MinarFic
17 Chatos Treinamentos
–Aquele Dylan ali é bom — Davien comentou para o tutor Warrior, parado ao lado dele. O outro, entretanto, balançou a cabeça.
–Sim, mas acho ele muito arrogante. Você está vendo como ele segura a espada quase que com desdém, pra mostrar ao adversário que é mais forte do que ele?
–Hm... é — o rapaz disse depois de um momento, pensando melhor — Mas... ei, aquele Dlecikorf com a lança! Poderia ser muito útil em um...
–Não, de jeito nenhum — Arroiz o interrompeu, pressentindo o que ele diria — Olha só pra ele. É rápido e tem bom preparo físico, mas olha como os ataques dele puxam pro flanco esquerdo. Ele deve ser canhoto, mas ele deixa uma abertura grande demais no flanco direito. Um espadachim mais experiente poderia aproveitar essa brecha e separar a cabeça do corpo dele quase que com facilidade por esse lado.
Eles estavam na seção Warrior, analisando os cento e oitenta e sete guerreiros que haviam se voluntariado para a guerra. Eram todos maiores de idade e, como era de se esperar, a grande maioria eram homens. A maioria das mulheres parecia não se inclinar muito à arte do combate corpo a corpo, mas as que se apresentavam não eram muito diferentes destes quando se tratava de lutar.
Os combatentes haviam passado por um duro treinamento instituído por Arroiz. Primeiro, nada de lutas: as provas variavam de carregar montes de pedras sobre rios, corridas de obstáculos, fugir de inimigos e testes de resistência. Como era de se esperar, todos eles passaram — a maioria ali havia sido indicada pelo próprio chefe Balrog, mas Arroiz não seria um líder de verdade se não quisesse ver com seus próprios olhos a capacidade de cada um deles. Além disso, ele precisaria saber do que cada um era capaz antes de organizar as estratégias, e para isso ele mesmo precisaria vê-los em ação.
Eram muitos guerreiros, o que iria dificultar bastante a tarefa de identificar as habilidades de cada um, mas o tutor tinha boa memória quando se tratava de analisar combatentes. E além disso, ele sempre tinha Davien com ele, para ajudá-lo a se lembrar de um detalhe ou outro.
Agora, todos eles estavam na arena da seção Warrior, dispostos em pares e lutando entre si. Como havia um número ímpar de pessoas, tinham decidido chamar Amos, da Guarda Oficial(que estava de folga naquele momento).
A arena era circular, com um chão de areia muito simples, e tão grande que comportaria todos os 94 pares de combatentes ao mesmo tempo. Mas como eram apenas dois analisadores, eles haviam decidido colocar cinco pares de cada vez. E graças à magia de Nuck naquela sala, eles podiam usar as armas que estavam acostumados sem se preocupar em ferir os companheiros.
Alguns metros acima da arena, havia um círculo que contornava toda a parede interna do local, como se fosse em um auditório. Lá, Davien e Arroiz se encontravam sentados no parapeito, analisando-os com olhar crítico.
Ao ter seus comentários recusados por duas vezes, Davien deu de ombros.
–Tanto faz — ele disse, indiferente — Você que é o tutor, não eu.
Entretanto, Arroiz não respondeu. Eles estavam tentando separar os "bons" dos "melhores", para formarem uma linha de frente mais efetiva. Ele olhava fixamente as dez pessoas enfrentando-se com determinação abaixo dele. Lia e ponderava cada golpe, cada escapada, cada deslize que algum deles cometia, sempre focando no par que estivesse no momento "de ação" da luta. Sempre que achava algum movimento interessante, fazia uma rápida anotação em um caderninho, já coberto de letras devido às horas que estavam ali.
Como eram cinco lutas ao mesmo tempo, ele não podia se concentrar em uma de cada vez, mas se fossem analisar um de cada vez, o processo seria cinco vezes mais lento. E eles não teriam todo esse tempo. Por isso, embora estivesse apenas parado observando pessoas exercerem a arte que ele tanto adorava, o jovem tutor Warrior começava a sentir o peso do cansaço em seus ombros.
Eles estavam para começar a vigésima rodada de cinco pares quando Ronan chegou.
–Trabalhando muito, eh? — ele cumprimentou com um sorriso. Embora olhasse para Arroiz, foi Davien quem respondeu.
–Mais que você e sua guarda, eu garanto — ele retrucou um pouco direto demais. Ronan não se ofendeu.
–Ei, só vim aqui sugerir uma pausa.
Davien ergueu os olhos.
–Ah, é uma boa sugestão, sim — ele disse com sarcasmo evidente na voz — Mas o nosso tutor aqui é de ferro, por isso que o Nuck escolheu ele... não é, Arroiz?
Ronan suspirou tão profundamente que sua sombrancelha apareceu acima do enorme tapa-olho azul.
–Davien, por favor, poupe-nos do seu sarcasmo — ele disse em um tom de quem não quer discussão — Só estou aqui pra te dar um recado.
–Ah, agora você é mensageiro? Pensei que fosse o poderoso general da guarda ou sei lá o quê...
Arroiz se levantou, olhando para o rapaz com censura.
–Davien — ele disse, a voz cansada porém firme — Não sei o que você tem contra os membros da guarda, nem o que você acha deles. E tampouco me interessa saber. Mas enquanto estiver nessa seção, deve respeitar meus guerreiros como eles merecem, e a menos que tenha motivo, não quero que os insulte de novo. Você entendeu?
Ronan se segurou pra não rir diante da cena. Ele não sabia, mas a cara de espanto de Davien se devia ao fato de que Arroiz acabara de falar exatamente como o líder do fórum falaria. Como não conhecia Nuck tão bem quanto eles, pensou que a estranha reação do guerreiro tinha sido causada por medo, ou até receio do tutor Warrior.
–Eu não insultei ele — Davien se justificou, recuperando-se um pouco tarde demais. Ele exatamente odiava a Guarda Oficial, mas desde que Nuck aprovara a decisão de lutarem de forma independente, ele havia desenvolvido uma certa antipatia dela. Principalmente com Ronan, o general que não se segurava tanto quanto Amaco, que nunca dava bola às alfinetadas do ex-tutor.
–E veja bem, nós não somos seeeeeeeeeus guerreiros, sabe, se é que você me... desculpe — acrescentou com um leve sorriso ao ver o olhar do tutor — Não resisti.
–Então, o que você queria me dizer? — o guerreiro perguntou. Ronan fez uma cara de "Ah!" e se animou.
–Um dos meus lanceiros quer falar com você — ele anunciou. Em seguida, os outros dois arregalaram os olhos: ele olhava para Davien.
–Comigo?
–É, com você. É aquele que usa uma lança estranha, Pineklos, não, Ninkaja...
–Pinaka — Arroiz corrigiu automaticamente("Isso!") — Bom, é que eu vou precisar do Davien aqui um pouco, você pode pedir pra...
–Ah, nada disso — Ronan ergueu a mão, a voz veemente — Cara, você tá trabalhando nisso desde antes da minha folga começar. Descanse um pouco — acrescentou, olhando para o rosto suado e cansado de Arroiz — Vai por mim, vai ser pior se você insistir em analisar alguma coisa estando esgotado desse jeito.
Como antigo general de Perion, o homem sabia muito bem que pessoas cansadas tendiam a cometer erros e a ter a atenção severamente prejudicada, por isso, descansos periódicos poderiam fazer a diferença naquele momento. Se estivesse muito esgotado, o tutor poderia acabar deixando passar algum golpe importante ou calculando mal a maneira de lutar de algum de seus alunos.
E Arroiz sabia disso. Entretanto, ele precisava continuar. Estavam sem tempo, e além disso, eles estavam para receber uma invasão. Quase todo o exército de guerreiros estava sendo treinado por ele, e se ele falhasse, todos eles poderiam morrer...
"E a situação do vilarejo iria se repetir", uma voz em sua mente não parava de atormentá-lo.
–Eu sei disso — o rapaz disse, por fim. Não podia contar o que havia acontecido naquela pequena vila, pelo menos, não naquele momento, então tentou justificar — Mas os Black Wings estão pra invadir. Não temos tempo pra descansar...
–Esse é o problema dos novatos — Ronan cortou propositalmente com certa rudez — Sob pressão, ficam ansiosos e querendo terminar o serviço o mais rápido possível, tentando "ganhar a corrida contra o tempo". Mas é aquele ditado, " a pressa é inimiga da perfeição". E você, mais do que o cabeça oca do seu lado, deveria entender isso.
–Eu sei — Arroiz devolveu impaciente por sob os grunhidos de Davien — Mas agir devagar demais pode me custar problemas no futuro.
–Um homem que agiu depressa demais me custou um olho — ele disse casualmente.
Ficou um certo clima tenso entre os três. Ronan nunca havia contado como perdera o olho. Ao ver o grande guerreiro em ação, todos pensavam que ele o tinha perdido em algum combate heróico e poético, mas aquilo que ele dissera, mais o tom banal com que contava, sugeria que havia sido por mero descuido de um homem, talvez até um companheiro de tropa.
Passado um momento, Ronan colocou a mão no ombro do tutor.
–Cara, é só uns minutinhos de descando, deixa de frescura — ele pediu, abandonando o tom formal — O que tem de mais? Vai ali, toma uma cerveja, não precisa de tudo isso. Você vai ver, vai ser melhor pra você depois... sem falar que também preciso do Davien.
Ele deu um sorriso amarelo ao outro rapaz, que o ignorou. Mas por fim, Arroiz assentiu.
–Tudo bem, talvez eu deva parar um pouco — ele disse, e Ronan assentiu animado.
–Isso, você merece. Se precisar de alguém com quem se animar, só ir ali no bar da Guarda, depois você volta. Enquanto isso, Davien vem tirar a folga dele com meu soldado.
–Você disse que ele usa Pinaka? — ele quis saber, curioso. Ronan deu de ombros.
–Não, eu disse que ele usava Ninkaja. O Arroiz quem disse isso — ele deu uma risadinha e se virou para o rapaz atrás dele. — E por falar nele, não esqueça de pedir permissão pro tutor Warrior antes de sair.
