe? Um poema que aprecia a natureza.

Não era pra natureza.

Era pra ela.

Era uma explicação pra ela.

— Quando a água seca, sento e observo as nuvens, — Hajin sussurra para si mesma, contornando os traços dos caracteres com os dedos, — Quando a água seca, sento e observo as nuvens.

Um mês depois de receber alta, Hajin recupera sua convicção.

Desde que ela acordou e percebeu que tinha algo de errado com aquele sonho, algo de errado com suas emoções, algo de errado com sua habilidade de escrever e ler em Hanja, ela já estava muito receosa e incerta sobre si.

Sempre que ela pensava nessas mudanças, ela tomava cautela, com medo de ir muito longe, com medo de que algo desse errado e ela acabasse se arrependendo de ter descoberto demais. Mas tudo mudou quando uma antiga colega de classe dela se casou e pediu que ela fizesse a maquiagem no grande dia.

Hajin conseguiu disfarçar a expressão de choque e surpresa quando ela passou o corretivo. Ela sorriu com sua antiga amiga enquanto elas falavam sobre as expectativas do casal para a nova vida, e não tremeu o pincel quando passou a base. Mas depois que a mulher ficou linda e radiante, ela teve que inventar uma desculpa, dizer que estava se sentindo um pouco tonta e que era melhor voltar para casa.

A verdade é que, mesmo agora, depois de entrar no seu quarto e se jogar na cama, as mãos dela estão formigando. Ela sentiu uma corrente elétrica na ponta dos dedos quando espalhou o corretivo e a base nas costas da mão e então o aplicou manualmente no rosto da amiga. Horas depois, ela ainda tem a sensação de que seus dedos estão tocando em alguma coisa.

Em alguém.

Antes que ele perceba, ela cai no sono. E quando sua mente adormece, ela volta ao sonho.

Só que dessa vez é diferente. Dessa vez ela está ciente de tudo em volta.

Hajin sente um rosto sob a palma de suas mãos, mechas de cabelos se enrolando nos seus dedos. Ela ouve doces palavras e sente o cheiro fino de óleos aromáticos enchendo um quarto aconchegante. Então ela sente mãos no cabelo dela e saboreia a sensação delas massageando sua nuca.

Ela sente braços firmes envolvendo-a, lábios quentes tocando sua testa de leve. Ela ouve uma risada e uma batida de coração perto de seu ouvido. Então seus próprios braços se movem para abraçar um corpo maior e mais firme embaixo dela.

Ela sente uma mão em volta da sua, dedos entrelaçados firmemente, e sua cabeça reclinada sobre o ombro de alguém enquanto eles observam as estrelas. Ela narra histórias de mitos antigos que ela leu em livros modernos, e por um segundo ela ouve um zumbido baixo e um sussurro leve perto de seu ouvido.

Hajin quer olhar para cima e ver quem é ele, saber porque ele é tão importante pra ela ficar sonhando com ele, ouvindo a voz dele, sentindo seu toque, mas nunca vendo seu rosto direito. Ela quer se virar e ver seu rosto direito, mas ela não pode controlar seus movimentos, não pode usar sua voz. Ela é como a espectadora do sonho, presa no corpo de outra pessoa.

Então, de repente, o braço dela se ergue e seu dedo indica um ponto específico no céu.

Hajin segue a direção que está apontando com os olhos, tentando ver o que é, se é importante, se é relevante, se é uma pista para quem é esse homem tão próximo dela. Ela só vê as estrelas no céu noturno e sua boca se abre para dizer uma coisa.

E então ela acorda.

O sonho ainda persiste, segue-a de volta para a realidade.

Seus dedos continuam a formigar, suas mãos sentem outras mãos em volta delas, seu cabelo ainda é acariciado por dedos suaves, ela sente os contornos de outro corpo junto ao seu, enquanto que os sons de batimentos cardíacos e uma voz grave e mansa ecoam em seu quarto.

Hajin abre a boca para dizer alguma coisa, mas nada sai.

Ela não sabe o que dizer.

Ela só sabe que tem alguma coisa lá. Algo que ela esqueceu, mas que não deveria. Algo que ela quase consegue ver, quase tocar, quase ouvir. Algo que ela quase consegue reconhecer, mas não ainda. Algo sobre ela que ninguém mais sabe, senão teriam contado.

Algo importante para ela, e que seu subconsciente parece estar determinado a mostrar que ela precisa lembrar.

