Kagome acordou assim que o sol desabrochava seus primeiro raios, com a lua ainda no céu. Vestiu um vestido branco como as nuvens e lindo como o dos anjos, porém simples, pois tinha noção que o resto do dia seria de diversão e a ânsia que permanecera com ela desde a noite passada a tomava de tal forma que o controle lhe fugia das pequenas mãozinhas e o coração batia forte.

O manhã no castelo foi tumultuada, o café foi tomado com pressa, os, principalmente pelas crianças que partiram cedo para os campos para brincar, já os convidados passariam o dia como uma continuação do anterior: ao piano cantando óperas ou jogando ao ar livre. Inuyasha e Kagome foram os primeiros a sair. Sua amizade crescia a cada dia mais, se aventuravam pela relva, pelas árvores e pelo córregos conhecendo segredos só pertencente aos dois. Depois de correrem por todo um caminho sinuoso que do castelo ia pras florestas, se deitaram na mata fresca de mãos dadas. Sorriram um para o outro com a inocência de crianças:

— Sabe Inuyasha – falou a menina docemente – eu gostei muito de conhecê-lo.

— Eu também Kagome. Falou corando.

O embaraço foi logo cortado pela imagem do amigos que se aproximavam rindo e brincando; logo uma roda foi feita, roda que só de desfaria quando o sereno obrigasse.

Kikyo foi a ultima a chegar. Acordara tarde e ainda passara um tempo com seus pais, que pareciam agora meros conhecidos pela frequência em que se viam. Ao sentar na roda percebeu mais uma vez, com desconforto, a proximidade entre a irmã e Inuyasha, além disse sentiu que os assuntos ali debatidos e as pessoas que ali estavam não combinavam com ela, pior, a ignoravam, nem seus melhores amigos pareciam notar sua presença. Logo surgiu o desconforto na menina que a obrigou a se levantar e sair. Kikyo tinha sido a filha mais esperada de todo o reinado, fora mimada mais do que as outras irmãs e por esse motivo não aguentou quando ao chegar na pequena roda infantil, os olhos não se voltaram – como sempre acontecia – para ela.

Correu pelo vale e logo até achar um esconderijo longe dos outros, a mãe natureza acolheu com amor sua filha machucada e lhe ofereceu um lugar calmo; assim, a mocinha achou uma gruta onde seu pequeno corpo cabia perfeitamente, rodeada de flores e perto de um lindo córrego a o que ela acreditou ser milhas de distância do castelo e dos amigos.

Solidão. De certa forma a sentia, mas ao invés da raiva e da tristeza que sentia nas outras vezes, Kikyo não estava realmente se importando com a sua aceitação no grupo, no final das contas, a menininha sempre se sentira deslocada daquelas pessoas. Inuyasha e a irmã, seus melhores amigos, pareciam compartilhar de um segredo mútuo o qual Kikyo não entendia, muito menos os outros.

Imersa em sua meditações e pronta para começar a escrever, um dos hábitos que mais lhe dava prazer, a menina percebeu uma agitação nos arbustos perto de onde estava:

— Quem está aí? Perguntou nervosa.

Um menino saiu detrás do colorido das flores; vestia-se de forma simples mas muito elegante: A blusa era feita de lã tingida de uma cor púrpura, as mangas eram longas e a gola – que se abria no preito, revelando a pele alva do menino – era longa batendo nas orelhas. Kikyo percebeu que já conhecia o seu anfitrião; o cabelo outrora emaranhado agora caía em ondas como uma cascata negra pelas costas, a pela que antes estava embaçada pelo carvão agora se mostrava clara como uma porcelana. O menino lentamente se aproximou e, ao desconhecer qualquer sinal de resistência da outra parte, sentou-se ao lado da princesa em silêncio. Ficaram assim durante um tempo, Kikyo até mesmo se esquecera do caderninho que havia trazido e resolvida a quebrar o gelo iniciou:

— Seu nome é Naraku não é?

