Mine
5 Capítulo 05
Capítulo 05
- Kyo-sama... Kyo-sama?
Hibari piscou, erguendo levemente a cabeça. A figura de seu braço direito surgiu diante de seus olhos, lembrando-o que ele havia parado de prestar atenção em seu próprio trabalho. O relatório estava sobre a mesa, mas a caneta em sua mão não se movia.
Há quanto tempo ele estava naquela posição era difícil dizer.
- Desculpe interrompê-lo, mas acredito que seja de seu interesse as novas informações que coletei. — Kusakabe pousou um envelope pardo em frente ao relatório recém-começado do Guardião da Nuvem.
- Algo relevante? — O moreno segurou o envelope. Há dias Tsuna e os demais Guardiões pareciam mais apreensivos do que de costume sobre o assunto.
- Ainda não temos pistas sobre os suspeitos, mas achei melhor comunicá-lo sobre um detalhe importante. As Famílias que podem estar sendo vigiadas são aquelas cujos Chefes tem um excelente relacionamento com o Décimo Vongola. E o primeiro nome nessa lista é o do Chefe dos Cavallone.
Hibari continuou a abrir o envelope, visivelmente indiferente ao comentário. Seu braço direito permaneceu ajoelhado à sua frente, esperando que o relatório fosse lido e pronto para responder qualquer tipo de pergunta que seu Chefe tivesse.
O moreno passou os olhos pelas duas folhas por alguns minutos antes de se manifestar.
- Os herbívoros sabem de tal informação?
- Ainda não. Achei mais viável deixá-lo saber em primeira mão. Acredito que dessa vez você deva ir pessoalmente entregar o relatório, Kyo-sama. O assunto é importante.
Havia certa gentileza nas palavras de Kusakabe, e esse detalhe não passou despercebido pelo Guardião da Nuvem. A resposta foi um simples menear de cabeça, e então ele estava novamente sozinho.
A informação era de certo importante a ponto de fazê-lo ir em pessoa até o escritório do Décimo, mas isso só aconteceria em alguns dias. Hibari pretendia investigar o ocorrido, para então escrever um relatório oficial e que pudesse ser entregue. Se a situação fosse outra, ele teria pegado o telefone e ligado diretamente para a suposta vitima do assédio, lembrando-o de fechar as janelas antes de dormir.
Entretanto, há quase duas semanas o moreno não tinha nenhum tipo de notícia com relação a Dino. Se estava vivo ou não. Se estava em Namimori ou na Itália. O que fazia, onde visitava, com quem andava... Nada. Exatamente como dissera no terraço do Colégio, o louro não o procurou ou entrou em contato durante todo esse tempo.
Os dias de Hibari passaram como se nada tivesse acontecido. Ele continuou com seu trabalho e suas visitas ocasionais. Seus passeios pelo jardim permaneceram os mesmos, assim como as horas que passava na sacada admirando o céu estrelado. Em nenhum momento o Guardião da Nuvem pensou em pegar o telefone e entrar em contato com o italiano. Seus sentimentos permaneciam inalterados, mas havia algo que o impedia de dar qualquer tipo de passo. Fosse para frente ou para trás, tudo o que ele conseguia fazer era permanecer no mesmo lugar.
Chrome o visitou com a mesma frequência durante esse tempo. A Guardiã da Névoa sempre parecia um pouco avoada, mas em sua última visita ao Templo, uma de suas observações chamou a atenção de Hibari. Até aquele momento ele não sabia que suas atitudes pudessem estar sendo observadas, e que alguém além de Dino tivesse a capacidade de dizer se ele encontrava-se ou não em seu estado normal.
- Obrigada pela ajuda, Hibari-san, mas não quero aborrecê-lo com meus problemas. Mesmo sendo trabalho gostaria que se concentrasse um pouco mais em sua própria vida.