Nesse caso, ela precisa de um gatilho.

Eu não vou me esquecer de você, ela disse no sonho, mas ela continua a se esquecer dele quando abre os olhos.

Hajin se sente um pouco culpada assim que a dormência começa a dissipar do seu corpo. Ela nem sabe porque está tendo esses sonhos, porque não consegue se lembrar deles, e porque ela fez uma promessa dessas para alguém que só aparece na sua mente. E mesmo que os médicos tenham dito que ela poderia se sentir um pouco deslocada por um tempo enquanto se reabilitava, que ela poderia encontrar algumas dificuldades até o corpo dela voltar a ser o que era, ela não pode deixar de se repreender um pouquinho.

Ela prometeu que não ia se esquecer, então é melhor não esquecer por muito tempo.

Vamos lá, Hajin-ah. Você precisa arrumar essa bagunça. Agora.

Ainda é cedo, então ela se levanta, sai de fininho do quarto e de casa, sem querer preocupar os pais e falar pra eles que ela está indo tentar encontrar uma resposta para o enigma de seus sonhos e descobrir quem é o homem que ela sempre vê quando dorme.

A primeira pista dela são as estrelas, então ela vai para o melhor lugar que há para observar todas elas de uma vez só, sua mente focada exclusivamente nos detalhes que ela conseguiu manter frescos na memória depois do seu último sonho, mantendo cada sensação viva.

O observatório está quase vazio quando ela chega.

A sala de projeção já encerrou o expediente, e agora só restam um casal se preparando para ir embora, um grupo de estudantes e algumas outras pessoas espalhadas pelos murais e painéis no saguão. O ambiente está silencioso e calmo, sem muitas distrações, então ela marcha diretamente para o painel mais próximo, um que replica como o céu seria visto em Seoul se não fosse pelos postes ofuscando as estrelas.

Esse se parece mais com o que ela viu no sonho, o tipo de vista que só se tem na zona rural. Hajin presta muita atenção nele, seu olhar analisando minuciosamente cada pontinho branco que contrasta com o fundo preto, tentando ver o que a ela dos sonhos estava tentando mostrar, tentando dizer.

Ela está tão concentrada e focada nas estrelas à sua frente que mal percebe quando alguém se aproxima e para perto dela.

— Você parece gostar muito de estrelas, — o homem ao lado dela comenta, pegando-a de surpresa, e ela sorri, esperando não estar parecendo uma louca.

— Observar estrelas é só um hobby, — ela responde educadamente, voltando o olhar para os pontos reluzentes no painel, — Mas eu acabei aprendendo os nomes e as posições das constelações.

— Todas elas? Eu só conheço a Ursa Maior, e ainda assim acho difícil de achar.

— Eu conheço pelo menos as que nascem em Seoul, — Hajin responde bem-humorada, repetindo algo que ela ouviu em algum lugar, e então ergue o dedo para indicar a mais próxima, — Está vendo essa? Se chama Cassiopeia, em homenagem ao mito grego. E aquela ali que parece um quadrado se chama Pegasus.

Aquela ali que parece um quadrado se chama Pegasus.

Pe. Ga. Sus.

Hajin sente seus arredores se dissolvendo. Todos os sons e todas as cores desaparecem e o mundo em volta dela vira um nada. Tudo o que há é ela e a constelação, uma sensação arrepiante se espalhando de seu estômago e um calafrio descendo pela nuca.

Ela toca no vidro e sussurra.

— Pesus.

Pesus, ela ouve alguém dizer bem ao seu lado, mas ela não precisa olhar para saber que não tem ninguém ali, que o que ela ouve é só uma memória.

Porque depois dessa memória, outra se segue.

É o sol sendo coberto pela lua, é uma piscina cheia de homens seminus, é uma casa com sorrisos amigáveis e então é um lugar com regras rígidas e poucas pessoas de bem, é um ritual pela chuva e é um banquete com gisaengs dançando cheio de risadas.

É um passeio pela neve e depois é uma volta de barco; é uma desilusão na chuva e então é um beijo sob o céu perto do lago.

É uma longa sequência de imagens, sons e experiências, que saem de um canto escondido no fundo de sua mente a uma velocidade vertiginosa. É a epifania que faz todas as coisas fazerem sentido, que faz ela perceber que existia um quarto escondido em um lugar da sua cabeça. É a jornada de dez anos revivida em dez segundos.

