Minefield

11 Capítulo 11. Victória


Notas iniciais
Heey! Mais uma sexta, mais um capítulo! Boa leitura! ♥

Eu mal consegui dormir a noite. Tudo estava fervendo tanto na minha cabeça, Alice, Danilo e pra piorar o tapa que eu dei na cara do Aaron, que por incrível que pareça estava me dando um peso na consciência enorme. Por mais que Aaron fosse um animal eu não era essa pessoa, eu raramente me descontrolava desse jeito.

Se dormi duas horas, foi muito. Acordei com uma mensagem de Anna Lee dizendo que estaria me esperando no portão. Não me lembro qual foi a deixa para que eu estivesse desabafando com ela por telefone, histérica, gritando no meu quarto.

“Eu me sinto uma idiota, Anna. Eu não consigo mais continuar nesse relacionamento a distância ridículo. Ele me irrita tanto e me chateia! Quando decidi me mudar para cá, não esperava por isso! Eu só queria distância, entende?”

Eu fiquei no telefone até escutar a porra do Aaron me apressando no andar de baixo. Arrumei rápido minhas coisas e desci as escadas correndo. Ao fechar a porta eu e Aaron nos olhamos.

“Bom dia.” eu falei tentando cortar o clima pós tapa na cara. Ele não respondeu, lógico.

Quando chegamos no Colégio, Aaron cumprimentou Anna Lee e sumiu. Conversei mais um pouco com Anna, sobre toda a situação do meu namorado, ela foi bem compreensiva e me ajudou a arejar a mente um pouco. Eu teria a primeira aula de história, mas quando estava prestes a entrar na sala, a professora me chamou.

“Victória?”

“Sim?”

“Houve uma mudança na sua grade, suas aulas de história agora passarão a ser nesse horário aqui.” Ela disse entregando-me um papel.

“Tudo bem, a senhora sabe o porquê da mudança?”

“Eu mesma que mudei. Reparei que você estava com dificuldades para entender a matéria, troquei para uma turma onde você poderá ter um tutor.”

“Desculpe… Um o que?”

“É como se fosse um professor particular. Mas será um dos meus alunos. Tenho em mente alguém que confio e sei que poderá te ajudar com facilidade.”

“Ah, muito obrigada professora, eu…”

“Não temos tempo para agradecimentos. Nos veremos novamente na última aula, Victória.” ela entrou na sala e fechou a porta.

Encontrei Anna Lee, que estava parada na frente dos armários ao lado de Leo e Jason. Conversamos pouco, eu não estava lá de bom humor para conversar com todo mundo e ser amigável. Até que Melany passou gritando pelo corredor, correndo atrás de Aaron, fazendo o senhor escândalo.

“Nossa senhora.” Anna Lee comentou. “Coitado do Aaron.”

“Coitado nada.” Leonard rebateu e começou a rir junto a Jason. Eu só observei. Aaron olhou para eles e logo olhou para mim, como se esperasse uma reação. Eu não entendia o porquê dele continuar com ela, ele claramente estava fugindo da garota, ignorei. Não me interessava qualquer tipo de relacionamento dele.

Andei distraída para a última aula, acabei entrando logo depois da Professora.

“Sente-se senhorita, e saiba que não tolero atrasos.”

“Me desculpe.” eu disse me enfiando na última cadeira de uma das fileiras. Peguei rápido meu material e sabia que estava disposta a tentar entender um pouco mais do que eu entendi na aula anterior. Olhei para o lado e tinha um garoto que já estava dormindo antes mesmo da aula começar, olhei para o outro e vi Aaron sentado. Travei. O que Aaron estava fazendo sentado do meu lado?

“Aaron.” eu disse tentando conter minha surpresa desagradável. Ele revirou os olhos.

A aula passava e era complicado de entender, por mais que eu tentasse as coisas eram diferentes demais, e eu conseguia perceber que o senhor da Ironia me olhava, como se estivesse reparando em alguma coisa. Isso só era mais difícil para eu acompanhar a aula.

“Senhoras e senhores, estão liberados, até a próxima!” Aaron levantou rápido e eu fiquei lá, guardando meu material. Até que a Professora chamou nossos nomes.

“Victória, você é nossa aluna intercâmbista, correto?” ela disse quando me aproximei.

“Sim, professora.”

“Sei que a matéria pode ser complicada para você, e não é a primeira aula minha que a senhorita assiste, Aaron é meu melhor aluno, acredito que ele poderá te ajudar bastante!” logo ele?

“Desculpe professora, acho que não entendi muito bem.” eu também não entendi, ou não queria entender.

“Você será como um professor de reforço para Victória, um tutor.”