O menino se limitou a balançar a cabeça em afirmativa e depois a conversa caiu em pleno silêncio de novo. Antes de tentar novamente uma aproximação, foi ele quem lhe perguntou algo:

— Por que está aqui sozinha?

Kikyo sentiu-se embaraçada ao lembrar do motivo que a isolava dos outros colegas, seu olhos baixaram com certa tristeza e seus lábios travaram ao dar a respostas. Se limitou então a baixar a cabeça e não dar uma resposta mas os olhos do menino pareciam de fogo cravando no seu rosto e a obrigavam a falar algo.

— Queria ficar um tempo sozinha, só. Falou aborrecidamente.

O menino, vendo a mágoa no rosto da princesa se sentiu instantaneamente mal e com um pulo rápido se levantou das pedras e propôs timidamente um passeio a cavalo. Kikyo ficou um tanto estagnada com a proposta e depois de ponderar um pouco, sentindo o conselho que o vento dava, aceitou. O dia para os dois se passou como se fosse uma hora. Apesar da taciturnidade do rapaz a menina apreciou cada minuto de sua companhia, e quando se separaram, no final do dia, assistidos pelo crepúsculo, mal podiam aguentar a ansiedade de se verem de novo. Isso tudo não se passou despercebido pelo Rei, que olhava os dois jovens com aparente satisfação, mas no fundo preocupação.

Os dias seguintes se passaram rapidamente e parecidos. A cada manha o sol parecia embelezar ainda mais os campos verdes, os pássaros pareciam cantar mais alto do que nunca e o riacho era de uma pureza sacra. Dentro do castelo a rotina não era muito diferente: Os convidados continuavam o seu sarau regado a bebidas finas e roupas caras acompanhados pelo Rei, sua Rainha e o senhor Taisho, os principais anfitriões. Entre as crianças a amizade só crescia mais e mais; Kikyo e Naraku passavam os dias todos juntos andando a cavalo, às vezes até saíam das terras do reinado como se pretendessem fugir para sempre. As outras crianças todos os dias arranjavam uma brincadeira diferente e o grupo parecia apreciar com carinho a companhia uns dos outros.

Certo dia a brincadeira era esconde-esconde. Miroku e Sango tinham sido sorteados para contarem e procurarem os outros, e assim que começaram cara um correu para um lugar diferente: Sesshomaru e Rin subiram até o salão dos castelos e lá ficaram debaixo de uma das mesas rindo alegremente esperando não serem pegos tão cedo: Apreciavam a companhia um do outros e de vez em quando, quando a conversa acabava, coravam e tratavam de começar outro assunto.

Inuyasha e Kagome correram o mais rápido que poderam campo adentro e acabaram se escondendo perto de um riacho com árvores gigantes de ramos frondosos se erguendo acima de suas cabeça. Durante algum tempo riram e tentaram acalmar o fôlego da corrida; ouviram a voz de Miroku trazida pelo vento mostrando que ele já começara sua busca, logo surgiu um incômodo pertinente:

— Você não acha que estamos muito longe? – inquiriu Kagome – ele nunca vai nos achar aqui!

— Não seja tola! — Inuyasha resmungou, porém, percebendo a razão da menina – Vamos por ali então. Falou nervosamente apontando para um caminho de pedras.

Andaram e andaram pelo o que se pareceram horas e quando finalmente chegaram ao fim da trilha, viram que esta dava para um simples desacampado, desconhecido pelas duas crianças. Olhando em volta nada lhes parecia familiar e a voz de Miroku que tinham escutado a pouco agora não era mais audível. Nada era audível alí, nem mesmo o canto dos pássaros.

— Onde estamos? Perguntou Kagome com as lágimas já saindo dos olhos, fato que não passou despercebido por Inuyasha.