E então ela desaba, cai de joelhos, lágrimas escorrendo pelo seu rosto.

Um mês depois de receber alta do hospital, Go Hajin recupera as memórias de Hae Soo.

Ela não vê Choi Ji Mong de novo, ou quem quer que fosse o cara com o rosto dele. E a verdade é que ela está muito ocupada para se importar com ele.

Assim que ela consegue se levantar e voltar a um estado mais equilibrado, ela pega o celular e começa a pesquisar por fontes e artigos históricos para saber o que aconteceu depois que ela voltou para o Século XXI.

História nunca fora sua matéria favorita, então, tirando o reinado impiedoso de Gwangjong, não tem muita coisa que ela saiba sobre a era Goryeo. Ela confirma coisas que ela testemunhou, e corrige mentalmente outras coisas que ela sabe ser mentira. Ela encontra novas informações e as verifica em outras fontes, começando a fazer uma nova lista mental de prioridades.

Ela sente que ficou mais velha, quase como outra pessoa.

Hajin só volta para casa quando a sua mãe liga preocupada, e também é aí que ela percebe que passou as últimas horas de pé em frente ao painel do observatório e pesquisando nomes de pessoas antigas. Ela é a última a deixar o lugar, e quando ela caminha seus passos estão lentos e cuidados, como se todos os seus arredores tivessem sido deslocados da realidade em questão de horas.

Com as memórias de Hae Soo de Goryeo, Go Hajin ganha uma nova perspectiva.

Não foi um sonho.

Nenhuma das sensações ou lembranças foram um sonho.

Ele não é um sonho.

Ela inventa uma desculpa para acalmar os pais e voltar para o quarto. Não tem como ela contar para eles que passou dez anos em Goryeo enquanto estava em coma e que ela acabou de recuperar as memórias desse período. Eles só vão ficar mais preocupados e tentar encontrar um terapeuta. E então os médicos vão ter certeza que ela está louca e receitar remédios ou interná-la.

Então, ela esvazia o rosto e o corpo de qualquer expressão ou sinal do impacto que suas novas descobertas deixaram nela – um truque que ela aprendeu no Damiwon – e consegue enganá-los. Mas isso não impede sua mãe de lhe dar uma bronca por sair sem avisar e ficar horas sem atender o telefone.

Depois que a porta está fechada e ela está à sós com seus pensamentos e memórias, Hajin se deita na cama na mesma posição que dormiu há algumas horas. A mente dele imediatamente é inundada pelas imagens que ela viu mais cedo no sonho, só que agora ela sabe de onde elas são, e consegue se lembrar de detalhes vívidos.

Ela sente o olhar hesitante dele enquanto ela contorna a cicatriz no seu rosto, então seu olhar de alívio quando ela solta seu cabelo para penteá-lo no começo do dia. Ela pisca e outra memória surge, e dessa vez as mãos dele estão nos cabelos dela, trançando-o com zelo.

Ela sente seu coração flutuar quando ele beija sua testa, e então o rugido no seu peito quando eles riem e ignoram o mundo lá fora, e ela só consegue abraçá-lo com força, os dois perdidos numa bolha de alegria enquanto celebram pela vida que cresce dentro dela.

Ela sente as mãos quentes dele em volta das dela. Seu ombro firme sob sua cabeça, seus comentários pra cada história que ela conta pra ele com as estrelas, mil e uma noites se fundindo e se tornando um momento sem fim no qual eles estão sempre juntos.

Ele é tudo o que ela vê quando a promessa que Hae Soo fez dentro das muralhas do palácio em Goryeo é renovada no minúsculo quarto de Go Hajin no subúrbio da moderna Seoul.

Ele é tudo o que ela vê antes de cair no sono e sonhar com a vida de mil anos no passado, ela fortalece sua convicção, seu espírito, seu coração.

Ela se agarra à promessa dele e espera que ele apareça.

Apesar de seu novo comportamento ser mais animado e ativo que antes, seus pais estão preocupados.

Primeiro eles só a observam confusos quando ela está se debruçando sobre livros e fazendo notas na margem das páginas. Quando ela fica no celular durante as refeições ela nota que eles se entreolham, mas preferem não fazer comentários. Depois de uma semana saindo de casa cedo e só voltando tarde da noite, eles finalmente não conseguem mais se reprimir.

