Minecraft. O Ninho De Creepers
24 Lápides Para os Amigos
Notas iniciais
Enquanto cruzavam o campo de batalha, Steve podia sentir um cheiro amargo no ar, não sabia do que se tratava, mas pela cena que podia ver, não queria nem saber. Muitas carcaças de Aranhas estavam caídas pelo local, algumas com partes do corpo faltando, outras apenas com enormes cortes ou flechas fincadas em seus troncos. Mas não era isso que mais incomodava Steve e Bruce, e sim os corpos debruçados de alguns soldados por todo o local, era perturbador. De vez em quando pisavam em poças de sangue, na maioria das vezes das terríveis criaturas... Na maioria das vezes.
Steve enfiou a espada no corpo de uma Aranha que estava caída e se apoiou sobre ela, exausto e preocupado.
–Isso poderia ter sido evitado... Isso poderia ter sido evitado... -Steve balbucia isso baixinho enquanto sua cabeça descansava no cabo da espada.
Bruce jogou o arco no chão e a aljava também, fizera um ótimo trabalho, tinha que admitir, nunca atirara tão bem quanto atirou ali, mas do que adiantou? Do mesmo jeito muitos foram sacrificados, e como Steve disse, tudo poderia ter sido evitado.
–Não adianta fazer mais nada, Steve. -Tentou acalmá-lo, colocando a mão em seu ombro.
Steve ficou ali por um tempo sem dizer nada, até se virar e encarar Bruce.
–Agora não. -Disse ele saindo.
Steve seguiu sozinho, deixando Bruce para trás. Conforme ele ia se afastando, mais carcaças surgiam, e ali parecia ter ocorrido uma guerra de muitos e muitos dias.
Uma outra coisa que ainda incomodava Steve, e não só ele, era de onde havia surgido tanta criatura de uma só vez. Talvez ali fosse o local aonde elas morariam, um ninho, mas mesmo assim isso não justificava tamanha quantidade daqueles monstros.
Bruce olhou para o bicho caído ao seu lado. O encarou até dizer:
–Satisfeito? -E sair andando.
Ambos vagaram por ali durante um tempo, sem saber o que fazer, e não somente os dois, os sobreviventes ao ataque também estavam por ali sem saber o que fazer, alguns sentados debaixo das sombras das árvores, outros ajoelhados ao lado dos corpos dos companheiros falecidos, e alguns andavam tensos.
Bruce avistou Nicko ajoelhado com um balde d'água a sua frente limpando os ferimentos que tinha. Nicko, ao vê-lo, o chamou para se juntar a ele.
–Então... -Começou Bruce enquanto Nicko pegava outra balde para ele.
–Perdemos cerca de quase trinta homens... -Completo Nicko cabisbaixo.
Bruce ficou de queijo caído.
–C-como assim quas trinta?! O ataque não foi tão fatal assim, foi?
–Na verdade não, mas muitos do que morreram foram mortos logo no começo, sendo atacados de surpresa, sem saber do que se tratava.
Bruce limpou os maiores machucados que continham, que ficavam na região do braço. Passou bastante água, ignorando a dor de quando sua mão passava sobre as feridas.
–E o Leon? Ele...
Nicko não respondeu, apenas acenou com a cabeça. Aquilo já era o bastante para Bruce entender o que aconteceu.
–E Dave? -Perguntou Bruce depois de um longo momento de silêncio, logo após esvaziarem os baldes.
–Eu vi ele por aí depois que tudo acabou, -Respondeu Nicko. — mas só isso.
–Seria bom para ele que não fosse falar com Steve agora. -Comentou Bruce.
–Na verdade, acho que seria algo merecido. -Falou Nicko se levantando. -Agora vá se deitar um pouco, todos precisamos de um descanso.
–Mas e você?
–Não se preocupe, vou ter só que ajudar em algumas coisas aqui, pode ir.
Bruce se despediu e saiu andando, procurou um local afastado e seguro para dormir. Viu uma bela árvore. Se aproximou dela e se acomodou debaixo de sua sombra, e sob o nascer do Sol, ele adormeceu.
* * *
Bruce acordou com um grande pedaço de carne sendo esfregado em sua cara.
–Vamos. -Chamou Steve. -Levanta-se.