E então voltou a andar para a frente, rindo com o evidente esforço de Davien para esconder a raiva em sua expressão. Ele estava começando a deixar de lado o fato de não ter sido escolhido para tutor, mesmo porque, agora, a obrigação pesada era toda de Arroiz. Ninguém mencionava, mas o rapaz com a polearm gigante agora era apenas um membro comum, se fosse falar a verdade. Mas ninguém consideraria Davien Mascrash um membro comum.
Mesmo assim, piadas como aquela ainda o tiravam do sério... principalmente quando vinham de quem ele menos gostava.
–Uma hora dessas eu tiro essa risadinha besta da sua cara — ele prometeu baixinho, os dentes cerrados.
Eles foram em silêncio em direção à saída para o fórum, Ronan na frente, Davien atrás com sua polearm casualmente atravessada nas costas como se não pesasse nada. Embora ainda estivesse fechado, pelo menos agora ele estava com parte da agitação que deveria ter. Os gritos de guerra, passos pesados na terra e o choque de aço contra aço eram o principal motivo da agitação. E eram causados, obviamente, pela Guarda Oficial do MinarForest.
À medida que se aproximavam, Davien teve que admitir que eles lutavam bem à parte. Embora Ronan tivesse dito que estavam de folga, agora eles estavam atacando Córneos e Tauros em pleno terreno aberto. Não eram monstros de verdade, claro. Eram apenas cópias feitas pra treinamento — mas que chegavam a ser quase tão mortais quanto os originais.
A estratégia deles era algo digno de uma poesia. Ao invés de manter os lanceiros nos flancos e as tropas rápidas no centro, como era esperado, eles mantinham uma massa organizada de espadachins, com lanceiros espalhados em pontos aparentemente aleatórios e os poucos escudeiros nos flancos.
Entretanto, ele sabia que aquilo estava longe de ser aleatório. Como a grande maioria da Guarda era composta de espadachins, eles não podiam se dar ao luxo de usar estratégias convencionais. E ele também não conhecia as habilidades de cada um tão bem quanto Ronan, Amaco ou mesmo qualquer um dos outros trinta e três. Ele não tinha como saber o motivo daquela formação, mas até onde via, ela estava se mostrando muito eficiente.
Eles atacavam um número de Tauros e Córneos que, somados, dava cerca de quatro vezes mais o que tinham. Desde o último ataque, eles tinham começado a treinar contra números sempre mais altos do que eles, sempre em desvantagens de cinco ou seis para um. Como estavam desfalcados de "monstros", tinham que se contentar com o que tinham.
Enquanto observava, um grupo de cinco espadachins perto de Amaco finalizou sete Tauromacis de uma vez, depois se viraram para outros oponentes. Os escudeiros, incubidos de proteger a massa que atacava, desferia golpes mais lentos com suas espadas curtas. A cada segundo, um novo grupo de monstros era derrotado.
"São mesmo muito bons", ele admitiu para si mesmo "Embora uns quatro ou cinco golpes da minha polearm teriam acabado com eles rapidinho."
No flanco esquerdo, ele viu Italo, o garoto da lança azul irregular desintegrando uma estátua de gelo em formato de Córneo. No oposto, ele pôde distinguir claramente o homem que o chamara: o estranho guerreiro da Pinaka.
Como guerreiro, ele conhecia muito bem aquele tipo de lança. Negra, cuja lâmina era uma seta com um brilho vermelho passando por ela, e um círculo dourado no cabo a poucos centímetros da base da lâmina, que servia para conferir equilíbrio adicional à arma. Era extremamente rara, na verdade era a primeira vez que via uma(sem contar a que o próprio chefe Balrog tinha com ele, na sala de armas).
Mas não era a arma rara que impressionava. Aquele homem era, certamente, mais que um lutador nato. Enquanto Davien observava, ele cortou um Tauromacis ao meio com um ataque lateral, em seguida um grupo de Córneos, depois passou para uma cortada em arco por cima de outro. Então, sem aviso, ele virou a lança para o lado, esmagando outro monstro, então virou-a para a esquerda e decapitou outro, depois matou outro, e outro, e mais outro.
Davien já o tinha visto em ação antes, e havia admirado sua rapidez. Mesmo com sua polearm gigante, ele era muito rápido, mas sabia que nunca conseguiria ser tão veloz quanto aquele lanceiro.
Curioso, ele ficou na ponta dos pés para enxergá-lo melhor, tentando ver quem seria esse homem. Tinha ficado tão nervoso com Ronan que não tinha pensado em perguntar quem era o tal homem querendo falar com ele.
Não que isso adiantasse alguma coisa. O homem moreno se movia tão rapidamente que era muito difícil de ser identificado. Ele achou que talvez conhecesse aqueles movimentos, mas não afzia idéia de quem poderia ser.
–Ei, Davien! — chamou uma voz jovem e conhecida. Davien se virou.
–Fui requisitado — Thugles disse animado, apertando a mão do amigo — Por um membro da Guarda Oficial. Sou importante.
–Espera, você quer dizer aquele ali? — ele disse, a testa frazida enquanto apontava o homem de Pinaka. Thugles arregalou os olhos.
–Noooossa, é ele mesmo! — ele disse fingindo estar muto impressionado — O quê, você tá conseguindo ler minha mente? Puxa, isso é incrível! Consegue adivinhar no que estou pensando agora? Hein? Fala! Vai arregar?
Mas Davien já não estava mais escutando. Um lanceiro moreno, que ele e Thugles conheciam...
Ronan chamou o homem, que parou e deixou os outros continuarem a batalha(que não duraria muito mais). Saudando-o, ele procurou por um momento até ver onde os dois amigos estavam, e foi até eles, dando a volta na tropa que estava em plena luta.
Como era pequeno, Thugles não o vira de imediato por causa da confusão de guerreiros, armas, escudos e chifres voadores, mas Davien sim. Ele já tinha uma expressão de desprezo no rosto quando o homem finalmente se aproximou, a lança apontada para cima em uma das mãos.
(A última vez que me pesei medi eu tinha 1,83 )
"Eu sabia", o guerreiro pensou irritado. Havia algo conhecido na forma como ele manejava a lança, no tamanho e na maneira de andar do outro. Mas agora que ele estava ali na frente dele, ele via claramente.
O homem era alto, magro mas com músculos grossos e muito bem desenvolvidos. A pele era muito escura, e o rosto era quadrado e determinado, com um leve toque de humor sarcástico nos olhos. Usava uma barba curta por fazer e tinha os cabelos também curtos. Assim que chegou perto o bastante, sua boca se abriu num sorriso sincero, embora um tanto sarcástico.
–Olá, Dav...
Ele deveria esperar por aquilo mas havia se esquecido completamente. Antes de conseguir sequer completar a frase, ele apenas bufou, e quase deixou cair a lança quando Thugles se lançou sobre ele, apertando-o num abraço forte demais para alguém daquele tamanho.
–Ah... bom te ver também, Thugles — ele cumprimentou, o sorriso momentaneamente sem o toque sarcástico de antes.
–Tecc! — o rapaz disse muito alegre, sem soltar o homem — Ah cara, quanto tempo! Como veio parar aqui, onde esteve? Como...
Ele continuou tagarelando e apertando-o ainda mais. Mas, se ele estava feliz, a expressão de Davien mostrava exatamente o oposto.
–Tecc — Davien repetiu, a voz quase em um rosnado. O lanceiro olhou pra ele e sorriu.
–O quê, não está feliz em me ver? — o homem chamado Tecc perguntou, embora soubesse que o outro sentia tudo, menos felicidade ao vê-lo.
–Hã... não.
Thugles finalmente o soltou, para olhar o rapaz com censura.
–Ah cara, deixa disso. Tem tanto tempo que a gente não vê o Tecc... por falar nisso, foi graças a ele que eu conheci você, que me mostrou o fórum. Não lembra?
Tecc revirou os olhos, rindo ao se lembrar da cena
–Ah, aquele dia no dojo de Mu Lung — ele disse — Se me lembro bem, você estava meio relutante em entrar pro meu clã por causa do nome. Mas depois...
–O que você quer aqui? — Davien o interrompeu, sem cerimônias — Estou meio ocupado no momento, analisando todos aqueles alunos pro exército. Não sou que nem vocês da Guarda que treinam e bebem quando querem, sabe?
–Mentira, quem está analisando é o Arroiz, você só está olhando e fazendo papel de assistente da papelada — Thugles retorquiu, fazendo o homem rir novamente — E a Guarda trabalha muito duro aqui. Aquele dia, eles que seguraram o ataque dos Black...
–Sim, mas se eu estivesse lá, teria dado cinco golpes de polearm e resolvido tudo — o outro disse com firmeza — Mas como eu disse, Tecc, estou ocupado. Podemos ir logo com isso?
–Ah, não se preocupe — Tecc o tranquilizou — É bem rápido. É que minha prima está entrando pra Guarda, sabe, e acho que seria legal apresentar ela pra vocês. Ela luta muito bem — acrescentou, balançando a cabeça.
Thugles escalou Davien como apoio para enxergar melhor a tropa de Guardas.
–Espera, não vejo ninguém que que possa ser sua prima, no meio ali... — ele disse, procurando pelos homens. Davien fungou.
–Eu discordo. Estou vendo trinta e quatro pessoas que se encaixam perfeitamente na qualidade de "prima do Tecc".
O homem estreitou os olhos.
–Veja lá como fala dela — ele avisou, agora já sem paciência. Davien deu de ombros — E ela não está aqui. Está atrás de vocês esperando pra ver quando é que vão se tocar que ela estava aí o tempo todo.
–Hein? Mas o que...
Eles se viraram. E então, ao mesmo tempo, ambos arregalaram os olhos, sem saber o que dizer.
A menina que estava diante deles era jovem, talvez não tivesse mais do que quinze anos, e parecia impossível que ela fizesse parte da Guarda Oficial. Ela não era baixinha, mas também não tinha um físico muito avantajado. Sua postura parecia ter saído de um filme: estava ereta, apoiada casualmente em uma lança cujo cabo tinha exatamente o tamanho da garota, e a lâmina era uma cruz de metal brilhante, com uma fita vermelha amarrada no local onde ela encontra o cabo.
Apesar do que Tecc havia dito, ela não estava vestida para a luta. Além da arma, usava sapatos brancos delicados que não combinavam nada com uma guerra, calças marrons de militar e uma blusa rosa-escuro simples. Os longos cabelos lisos eram castanhos, e estavam soltos, de modo que criavam uma moldura ao redor do seu rosto limpo e pequeno.