As palavras não pareceram fazer muito sentido à primeira vista, e foi somente enquanto caminhava pelo jardim na noite daquele mesmo dia, que o Guardião da Nuvem se deu conta de que elas possuíam um pouco de verdade. Há alguns anos nessa linha de trabalho, o moreno havia se esquecido de certas coisas. E felizmente ou infelizmente, tais pensamentos o levavam diretamente a uma única pessoa. Aquele responsável por uma simples, mas tão significativa promessa.
Dino o fizera prometer anos atrás que ambos jamais deixariam que o trabalho ficasse entre eles. A Família viria sempre em primeiro lugar, mas isso não significava que o que sentiam um pelo outro era inferior, muito pelo contrário. Hibari sabia que alguém como o italiano estaria em uma situação extremamente delicada se tivesse de optar, então se algum momento como esse surgisse, ambos procurariam uma maneira de resolver o assunto sem fazer escolhas.
O Guardião da Nuvem não sabia como se esquecera dessa promessa, e porque ela surgiu em sua mente em um momento como aquele. A ideia partiu do louro, mas ele concordou porque lhe soou viável e benéfico.
Porém, recordando-se da péssima conversa que tiveram no quarto de Hotel, o moreno não tinha motivo algum para ter omitido o trabalho que aceitara de Chrome. Não. O problema não era esse.
Hiabri estava com medo. Não o simples sentimento de temer algo ou alguém, mas sim o medo do desconhecido.
Tudo começou com um beijo sete anos atrás. Os dois rapazes haviam terminado o treino do dia e estavam sentados lado a lado no terraço do Colégio Namimori. O fim de tarde era frio, e o vento que soprava naquela altura era forte o bastante para fazer com que você sentisse vontade de abraçar os próprios braços. Dino retirou uma parte do cachecol de seu pescoço, passando aquele pedaço de lã ao redor do pescoço de Hibari. O gesto pareceu extremamente simples, mas foi responsável por uni-los um pouco mais. A proximidade, o estranho clima que se arrastava entre eles nos últimos dias, a beleza e curiosidade que os olhos cor de mel despertaram no moreno... Milhões de explicações não seriam suficientes para descrever o que o Guardião da Nuvem sentiu quando o italiano o beijou gentilmente. O frio desapareceu. O vento deixou de soprar.
A partir daquele momento Hibari não pertencia mais a si mesmo.
O Chefe dos Cavallone obviamente foi mordido até a morte naquela tarde, mas a vida do moreno nunca mais foi a mesma. Ele lutou o quanto pôde contra os novos sentimentos em seu peito, mas a batalha teria sido perdida cedo ou tarde.
Dino invadiu sua vida e seus dias, transformando-o aos poucos. Hibari mudou não somente na maneira de lutar, mas como pessoa. Sua personalidade recebeu um pouco da doçura e delicadeza de caráter do italiano. Seus gestos e maneiras de se portar pareciam um pouco mais livres e espontâneos. E mesmo que soubesse que essas mudanças haviam sido para a melhor, havia uma parte do Guardião da Nuvem que temia o que pudesse acontecer se ele se perdesse um pouco mais na gentileza do louro.
Era amor. Ele sabia disso. Há anos ele sabia o que aqueles sentimentos significavam, mas a associação que fazia era sempre relacionada a derrota. E essa ideia fez com que Hibari se sentisse acuado naquela noite no Hotel. Explicações e satisfações serviam apenas para dissecar e expor seus sentimentos, e se todos os seus passos fossem conhecidos por Dino o que restaria? Se não houvesse segredos, se o Guardião da Nuvem não fosse a pessoa que era, o Chefe dos Cavallone o teria beijado naquele terraço?
E enquanto encarava o envelope em suas mãos, Hibari abaixou o olhar, ficando de pé e caminhando na direção do quarto. Se Dino era uma das vítimas em potencial, então ele usaria de todos os meios viáveis e inviáveis para descobrir o que estava realmente acontecendo.