“Só pode estar brincando.” falei por impulso.

“Não senhorita, não estou. Espero ver resultados, sim?” Como? Como é que a senhora queria resultados?

“Tudo bem, professora.” miei.

“Liberada.”

“Obrigada.”

Segui direto para casa, eu não queria saber de nada nem pensar em merda de tutor nenhum. Eu estava tão cansada disso que simplesmente queria me jogar naquela cama gigante e dormir até a hora da janta, eu nem fome tinha para almoçar.

“Espera!” alguém me chamou na metade do caminho. “Eu vou para casa também, sabia?” Aaron começou a andar ao meu lado.

“Achei que você já soubesse o caminho.” zombei

“Engraçadinha.” ele passou o dia todo revirando os olhos e esperava que eu fosse esperar para ver se ele iria ou não para casa? Tá bom. “ A gente vai passar no mercado.”

“Vamos?” perguntei.

“Minha mãe mandou eu comprar coisas para o almoço. Ela não deixou nada preparado, então eu vou ter que cozinhar.” ele ia cozinhar, ok. Normal. Nenhuma novidade aqui.

“Tudo bem.”

“Não vai rir disso também?” que saco, por que ele estava insistindo num diálogo tão longo? Não respondi e ele bufou.

Andamos devagar (graças aos deuses) até chegar no mercado, era mais uma quitanda. Pequeno e bonitinho, era pintado com cores leves e tinham vários legumes e frutas.

“Escolhe a sobremesa.”

“Hã?”

“A sobremesa, Victória. Pega uma fruta, sei la.” por que eu? Peguei um melão e dei para ele antes que passasse no caixa.

Quando chegamos em casa, Aaron colocou as coisas na pia e começou a lavar os legumes, eu fiquei observando.

“E aí, você vai ficar me olhando ou vai ajudar?”

“Eu ajudo, ué.” eu disse lavando as mãos.

“Certo, corta o melão pra gente que eu mesmo faço o almoço.” eu estava meio nervosa, já estava tempo demais com Aaron. Ele não ia sair hoje? Se ele fosse qualquer tipo normal de ser humano eu provavelmente perguntaria, mas como essa não era uma alternativa eu só peguei o melão e comecei cortar e picar em cubos. Aaron começou a preparar um macarrão com molho branco que estava com um cheiro incrível.

“Pega os pratos no armário. Já tá quase pronto.” coloquei a mesa e me sentei. Quando ele terminou de cozinhar eu esperava que ele pegasse a comida e subisse para seu quarto, mas ele sentou-se e começou a comer na mesa comigo, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ele não olhava para mim, não falava nada, simplesmente comia no silêncio. Era péssimo admitir, mas Aaron cozinhava muito bem, incrivelmente bem.

Ele não tinha falado nada sobre a aula de história, e era óbvio que quem teria que tomar iniciativa era eu. Respirei fundo.

“Aaron.”

“Sim?”

“Você vai me dar aulas de história, mesmo?” ele olhou para mim.

“Você diz como se eu tivesse escolha.”

“Eu posso dar um jeito, tá legal? Posso falar para a professora que você está me ajudando, sei lá. Eu invento uma desculpa.”

“Ah claro, e queimar minha fita com a única professora daquele lugar que eu gosto.”

“E que culpa eu tenho de…”

“De ser burra? De ter inventado um intercâmbio? Ou de me envolver em tudo isso?” ele me interrompeu levantando a voz.

“Esquece essa porra de aula. Eu me viro sozinha.” me levantei e fui direto para o meu quarto, me segurando para meter a mão na cara daquele idiota de novo.

“Victória. Abre essa merda.” ele bateu forte na porta do meu quarto.

“A casa é sua, não é?” eu abri. Ele entrou colocando o material na escrivaninha e uma cadeira ao lado da minha. Sentou-se e ficou olhando para mim.

“Senta logo.” ele disse e eu me sentei sem conseguir esboçar outra reação que não fosse aquela cara de ‘Meu deus o que tá acontecendo’ e ele abriu os livros. “O que você não entendeu da aula?”

“Ah… Eu não entendi o… Hã… Aquela parte da…” eu não entendi nada.

“Você é muito sonsa mesmo, como é que eu vou te explicar uma coisa que você não sabe?”

“Aaron, sai daqui, Eu já disse que…”

“Não importa o que você disse! Eu não ligo pra porra nenhuma disso aqui, eu tenho que te ajudar, eu não quero te ajudar. Não estou fazendo isso por você. Entendeu?” ele começou a gritar comigo e eu comecei a me irritar. Eu dei um soco na mesa fazendo ele calar a boca. Ficamos em silêncio, um olhando para o outro durante uns instantes.