Ela era muito bonita, e seu rosto tinha um certo efeito "ambíguo". Seus olhos eram de um amarelo-claro incomum, e quem olhasse para eles diria que ela era uma menina doce e alegre, não uma adversária perigosa. Mas era a expressão dela que criava o efeito. Ela tinha um sorriso bonito, mas muito confiante, e algo nela dava aquela clássica impressão de "não mexa com essa garota, é perig... Baaaka, eu avisei". Além disso, a maneira casual com que ela se apoiava na arma não deixava enganar. Ela sabia usá-la muito bem.
Quem olhasse para ela veria uma menina boa, animada e possivelmente muito delicada, mas ao mesmo tempo firme, decidida corajosa.
–Oi — ela disse simplesmente, então sua expressão se suavizou ainda mais e ela riu, de maneira muito parecida com a do primo, com as expressões abobadas dos dois garotos- Que foi, é a primeira vez que vêem uma menina?
Davien só teve tempo de exclamar "Walita!" antes que Thugles expulsasse todo o ar dos pulmões da garota, de uma maneira muito mais forte da que fizera com Tecc.
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Sem conseguir reprimir um sorriso, Sheddeer baixou o arco.
Ele estava com seus exatos cinquenta alunos no topo de uma colina na floresta Minar, em uma parte bem ao sul do MinarForest. Na verdade, era uma imensa "mancha" no meio da floresta: estavam em uma parte cheia de colinas cobertas por uma rala grama verde, com quase nenhuma árvore ao redor. Da ltura onde estavam, podiam ver uma vasta imensidão de colinas que criavam ondulações, vales, fendas e outros tipos de paisagens, tornando o lugar perfeito para uma fotografia.
E também para se fazer um bom treinamento de atiradores.
Eles estavam ali a pedido do tutor, para treinarem as diversas habilidades que ele considerava indispensáveis para a formação de um bom atirador. Não era a primeira prova que enfrentavam: já tinham passado por exercícios de resistência, paciência(a maioria delas ficar parado e lutando contra o tédio, ao mesmo tempo em que se mantinha alerta e pronto para revidar no caso de alguma coisa acontecer) e até mesmo luta com adagas. Mas só agora estavam começando os exercícios com tiro.
Sheddeer não gostava muito de fazer demonstrações de tiro logo no começo — preferia deixar seus alunos pensarem no que ele era capaz de fazer — mas sentiu que eles ficariam mais confiantes ao verem ele demonstrar as habilidades. Além disso, ele era o mais jovem ali, e seu aluno mais novo era pelo menos cinco anos mais velho do que ele.
Mesmo sabendo que arqueiros e balestreiros não fazem distinção quanto à idade, ele pôde perceber alguns olharem de desconfiança por parte de alguns alunos. Porque Sheddeer não era jovem, mas sim, absurdamente novo. Não parecia ter nem dezesseis anos, e a maioria deles levara pelo menos quinze para desenvolver a habilidade que tinham, isso se começassem a treinar com seis ou sete anos. Não havia como ele ser tão novo e tão experiente.
Entretanto, era o que acontecia. Mesmo tendo visto a demonstração do tutor em Henesys, ele pensou que talvez tivessem acreditado que havia sido um truque. "Ou pura sorte", Sheddeer pensou com amargura. Algumas vezes, o menos experiente dos atiradores poderia acertar o olho de um falcão em movimento a quinhentos metros de distância. Para eles, não existia aquilo de "é impossível um tiro com esses acertar". Eles tinham um pensamento muito simples: "o tiro tem que cair em algum lugar". Se um deles atirasse em uma árvore, por exemplo, quais eram as chances de o tiro acertar exatamente o ponto que acertou, em vez de todos os infinitos outros pontos da árvore? As mesmas de se acertar em qualquer outro, as mesmas de se acertar o olho do falcão.
Para evitar esse "foi por sorte", ele pedira a seis de seus alunos que jogassem maçãs para o alto, e ele tentaria acertá-las. Quando todas as seis estavam no ar, ele começou.
Os cinquenta alunos pareceram prender a respiração enquanto o tutor atirava. Em um momento, as maçãs estavam no ar — no outro, um borrão quase indiscernível as perfurava e levava para longe. Antes que a primeira flecha com ponta de maçã chegasse ao chão, todas as outras cinco já estavam no ar.
Ele esperou para garantir que havia atingido todas, e baixou o arco. Ele havia acertado todas elas no meio — exceto pela penúltima, que ele tinha acertado quase na borda e a flecha a atravessou, fazendo a maçã girar enquanto se despedaçava no ar. Mesmo assim, o resultado tinha sido o esperado. Sem reprimir o sorriso, virou-se para seus alunos, cujas expressões misturavam espanto, surpresa e admiração. Num gesto que ia contra os ensinamentos básicos deles, todas aplaudiram.
–Bem... só pra fazer uma demonstração — Sheddeer deu de ombros, sorrindo modestamente. Ele não se deixava levar pelas habilidades e geralmente não teria sorrido daquela maneira, mas não conseguiu resistir.
Ele estava tentando provar que sua técnica não era "sorte", mas ironicamente, foi uma coincidência ele ter acertado todas aquelas maçãs. Mesmo alguém como ele não poderia acertar seis no ar daquela maneira, ele acabaria acertando uma ou duas de raspão ou até mesmo errando completamente. Mas daquela vez, ele tinha acertado todas, mesmo que fosse por coincidência.
"Ou que minha técnica esteja melhorando", ele pensou, animado.
–Você é bom mesmo — Lance, um arqueiro que havia disputado a seleção ao lado dele, comentou com um sorriso — Não estou muito ressentido com você por ter ganho o cargo de tutor, agora.
Sheddeer sorriu.
–Bem, mas como os inimigos não vão estar caindo assim na nossa frente, eu pedi pro Nuck preparar um treinamento mais realista pra gente. Olhem ali...
Depois disso, acabaria toda a brincadeira e descontração.
O treinamento da seção Archer é sempre o mais "chato" de se contar. A maioria das pessoas acha que a principal função deles é atirar de longe com a maior precisão possível, com aqueles tiros impossíveis que impressionam a todos. Entretanto, se tinha algum professor que pensava dessa maneira, Sheddeer certamente não era um deles — e nem Athena, a instrutora de Henesys.
Os treinos de Sheddeer nunca se resumiam apenas à prática de tiro ao alvo. Ele sabia que ser um Archer era muito mais do que atirar bem — envolvia, além do preparo físico e da habilidade de se mover sem ser notado que só perdia para a seção Thief, uma capacidade racional e perspicácia muito elevada, saber manter o sangue-frio nas horas mais críticas, e ser capaz de lidar com o máximo de potencial possível mesmo nas piores situações. E além disso, os Archers geralmente eram os mais aptos para serem líderes.
E todos os treinos de Sheddeer tinham uma coisa em comum: cansavam a pessoa tanto física quanto mentalmente. Mas eles não tinham muito tempo — e na verdade, o tutor confiava em seus alunos, mas não se sentiria totalmente seguro antes de garantir que eles seriam mesmo capazes de lidar com uma invasão. Era por isso que ele os dividira em cinco grupos de dez, e os mandara espionar um vale cercado por colinas.
Representação tosca das colinas. Elas seguem as descrições a seguir, e estão posicionadas mais ou menos dessa forma(embora sejam mais altas, e o vale, mais profundo).
Baseado nas habilidades e personalidades dos integrantes de cada equipe, Sheddeer mandou que cada uma pegasse uma colina, escolhida por ele. O objetivo seria chegar até o topo e espionar o acampamento inimigo que ele havia projetado lá no vale. Parecia simples, mas na prática, exigia muito mais do que se imaginava. Ainda mais porque aquele não era um exercício possível de acontecer na realidade.
No centro do vale, ficava o acampamento dos inimigos, mas eles não poderiam usar pessoas reais no exercício, mesmo porque elas faltavam. Mas Sheddeer tampouco iria se contentar em deixar seus alunos espionarem alvos de madeira que estivessem no papel de bandidos. Ele era muito perfeccionista principalmente quando se tratava da sua seção. Por isso, Nuck precisou intevir.
Ele não tardou a inventar um método mais prático para a aplicação do treinamento. Em vez de pessoas, o tutor poderia usar bonecos de pano que tinham o mesmo peso e tamanho de um homem e que, animados por uma magia de Donnie, ficariam no acampamento fazendo o papel dos inimigos. Eles não poderiam lutar, obviamente — mas como a missão consistia em espionar sem ser detectado, não haveria necessidade de um oponente capaz de revidar.
E além disso, Nuck havia dado a Sheddeer um controle remoto mágico que permitiria que ele controlasse as tropas à distância. Eram comandos bem básicos, já que eram centenas de bonecos de pano(por exemplo, cada botão do controle era um comando para um certo grupo de bonecos, não sendo possível controlá-los individualmente) mas ele achou que seria suficiente. E uma vez dadas as instruções, os cinco grupos foram até os locais a que foram designados. Estava quase no final da tarde, e logo escureceria e daria a eles a típica vantagem de se espionar no escuro.
O primeiro grupo era composto pelos alunos menos experientes da seção, e embora Sheddeer os tivesse classificado assim, ele estava muito ciente de que alguns deles eram mais capazes do que muitos arqueiros graduados espalhados por aí. Ele poderia ter colocado alguém com mais experiência para balancear, mas achou melhor deixar como estava. Seria útil para ver como se sairiam em uma situação real: cumprindo uma missão sem uma pessoa que tivesse maior experiência, apenas por conta deles mesmos. Apesar de que era impossível encontrar um atirador que pudesse ser considerado "sem experiência" no grupo de Sheddeer.
O segundo grupo havia pego o caminho mais fácil. Enquando o primeiro grupo enfrentava uma colina simples, pouco inclinada e com grama baixa, eles tinham que subir por um caminho muito menos íngreme(embora, por esse motivo, ele fosse mais longo) e limpo.
O terceiro grupo tinha duas das cinco mulheres da seção. Eles estavam passando por uma colina razoável, mas era a mais atingida pela luz do sol, sem falar nos buracos e caminhos onde era preciso "rodear" a colina para achar uma subida mais subível.