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O Guardião da Nuvem passou o dia seguinte coletando informações sobre o assunto. Graças a sua nova força de vontade, vários pequenos grupos de delinquentes foram descobertos agindo em Namimori, e com o excelente humor do moreno nos últimos dias, a surra que tais pessoas receberam foi digna de pena. O nome do homem mais forte de Namimori voltou a circular pelas ruas, chegando até mesmo aos ouvidos do Décimo Vongola.
Tsuna estava em seu escritório naquele fim de tarde quando Hibari anunciou sua presença. O homem de cabelos castanhos demorou a acreditar que aquilo fosse real. Hibari nunca pisava naquele prédio a não ser que o assunto fosse de extrema importância.
- Você parece que viu um fantasma, Sawada Tsunayoshi. — O Guardião da Nuvem tinha um meio sorriso nos lábios. Suas mãos fechavam a maçaneta da porta ao mesmo tempo em que Gokudera Hayato se aproximava um pouco mais de seu precioso Chefe.
- B-Boa Tarde, Hibari-san. — Tsuna não sabia se deveria ficar de pé ou sentar-se naquelas ocasiões.
- O Jyuudaime está ocupado, então seja breve, Hibari — O Guardião da Tempestade não estava feliz. Havia pilhas intermináveis de relatórios que precisavam ser revisados e a última coisa que Tsuna precisava era perder tempo.
- Eu não vim aqui falar com os subordinados. — O moreno não tirou os olhos do Décimo Vongola, ignorando totalmente o homem de cabelos prateados — Eu preciso de uma informação, Sawada Tsunayoshi.
- Sim... — O homem de cabelos castanhos não deixou de encarar os pés de Hibari. Eles se aproximavam cada vez mais, o que era extremamente perigoso.
- O italiano está em Namimori?
A pergunta poderia parecer simples, mas soou de maneira diferente para os presentes. Tanto Tsuna quanto Gokudera pareceram surpresos por ouvi-la, compartilhando a mesma dúvida. Durante todos aqueles anos Hibari era quem sempre sabia por onde Dino andava, então para ouvir tais palavras naquela tarde só poderia significar que algo não estava bem.
O Guardião da Tempestade em especial apertou os olhos verdes, lembrando-se de certas recordações não muito agradáveis.
- Não, e na verdade eu pretendia lhe perguntar a mesma coisa, Hibari-san. — Tsuna pareceu um pouco mais a vontade com a situação. O assunto era de seu interesse e por dias ele andava preocupado com o rumo que as coisas seguiam — Há dias que tento entrar em contato com Dino, mas não consigo. Nem mesmo Romário atende aos telefonemas.
O Guardião da Nuvem permaneceu por alguns segundos encarando o Décimo Vongola. Não havia sinal de que ele mentia, e se existia algo que o moreno aprendera no decorrer dos anos, foi que por mais idiota e inútil que Sawada Tsunayoshi pudesse parecer, ele não mentia.
- Se você tiver alguma informação que possa compartilhar então eu ficarei feliz em recebê-la.
- Não tenho nada. — Hibari rebateu a resposta do Décimo, dando as costas e caminhando na direção da porta. Seus olhos estavam fixos no caminho que teria de percorrer, e por mais que sentisse vontade de morder alguém até a morte, esse alguém infelizmente não era nem Tsuna nem seu patético braço direito.
Ao ganhar o corredor, o Guardião da Nuvem seguiu com passos largos e pesados.
Yamamoto passou ao seu lado e foi ignorado totalmente. Não havia ninguém no campo de visão do moreno, ainda mais quando seu humor estava tão duvidoso. A visita àquele lugar havia sido a última cartada que Hibari poderia ter naquela altura do campeonato. O relatório que Tsuna esperava estava praticamente pronto, mas era preciso checar pela última vez se suas suspeitas tinham realmente alguma base.