Bruce esfregou os olhos atordoado, não sabia o que estava acontecendo.
–Hora do almoço. -Anunciou Steve lhe entregando a comida.
–Obrigado. -Agradeceu Bruce pegando o enorme bife.
Enquanto os dois comiam devagar, Bruce comentou:
–Pensei que nunca mais comeria de novo.
–Sério? -Perguntou Steve. -Sabia que muitos ali não sairiam vivos, mas se dependesse de mim nem eu e nem você levaríamos um arranhão.
–Obrigado. -Agradeceu Bruce colocando uma mão sobre o ombro de Steve.
–Disponha. -Respondeu ele sorrindo com carne entre os dentes, ambos riram da cena.
–Isso foi nojento! -Exclamou Bruce.
–E eu não sei?
Os dois ficaram rindo ali por um tempo e conversando, mais uma vez sobreviveram ao inesperado.
* * *
A tarde já havia chegado a muito tempo até a hora em que eles foram partir. Steve e Bruce saíram da sombra confortante da árvore e se dirigiram para onde o resto do grupo estava.
Agora a tropa era bem menor, estava na cara que muitos soldados haviam sido perdidos. Steve parou para contar quantos ainda restavam, apenas doze fora ele, Bruce, Dave e Nicko. Mas isso não era o mais perturbador de tudo, e sim os túmulos construídos em homenagens aos soldados que morreram na luta. Três fileiras de pequenas cruzes brancas se erguiam no meio da mata, cada uma com uma pequena inscrição escrita de um canto ao outro. Alguns soldados tentaram conte as lágrimas, mas inutilmente, perder pessoas assim tão de repente era duro, Steve sabia como era isso.
Ficaram ali durante um tempo, observando as lápides feitas para os amigos falecidos. Alguns soldados se aproximaram dos túmulos improvisados e começaram a falar bem baixinho perto deles, como se fosse alguma prece aos companheiros. Logo, Nicko fez o mesmo, indo para uma lápide cuja a pessoa era desconhecida para Steve e Bruce. Steve começou a passar os olhos pelas inscrições, e não demorou a achar uma com a seguinte inscrição: "Em homenagem a Leon Cleo". Ele se virou para Bruce que retribuiu de volta, ambos sentiram um aperto na garganta.
Somente os dois ficaram em pé observando os soldados que davam o último adeus a seus amigos. Se afastaram um pouco para não verem aquela cena, era deprimente demais, e o pior de tudo era que tudo aquilo poderia ter sido evitado, se seguissem o que Steve disse.
Quando o tempo de quase uma hora se passou, todos os soldados se levantaram e tentaram se manter formais, apesar de a maioria conter olhos vermelhos e estarem trêmulos. Até mesmo Nicko não conseguiu se conter. Dave surgiu no meio de todos bastante machucado, tinha muitos cortes, mas para todos aquilo era um detalhe.
-Pois bem... -Começou ele com a voz rouca e frágil. -
Steve cerrou o punho e sentiu a raiva percorrer todo o seu corpo, a culpa de tudo aquilo era de Dave, e se ele tivesse o ouvido, tudo poderia ter sido evitado, e ninguém perderia a vida.
-Acalma-se, -Alertou Bruce. -já estão todos bastantes estressados e tensos, não gere mais conflito.
Steve tentou relaxar, mas já vira vidas demais serem perdidas para ficar calado.
-Bom... -Disse Dave. -O que tivemos aqui hoje foi uma perda realmente considerável....
-Considerável... -Bufou Steve.
-...Mas não tínhamos como saber que essa fatalidade iria ocorrer assim tão de repente, -Steve quase que foi para cima de Dave, e se não fosse Bruce, Dave com certeza já estaria com o nariz sangrando.
-Acalme-se Steve! -Cochichou ele em um tom de alerta.
Steve se libertou das mãos de Bruce e voltou a ouvir o que Dave dizia.
-... Mas é realmente algo muito... Muito... É difícil encontrar palavras para essas situações. -Ele ia cada vez mais baixando seu tom de voz. — Bem, não poderíamos impedir isso, afinal o inevitável é sempre...
-É claro que podíamos impedir isso! -Disparou Steve de repente.