O quarto grupo havia pego a pior colina de todas. Árida, inclinada e esburacada como se amassada por um gigante. Havia pontos onde o caminho parecia mais uma parede do que uma colina, e por ficar logo ao lado de onde estava a terceira equipe, era também bem quente, e o chão duro não ajudava em nada para amenizar esse fator. Se as equipes tivessem podido escolher, aquele caminho definitivamente não teria sido o primeiro.
Entretanto, ali se encontravam alguns dos arqueiros mais capazes na opinião de Sheddeer. Cinco deles eram veteranos que passaram a maior parte da vida lidando com montanhas e caminhos escarpados, e havia mais três a quem a própria Athena tinha elogiado a capacidade além do normal.
E, além disso, aquele era o grupo de Lance e Meralon, dois dos finalistas que haviam disputado o cargo de tutor Archer com ele. Nuck estava certo em manter o páreo entre eles: Sheddeer também os considerava excelentes, se não os melhores da seção. E se dava bem com eles: como Lance havia dito, eles não guardavam nenhum ressentimento por terem perdido. Ao contrário de finalistas de outras seções, como Davien quando perdeu a seleção para Warrior e, queira Deus em uma infinita sabedoria, onipotência e misericórdia, a de Fanfic os da seção Archer não ficavam chateados com Sheddeer. Atiradores simplesmente não faziam isso. Eles pensavam que, se perderam uma seleção onde o mais capaz ganharia, era porque a própria pessoa não foi boa o suficiente e que havia um candidato melhor — Sheddeer — na disputa, e aceitavam a derrota com simplicidade.
Sheddeer só lamentava terem perdido Milne, o último dos quatro finalistas da seleção. Ele era conhecido em todo o mundo por seus feitos heróicos e sua habilidade indiscutível com o arco, além de ser muito inteligente e pelo fato de ter salvo inúmeros vilarejos de ataques de monstros, em uma época onde ataques eram mais frequentes. Ele teria sido um membro muito valioso para a equipe, mas Sheddeer não se surpreendeu quando o homem foi procurá-lo anunciando que não iria se inscrever para as aulas da seção Archer.
"Me inscrevi para ensinar", ele dissera, em seu tom de voz sério e um tanto amargo de sempre "Achei que estava na hora de parar com as aventuras e passar o que sei para alunos mais jovens, que possam continuar com o meu trabalho. Mas perder pra você me ensinou que ainda tenho muito a aprender, e que não sou tão bom assim como imaginava... Na verdade, aqueles alunos precisam de um professor competente o bastante quando se trata de ensinar, e não acho que eu me sairia tão bem quanto você. Talvez ainda tenham mais alguns anos de ação esperando em um velho como eu."
Verdade seja dita, Sheddeer tinha ficado muito orgulhoso com o elogio. Ele conhecia vários aprendizes de Milne e sabia que o homem não elogiava facilmente — e quando o fazia, nunca era de forma direta, como agora. E sabia que o homem estava agindo com nobreza, tendo ido procurar o vencedor antes de partir. E Sheddeer sabia que não havia o que lamentar. O que poderia Milne, um arqueiro experiente e treinado como ele, aprender com Sheddeer? Mesmo tendo ganhado a seleção, ele sabia que, se tivessem feito mais provas como aquela, ele não teria se saído tão bem assim. Mas ele seria o tutor de qualquer forma — Nuck, assim como até o próprio Milne, achava que Sheddeer tinha mais aptidão para ensinar.
E por fim, havia o quinto grupo, que tinha pego o caminho mais elaborado. A colina onde estavam era esburacada e com a grama quase da altura de uma pessoa Ei Helena, você é uma pessoa sim. Eu estava me referindo a pessoas de estatura normal... não, não foi o que eu quis dizer! Você também, Anna! Ei, não me olhe assim, Helena é uma personagem da minha... Calma Rock, você já vai aparecer, mas futuramen... Sim Thugles, a grama é mais baixa que você. Pare de sacanagem. Me deixem escrever a fanfic em paz!. Mas pior do que isso, é que a colina parecia mais um pântano do que um... do que uma... foda-se, uma colina.
Por todo lado tinha poças de lama e barro, e havia aquelas áreas onde o chão parecia grama crescendo na terra sólida, mas que, quando pisada," " aparecia e revelava um buraco de um metro de profundidade, cheia de lama — e de pernas de alunos apressadinhos da seção Archer. Na verdade, o tutor havia pedido ajuda de alguns alunos da seção Magician que sabiam usar magias de terra para criar aquele terreno pantanoso na colina. Sheddeer não resistiu e ficou dando uma boa olhada naquele grupo para ver um deles pisar na lama e afundar quase até a cintura. Levaria vários minutos para que os outros conseguissem tirá-lo dali.
Para poder ver como cada um deles se sairia, Sheddeer havia ganho um grupo de doze telas holográficos do tamanho de televisores de sessenta polegadas, dispostos no ar em pares que formavam duas colunas lado a lado com seis telas de altura cada. Cada par mirava em um grupo, e o par restante ficava no acampamento "inimigo". Dessa forma, o arqueiro poderia analisar o desempenho de cada um com clareza, sem precisar sair do lugar.
Apesar da aparente simplicidade da missão, ela levaria mais de três horas para ser concluída. Afinal, aquela não era apenas uma simples missão de espionagem.
O primeiro grupo a chegar no topo teria sido o primeiro, se não fosse pelo controle remoto na mão do tutor. Quando estavam quase chegando, uma tropa inteira de bonecos de pano surgiu patrulhando a região. Os alunos se abaixaram com os ventres encostando na colina e experimentaram a desvantagem de estarem passando por um caminho mais limpo: sem árvores, rochas ou arbustos para se esconderem, eles teriam que ficar parados enquanto a tropa passava. Não poderiam se arriscar a lutar e dar o alarme.
Vez ou outra, Sheddeer mexia em um ou outro comando sempre que achava que algum grupo estava com facilidade demais. Por incrível que pareça, o quarto grupo foi quem mais precisou de intermédio. O tutor acabou descobrindo que a experiência e habilidade daqueles alunos mais experientes compensava, e muito, a desvantagem que era aquele terreno. Mas mesmo eles tiveram problemas em calar um boneco louco que berrava "WHY IS THE RUM GONE?" por medo de que ele alertasse a tropa. Satisfeito, Sheddeer viu que não "mataram" o boneco.
Muito tempo depois, a dificuldade foi aumentando cada vez mais até ficar absurdamente difícil e cansativo realizar a missão. Embora os bonecos de pano fossem inofensivos, Sheddeer queria ver até onde os alunos iriam se segurar para não atirar logo de uma vez e acabar com aquilo logo, mas como esperava, isso não aconteceu. Mas o treinamento não era todo impossível. O arqueiro ocasionalmente deixava algumas brechas na patrulha dos bonecos de pano, mas eles quase nunca as aproveitavam. Vendo que estava sendo rigoroso demais, Sheddeer começou a "dar um pouco de descuido" às tropas de pano, afinal, estava tratando-as como se fossem soldados perfeitos. Estava na hora de surgirem alguns erros mais evidentes por parte dos atacantes.
E, satisfeito, o tutor viu que a grande maioria dos alunos era capaz de identificar uma brecha óbvia e atravessar por ela, chegando a uma parte mais elevada da colina. Também achavam passagens que nem o próprio Sheddeer havia se dado conta de que existiam.
Em geral, ele achou que o desempenho estava bom, ótimo até. Os dois primeiros grupos não tinham muitos lugares para se esconder, mas quando escureceu, eles começaram a usar a habilidade de se camuflar no escuro. O terceiro grupo usou a clássica técnica de distrair os inimigos para que os outros pudessem passar, mas de uma forma bem criativa. Havia duas patrulhas de bonecos na colina onde estavam, e a equipe enviou dois membros para distrair cada patrulha. Curioso para ver como aquilo acabaria, Sheddeer ordenou que seguissem os membros, que fugiram de forma a atrair um grupo de inimigos para perto do outro e, quando eles se encontraram, sumiram na escuridão. Em uma situação real, cada patrulha pensaria que o motivo de distração eram os próprios camaradas da outra patrulha.
"Genial", Sheddeer pensou, enquanto preparava mais uma armadilha para o grupo de Lance com o controle remoto.
Quanto ao quinto grupo, ele nem mexeu nas tropas perto deles. Os aprendizes da seção Magician haviam feito um trabalho bem feito demais, chegando ao ponto de ser exagerado. O pântano era lamacento, fundo e cheio de grama demais para poder ocorrer naturalmente. Mas ele decidiu deixar os alunos se virarem — afinal, uma tropa de inimigos poderia ter magos que realizassem aquele trabalho. E ele ficou satisfeito ao ver que eles não desistiam.
Fato aleatório: Davien já foi candidato à seção Archer.
Quatro horas, e nenhum deles havia sido "descoberto" pelos "inimigos". Já estava bastante escuro, o que dificultaria a visão — mas eles tinham óculos de visão noturna, ou seja, somente os inimigos teriam a visão prejudicada... se não fosse por um pequeno detalhe.
A chuva havia começado fazia dez minutos: fina, de baixa intensidade, quase impossível de sentir.
Vinte minutos depois, desaguou na clássica chuva de floresta: cheia como uma tempestade, pesada e fria sob os alunos sem proteção.
–Agora vai ficar interessante — Sheddeer pensou, olhando para um dos televisores que permitiam visualizar a equipe do pântano.
Eu sei, essa não foi a melhor parte do capítulo. Thugles, seu imbecil, você não precisava concordar comigo.
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A pedra se partiu em milhares de pedaços, sobressaltando até os magos mais experientes.
Não era a primeira vez que viam Gilands em ação, mas ele sempre impressionava. O homem, especializado em magias de terra, era tido como um dos mais fortes da seção Magician.
Como eles precisavam lidar com água, terra, gelo, eletricidade e outros elementos e propriedades, a seção Magician precisava ser dividida em vários setores. Aquela parte era um amplo espaço de quase cinquenta metros quadrados com chão de pedra sólida, coberto por uma fina camada de areia, além de rochas menores espalhadas por toda a área. O objetivo era permitir o máximo de manipulação possível das magias de terra.