— Hajin-ah, tem certeza que está bem? — A mãe dela é a primeira a quebrar o silêncio, a tentativa de fingir que não viu nada de errado no novo comportamento da filha se dissolvendo de vez.

Ela sorri e guarda o celular por enquanto, só para tranquilizar os pais.

— Tenho, eomma. — Hajin pega sua xícara de café, tentando parecer natural e calma, mas então percebe que ficou tanto tempo lendo aquele novo artigo que ele tinha esfriado.

— Nós estamos preocupados, querida, — o pai dela diz enfim, — Estamos preocupados e não queremos que você esconda coisas da gente. Pode falar qualquer coisa.

Parte dela se pergunta se eles acreditariam caso ela contasse tudo o que aconteceu depois que ela se afogou no lago. E também, mesmo se eles acreditassem, isso os faria se sentir melhor? Eles a tratariam como se sua amada filha tivesse mudado completamente depois de passar uma década no passado?

Mas ela sabe que isso não é uma possibilidade. Ela nunca vai contar para eles, em hipótese alguma.

— Não é nada, appa, eu juro. — Mais uma vez Hajin agradece à Oh Sanggung mentalmente por tê-la treinado a usar o rosto como uma máscara que esconde todas as emoções, — Eu só encontrei um hobby novo.

— Um hobby?

— Sim: história antiga, — ela explica indiferente, dando de ombros para mostrar como as preocupações deles são bobas e como os novos hábitos dela são comuns, — Sabe, depois daquele que dorama que a gente assistiu eu fiquei querendo saber o que aconteceu com os personagens. O único jeito é pelos artefatos e informações de livros.

A mãe de Hajin parece ver um pouco de lógica na resposta dela, mas seu pai ainda não está convencido e pergunta, cheio de suspeita.

— E aquele sonho?

— Parou. Eu nem lembro mais dele.

— Que bom, — ele diz depois de refletir por alguns segundos, sem mais o que dizer, — É melhor esquecer coisas que estão fora do nosso controle.

O pai dela tem boas intenções, ela sabe disso.

Uma vez ela também achou que o melhor jeito de recomeçar, de realmente limpar a página, era esquecer todas as dificuldades e as dores do passado. Fingir que tudo foi um sonho ruim, ou a história de outra pessoa – algo que ela tinha visto acontecer num filme e não consigo mesma.

Mas agora a memória dele é a única coisa que lhe resta.

Ela não quer esquecer da sua vida em Goryeo. Ela não iria querer mesmo que ela não tivesse prometido esperá-lo e ele não tivesse prometido encontrá-la.

Ela não quer esquecer da vida que eles tiveram juntos.

No entanto, as palavras de seu pai despertam um pouco de insegurança nela, e seu lado mais cético começa a questionar suas memórias e suas promessas.

Como é que ele vai aparecer aqui, em pleno Século XXI? Mesmo que ele soubesse onde te procurar, como ele iria te encontrar?

Hajin ignora esses pensamentos assim que eles aparecem, porque ela conhece Wang So – não o dos livros, o Wang So verdadeiro, o Wang So dela – e ela sabe que sempre que ele diz alguma coisa, não é da boca pra fora. Sempre que ele faz um juramento ou uma promessa, ele dá um jeito de cumprir. Sempre que ele decide obter alguma coisa, ele move os céus e a terra para consegui-la.

Hajin-ah, a voz na sua cabeça desaprova, Você está desejando demais.

Ela sacode a cabeça, tentando silenciar as dúvidas escondidas na sua mente. Se ela, de alguma forma, conseguiu voltar e depois avançar no tempo, então ele também conseguiria. Além do mais, Choi Ji Mong ainda estava no palácio quando ela faleceu, e, julgando pela sua súbita aparição e sua conversa estranha há algumas semanas, então talvez ele pudesse fazer o mesmo e se encontrar com ela.

Não é assim que funciona, Hae Soo, a voz irritante continua a reclamar.

Ainda assim, ele prometeu, ela se lembra, e então as dúvidas e ansiedades são silenciadas.

Ela nunca poderia duvidar dele, ela nunca poderia questionar a sua palavra. Então, sempre que Hajin começa a se preocupar com as possibilidades e impossibilidades, ela limpa a mente e foca apenas nas palavras dele.

A promessa dele é tudo o que ela tem.

A promessa dele é tudo o que ela precisa.