-Não! -Pediu Bruce, mas foi ignorado.
-Isso não era inevitável! Eu disse que isso iria acontecer! Mas e agora?! O que vai dizer a eles? -Steve apontou para as diversas lápides que estavam a sua volta. -Se tivesse me ouvido, isso não teria acontecido.
Todos olharam assustados para ele, por começar tudo assim tão de repente. Mas de uma coisa todos sabiam, que ele tinha razão.
-Desculpe Steve, mas de qualquer modo seríamos atacados. -Se defendeu Dave.
-Não! Não! Mas é claro que não! Se tivéssemos passado aqui de dia, as Aranhas nos entenderiam apenas como passageiros! Mas de noite, de noite éramos intrusos, caçadores, presas!
Ninguém disse nada, todos olhavam para Steve, que estava completamente vermelho.
-Dave, pessoas perderam a vida aqui, você não vê? E tudo poderia ter sido evitado, com o simples ato de esperar a noite passar! E quanto a famílias dessas pessoas, o que dirão! O que foi perdido aqui não foram simplesmente vidas, e sim história, laços familiares, amigos, partes de algumas pessoas! -Steve perdera completamente o controle. — Muitos aqui estavam quase irreconhecíveis!
Bruce tentou acalmá-lo:
-Pare aí Steve, não gere mais confusão.
-Não Bruce, agora que todos já choraram e oraram é minha vez de desabafar!
Dave tentou falar algo, mas não conseguia pensar em nada para falar. Sua boca abria e fechava, porém, sem produzir nenhum som, nenhuma palavra.
Steve se virou para a tropa e começou a dizer:
-Eu não era íntimo de ninguém aqui, mas sei o bastante que a perda deles não será algo que irá passar com o tempo. -Ele fez uma pausa para respirar, e voltou a falar em um tom de voz mais baixo. -O único falecido que eu tive contato foi o Leon, um cara muito legal ele, e como todos, uma grande perda. Ele dizia que iríamos sair daqui do pântano intactos, se sequer um arranhão, que não tinha com o que se preocupar, e onde ele está agora? Debaixo da terra!
Steve voltou a falar mais alto na última frase, sua perda de controle era visível. Ele se calou um pouco e todos esperavam que ele continuasse, exceto Dave que suava frio de nervosismo.
-Acho que agora já está bom. -Comentou Bruce o puxando para trás.
-Não, só mais uma coisa. -Steve falou. -Acho que eles precisam saber a verdade.
Todos se entreolharam, nada mais fazia sentido.
-Bom, Dave, acho que você deve fazer ideia de que seu erro não começou nessa noite, e sim alguns dias atrás quando você aceitou guiar a tropa, não? -Dave não mexeu um músculo em resposta. — Creio eu que todos aqui já devem fazer um pouco de ideia de que Dave não salvou a aldeia sozinho, certo?
Todos começaram a cochichar e uma grande inquietação tomou conta do ar.
-Isso mesmo! -Gritou. -Dave não é um verdadeiro herói, pois um verdadeiro herói não se esconde da luta. -Steve fitou Dave. -Dave não salvou Colina Nevada, e sim eu e Bruce! Se não fosse nós dois, ninguém estaria aqui hoje!
-Mas eu também ajudei! -Protestou Dave de repente.
-Ah, sim, ajudou. -Concordou Steve. -Mas se não fosse por nós, acha que se sairia bem sozinho?- Novamente silêncio. -Dave, eu poderia falar mais um monte de porcaria para você ainda, mas vou poupar saliva, agora vai, siga em frente, mate o resto deles.
Steve se virou e foi na direção contrária, voltando.
Conforme ele sumia, todos o encaravam partir em um duro e estranho silêncio.
-Vamos continuar. -Pronunciou Dave baixinho.
Os soldados deram uma última olhadas nas lápides e seguiram, desconfortáveis, Dave, deixando para trás apenas Bruce e Nicko que ficaram juntos.
-E agora? -Perguntou Nicko.
-A coisa ficou séria. -Respondeu Bruce indo atrás de Steve.
-Imaginava. -Nicko disse para si mesmo seguindo Bruce.
E lá as lápides ficaram sozinhas, guardando uma lembrança que jamais seria esquecida.
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