Ao invés de usar uma das rochas soltas, entretanto, o alto de cabelos e barba ruiva preferia não gostava de se facilitar tanto assim. Ele poderia ter manipulado uma das pedras, mas preferiu trazer um pedaço diretamente das profundezas da terra, abrindo um buraco no chão que ele logo fechou, sem deixar vestígios de que havia sido aberto — exceto pela enorme esfera de cinco toneladas que pairava no ar. Fechando os olhos e estendendo um punho fechado para a frente, Gilands se concentrou e fez a pedra explodir, espalhando areia por toda a seção.
Iskander aproximou-se dele, sacudindo areia das vestes finas que usava.
–Muito bom. Mas você poderia ter se controlado e deixado pedaços um pouco maiores... — ele aprovou, mas com uma ponta de dúvida na voz.
Gilands ajeitou melhor o casaco marrom sobre o corpo.
–Acho que não — ele disse num sorriso — A última vez que fiz uma rocha explodir em pedaços maiores que um grão de areia... bem, pequeno estabelecimento onde eu estava também se transformou em areia. Prefiro guardar isso só para os inimigos.
Além disso, todos os alunos da seção estavam ali ao redor, e ele não queria correr o risco de algum pedaço de pedra atingí-los. Gilands era forte, mas tinha um sério problema de controle.
Eles estavam treinando uma manobra para destruir vários monstros de uma vez. Esferas de rocha como aquela poderiam ser trazidas da terra no campo de batalha no meio da tropa inimiga, e então, detonadas em pedaços menores que se espalhariam, como estilhaços de uma granada. E aquele era apenas um dos trunfos que a seção Magician estava preparando.
Perto dali, Milena treinava um complicado movimento com um grupo de magos que dominavam magias do ar. Juntos, eles criariam um pilar de fogo que giraria como um redemoinho, atraindo os monstros para o calor mortal em um raio de dez metros. Eles trabalhavam em uma maneira de ampliar a área de atração — e também de controlar melhor a magia. Várias vezes, eles precisavam que um grupo de magos estivesse pronto para agir como bombeiros.
A seção Magician era a maior de todo o fórum, e também a mais central. Ela era um conjunto de construções imensas(cada uma para um determinado elemento), reconhecidas por seu teto muito mais elevado. Todas tinham as paredes externas pintadas de branco e um telhado que as faziam parecer apenas casas altas demais. Do lado de fora, era impossível saber o que acontecia dentro delas. E nenhuma das seções tinha porta, e esse era provavelmente o aspecto mais inovador de toda a seção.
Perto da parede externa de cada construção, havia um portal azul que levava até o interior dela. Eles eram um círculo com o diâmetro um pouco maior de um bambolê, e dele saía uma luz azul um pouco maior do que o tamanho de uma pessoa, e nela era possível ver o interior da construção. Era como se, do lado de fora, houvesse um holograma do interior da construção no portal, e era quase a mesma coisa que olhar através de uma porta aberta. Do outro lado da parede(ou seja, dentro da construção) havia um outro portal, e bastava ficar em cima de um deles para ser teletransportado até o outro lado.
Cada construção era envolta por magia, de modo que isolava completamente tudo o que havia dentro dela. Por exemplo, se uma das casas fosse coberta de gelo por dentro, o frio "não escaparia" para fora. E Nick estava em uma das mais recentes dessas construções.
Assim que pisou ali, o tutor teve a impressão de que acabara de entrar em um vulcão semiativo. A seção era principalmente composta por lava laranja, incrivelmente quente e real, e o chão eram imensas rochas negras lisas que eram como ilhas naquele mar derretido e escaldante.
O lugar era perfeito para eles testar as magias de gelo. Conjurá-las era uma coisa, mas mantê-las no meio daquele calor intenso era outra. E assim que ele fez aparecer a primeira esfera de gelo, uma fresta se abriu na parede(que, por dentro, era da mesma rocha vulcânica que formava o chão, mas por fora dava a impressão de ser de tijolos pintados de branco) e lançou um jato de calor bem na esfera. Pego de surpresa, Nick ergueu a varinha, dando o máximo de si para não deixar o gelo derreter.
Uma hora depois, Nuck apareceu perto dele. O pequeno mago já ofegava, suando em bicas, mas sentindo que seu treinamento estava bom. Ele sabia que os Black Wings, conhecendo o MinarForest como conheciam, enviariam magos de fogo para acabar com o gelo dele. E ao contrário do que se pensava, magias de fogo realmente derretiam magias de gelo. Não havia nada de "gelo mágico inderretível", exceto pelo que A... deixa pra lá.
–Então, como está indo? — o bruxo mais velho perguntou, embora tivesse acompanhado todo o treinamento à distância.
–Melhorando — Nick respondeu, modesto — Não tão bom sem sua bênçao do Sacerdote, claro — acrescentou, pesaroso. Nuck assentiu.
–Vou dá-la a você na hora da batalha de verdade. É uma magia bastante complicada e simplesmente não posso usá-la assim quando quiser. Mas você sempre foi bom, mesmo sem ela.
Nick permitiu-se dar um sorriso cansado.
–E eu estou melhorando — ele disse com orgulho — Você tinha que ter visto! Teve uma onda de calor que veio e tipo, eu congelei ela só com uma mão! Se eles forem usar fogo, eu posso usar a mesma coisa, só que terá ainda mais poder com as duas mãos! E sem falar na sua bênção...
Nuck sorria enquanto o Nick tagarelava. Ele não gostava de admitir, mas sabia que o menino via nele como um exemplo(na verdade, muitos viam) e que adoraria agradá-lo. Por isso ele gostava de contar seus feitos e magias para o experiente bispo. Nuck não reclamava disso, mas também não era bobo. Ele ouvia tudo e assentia com sinceridade, e só elogiava quando Nick realmente merecesse. O que naqueles dias, estava acontecendo quase sempre.
–E como você está indo com os clérigos? — Nick perguntou de repente, pegando o líder de surpresa?
–Hein? Ah... É, estão indo bem. Melhor do que eu esperava, sinceramente. Pensei que não fossem aguentar muito tempo usando magias sagradas, mas eles estão se saindo bem dema...
Ele se calou ao sentir um calafrio percorrer sua espinha, mesmo naquela área tão quente. Na verdade, não era um calafrio, era mais co se um dedo invisíevel estivesse arranhando suas costas.
Nick olhou pra ele.
–O que foi? — pegruntou, desconfiado.
–Um calafrio — ele sorriu, desculpando-se — Acho que não posso ficar muito tempo longe daqueles aprendizes sem saber como estão se saindo. E preciso mesmo voltar pra eles — acrescentou, arqueando as costas desconfortavelmente — Por isso, continue com seu bom treinamento. Eu volto mais tarde pra ver como você está se saindo.
–Pode deixar — tornou Nick, erguendo a mão em despedida. Discretamente, Nuck ergueu o braço em um sinal e, quando a mão invisível de Kleber o segurou, eles se teletransportaram.
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A noite chegava, aos poucos cobrindo o MinarForest com a escuridão misteriosa e selvagem das florestas. O suave cheiro de umidade que acompanhava a ausência do calor do sol podia ser sentido em quase toda a região arborizada.
Um jovem solitário estava ali naquele momento, na borda da floresta. Dois quilômetros a sudeste do MinarForest, a planície de grama baixa começava a dar lugar ao imenso conjunto de árvores densamente arranjadas que era a floresta Minar. Apenas para ele, o cheiro da umidade noturna não estava presente.
Levantando-se, grunhindo com esforço e exalando um forte cheiro de metal lubrificado, Vampiritico olhou para seu último trabalho. Sem muito interesse, conferiu a base, o painel central e o longo mecanismo que segurava o cano e permitiria que a arma girasse em qualquer direção — e apontasse diretamente para qualquer inimigo que surgisse pelo céu. Era mais uma arma antiaérea, programada para atirar em qualquer ameaça Black Wing que passasse por ali. Uma verdadeira obra de engenharia, mas ainda assim, uma não era o bastante para cobrir uma área tão grande como o fórum.
Lembrando que as árvores são bem maiores do que a arma
Ele ainda teria que camuflá-la — tinha decidido montar todas as armas primeiro para depois se preocupar com a camuflagem. Ele estava ali fazia mais de oito horas, e tinha montado dezesseis equipamentos como aquele.
–E esse é apenas um pedacinho da floresta — ele resmungou para si mesmo, ciente do imenso espaço que circundava o fórum.
Ele não teria como proteger toda a área do MinarForest. O fórum em si já era imenso, e "área de alerta" delimitada por Nuck tinha quase dois quilômetros de raio. Seriam necessárias dezenas de milhares de armas antiaéreas como aquelas, se ele quisesse proteger o fórum todo.
Contudo, o objetivo não era circundar o fórum inteiro com aquelas armas, mesmo porque tomaria muito tempo e dinheiro. Vampiritico estava construindo-as apenas na parte sudeste dos limites do fórum, que era a área menos protegida. Assim, eles teriam uma proteção fixa daquele lado, e poderiam concentrar as tropas no noroeste; o ponto mais vulnerável a ataques Black Wings, já que era direção de Edelstein em relação ao MinarForest.
Mas os Black Wings não eram bobos. Para atacar pelo sul, eles precisariam dar uma volta gigantesca ao redor de Ossyria, desembarcar no litoral sul de Minar e percorrer centenas de quilômetros de floresta quase intocada, passando pelos dragões e monstros que viviam por lá. Mesmo assim, ninguém descartava a possibilidade de um ataque de Wyverns por aquela região, já que esses monstros voavam, eram rápidos e estavam localizados mais a oeste da floresta Minar. E não era segredo pra ninguém que os Black Wings possuíam uma base razoavelmente grande nos desfiladeiros do gelo — que, no passado, havia sido território de Horntail, antes de ser derrotado por Duh.
Cansado, Vampiritico verificou seu mapa e foi até um ponto a cerca de cinquenta metros de onde estava a última arma. Ali, estava um círculo com várias peças, molas e gerinçongas necessárias para montar uma arma antiaérea, muito parecido com o que tinha encontrado no local da arma que havia acabado de montar. Naquela manhã, Sheddeer havia estudado a região e selecionado alguns pontos estratégicos para construção das armas, e Davien tinha ajudado a levar as peças para esses lugares. Agora o tutor Fanart vagueava pela floresta à procura desses pontos, onde começaria a construir, já arrependido de ter deixado pra camuflar tudo por último. Agindo dessa maneira, ele teria a ilusão de que o trabalho estava indo mais rápido, afinal, camuflar uma arma como aquela levava vários minutos. Mas agora ele percebia que isso custaria mais no final, quando tivesse acabado de construir todas as armas e se lembrasse de que teria que voltar e camuflar cada uma delas.