Ao continuar sua vida muito menos caótica em Seoul, Go Hajin fica de olhos abertos, atenta a tudo o que lhe cerca, esperando captar um relance daquele rosto familiar, tentando encontrar alguém que ela nem sabe se está lá.

Ela segue as pistas, visitando todos os lugares que possam ter a mínima ligação com Goryeo, procurando por grupos de chat online que discutem história, e ela espera por algum tipo de sinal ou confirmação. Ela visita museus e pontos de filmagem de doramas de época, paisagens e prédios antigos; ela vai para o lago onde ela se afogou, o hospital onde ela acordou e o planetário onde ela recuperou suas memórias.

Ela até vibra de animação quando a loja de maquiagem na qual ela trabalha é convidada para participar de um evento com a temática Goryeo, e suas colegas riem da cara que ela faz quando ouve o anúncio.

— Ei! Hajin-ah! — Chaewon grita com ela, brincando, — Por que você tá tão feliz em trabalhar no fim de semana?

— Você só tá com raiva porque não aprecia a história do seu país, — ela retruca, sem se importar com a provocação e plenamente capaz de responder aos comentários.

O resto dos seus colegas só consegue rir quando Chaewon lamenta em voz alta.

— Eu a apreciaria mais se pudesse ficar em casa!

Assim como qualquer outro ser humano dotado de bom senso, Go Hajin despreza trabalhar horas extras e nos dias de folga. Ela detesta trabalhar nos fins de semana, mesmo que isso lhe garanta um pouco mais de dinheiro no final do mês.

Mas ela não se sente nem um pouco cansada em ficar de pé junto ao mostruário da loja, observando cuidadosamente cada pessoa que chega, cada um que caminha pela exposição, mesmo quando está ocupada demonstrando os produtos ou fazendo a maquiagem de alguém.

Ela nem se sente desapontada quando o turno dela acaba e sua busca acaba se revelando infrutífera, porque, enquanto ela caminha pelas pinturas da era Goryeo, ela nota que algumas lhe são familiares.

Primeiro, ela acha que é só os cenários – os jardins, os salões, as construções e os pátios do palácio – mas então ela percebe algo a mais e seu coração se enche de alegria e saudades ao mesmo tempo.

O lado cético dela se pergunta e até questiona como as pinturas de Baek Ah poderiam ter ido parar ali, mas a verdade é que isso não importa. Ela tinha parado de tentar encontrar explicações lógicas, e só aceita que isso é um sinal de que ela está perto.

Ela está perto, e logo ela poderá se reencontrar com ele.

A alegria que toma conta dela é tão grande que ela nem sente mais seu lado negativo formulando mais perguntas.

Hajin fica diante da última pintura, a mais próxima da saída, e se demora por um tempo antes de finalmente ir, já ansiosa pela abertura do evento no dia seguinte, e sorri para a figura escura de um homem de pé na entrada do Cheondeokjeon, gravando-a na memória antes de partir.

Ela não precisa ler a placa de informações para saber que esse é o 4º monarca de Goryeo, Gwangjong.

— Venha pra mim, — ela sussurra baixinho, desejando que suas palavras possam chegar até ele de alguma forma, — Eu estou esperando.

Acaba que ele a encontra primeiro, já que ele está sempre indo atrás dela.

Claro, se ela dissesse isso em voz alta ele argumentaria que ela também tinha corrido atrás dele por um tempo. E considerando o fato que, durante os três dias que o evento durou, ela chegava cedo na exposição e ia embora já tarde da noite, isso não seria considerado uma mentira.

Primeiro os pais dela estavam preocupados. Não importa o quão interessante seja o hobby de uma pessoa, passar três dias inteiros num evento sobre a era Goryeo parecia ser uma programação descabida para uma jovem num fim de semana, mas Hajin consegue dar uma desculpa e escapar dos olhares repreensivos do pai e os curiosos da mãe. Ela sai rapidamente antes que eles mudem de ideia.

No último dia do evento, no entanto, tem mais gente que de costume, fazendo com que seja quase impossível para ela monitorar o lugar. Quando todos vão embora e os organizadores começam a limpar o local, ela ainda não encontrou nada. No fim de tudo, ela só tem umas fotos das pinturas na parede, e mais um item riscado da lista de lugares onde ela poderia encontrá-lo.

Ainda assim, Hajin se recusa a perder a coragem.

