Há muito tempo, em um passado que mal existiu, perto de lugar nenhum e longe de qualquer outra nação, em um reino menor que ela mesma, nasceu, sem fazer nenhum som, Minerva. De traços simples e agradáveis, pele escura e olhos gigantes.

A mãe contava que a menina não chorou pois o mundo deveria ter medo dela e não o contrário. O pai dizia que nascer assim no silêncio a deu tempo para ouvir.

E parte fez-se verdade, Minerva era esperta e corajosa, ainda muito nova se tornou parte da guarda real, tinha grande talento para luta, era uma líder incrível e aspirava por muito mais.

Sentia estar destinada a grandes coisas.

Minerva sonhava com poder acima de tudo, dentre todas as lendas, uma era a sua preferida.

As vozes do oeste diziam que em três cantos distintos do mundo habitam os espíritos mais poderosos, eles poderiam te dar tudo e talvez nada, três desejos podem ser concedidos, se sua coragem superar seu medo, se sua perseverança superar sua bondade, se sua vontade superar seu amor.

Quando Minerva fez dezoito anos, se deu conta de que teria que traçar seu próprio futuro.

Para conseguir a realização de seus desejos, Minerva teria três destinos, ao norte, na última árvore do mundo, ao sul, na última montanha do mundo e ao leste, na última cachoeira do mundo.

Deixou sua família e partiu.

Por sete dias andou ao norte. Por sete dias escalou a árvore. Por sete dias esperou.

Um Corvo se sentou na árvore, suas penas pretas causaram um arrepio, ofereceu-lhe todas as coisas do mundo por um preço que Minerva considerou pequeno.

E por mais sete dias Minerva andou pelo norte. E por sete dias Minerva saqueou aldeias. E por sete dias Minerva juntou todo o ouro que conseguia carregar.

Ela voltou até o corvo, lhe entregou todo o ouro de suas vitórias e pediu:

Dai-me o exército mais forte.

O corvo a olhou surpreso.

E a concedeu 20 mil dos mais fortes homens da terra.

Minerva voltou para casa, sua família a esperava, orgulhosa. Sua mãe a abraçou, seu pai beijou sua testa.

Era a rainha do maior exército já visto.

Desbravou terras de todos os continentes, tomou tudo o que desejava. Tinha ouro, castelos, admiração.

Mas Minerva não estava satisfeita, no fundo de sua mente crescia a idéia de que tudo desapareceria, alguém maior tomaria tudo o que tinha.

Deixou novamente sua família.

Por sete dias andou ao sul. Por sete dias escalou montanhas. Por sete dias esperou.

Um Pica-Pau pousou na montanha, as penas vermelhas a lembravam fogo, ofereceu-lhe todas as coisas do mundo por um preço que Minerva considerou normal.

E por mais sete dias Minerva andou pelo sul. E por sete dias Minerva queimou florestas. E por sete dias Minerva aprisionou todos os pássaros que conseguiu capturar.

Ela voltou até o Pica-Pau, lhe entregou todos os pássaros que havia prendido e pediu:

Dai-me todo o poder.

O Pica-Pau a olhou admirado.

E a concedeu o mundo para reinar.

Minerva tinha o maior reino, no maior castelo, no maior país. Seus súditos a idolatravam, seus inimigos a temiam. A grandiosidade era assustadora até para ela.

Minerva enlouqueceu.

Construiu muros tão altos quanto o céu, impediu seus súditos de saírem de suas casas, matava qualquer um que lhe parecesse suspeito, vendeu seu sangue a magia por proteção.

Sempre haviam olhos a espreita, observando, esperando.

As vozes de todos que um dia machucou estavam por toda parte. Alguns gritavam em seus sonhos, outros gritavam mesmo quando estava acordada.

Começou a acreditar que as palavras de seu pai eram uma maldição e desejou nunca mais ouvir.

Berravam pelos portões sobre fome e pobreza, imploravam misericórdia.

Minerva os via se arrastar como ratos e os odiava pela fraqueza.

Cansada, olhou por seus muros.

Minerva tinha tudo.

Por sete dias andou ao leste. Por sete dias buscou a cachoeira. Por sete dias esperou.

Um Rouxinol voou ao seu lado, grandes penas brilhantes no vento, ofereceu-lhe todas as coisas do mundo por um preço que a fez tremer.

E por mais sete dias Minerva andou. E por sete dias Minerva chorou. E por mais sete dias Minerva tentou lavar o sangue de suas mãos.

Ela voltou até o Rouxinol, entregou, com pesar, o coração de sua mãe e pediu:

Dai-me paz.

O Rouxinol a olhou com pena.

E concedeu a Minerva um sono eterno, sem gritos e sem pesadelos.

No oeste nasceu, sem fazer nenhum som, um Gavião.

“Todo o poder sem controle leva à loucura”

—Émile-Auguste Chartier

Notas finais
Esse mito foi feito originalmente para minha melhor amiga e toda a inspiração dele veio da frase de Chartier.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!