Suando, ele separou algumas peças que constituíam a base da arma. Irritado, ele constatou que, embora Sheddeer tivesse organizado perfeitamente as peças por categoria, Davien havia misturado tudo na hora de levar. Ele quase conseguia imaginar o guerreiro naquele momento: indignado por estar sendo usado como burro de carga, levara as peças rapidamente e as largara de qualquer jeito.
Por causa disso, ele teria que desperdiçar ainda mais tempo separando peça por peça, mola por mola, cano por cano. Era uma tarefa automática para alguém que conhecia o equipamento, mas o rapaz já estava ficando cansado. E teria sido bem mais estimulante se tudo estivesse organizado como ele esperava.
–Da próxima vez, dê uma cenoura pro Davien pra ver se ele faz o trabalho com menos má vontade — ele resmungou audivelmente, ciente de que Nuck conseguiria ouvir. O bispo havia distribuído equipamentos de visão e escuta a cada um dos tutores naquele dia, de modo que pudesse analisar claramente o trabalho de cada um.
Mas o rapaz era determinado. Estava disposto a construir aquelas armas, de qualquer maneira. Mesmo assim, ele sentia falta de seus ajudantes. Uns trinta bons mecânicos e eles já teriam cinco vezes mais armas construídas duas horas atrás. Mas nem o próprio Nuck queria correr o risco de algum mecânico ser agente do espião desconhecido que tanto atormentava o fórum. Por isso, Vampiritico achou melhor acabar com as suspeitas e fazer ele mesmo o trabalho. Pelo menos, agora as armas iriam funcionar perfeitamente, e o rapaz não queria correr nenhum risco. Suas armas eram as que mais davam problemas durante ataques, e ele temia ganhar a fama de ser o tutor a quem o espião mais conseguia enganar. E estava determinado a não deixar isso acontecer.
Poderia ter até mesmo um grupo de reconhecimento Black Wing ali mesmo, perto dele. Na verdade, Vampiritico sabia que existia um, porque ele próprio ia, toda semana, pra um acampamento Black Wing que ficava no meio daquela floresta. Havia um grupo de seis homens ali, e era lá que o rapaz relatava suas falsas descobertas sobre o fórum.
Mas nenhum dos seus superiores sabia que ele estava ali na floresta. Com seu boné de invisibilidade, ele se movia furtivamente, e Nuck havia colocado magias temporárias para silenciar o que quer que acontecesse na região onde Vampiritico construía. Magias duradouras eram muito difíceis de serem criadas, mas Nuck, como sempre, era uma exceção. Ninguém, exceto verdadeiros especialistas em magias daquele tipo, conseguiria ver ou ouvir qualquer coisa mesmo que estivesse a dez metros do local de construção da arma. E depois de terminar com tudo, ele passaria com a camuflagem definitiva em cada uma delas.
Quarenta minutos depois, ele terminou. Ele geralmente levaria bem menos tempo, mas como aquele tinha sido um dos últimos pontos que Sheddeer havia marcado no mapa, Davien já devia estar de saco cheio e já estava jogando as peças com bem menos cuidado do que nas vezes anteriores. E o próprio Vampiritico já estava ficando esgotado. Quase dez horas de trabalho, com pausas de poucos minutos entre uma arma e outra, estavam começando a dificultarseu raciocínio. Ele estava tendo dificuldades para encontrar o próximo ponto de construção no mapa quando Nuck apareceu.
–Já chega, Vampy. Você trabalhou muito por hoje — ele disse solenemente. O rapaz deu um sorriso fraco.
–Não vou nem discutir. Estou tão tonto que é capaz de eu programar pra elas atirarem em mim mesmo sem querer.
Nuck permitiu dar um leve sorriso. Vampiritico nem havia se lembrado que ainda tinha que camuflar as armas — sinal de que estava realmente esgotado.
–Aqui, deixa eu ajudar...
O homem fechou os olhos, e segurou a cabeça do tutor com as duas mãos. À medida que ele sussurrava palavras incompreensíveis, a mente do rapaz se desanuviava. Minutos depois, Nuck abriu os olhos.
–Melhor? — ele perguntou sem necessidade.
–Ah... bem melhor — ele agradeceu, fechando os olhos de prazer — Não tem nada melhor do que uma dor de cabeça sarando repentinamente.
Nuck assentiu, descrente.
–Bem, mas você já está muito cansado, e isso só vai parar com uma boa noite de sono. Pode voltar pra seção Fanart e terminar amanhã — ele deu um leve sorriso — E pode deixar que eu as camuflo pra você.
O rapaz arregalou os olhos ao se lembrar.
–Ah, é mesmo! Eu esqueci que...
–Não se preocupe — Nuck ergueu a mão para tranquilizá-lo. Ele sabia o quanto o rapaz era caprichoso com o que fazia, e não gostava de deixar nada pela metade — Eles não vão atacar essa noite, vão? Pode dormir tranquilo. Não vai ficar tão bom quanto você faria, mas eu posso colocar alguma mágica pra elas ficarem invisíveis, só pra garantir.
O rapaz ainda hesitou um pouco, mas finalmente o cansaço o venceu. Realmente, ele não estava em condições de trabalhar depois de tanto tempo. Seria melhor descansar e voltar no dia seguinte, quando estivesse novo em folha e pronto para outra.
–Tem razão, Nuck. Na verdade, não sei nem por que estou reclamando — ele acrescentou num sorriso — Só de pensar em dormir me deixa ainda mais cansado.
Nuck riu, dois segundos antes de as primeiras gotas de chuva começaram a cair sobre os dois, e Vampiritico se sentiu mais que agradecido pela folga merecida. Montar armas como aquelas, cansado e no escuro, era uma coisa — chovendo, era um desafio totalmente diferente. Mas ele não precisava se preocupar com o estado delas já que, obviamente, eram à prova d'água.
–Nesse caso, você não tem mais nada pra fazer aqui. E por falar nisso, você ainda se sente tonto? — ele perguntou de repente.
–Não, sua magia funcionou bem como sempre. Por quê?
–Ah, então tudo bem — Nuck sorriu, revelando um raro momento em que fazia uma brincadeira — Presentium Allegratium!
Como eram apenas dois, não havia necessidade desse tipo de teletransporte. Vampiritico ainda tentou se desvencilhar, mas era tarde demais. Segurando-o pelo braço com firmeza, Nuck aplicou sua efetiva — e extremamente enjoativa — magia de teletransporte coletivo.
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De longe, o MinarForest era um resort de paz e tranquilidade. Quase não se via ninguém andando por ele, e quem olhasse de longe pensaria que se tratava de algum lugar tranquilo e sem nenhum movimento, mas lá dentro, guerreiros treinavam, magos explodiam rochas e, um pouco mais além dos limites, um grupo de arqueiros lutava para subir uma colina lamacenta. Apesar da aparente calma no fórum, por dentro ele estava bastante movimentado.
Era exatamente assim que o mar se comportava naquela tarde.
Quem estivesse em terra veria uma imensidão limpa e azul aparentemente calma, com apenas algumas ondas baixas perturbando a planície da água. Contudo, Thugles e sua tripulação há muito tempo haviam aprendido como o mar poderia ser enganoso.
Apesar da aparência calma, as ondas baixas faziam qualquer navio balançar e sacolejar agudamente, derrubando qualquer pessoa com menos de dois meses de experiência num mar como aquele — que não era o costumeito litoral do norte do MinarForest.
–Vire um pouco mais a estibordo — Thugles dizia para seus aprendizes menos experientes — Nilin, vire a vela um pouco mais pra esquerda, ou o vento vai atrapalhar. Gundar, você... quer parar de brincar com essa corda?
CRAAAC! O menino chamado Gundar caiu no convés, preso por um emaranhado de cordas marrons grossas, mas não havia sido culpa da arte — e sim de uma bala de canhão consideravelmente maior que uma cabeça humana, caída a apenas poucos metros de onde ele estava.
–TODOS OS REMOS A LESTE! — ele berrou, e automaticamente os remadores a bombordo puxaram os remos, fazendo o navio ir naquela direção.
Dentre todos os tutores, o pirata era o único que não precisava de bonecos e seções especiais de treinamento — a região infestada de piratas que era o alto-mar a leste da fronteira de El Nath com o deserto Nihal era mais do que suficiente para ele.
A tripulação voltava para o MinarForest quando foi atacada pelos piratas. O navio teria saído de Ossyria carregado de mercadorias para educação pública de sua seção, quando uma esquadra de barcos surgiu e anunciou o assalto de forma covarde. Os tripulantes do navio resistiram e houve confronto, mas infelizmente metade de sua tripulação saiu com ferimentos leves, tendo dois deles morrido a caminho do hospital. O imediato encontra-se internado, mas passa bem. O comandante do navio disse em nota que... wait, what?
O ex-apresentador de telejornal que estava aqui fazendo um bico como roteirista já foi demitido.
Thugles e sua tripulação estavam na costa de Ossyria, quase na fronteira com o deserto Nihal para negociar um novo carregamento de comida e peças especiais para as armas de Vampiritico. Naturalmente, tudo era contrabandeado, mas não era exatamente roubo. As peças eram fabricadas por piratas especializados, mas de uma forma que atrapalhava a produção de grandes empresas. Entretanto, não era qualquer um que podia comprar coisas pirateadas. Era preciso estar pronto para lidar com os piratas menos honestos — aqueles que, ao invés de negociar um preço muito mais barato do que o que pagariam em empresas normais, preferiam esperar outros fazerem isso para depois pegar deles de graças. Mas é claro que isso nunca acontecia sem luta.
Não tinha dado nem uma hora de viagem, quando o navio foi atacado.
Era uma esquadra de cinco navios. Grandes e com velas escuras, mas bastante deteriorados pelo tempo e pela falta de cuidados. Do convés de Thugles, era possível ver as tripulações: uma variedade de pessoas, brancas e negras, altas e baixas, carregando espadas, machados, pistolas e até bestas. Thugles sorriu perversamente da sua posição no leme.