Ela consegue ir embora da exposição com o coração leve. Ela não o encontrou, o que é uma pena, mas ela encontrou as pinturas de Baek Ah, o que é algo a ser celebrado. Não é o cenário que ela tinha em mente, mas ainda assim é algo a mais do que ela tinha antes. Ela está tão feliz que até decide dar uma caminhada e visitar o lago onde tudo começou.

Ela caminha com passos leves, o vento fresco acariciando seu pescoço e bagunçando seu cabelo, que cai solto às suas costas. O clima agradável a leva a parar e relaxar por um momento naquela noite calma e pacata, respirar por um segundo antes que o dia seguinte venha e ela tenha mais trabalho pra fazer.

Hajin se aproxima da cerca demoradamente, olhando para a água escura e o luar que se reflete placidamente na sua superfície serena. Com as luzes dos postes mais fracas naquela área, ela conseguia até fingir que ela estava de volta no Dongji, de volta à Goryeo, de volta ao lado dele.

É em momentos como esse, quando ela está totalmente só e profundamente absorta em seus pensamentos e memórias, que ela sente o peso de sua viagem ao passado.

Oficialmente, Go Hajin tem 26 anos. Mas Hae Soo viveu dez anos depois de se afogar, então agora ela tem tecnicamente 36 anos. Por sorte, depois de ser transportada para o corpo de uma menina de dezesseis anos, seu cérebro não explodiu por conta do paradoxo. Sua mente parece ter mil anos de idade, embora seu corpo totalmente recuperado e saudável não carregue as cicatrizes e os traumas. Ela está deslocada do tempo e do espaço, ela é uma maquiadora do Século XXI e uma nobre do Século X ao mesmo tempo, com todas as perdas e ganhos, todas as alegrias e dores.

Agora, olhando para o lago escuro e quieto, ela tem a sensação de que vai viver até a infinidade, desprendida da moldura da realidade, sempre carregando um conhecimento que jamais poderia compartilhar com outra pessoa.

Parece bom... Viver até a infinidade.

A voz dele ecoa até ela, vinda do lago na sua mente, e ela sorri, seu questionamento existencial se desmanchando e trazendo-a de volta ao sólido presente.

Hae Soo ainda precisa encontrar Wang So no Século XXI, então ela não deveria ficar se lamentando assim numa doca vazia. Ainda há trabalho a ser feito, mais lugares a se visitar e novos sites para ler – para procurar por ele. Então ela respira fundo novamente, dessa vez para recuperar sua determinação, e encoraja a si mesma, repetindo as mesmas palavras de autoconfiança em sua mente: que ele prometeu, que ela prometeu, que eles vão se encontrar. Não importa quanto tempo leve, Go Hajin está disposta a esperar e procurar por ele.

Quando ela se vira para ir embora, no entanto, ela o vê.

Ela tinha achado que suas memórias eram claras e bem vívidas, que todos os traços e detalhes estavam gravados tão profundamente na sua mente, especialmente depois de vê-lo todas as noites em seus sonhos, que seu rosto seria o que ela mais conhecia.

E ainda assim, quando ela o vê, depois de meses de saudade e de buscas, é como se ela o estivesse vendo pela primeira vez de novo, e ela não consegue desviar o olhar.

(Suas memórias não lhe fazem justiça.)

Ele estava parado atrás dela, e ela se pergunta quando ele tinha chegado ali, há quanto tempo ele estava lá, porque ela não percebeu a sua presença, especialmente quando ele estava tão perto, porque ele está tão quieto e não disse nada. Na verdade, não, ela se pergunta milhares de coisas ao mesmo tempo, ao ponto de sua mente parar de funcionar e ela não conseguir fazer nada exceto abrir a boca só para fechá-la de novo. Qualquer tipo de pensamento racional que ela poderia ter já se estilhaçou e virou poeira. Tudo o que ela consegue ver são seus olhos, seu rosto, ele, e todas as palavras somem de sua mente.

Porque ele está aqui. Ele está bem aqui. Ele está na frente dela, e não tem como ela ter confundido ele com outra pessoa.

É ele, e eles estão juntos de novo.

Eles estão juntos, e dessa vez não é em Goryeo, é no Século XXI.

Ele está aqui, e ela finalmente pode parar de procurá-lo.