A informação recebida do Décimo foi confirmada pelo Guardião da Nuvem. Kusakabe tentou entrar em contato com Romário, mas tudo o que conseguiu foi um rápido aviso de que estavam em algum lugar na América, e que não tinham previsão para retornarem a Namimori ou até mesmo a Itália. Nenhum outro aviso ou recado foi repassado para Hibari. O braço direito dos Cavallone nem ao menos mencionou seu Chefe, fazendo com que o moreno não tivesse notícia alguma além das poucas palavras ditas no meio de uma ligação ruim.
Aquela era a primeira vez que o Guardião da Nuvem não sabia o que deveria fazer. Seu orgulho fora responsável por aquela abrupta separação, e mesmo que conseguisse entrar em contato com o italiano, o que ele realmente faria? O que poderia ser dito e que pudesse melhorar a situação? Por que Dino não conseguia entender que uma atitude como essa não era do feitio de Hibari? Por todos aqueles anos o louro o havia compreendido, então porque a mudança?
Se o Chefe dos Cavallone estava esperando que o moreno tomasse a iniciativa, então os dois não se veriam por algum tempo.
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Hibari entregou o relatório aos Vongola alguns dias após aquela visita. Reborn foi responsável por levar os dados coletados e pela expressão no rosto do Arcobaleno, as notícias realmente não eram muito boas.
Por alguns dias o Guardião da Nuvem não ouviu nenhuma palavra sobre o relatório enviado, mas outra notícia chegou aos seus ouvidos por intermédio de Kusakabe. O braço direito de Hibari comentou displicentemente enquanto seu Chefe passeava pela sacada, admirando o jardim.
Dino estava em Namimori há dois dias. A princípio a novidade o fez apertar os olhos e cerrar os punhos. A vontade de morder o italiano até a morte era colossal, e se por alguma ironia do destino ele tivesse aparecido no campo de visão do Guardião da Nuvem naquele instante, então muito pouco teria sobrado do famoso Chefe da Família Cavallone.
O único problema foi que a raiva deu lugar a outro sentimento com o decorrer do tempo. Hibari passou alguns minutos apoiado na sacada, correndo os olhos pelo jardim e às vezes pelo longo corredor de madeira em que estava. Uma silenciosa espera por alguém que não apareceria.
Quando o vento tornou-se mais frio, lembrando o moreno de que era hora de entrar, uma das mãos do Guardião da Nuvem procurou o aparelho celular que ele sempre carregava dentro do kimono. Uma frase, uma palavra, um cumprimento, a simples respiração do outro lado da linha.
Hibari não se importava com o que receberia desde que viesse de Dino.
Por diversas vezes o Guardião da Nuvem apertou o mesmo número, apenas para ouvir por diversas vezes o toque de espera. O telefone de Romário também não atendia, o que significava que o italiano estava levando um pouco a sério demais aquela distância que já durava semanas.
Só havia uma maneira de entrar em contato diretamente com o idiota louro sem que ele tivesse a chance de declinar a chamada.
- Alô.
O Chefe dos Cavallone atendeu no segundo toque.
A voz levou uma onda de eletricidade pelo corpo de Hibari. A distância fez com que em alguns momentos ele não conseguisse nem ao menos se lembrar de como Dino pronunciava as palavras. Tudo o que ele recordava era do inegável sotaque.
O Guardião da Nuvem ligou diretamente para o Hotel e pediu que sua ligação fosse transferida para o quarto do italiano. Não foi feita nenhuma pergunta, e o próprio gerente garantiu ao "Senhor Hibari Kyouya" que sua ligação seria completada de qualquer maneira. O resultado cantava aos ouvidos do moreno.
- Não acredito que você me fez ligar para o Hotel, Cavallone. — Hibari apertou a grade de madeira da sacada. Era preciso que algo o mantivesse em pé já que aparentemente ele parecia cheio de si, contrastando com o que realmente sentia intimamente — Qual o problema de atender a um simples telefonema?
