Minefield
2 Capítulo 2. Aaron
Notas iniciais
Que saco! A noite não foi como imaginei que seria. A banda foi horrível e as músicas não animaram quase ninguém. Não valeu os vinte dólares que gastei com a entrada. Já era madrugada e meus pais iriam encher meu saco quando eu chegasse em casa. Porém, o que me deixava mais puto era o fato de ter sido abandonado pelas pessoas que dizem ser meus amigos, só porque não quis ficar até o fim da festa. Eles são uns babacas, mas foda-se, eu não me importava mais, ou já tinha me acostumado, sei lá.
As ruas pelas quais já havia passado estavam totalmente desertas e presumi que as que ainda passaria não seriam diferentes. Afinal, já passava das três da madrugada e era normal esse silêncio e escuridão por toda parte.
Meu celular vibrou em logo em seguida. Droga. Tirei o celular do bolso da calça e olhei o visor. Era Derek, um dos meus amigos que tinha me abandonado. Revirei os olhos antes de deslizar o dedo sobre a tela e aproximá-la ao meu ouvido.
"O que você quer, traidor?" Eu disse em um tom irônico e escutei uma risada sarcástica do outro lado da linha.
"Cara, desculpas. Não queria ter deixado você ir sozinho." Sua voz estava rouca e trêmula. Ele estava bêbado.
"Sei, agora vê se me deixa em paz. Nos falamos amanhã." Desliguei o celular antes que ele pudesse falar mais alguma coisa, eu estava com a paciência menor que minha bateria, e já conseguia prever que a única coisa que de fato aumentaria amanhã era a bateria.
O percurso foi mais ou menos assim: eu andava rápido olhando para todos os lados com medo de ser assaltado, pensando também numa desculpa muito boa e ao mesmo tempo tacando o senhor foda-se. O que meus pais poderiam fazer? Me colocar de castigo por um mês? Grande merda. Nunca que eu ficaria preso tanto tempo, já tentaram, nunca conseguiram. Me pegava rindo sozinho com as lembranças das minhas fugas do castigo. Entrei nos meus pensamentos e quando percebi, já estava em casa.
Quando cheguei, abri a porta com o maior cuidado possível. Estava super cansado e um sermão aquela hora da madrugada não era mesmo o meu desejo. Suado, decidi que o melhor a se fazer naquele momento era beber bastante água, para depois tomar um banho e finalmente cair na cama.
Parei na entrada da cozinha quando vi um ser estranho em minha casa. Eu não a conhecia.
"Que porra é essa, quem é você?" Ela se assustou e acabou derrubando a água que servia no copo, garota lesada.
"Vi-vi..." Era notável que ela estava nervosa e lembrei instantaneamente que era a brasileira que passaria um ano na minha casa, como inter-cambista.
"Ah, você é a brasileira." falei interrompendo, estava sem paciência e a mina ainda veio gaguejando?
"Sim, eu..."
"Que seja." Eu realmente não estava muito a fim de conversar com uma garota desconhecida durante a madrugada. Mas continuei a encarando, seus olhos eram grandes e castanhos escuros, quase pretos. Seus cabelos bagunçados e sua cara de assustada me deixavam irritado, só o que me faltava, ter que conviver com uma garota sonsa e mesquinha.
Depois de poucos segundos ela desviou o olhar, deixou o copo sobre a pia e passando por mim de cabeça baixa. E apenas escutei o barulho feito quando seus pés batiam nos degraus da escada, além de tapada também era barulhenta.
Por fim ao invés de apenas beber água, fiz um rápido lanche: sanduíche com um copo de suco, e subi pro meu quarto.
Fui direto tomar banho, já era quatro da madrugada e minha bateria estava pedindo para ser carregada urgentemente. Logo após o banho vesti uma samba canção toda preta e caí na cama.