— Provavelmente nos arredores do castelo. Mentiu na tentativa de acalmá-la, mas ao invés disso a menina começou a chorar compulsivamente, o que o deixou desesperado. Depois de inúmeras tentativa de faze-la parar Inuyasha tentou seu último recurso: Agarrou os pequenos ombros da princesa e os abraçou. Ficara assim durante algum tempo e logo depois de ver que o carinho havia surtido efeito, apesar de também surpresa, o menino se desenlaçou da jovem e virou para um lado numa tentativa de esconder o rubor do resto. Antes que pudesse se virar novamente ele sentiu os lábios quentes da menina na sua bochecha, o que aumentou violentamente o vermelho de seu rosto. Poucos segundos depois ouviram a voz de Miroku baixa vindo do lado direito da mata, e assim seguiram em silencio, evitando os olhares um do outro, ao encontro do amigo.

As crianças acordaram tarde àquele dia; cada hora vivida significaria a separação de seus amigos, a pior coisa que poderia acontecer àquela altura. Na tentativa de aproveitarem as últimas horas juntos, ainda que sem poder sair do palácio por causa do tempo, os jovens se juntaram ao redor de uma lareira localizada em um lugar mais remoto do palácio e se ocuparam em jogar cartas. Rin foi a última a descer; logo após adentrar na pequena sala escura, só iluminada pela fogueira, olhou todos os rostou que se encontravam na roda – Kagome, Inuyasha, Sango e Miroku – e não achou o seu preferido: O de sesshomaru. "Hoje é o ultimo dia!" pensou "onde estará ele?" e sem pensar nem conversar com os amigos de roda, saiu em busca do seu amigo.

Veio a encontrá-lo em volta de outra lareira; junto com ele estavam seus pais, Inu no Taisho e um homem de meia idade, calvo e de casaco preto acompanhado por uma linda jovem de cabelos lisos e pretos presos em um coque alto, de onde saiam vários cachinhos e uma franja que cobria olhos. A jovem vestia um vestido rosa claro e discreto marcado na cintura que lhe revelava o colo alvo, onde se destacava um belo relicário que brilhava com a luz da fogueira, seu rosto parecia maduro e mais velho que o de Rin e sua boca era vermelha e farta como um morango. A moça conversava alegremente com Sesshomaru, que sorria abertamente – algo que Rin poucas vezes vira. Tal amostra de intimidade entre os dois inundou Rin de um sentimento desconhecido: Ela sentiu o rosto queimando como brasa, os olhos arderam e seu coração bateu descompassado. Antes de ser vista por alguem ela escapou para o corredor que dava para o quarto.

Ao ficar de frente para o grande espelho do seu quarto que tinha as bordas douradas, Rin viu que as lágrimas saiam quentes e espessas dos olhos e que suas mãos tremiam. Estava confusa principalmente sobre seus sentimentos; "Ele gosta dela... Afinal de contas ela é bonita. E mais velha" lamentou mentalmente "Um dia, porém, eu serei a menina mais bonita de todo o mundo!" falou levantando a cabeça e se mirando no espelho "ele verá!".

Esse dia veio diferente dos demais: O ceu, antes sempre de um azul magnífico, agora se escontrava cinza e triste, anunciando a possibilidade de um tempestade a qualquer momento. O vento que antes cantava uma bela canção agora rugia ferozmente, lançando um jato gelado sob os morros. Não havia pássaros nem lebres; a natureza estava estranhamente violenta e assombrada como se soubesse, já àquela altura, o futuro daquele reinado. A mesma trombeta que anunciou a chegada ressoou ao longe agora anunciando a ida; o som se refletiu por entre as montanhas e por um minuto tudo ficou no mais absoluto silencio. As mesma carruagens chamativas e os mesmos cavaleiros montados em seus garanhoes de pelo lustroso agora marchavam lentamente de volta pra casa; a carruagem de Inu no Taisho foi a última a partir:

— O senhor foi muito gentil de ter nos cedido tal hospitalidade, espero que nossos reinos estejam agora tao em paz como nossos espíritos. – Falou orgulhosamente se dirigindo ao Rei; seus acordos foram bem acertados e o tratado de paz assinado anos antes foi revalidado.