Houve uma longa hesitação do outro lado, e por um momento o Guardião da Nuvem pensou ter ouvido um longo suspiro.
Quando o italiano finalmente mostrou-se presente, sua voz não soou brincalhona ou aliviada. Havia uma clara relutância em continuar o diálogo ao invés de simplesmente encerrar a ligação.
- Eu disse que não nos falaríamos por algum tempo, Kyouya.
- O seu "algum tempo" é longo demais. — O moreno abaixou os olhos, encarando os pés descalços sobre a madeira. Seu rosto corou levemente com uma simples frase. Era ridículo.
- Então por que está me ligando? Sentiu falta da minha voz? — Havia uma leve ironia nessa pequena sentença.
- Como se alguém fosse sentir sua falta. — Hibari apertou os olhos. Agora era dele a vontade de arremessar o telefone para longe.
- Então qual o motivo? Estou ocupado, então seja breve...
Aquelas palavras surpreenderam o Guardião da Nuvem.
Era a primeira vez que Dino desejava encerrar uma ligação entre eles. Todas as vezes partia de Hibari a iniciativa para terminar a conversa, pois ele sabia que se dependesse do louro, a ligação duraria o tempo suficiente para que o italiano chegasse em pessoa aos seus braços.
- Você ainda está no Hotel? — O moreno perguntou por impulso. Uma parte de si gostaria de ouvir a velha e agradável afirmação de que "Estou a poucos minutos do Templo, por favor, Kyouya, continue falando para que eu me sinta menos sozinho".
- Sim, estou trabalhando. — A voz de Dino pareceu um pouco mais próxima. Talvez ele estivesse realmente ocupado.
- Eu desligarei então. Apenas certifique-se de entrar em contato com os herbívoros. Não quero ser incomodado com assuntos relacionados a você. — O Guardião da Nuvem mordeu o lábio. Ele estava começando a ficar realmente irritado.
- Não se preocupe, Kyouya. — O Chefe dos Cavallone sorriu. O sorriso era quase palpável daquele lado da linha — Nós não temos mais nada em comum. E eu avisarei ao Tsuna e pedirei que não o importune com assuntos a meu respeito. Durma sossegado.
Hibari ouviu o baixo "Boa Noite" ser dito, seguido pelo barulho do fim da ligação.
O telefone permaneceu em seu ouvido por alguns segundos, enquanto ele tentava entender o que acabara de acontecer. A ligação começou a fazer sentido aos poucos, como se fosse difícil para o moreno digerir aquela estranha e significativa conversa. Pela primeira vez na vida o Guardião da Nuvem teve coragem de dar o primeiro passo e tudo o que recebeu foram palavras ríspidas e indiretas que não poderiam ser mais diretas e compreensíveis.
O tempo que Dino mencionara não tinha prazo para terminar. Aquela data foi mencionada como uma desculpa para simplesmente não dizer que ambos não poderiam permanecer mais juntos no relacionamento em que estavam.
Encarando o telefone em suas mãos, Hibari precisou respirar fundo para simplesmente não jogar o aparelho no jardim. Seu corpo deu meia volta e seguiu pelo corredor até seu quarto. A porta foi arrastada atrás de seu corpo e caminhando na direção do banheiro, o moreno foi se despindo até finalmente entrar embaixo do chuveiro morno.
Era preciso esfriar as emoções, pois no dia seguinte, Dino Cavallone seria oficialmente mordido até a morte.
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A vontade de dar uma bela e épica surra no Chefe dos Cavallone foi responsável por tirar Hibari da casa do Templo naquela mesma noite. Tudo o lembrava da figura do louro, e quanto mais tempo passava em seu quarto, mais difícil era ignorar as lembranças que o invadiam. Os incontáveis momentos que ambos passaram sobre aquele futon, as conversas, os barulhos, as risadas do italiano que pareciam ecoar por todo o pequeno espaço, dando vida e enchendo de alegria um local que parecia sempre tão sério e metódico.