–Então, pessoal — ele tinha dito para seus aprendizes, espalhados pelo convés. Sua equipe era composta por um grupo de dezesseis remadores, oito de cada lado do navio, e mais um grupo de vinte homens experientes e treinados no mar, sem contar os manjadores dos canhões. Aquela era a tripulação usual de Thugles, mas naquele dia, ela estava acrescentada de quase cinquenta outras pessoas, de jovens a adultos: os aprendizes da seção Pirate — Alguém aqui está com medo de enfrentar uma esquadrilha de cinco navios especiamente treinados?
Ele sorriu ao ver a maioria dando gritos de discordância, e dirigindo vaias aos piratas — e ao ver que um grande número de aprendizes havia recuado, mas ao ver que a tripulação não temia nada, ficaram receosos em demonstrar medo. Ainda sorrindo, Thugles voltou-se para a frente do navio. Tinha certeza que a maioria dos aprendizes — pessoas que adoravam o mar, mas inexperientes naquele assunto — estava morrendo de medo naquele momento. Eram apenas uma pequena embarcação contra cinco navios piratas consideravelmente maiores do que eles. Alguns ali tinham um medo sincero de afundar e nunca mais voltar para casa.
Mas Thugles nada temia daqueles homens. Ele sabia bem o que eram, e como deveria proceder. Virando o leme para ir em direção a um dos navios que se aproximava, ele gritou ordens para prepararem os canhões, e para que os mais novos e inexperientes fossem para dentro, onde era mais seguro assistir à cena. Pouco depois, veio a primeira chuva de balas de canhão.
O navio de Thugles era pequeno em relação à embarcações normais, mas era isso que o diferenciava. Isso fazia com que ele fosse mais rápido e difícil de se acertar, sem falar nas três velas triangulares que ocupavam bastante espaço, mas conferiam velocidade extra ao navio.
O convés era ligeiramente curvo, e tinha um espaço no centro que era mais fundo, onde ficavam os mastros e a porta quadrada que era o alcapão, dando para o interior. Lá dentro tinha bastante espaço, mas a maior parte era composta de cinco imensos compartimentos vazios, que manteriam o navio flutuando mesmo se dois dele ficassem cheios de água. Ao redor deles havia os quartos, depósitos e a parte mais agitada no momento: a sala de armas.
Rapidamente, Thugles ordenou que carregassem os canhões, e preparou o barco para virar na direção do navio mais próximo. Ele não iria hesitar mais, pois não havia dúvidas de que os tripulantes daqueles navios não tinham boas intenções. Sabendo que sua tripulação faria os aprendizes olharem na direção de tiro, ele ordenou os disparos.
Vinte e cinco tiros de canhão, quase perfeitamente sincronizados, fizeram-se ouvir no meio daquele mar enganosamente calmo. O barulho era ensurdecedor, mas a maioria dos aprendizes não teve problema com isso. A primeira coisa que muitos deles fizeram questão de entender assim que as aulas começaram tinha sido o funcionamento dos canhões. Por isso, eles simplesmente observavam, curiosos e através das escotilhas, as pesadas balas viajarem pelo ar.
O navio a qual elas foram direcionadas pareceu gemer de surpresa com os disparos. A distância entre eles era de mais de quatrocentos metros — grande demais para qualquer canhão que eles conhecessem, portanto, não esperavam tiros tão cedo. Tanto que o navio inimigo ainda estava virado de frente para eles.
Mas Thugles, obviamente, iria querer ter os canhões mais potentes e de melhor alcance. Ele havia reunido técnicas de várias regiões para incrementá-los, e utilizado as melhores maneiras em diferentes aspectos: material, diâmetro, peso da bala, tipo de pólvora... tudo havia sido planejado da maneira mais eficaz. O maior problema era a mira.
Navios, sejam eles oficiais ou piratas, sempre precisavam de pessoas especializadas no uso dos canhões. Caso contrário, eles não acertariam, ou então precisariam chegar perto demais para atacar. E nenhum capitão aprovaria isso. Era por isso que vários de seus tripulantes eram especializadam nesse quesito. Eles miravam o alvo com o canhão já carregado em movimentos automáticos. Calculavam a inclinação, avaliavam a distância, ajustavam um pouquinho por causa da força do vento... e disparavam.
O processo lembrava muito a técnica dos arqueiros: quando questionados sobre como sabem exatamente a que inclinação devem levantar o arco(ou o canhão), por exemplo, eles nunca sabem responder. Faz parte de anos de prática, milhares de erros e de conveses destruídos — e o daquele navio pirata acabou se tornando um desses.
Ouviram-se gritos vindo do interior do navio de Thugles quando todos os aprendizes gritaram surpresos, comemorando e vaiando, embora a maioria não conseguisse acreditar no que estava vendo.
Das 25 balas disparadas, dezoito atingiram o navio. Chocaram-se contra o convés, quebraram o mastro principal e rasgaram velas. Não haveria chance de que tentassem algum ataque: era mais provável que afundasse, no estado em que se encontrava. Mas o capitão sabia que eles ainda seriam capazes de repará-lo e retornar à terra.
Vendo o infeliz destino dos camaradas, os outros quatro se apressaram a encurralar o pequeno navio que ousou revidá-los. Thugles sabia o que fariam: iriam cercá-lo com os quatro navios restantes, para então disparar todos os canhões sobre o navio, quase destruindo-o em segundos. Era uma estratégia simples e muito usada por esquadras piratas — e era aí que o navio do tutor mostrava suas vantagens.
Sendo mais rápido e com canhões de maior alcance, ele conseguia driblar as embarcações inimigas, e então escolhia uma e atacava à distância. Ele agia como uma mosca ao redor de um grupo de tigres: circundava-os com sua mobilidade, e então atacava-os repentinamente. Embora os danos da comparação não sejam muito fiéis.
–Então, quem vai ser o próximo? — Thugles berrou, alucinado. Rindo para ele, as tripulações apontaram para um outro navio, particularmente mais zombeteiro que os demais, e o capitão virou o leme naquela direção. Quando ficaram com os canhões a estibordo apontados para eles, ele ordenou mais disparos.
Dessa vez, a grande maioria acertou dos tiros acertou a água, mas o navio ficou quase tão danificado quanto o primeiro. Os gritos e as vaias encobriam o som dos disparos, e logo os canhões estavam sendo recarregados novamente. E a pequena embarcação voltava a girar lentamente, na direção do próximo navio.
Depois disso, a hesitação tomou conta dos inimigos. Ver dois deles sendo destroçados com aquela facilidade, por aquele navio minúsculo antes mesmo de chegar ao alcance dos próprios canhões era algo extretamente desencorajador. E além disso, Thugles sabia que aqueles eram apenas piratas comuns de beira de praia. Eles esperavam navios mercantes sair e então atacavam, convictos de que, ao se ver encurralado, o navio se entregaria e permitiria que eles levassem o que quisessem.
E bandidos assim nunca se preocupavam muito com seus navios. Eram feitos de madeira dura para resistir a danos, mas eram construídos rapidamente para não custar muito dinheiro. Era caro produzir um navio decente, e piratas que travariam batalhas de canhão simplesmente não podiam se dar ao luxo de comprar as melhores madeiras apenas para vê-las destruídas. Em comparação com o estiloso navio de Thugles, feito de madeira resistente e cuidadosamente montada, os deles pareciam barcos velhos e cheios de rachaduras, o que chegava a dar-lhes uma aparência de barco mal-assombrado. Era muito mais fácil e barato comprar materiais inferiores e confiar na força dos vários canhões.
E também havia o fato de que, enquanto aqueles homens tinham apenas a intenção de roubar, Thugles realmente gostava de navegar. Eles pensavam no dinheiro, enquanto o tutor tinha o verdadeiro prazer de estar no mar. Aqueles homens não levavam aquilo a sério como ele e sua tripulação levava.
O terceiro navio levou quase todos os vinte e cinco tiros. Um pouco desapontado, Thugles teve certeza de que alguns dos piratas morreram com as balas e a madeira que desabou quando o convés simplesmente cedeu, levando tudo para o interior do navio. Certamente, ele iria afundar. Mas como eram ladrões, certamente teriam caixas para estocar os produtos, e os sobreviventes poderiam usá-las para flutuar no mar.
Aquilo foi demais para eles. Piratas podiam ser cruéis e não muito inteligentes, mas não eram totalmente imprudentes. Três navios derrubados — um prestes a naufragar — e a pequena embarcação não havia sofrido um só arranhão. Vendo que não teriam como chegar a uma distância próxima o bastante para poderem atirar, os últimos piratas gritaram e apressaram-se a fugir, tentando desesperadamente virar os navios para longe.
Todos no barco de Thugles gritaram e comemoraram, dando vivas e atirando pedras inutilmente em direção aos dois que se afastavam no horizonte.
–Ei cara, vamos voltar — disse um dos tripulantes, colocando a mão no ombro do capitão — Já demos uma lição neles. Precisamos chegar no fórum a tempo.
Thugles o olhou por um momento, e o homem manteve o olhar firme. Os olhos do capitão estavam muito abertos, a boca aberta num meio sorriso que mais parecia um ranger de dentes na expressão que o homem conhecia muito bem. Thugles não era muito atraído por combates em terra, mas quando estava lutando no mar, sua expressão mudava. Alguns diziam que ele enlouquecia, e os piratas que chegavam perto demais e o viam apenas em combate tinham certeza do fato.
Ele ficou tentado a voltar e acabar com o resto dos piratas. Ele sabia que, mesmo sendo apenas dois navios, eles ainda poderiam — ou melhor, iriam– atacar outros navios, mesmo que apenas depois de se certificarem de que era realmente um navio mercante. Mas foi apenas por um momento. Logo ele se lembrou de por que estava ali, e do outro motivo pelo qual Nuck queria um navio veloz.
–Você tem razão — ele disse por fim, a expressão mais tranquila — Mande ajeitarem as velas a estibordo... e desfaça aquele nó no cordame, pelo amor de Deus.