As crianças tambem se despediam: Sango prometeu escrever a Miroku todos os meses por todos os anos que os separassem;

Rin e Sesshomaru se despediram breve e friamente: Ele ainda estava com a bela moça ao seu lado, que se chamava Kagura e no pequeno e jovem coração de Rin, nada tinha espaço senão o ódio;

Antes de Naraku ir embora, já que Inu no Taisho iria torna-lo um soldado verdadeiramente, sua única amiga tirou um pequeno livro do bolso e pos e suas mãos: Era seu catálogo de flores; ela havia tirado uma flor de cada ramo de todas as flores do reino e registrado no cadernino. Algumas já se encontravam murchas mas ainda exalavam seus deliciosos perfumes.

Por fim Kagome deu a Inuyasha um lindo retrato seu para que ele não esquecesse dela: Tinha sido pintando no verao anterior e a menina não tinha mudado nada desde então: conservava os mesmo lindos olhos grandes e castanhos, a mesma pele branca e macia como um pessego e os cabelos longos e negros; olhando-se tristemente eles finalmente beijaram as faces um do outro, não sem que o rubor lhe subissem as faces, e por fim deram as mãos, que foram separadas a medida que a carruagem avançava deixando um rastro de lágrimas para trás.

Os pássaros cantando alto e alegremente anunciaram que a manhã já se encontrava a pico. Um raio de sol escapuliu das longas cortinas escuras que cobriam a enorme janela de vidro e veio brincar nas faces de um lindo rapaz que ainda dormia profundamente, tentando acordá-lo. Ele se remecheu irritadamente na cama puxando os lençóis de seda até a altura dos olhos numa tentativa em vão de de prolongar o sono. Sonhava com a linda menina de olhos doces e negros e cabelos viçosos como a seda do próprio lençol em suas mãos; por um minuto imaginou que tocava seus belos fios e um sentimento intenso como a chama do fogo, percorreu o seu corpo.

Percebendo que já não conseguia mais dormir ele se sentou na ponta da cama e olhou em volta do quarto: As paredes eram revestidas de um tom azul como o do mar com leves contornos dourados; a cama era alta com o colchão tão azul quanto as cortinas e de uma cabeceira alta com um molde barroco no mogno; acima da cama se erguia um mosquiteiro de cortinas longas e azuis que terminavam em franjas douradas; o chão era recoberto por dois tapetes: Um vermelho de camurça que revestia um palanque que elevava a cama e um outro com estampa de orquídeas rosas que se espalhavam pelo resto do quarto; um grande guarda roupa escuro, e bordas desenhadas se encontrava na outra extremidade do quarto ao lado de um espelho grande os bastante para refletir toda a bela silhoueta do rapaz; uma cadeira estofada, uma mesinha, que equilibrava no topo um conjunto de xícaras de porcelana branca e com tres cadeiras à sua volta também se encontravam perto de cama e ao redor do quarto alguns criados mudos, um deles ficava exatamente ao lado da cama e guardava os pertences mais pessoais do rapaz, entre eles a foto de uma bela menina, a menina dos seus sonhos dos cabelos de seda e olhos doces como o chocolate.

Ele se levantou e depois de atravessar o quarto, se mirou no grande espelho por alguns minutos: Seu corpo mudava e se contornada cada dia a mais, estava cada vez mais alto, seus músculos de tornavam cada vez mais rijos e seus cabelos cada vez mais longos. Em meio a admiração do próprio corpo ele ouviu a voz grave e firme do seu pai, que vinha ele mesmo chamar o filho para o desjejum.

Olhou para as cortinas e abriu-as sendo saudado pelo o sol radiante e intenso, pelas árvores que balançavam seus ramos verdes e frescos, ainda de orvalho, e pelos pássaros, que o congratulavam.

Antes de descer para se juntar ao pai e ao irmão ele olhou mais uma vez para a foto do gabinete: sentia falta do sorriso, da voz melodiosa, e dos movimentos tão espontaneos como o próprio vento daquela menina. Inuyasha descia para comemorar seu décimo oitavo aniversário. Já faziam dez anos desde a ultima vez que tinham se visto; àquela altura ele não sabia mas não tardaria muito para se reencontrarem novamente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.