“Olha, isso não vai dar certo...” eu disse controlando a voz. Ele levantou-se e saiu do meu quarto quando eu disse isso, deixando o material todo em cima da minha mesa. Eu fechei a porta e me sentei na cama respirando fundo. Eu sabia que não poderia ficar nervosa ou teria outro ataque de asma e naquele momento era tudo o que eu não queria. Passei os dedos levemente sobre a tela trincada do meu celular e lamentei tê-lo jogado no chão.

“Sinto muito.” sussurrei para mim mesma. Acomodei-me nas cobertas me preparando para dormir até a hora da janta, mas me sentei rápido ao ouvir batidas fortes na porta.

“Victória?”

“Entra.” eu disse Aaron abriu a porta, ele tinha dois potes pequenos de melão picado na mão, suas mãos eram tão grandes que ele segurava ambos sem dificuldade.

“O que...” minha voz falhou. Ele sentou-se na cadeira ao lado da cama e me entregou um dos potinhos. Eu peguei sem perguntar nada e ele começou a comer.

“Aaron.” eu chamei.

“Hã?” ele disse de boca cheia.

“Qual é o propósito disso?” eu perguntei.

“Se você não quer melão é só não comer, não precisa…” fingiu não entender minha pergunta e eu lancei um olhar detestável que o fez mudar sua frase. “ O que eu fiz, agora?”

“Você realmente espera que eu acredite que está fazendo isso por que eu gosto de melão?”

“Tá legal.” ele disse colocando um pedaço enorme na boca. ”Isso foi meio que uma bandeirinha branca. Uma proposta de paz, sei lá.”

“Oi?” eu disse engasgando e ele revirou os olhos.

“É o seguinte:” ele colocou o pote em cima da mesa e sentou-se na minha cama bem em frente a mim. “ eu preciso te ajudar. Sem mim você vai mal em história…”

“Ah, pronto…” eu interrompi.

“Sh!” fui interrompida. “Deixa eu falar, Victória. Do mesmo jeito que eu preciso te ajudar eu preciso que você me ajude, por que não posso me queimar com a única professora que me admira naquela escola. Mas nós não podemos nos ajudar enquanto estivermos brigando.”

“Certo. E o que você propõe?”

“Proponho um acordo.”

“Um acordo?”

“Durante duas horas por dia eu te ensino história e esclareço todas suas dúvidas. Com algumas condições.”

“Que seriam?”

“Você não fala comigo a não ser que seja para tirar dúvidas e não pode ter nenhum tipo de agressão física. Temos um acordo?”

“Tudo bem.” ele arregalou os olhos e depois franziu o cenho como se duvidasse da própria proposta.

“Tudo bem? Então temos um acordo?”

“Parece que sim, Aaron.”

“Ok.” ele ficou lá me olhando sem falar nada por alguns longos segundos e eu desviei o olhar.

“Bom, então vamos começar logo.” eu falei. Ele se acomodou na cadeira e eu sentei ao seu lado.

Aaron começou a explicar a história do ex-presidente Abraham Lincoln devagar, cheio de paciência e clareza, como se nós nunca tivéssemos algum vínculo odioso antes. Meia hora depois o telefone dele começou a tocar freneticamente, ele tentou ignorar mas atendeu nervoso na terceira tentativa da pessoa que ligava sem parar.

“O que você quer?” ele disse, ríspido. “Eu não disse que não ia hoje?... Não! Deixa ela fora disso.... Para de ser louca!... Eu não vou.” ele desligou o celular socando o mesmo dentro do bolso de seu moletom largo.

“E quando ele finalmente tomou posse…” ele hesitou em continuar a matéria. “Victória?”

“Sim?”

“Se caso alguma coisa…” ele respirou fundo “Ah, foda-se. Quando Lincoln tomou posse…”

“Espera. O que você ia falar?” interrompi.

“Nada.” ele tentou retomar a matéria novamente.

“Não. Você não pode simplesmente começar a falar alguma coisa e…” tentei.

“É dúvida de história?”

“Não, mas…”

“Então cala a boca.”

“Mas, Aaron…” tentei novamente.

“Ainda temos uma hora e meia pela frente. A gente tem um acordo.” o jeito que ele falou comigo foi verdadeiramente medonho, desisti completamente de insistir no assunto, por mais que minha curiosidade estivesse me corroendo por dentro, eu assenti muda e ele continuou a aula.

Notas finais
Esperamos que tenham gostado! Comentem, é importante para gente saber se estão gostando! Bom final de semana! Bjus! Até ♥