A noite estava estrelada e levemente fresca. O verão estava quase no fim, mas ainda não era possível sentir o outono. Setembro definitivamente seria um mês abafado.
O Guardião da Nuvem caminhou com passos vagarosos pelo chão de madeira. Seu kimono negro contrastava totalmente com sua pele pálida, e seu refúgio naquele fim de dia seria um longo passeio por sua propriedade. Era preciso esquecer um pouco o que estava acontecendo. Ou melhor, era preciso esquecer-se de Dino nem que fosse por alguns minutos. Memórias e lembranças eram totalmente desnecessárias quando a pessoa em questão não estava próxima para compartilhá-las.
Entretanto, aquele definitivamente não seria um dos melhores dias para Hibari. Seu passeio acabaria se tornando algo muito além de uma simples caminhada, e ele soube disso no momento em que sentiu um leve cheiro de cigarros vindo de uma parte do Templo. Os olhos negros se apertaram, e como um audacioso predador, o moreno aproximou-se devagar de sua presa, sentindo o coração bater um pouco mais rápido com a ideia de morder alguém até a morte. A surra do Chefe dos Cavallone aconteceria no dia seguinte, mas não havia regra alguma que o impedisse de surrar qualquer outra pessoa nesse pequeno espaço de tempo.
- Você tem coragem de invadir a minha propriedade a essa hora da noite como um meliante, Gokudera Hayato.
O Guardião da Nuvem entreabriu os lábios, deixando que sua voz saísse clara e perfeitamente compreensível. Sua nova companhia estava de costas, sentado em um dos bancos do Templo, e aparentemente até aquele momento não havia se dado conta da presença de Hibari.
- Eu já estava de saída. — Gokudera ficou de pé, encarando o moreno de frente. O Guardião da Nuvem retirou seu par de tonfas de dentro do kimono, antecipando alguma ação naquela noite — E não acho que a sua propriedade inclua esse banco.
- Minha propriedade tem o tamanho que eu queira que ela tenha — Hibari não tinha expressão alguma, mas intimamente ele sorria. Um movimento. Um movimento em falso e ele estaria se dando o direito de morder o braço direito do Décimo até a morte por invadir sua propriedade.
O homem de cabelos prateados apagou o cigarro no cinzeiro que carregava no bolso e encarou o chão, evitando visivelmente um contato direto com o moreno. Gokudera colocou as mãos nos bolsos e deu as costas, afastando-se. Entretanto, assim que o terceiro passo foi dado, o Guardião da Tempestade virou-se levemente. Seus olhos verdes finalmente ergueram-se, e seu rosto possuía uma expressão completamente indiferente.
- Sobre a situação atual você descobriu alguma coisa, Hibari?
- Todas as informações estavam no relatório, acredito que você tenha lido.
O dono do Templo respondeu arisco e sem hesitar. O que era aquilo? Conversa fiada no meio da noite? No seu Templo? Não naquele dia.
A veia na testa do braço direito do Décimo começou a tornar-se visível. Nenhum dos dois parecia muito bem humorado, porém, as coisas não teriam acontecido de outra forma. Os dois homens possuíam personalidades difíceis, complexas e principalmente orgulhosas. Um choque entre eles era basicamente inevitável.
- Você tem entrado em contato com o Haneuma? O Jyuudaime estava preocupado com ele essa manhã. — Ao contrário das respostas anteriores, dessa vez Hibari se deu ao trabalho de virar metade de seu rosto. Seus olhos estavam semicerrados, e por um breve momento o Guardião da Nuvem sentiu-se tentado a continuar aquela estranha conversa. De repente o assunto tornou-se interessante — Ele é seu Tutor afinal de contas.
- Tutor? — A voz do moreno soou levemente irônica — Apenas aqueles que tem algo à ensinar recebem esse nome. Aquele italiano não me ensinou nada. Vocês herbívoros possuem o péssimo hábito de se importarem uns com os outros.