No entanto, os segundos parecem aumentar enquanto eles se encaram. Hajin tem certeza que seu rosto demonstra o quão chocada ela está, mas o dele continua frio e imóvel, como se ela fosse só uma estranha que passou na frente dele. E ela fica prestes a chorar quando ele não diz nada.

Ele esqueceu tudo sobre ela, que nem ela no primeiro mês depois de acordar do coma? Aquele é mesmo ele ou só alguém parecido, que nem Go Hajin parecia com Hae Soo? Ele é mesmo real, ou o cérebro dela começou a entrar em colapso e ela está alucinando?

Ela começa a entrar em pânico à medida que seu cérebro recupera a habilidade de pensar e começa a refletir em cenários que nem passavam pela sua cabeça antes. Ela olha em volta, tenta decidir o que fazer agora, tenta encontrar uma solução, algum plano de ação que vai mudar as coisas e talvez fazer as memórias dele voltar, ou trocar o homem diante dela – sem cicatriz, ela nota – com o que ela deixou para trás num palácio frio e solitário.

E então ele fala.

— Sabia que uma mulher caiu nesse lago um ano atrás? — A voz dele é como ela se lembrava, mas parece deixá-la mais desnorteada do que antes, então ela precisa de uns instantes para entender as palavras dele.

E quando ela entende, a mente dela começa a bugar novamente.

— Sério? — É tudo o que ele consegue dizer como resposta, um pouco sem fôlego, suas pernas tremendo e quase perdendo o equilíbrio.

O homem assente lentamente, seus olhos se desviando dos dela em direção ao lago logo atrás, antes de voltar a falar num tom cuidadoso e estimativo.

— Depois de perder tudo o que tinha ela veio para cá para refletir em como tudo na sua vida tinha dado errado, quando ela caiu na água.

Hajin está ficando sem fôlego novamente e encarar o rosto dele não está ajudando, então ela se vira – fica de costas para ele e olha para o logo, as mãos agarrando a barreira com força, com medo de perder o equilíbrio – e decide continuar a conversa.

— Por que ela caiu na água? — Ela se pergunta como a voz dela não treme, como suas palavras são proferidas com facilidade, e como ela nem morde a língua ao falar.

— Quem sabe? — Ele caminha para mais perto e fica bem ao lado dela com suas mãos também apoiadas na cerca, e ela sente se derreter por dentro, — Talvez ela tenha escorregado, talvez a amiga invejosa dela a tenha empurrado, — ele pausa, mas ela ainda não olha para ele; e ainda assim sente seu olhar nela ao continuar, — Talvez ela estivesse tentando fazer uma coisa estúpida, como salvar alguém que estava se afogando.

— Qual você acha que foi? — Ela tinha dito para ele se decidir, mas ele nunca tinha dito o palpite dele.

— Eu acho que não importa, desde que não afete o resto da história, — ele diz imediatamente e ela ri um pouco, achando a franqueza dele hilária depois de ficar sem ela por tanto tempo, — Mas ainda assim eu quero perguntar. Foi pra salvar alguém? Ela era muito abnegada e prestativa.

Quando Hajin tem certeza de que não vai mais desmaiar, ela vira o rosto para olhar dentro dos olhos dele e perguntar.

— Era mesmo?

— Bem, ela ainda é. — Ele se inclina para perto e ela não tem mais certeza de que não vai desmaiar, — Ela é o tipo de pessoa que está disposta a sacrificar tudo pelos outros até o fim.

— Sério?

— Sério. Me faz amar ela ainda mais.

O coração dela alça vôo, seus pensamentos se extinguindo quando a mente dela vai até às nuvens mais uma vez, quando a mão dele segura a dela e a puxa para perto dele, quando ele envolve a cintura dela com seus braços e ela sente seu calor por todo o corpo, se derrete, e antes que perceba, o abraça também. Uma corrente elétrica parece subir e descer pela sua espinha, arrepios se espalhando pela nuca, mas é uma sensação bem-vinda depois de só poder sentir o toque dele nos seus sonhos.

Dessa vez não é um sonho, ela se lembra quando inala o cheiro dele, seus olhos perdidos nos dele. Dessa vez ele não é um sonho, e mesmo estando embriagada de alegria, ela sente sua felicidade aumentar quando faz essa confirmação.

— Então, por que foi? — Ele pergunta depois de um eterno olhar apaixonado, e dessa vez ela não tem como se esquivar de dar uma resposta.