Sério, nunca gostei de acordar cedo, principalmente em um sábado, mas assim que minha mãe bateu na porta, meu cérebro despertou alertando que era hora de acordar. E pior, vinha sermão também, e não estava nada afim de passar a manhã toda ouvindo: Você deveria ser mais responsável ou sabia que seu pai e eu ficamos a noite preocupados, ou pior, passamos a semana toda trabalhando, e logo na sexta, dia que podemos aproveitar mais a noite em família, você resolve sumir.
Era sempre a mesma coisa e quando minha mãe começou só escutei: Blá, blá, blá. Passei a tarde com a Victória. Blá, blá, blá. Já são nove da manhã. Blá, blá, blá. Desça pra tomar o café da manhã, vamos sair daqui a pouco.
"Okay, mãe. Agora me deixe em paz, por favor." Murmurei sem a mínima vontade de levantar da cama.
Que inferno. Logo hoje que estava mais indisposto do que o normal. Aos poucos consegui mexer meu corpo com cuidado. Não queria desperdiçar nem um pouco da preguiça que me restava. Me sentei e fiquei assim por um bom tempo, pedi aos céus que caísse uma chuva pesada, ou um terremoto, vulcão em erupção, um atentado, um vilão, um herói, o Pinguim, o Soldado Infernal, qualquer caso impossível para que eu não tivesse que sair da cama.
Mas aqui não acontecia nem briga, quanto mais herói, terrorismo ou vulcão em erupção. Então, me levantei desnorteado ainda da surra que minha mãe me deu com esse bombardeio de informações das quais nem escutei pra começo de história, e fui para o banheiro tomar banho, recuperar minhas forças.
Vesti uma roupa assim que saí do banheiro. Uma calça preta um pouco rasgada nos dois joelhos, uma camiseta branca e um converse qualquer que estava de baixo da minha cama e desci direto pra cozinha. A segunda parte da recuperação de minhas forças estava em encher minha barriga de tudo que eu encontrasse sobre a mesa.
Chequei na cozinha e já estavam todos tomando café da manhã. Meu pai ria alto, minha mãe também e a tal Vi-vi só observava meus pais com uma cara de, o importante é ser simpática. Meus pais eram tudo, amorosos, cuidadosos, gentis, preocupados, chatos, mandões, trabalhadores, mas nunca eram engraçados.
Mas, todos olharam para mim e mais uma vez, fiquei encarando aqueles olhos grandes e escuros. Suspirei e acabei me sentando ao lado dela. Não tive muita escolha.
"Filho, essa é a Victória, sua nova irmãzinha." Sorri forçado e vi que ela fez o mesmo. Não sou simpático e creio que ela já havia percebido. Só esperava que ela não se metesse em nada que não fosse de sua conta.
"Ela não é minha irmãzinha. E já nos conhecemos, não é, Vi-vi?" Falei em um tom irônico, mas meus pais eram tão caretas que nem se tocaram. Vi ela engasgar com o suco que bebia e dei uma boa risada disso.
Eu tentava tomar café sem me importar com a presença de Victória do meu lado, o que era quase impossível já que só tê-la por perto já era irritante. Minha irmãzinha, até parece, ela nunca seria nada próximo de uma irmã para mim, que nojo. Senti meu celular vibrar no meu bolso, foi quando percebi que haviam várias mensagens do Derek.
“Ou, vamos sair?”, “Cara, responde te mandei mensagem já faz tempo.” Respondi rapidamente. Eu já sabia que ele estava me chamando cedo por causa da Victória, eu já tinha contado para Derek sobre ela, eu deveria ter imaginado que ele não pouparia esforços para colocar as mãos nela.
“Vou sair com meus pais e com a brasileira.” respondi por mensagem
“Beleza, vou com você. Chego aí em dez minutos.” ele respondeu
“Não mano! Na boa, fica aí.”
“Já saí de casa, já já chego.” Era incrível como ele conseguia ser exageradamente idiota. Mas eu sabia que tinha que ser paciente com ele, afinal ele foi o único que não fez merda quando…
"Meia hora, Aaron." minha mãe afastou essa lembrança da minha cabeça. Ela estava brava.
“Tá, tanto faz.” murmurei e respirei fundo.
Fale com o autor