- Certo...
Gokudera respondeu com a voz baixa. Os olhos verdes se apertaram levemente, e havia algo na maneira como eles encaravam Hibari que fez com que o moreno apertasse com um pouco mais de força os tonfas em suas mãos. Aquele não era o melhor momento para falar sobre o Chefe dos Cavallone, embora o motivo principal não fosse exatamente esse. Sua frustração pessoal separava-se do estranho sentimento que se apoderou de seu peito ao ouvir o Guardião da Tempestade falando sobre Dino.
Hibari ainda não conseguia nomear aquele sentimento.
- Você está certo, e acredito que Reborn deveria ter enviado o Haneuma para treinar uma pessoa que desse o valor que ele merece, porque você visivelmente não sabe reconhecer tal coisa. – Gokudera entreabriu os lábios e sua voz saiu direta e grossa.
- Oh, alguém quer ser mordido até a morte esta noite. — O moreno apertou os tonfas com mais força entre seus dedos e sorriu de canto. O mesmo sorriso que ele tinha quando via uma presa fácil diante de seus olhos. As palavras do homem de cabelos prateados doíam em seus ouvidos, e aquele novo sentimento em seu peito parecia sufocá-lo. O Guardião da Nuvem não queria ouvir nenhuma outra pessoa falando sobre o italiano.
- Isso não mudará o fato de que você sabe que estou falando a verdade. Continue afastando a única pessoa que aparentemente importa-se com você e prepare-se para perceber que nem mesmo o idiota do Haneuma aguentou esse seu gênio ruim e essa personalidade distorcida.
Hibari nunca compreenderia porque seu corpo simplesmente não se moveu. Após ouvir aquela parte, a ira do moreno era tão grande que ele até sorria com a antecipação da surra que daria. Entretanto, por mais eufórico que ele estivesse em ter um pouco de ação naquela noite, seus braços e pernas permaneciam paralisados. O poder que aquelas palavras tiveram sobre ele era assustador.
- Um dia você vai acordar em uma manhã e perceber que passou tempo demais esperando. O telefonema que você deveria ter feito, o pedido de desculpas que deveria ter sido dito, ou simplesmente a mínima noção de que você se importava. Pode não ser hoje, amanhã ou nem neste ano, mas quando essa manhã chegar você vai se odiar como nunca se odiou. Porque ao contrário das outras vezes, não vai existir volta. Nada do que você diga ou faça vai mudar a situação.
O braço direito do Décimo fez uma pausa. A maneira como o homem a sua frente não respondia só demonstrava o quanto suas palavras faziam sentido.
- Eu honestamente não dou a mínima para você, Hibari, mas eu falo isso pelo Haneuma. Talvez você consiga o que sempre quis: ficar e manter-se sozinho para sempre. Eu não o vejo em Namimori ultimamente, talvez ele tenha encontrado alguém para treinar na Itália...
O braço esquerdo moveu-se na mesma velocidade com que sua perna direita, impulsionando seu corpo para frente. Seus músculos que até aquele momento pareciam anestesiados ganharam nova vida. O golpe que atingiu Gokudera o fez voar alguns metros, batendo com as costas em uma das árvores do jardim. Os braços do Guardião da Tempestade evitaram que ele recebesse um golpe direto, mas apesar de saber que conseguira se esquivar da pior parte, o homem de cabelos prateados sentiu um pouco da ira de Hibari, e aquilo foi o suficiente para aquela noite.
O Guardião da Nuvem partiu para um segundo ataque, mas Gokudera era rápido. Por alguns minutos a mente do moreno tornou-se branca e ele bloqueou totalmente qualquer imagem ou lembrança que pudessem atrapalhar seu trabalho naquele momento. Tudo o que ele sentia era a incrível vontade de morder o braço direito do Décimo até a morte.