— Ela foi muito estúpida, — ela responde e suspira, olhando de volta para o lago e para o lugar em que ela estava naquela manhã, sentada ao lado de um sósia do Ji Mong, pensando que a vida dela tinha acabado e que ela nunca poderia confiar e nem amar outra pessoa; e mesmo assim resolvendo bancar a heroína e salvar um garoto, — Ela podia ter avisado alguém. O lugar estava cheio.

— Mas você não está feliz que ele tenha pulado?

Por anos, enquanto vivia em Goryeo como Hae Soo, Go Hajin amaldiçoou sua decisão de pular na água. Sempre que a vida ficava mais insuportável demais, triste demais, ela culpava a si mesma pela sua própria situação, se dava uma bronca por não ter agido de forma lógica e acabar viajando para o passado. Por anos ela se arrependeu de ter sentado perto daquele lago, de ter dado para Ji Mong – ou quem quer que fosse naquele momento – uma garrafa de soju, ou até mesmo de ter se virado quando ouviu o som de algo caindo na água.

Por anos, tudo o que ela queria era, se não pudesse voltar para o seu tempo, que ela ao menos pudesse esquecer tudo daquele mundo novo no qual ela fora forçada a viver.

Isso é, até ele aparecer.

— Bem, — ela suspira contente e aperta os braços em volta dele, pensando em como ela não se importa com o sofrimento que passou em Goryeo, desde que esse seja aqui que ela acabe, — Agora eu estou.

Ele sorri levemente, e depois de mais alguns segundos olha para o lago e continua a história, surpreendo-a por lembrar tantos detalhes de um conto trágico que ela inventou para lhe contar que estava doente.

— E então ela viajou para um mundo debaixo d’água, — ele ri da narrativa dela, lembrando como era absurda mesmo mil anos atrás, — Sabia que você podia só ter dito que ela foi pro passado? Sua história seria mais crível.

— Eu não queria abalar o seu mundinho com essa informação.

— Nenhum mundo pode ser pequeno com você nele.

Ela está prestes a corar e se derreter de novo, sorrindo acanhada e desviando o olhar. Mas algo na fala dele a faz se lembrar de outra coisa, e ela não consegue deixar de confrontá-lo quando finalmente se toca.

— Você... Você andou assistindo dorama de romance ou algo do tipo?

Ele ri da pergunta dela, e essa é toda a confirmação que ela precisa.

Uma imagem bizarra começa a se formar na sua mente, uma mais extraordinária do que ele finalmente a tê-la encontrado: dele sentado num sofá, segurando um controle, e se empolgando com personagens fictícios na tela. Gwangjong assiste dorama de romance moderno, e assiste tanto ao ponto de decorar as falas.

— É uma longa história, na verdade, — ele diz esfregando a nuca, um pouco envergonhado, — Mais longa que a sua.

— Me conta, — ela pede, exige, sua mente imediatamente se enchendo com mais perguntas, mais pedidos, se sentindo como alguém que não conseguiu ler o capítulo final de um livro, — Me conte tudo.

Me conte tudo sobre Seol, tudo sobre Jung e Baek Ah que não está nos livros. Me conte tudo sobre seus dias em Goryeo e sua nova vida na Coreia.

Me conte como você me achou.

— Nestante, — ele promete, segurando seu rosto, e o seu toque é o mesmo de mil anos atrás, — Te conto tudo depois. Afinal, nós temos todo o tempo que quisermos.

Ela segura sua mão. Ele segura seu rosto. Eles sentem o toque e ouvem as batidas do coração um do outro.

O beijo dele é o mesmo de antes, embora o corpo dele tenha uma leve diferença. Mas não tem problema, porque é ele. É o seu Rei, seu Príncipe. Seu Wang So. E ela finalmente podia amá-lo; amá-lo de verdade, sem ter medo de nada.

Ela sente ele sorrir quando eles se beijam e ela sorri também.

A eternidade deles acabou de começar.

Lá fora, a lua é nova.

Notas finais
ACABOOOOOU!!!!! FINALMENTE ACABOOOOU!!!! Espero que o final tenha sido tão satisfatório de ler quanto foi de escrever - todas as 9.000 palavras :') E guenta aí que nestante sai o epílogo Enquanto isso -> https://youtu.be/Mwqb9T_1D4c Opiniões são bem-vindas. Elogios sempre aceitos. Críticas apreciadas. :)