O homem riu e saiu para cumprir as ordens recebidas. Mesmo estando em missões para o fórum, o capitão permitia que seus aprendizes mexessem no navio e organizassem tarefas de pessoas mais experientes, o que acabava criando confusão na seção que já era a mais badernada de todoas. Mas isso permitia que eles errassem e aprendessem com os erros, de uma maneira muito mais eficiente do que qualquer palestra.
O resto da viagem transcorreu sem muitos problemas. Vez ou outra, encontraram um navio igualmente pirata — mas esses ou não demonstraram interesse ou eram conhecidos do tutor. Em poucas horas, estavam de volta ao porto da seção Pirate.
–Ah... nada como voltar pra casa — ele disse enquanto descia preguiçosamente para a praia — Escuta, por que algum de vocês não vai lá avisar o Nuck que chegamos com os bangs que ele pediu? Porque eu estou doido pra dormir.
E ele estava mesmo indo em direção ao seu quarto pessoal na seção, quando uma mão forte agarrou seu ombro.
–Bem, isso vai ter que esperar — disse uma voz grave e decidida. Thugles virou-se e, surpreso, deu de cara com Ronan, da Guarda Oficial — Tem um cara lá na minha tropa que está querendo ver você e Davien. E ele me pediu pra não dizer o nome dele, ele quer fazer surpresa e... ops, acho que eu não devia dizer isso.
Thugles devolveu o sorriso brincalhão do homem e deu de ombros.
–Bom, por que não? Acho que posso perder parte da minha soneca pra ver um velho amigo, seja ele quem for.
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Oh, where was I?
Ofegando, Nuck finalmente entregou os pontos — era mais parecido com Davien do que imaginava.
Não que ele esperasse obter sucesso, de fato.
Ele estava na seção hospitalar, que nunca era das mais visitadas(não que alguém reclamasse). Como o fórum não era realmente um lugar perigoso(onde nem as mais perigosas lutas na seção Warrior são mortais de verdade, por causa da magia do mago) quase ninguém aparecia por ali, exceto por cortes e arranhões ocasionais ou acessos de febre, por exemplo, mas nada sério. Por isso, ele deixava os aprendizes de clérigo tomando conta do lugar, já que uma aula prática era a mais efetiva de todas. E já que o fórum estava fechado, a seção estava ainda mais vazia — exceto pelo membro recordista em horas passadas naquele lugar.
O único paciente da seção hospitalar era alto, forte e de meia idade. Sua expressão permanecia séria enquanto mesmo ele ressonava tranquilamente, quase como se estivesse dormindo... embora já estivesse assim havia vários dias.
Desde o dia em que desmaiara depois da sua entrada triunfal que salvou o MinarForest, Duh havia permanecido da mesma maneira. Continuava profundamente adormecido, sem nem sequer se mexer da posição em que se encontrava: ereto, com os braços ao lado do corpo como um soldado em posição de sentido. Sua lança encontrava-se apoiada ao lado da cama e a armadura, no corpo. O líder do MinarForest simplesmente achou mais digno deixá-lo em sua vestimente de batalha, da mesma forma que caíra.
Porque aquele era Duh (cara, quando for mandar a ficha de alguém poderoso, invente um nome mais legal porque... puta que pariu, o grande e poderoso DÂ DA MONTANHA, DEFENSOR DOS FRACOS E OPRIMIDOS, DÛH, O SALVADOR VITALÍCIO DO MINARFOREST! VIVA UDÂ!!!!!!!!!!!!!), e não seria bom que ele ficasse ali com roupas brancas de hospital. Na verdade, ele não era apenas um guerreiro poderoso, mas sim, uma lenda conhecida mundialmente.
Para começar, ele nascera em Leafre e havia sido treinado pelo próprio Mihile, o Cygnus da Luz — e essa era a informação mais concreta que tinham sobre ele. O resto eram relatos, boatos e especulações, como o fato de que ele tinha cem mil dragões em sua alma, ou que poderia derrotar dez milhões de guerreiros com uma das mãos amarradas. Claro que a maioria eram exageros, mas ele não tinha essa reputação à toa.
Ainda que as pessoas exagerassem bastante nas histórias, Duh realmente colecionava várias façanhas. Um de seus mais grandes feitos foi, sozinho, matar Horntail, o monstro que aterrorizava os desfiladeiros gelados da Caverna da Vida, a oeste da Floresta Minar. E com isso, os monstros criados pela criatura pararam de surgir. Foi graças a ele que vilas pararam de ser atacadas e que a vida pudesse continuar como estava.
Tinha sido graças a esse feito que aquele era um lugar seguro para a construção do MinarForest... pelo menos, no que se referia a ataques extra[Black Wings].
Agora ele estava ali, deitado em uma cama, recuperando-se do que quer que tivesse acontecido. "Qual é o problema com ele?", Nuck não parara de se perguntar, preocupado.
Ele ainda se lembrava de quando ele entrara no fórum, indo falar diretamente com o próprio líder. Ele tinha como o guerreiro estava cansado e debilitado, e quando ele contou o que tinha acontecido... Nuck achou que poderia ajudar. Que depois de segurar os Black Wings, poderia voltar e resolver um jeito de curá-lo.
Mas ele havia demorado demais. E o próprio Duh precisou ajudar na invasão, esgotando as últimas resevas de força que tinha. E além disso...
-Ele está morrendo — Kleber comentou, um tantinho preocupado.
Nuck se virou para encará-lo.
-Você não está nem aí, não é mesmo? — retorquiu ele, os punhos cerrados de raiva e frustração. Queria muito ajudar Duh, e além disso, ele seria uma imensa ajuda para conter a invasão ao fórum. Mas teriam de se contentar em lutar sem ele.
Kleber deu de ombros.
-Bem, ele não fez muita coisa pra mim, além de manejar essa lança pra lá e pra cá salvando as pessoinhas, mas não é que eu não me preocupo. Ele simplesmente não me faria nenhuma falta.
-Ninguém te faria falta.
-Ah, que isso, não seja tão duro comigo — ele sorriu, alisando os cabelos embaralhados — Eu me preocupo com algumas pessoas, sim. Por que acha que eu vim aqui te entregar esse vidro sangue?
Nuck não respondeu. Olhava para o tubo de metal ligado à veia do guerreiro por um cano de hospital. Ao redor dele, quatro pedras verdes de magia curativa flutuavam, transmitindo seu poder a ele. Era o equipamento de cura mais poderoso da região.
Entretanto, aqui não era o suficiente. O sangue no tubo de metal não era humano, mas draconiano. Parte das lendas sobre as almas de dragões eram reais: ele tinha, realmente, algum sangue de dragão nas veias. Mas seu corpo não produzia aquele sangue assim. Se ficasse ali dormindo, logo morreria.
Por isso, Nuck estava mandando Kleber coletar sangue de dragão para ele. No início, não era muito difícil: bastava matar alguns Wyverns ou outros levemente mais perigosos. Mas não demorou muito até o corpo do homem exigir algo mais potente.
-Você não pode pegar mais sangue de Leviathan? — Nuck indagou, preocupado. Kleber sacudiu a cabeça.
-Não, e eu tentei. Quer dizer... eu sou o cara, mas mesmo eu não consigo matar um Leviathan sozinho. Extrair o sangue dele enquanto ele dormia foi fácil, mas não posso me arriscar a pegar mais, ou ele daria falta.
Nuck assentiu, pesaroso.
-Então não tem jeito — ele disse, pondo uma mão em cada lado da cama de Duh — Vou ter que pedir aos tutores.
Como esperava, Kleber riu.
-Tem certeza? Quer dizer, e se os Black Wings voltarem? Eles sempre acabam sabendo quando eles saem, de um jeito ou de outro...
-Sabe — Nuck disse devagar, virando-se para ficar cara a cara com o amigo — Eu não entendo. Se você é tão bom assim, por que não descobre logo quem é esse espião?
-Você nunca disse que queria que eu fizesse isso...
-Ah, vá se ferrar — disse Nuck já sem paciência, voltando-se para o guerreiro deitado. Kleber riu novamente.
-Talvez eu tenha visto alguém suspeito aqui por aí um dia desses... — ele começou, mas Nuck nem se deu ao trabalho de se virar — Tudo bem, eu não vi quem era. Vou admitir, esse espião sabe mesmo como se esconder.
-Melhor do que você?
-Ah, não — disse o outro, muito seguro de si — Ou teria feito alguma coisa ao perceber minha presença. E eu sou o melhor em se esconder, mas isso não quer dizer que eu saiba impedir as outras pessoas de fazerem isso. Esse cara é bom, também.
-É alguém de quem eu jamais suspeitaria — Nuck confessou num suspiro — Tenho certeza de que não é um membro que eu tenha visto apenas uma vez.
Ele disse isso porque, a cada membro que se registrava, era o próprio Nuck quem criava o registro e dava as primeiras instruções sobre o fórum. Obviamente, ele não sabia os nomes de todos, mas já tinha falado com cada um dos milhares de membros que acessavam o fórum todos os dias.
Kleber deu de ombros.
-Bem, se algum dia eu ver ele por aí, aviso a você — ele disse sem se importar — Preciso de uma boa folga por todo esse trabalho. Até mais.
E dando um tapinha nas costas de Nuck(que nem se dera ao trabalho de responder), ele se retirou.
Verdade seja dita, o rapaz o irritava. Apesar de ser um amigo muito próximo, havia momentos que ele realmente perdia a paciência com ele. O poderoso mago sabia que Kleber não tinha praticamente nenhuma dificuldade em extrair o sangue de um dragão adormecido sem ser notado, e que esse "trabalho" era apenas uma desculpa. Mas aquela era uma parte da arrogância dele que não adiantava discutir — mesmo porque, apesar de tudo o que ele dissesse, ele nunca deixava de ajudá-lo quando Nuck pedia.
-Não tem jeito mesmo — ele disse para o guerreiro adormecido. Em seguida olhou para o tubo de sangue, que se esgotava — Vou ter que mandá-los para o segundo lugar mais perigoso da floresta, enfrentar Manon e Griffey.
Mas, como Duh havia derrotado Horntail, isso significava que o lugar pra onde eles iriam era definitivamente o mais perigoso de toda a floresta. Não que esse fosse um pensamento muito positivo.
"Embora", Nuck não conseguiu deixar de pensar, com ironia, "Provavelmente o lugar mais perigoso da floresta, nesse momento, seja aqui mesmo no fórum".
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