A mortal brincadeira de gato e rato terminou quando o Guardião da Tempestade lançou uma de suas dinamites. A fumaça ofuscou a visão e o olfato de Hibari, e quando o Templo tornou-se claro novamente, não havia sinal de que Gokudera estivera por ali. Não. Aquilo era uma inverdade, pois no momento em que seus tonfas foram abaixados, as palavras do homem de cabelos prateados atingiram a mente do moreno como um golpe certeiro. E então a realização de sua atual situação o pegou desprevenido.
As brigas, a distância, a total falta de comunicação... Dino não estava brincando quando disse que os dois se afastariam por tempo indeterminado. A falha conversa no terraço do Colégio Namimori fora a última cartada do louro, e Hibari havia estragado uma possível chance de reconciliação.
Talvez ele tenha encontrado alguém para treinar na Itália...
Impossível. O Chefe dos Cavallone jamais faria algo dessa natureza. O Guardião da Nuvem conhecia muito bem a dimensão e intensidade dos sentimentos do italiano, e não havia possibilidade de Dino trocá-lo por outra pessoa.
O Guardião da Nuvem ajeitou levemente o kimono, seguindo com passos lentos na direção de sua casa. A distância diminuía, mas o moreno não a percebia. Sua mente estava ocupada demais tentando entender como aquelas palavras o abalaram. Um herbívoro do nível de Gokudera não seria capaz de compreender o que ele estava passando. Porém, não havia explicação para aqueles sentimentos.
Hibari se odiava por se tornar tão fraco a ponto de meia dúzia de palavras o deixarem vulnerável.
Ele não costumava ser dessa maneira. O antigo Guardião da Nuvem — aquele que não tinha nenhum tipo de ligação com o inútil do Décimo Vongola — era um garoto invencível. Nada e nem ninguém conseguiriam deixá-lo daquela forma.
Os anos o enfraqueceram. Dino o enfraqueceu. As palavras, os toques, os olhares e o amor do italiano o mimaram e fizeram com que ele mudasse sem perceber.
Mas como voltar? Como retornar àquele tempo sem perder o presente?
Os pensamentos de Hibari o ocuparam durante todo o caminho. A porta de seu quarto foi arrastada, e deixando o par de tonfas sobre uma mesinha, o Guardião da Nuvem apenas deixou-se cair sobre o futon, afundando o rosto no macio travesseiro. O cheiro de colônia misturado com o leve aroma de baunilha fizeram com que seus olhos se fechassem e seu rosto corasse levemente.
Há semanas ele não sabia o que era ser amado e desejado pelo louro. Seu corpo estava extremamente sensível, e não era um acidente o fato de que Hibari passou a dormir com o travesseiro que pertencia ao Chefe dos Cavallone.
O moreno afundou um pouco mais o rosto no travesseiro, virando levemente o corpo. Uma de suas mãos retirou sem dificuldade a faixa que envolvia seu kimono, enquanto a outra descia de maneira sensual por seu abdômen até seu baixo ventre. Os dedos do Guardião da Nuvem moviam-se devagar, sentindo o membro que envolviam tornar-se ereto, acompanhando a mudança na respiração de Hibari.
Por alguns minutos o quarto encheu-se de gemidos baixos e contidos. E durante todo esse tempo o moreno não sabia o que era mais forte: se o desejo por Dino e a irracional vontade de tê-lo naquele momento. Possuindo-o e forçando-o. Ou a raiva por ter sido o louro o responsável por aquela cena tão depreciativa.
Não havia resposta. Porque independente de qual sentimento fosse mais forte, naquela noite o Guardião da Nuvem continuaria sozinho. A solidão que ele tanto apreciava e amava estava ali, presente e observando-o tocar-se. Porém, era impossível negar que sua presença não era mais necessária. Dino havia lhe roubado até mesmo o gosto pelos momentos solitários.
Não havia como apreciar a solidão quando alguém tão encantador quanto o italiano fazia parte de sua vida. Sim, fazia.
Continua...
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