Milésima Canção de Amor
21 Boa Sorte!
Notas iniciais
O modesto Clube de Eventos de Lima estava tomado pelos adolescentes do Condado inteiro. Do Samba ao Hip Hop atraiu um público muito maior do que o esperado e os formandos fora de época não poderiam estar mais realizados, apesar do imprevisto de última hora que exigiu a integração do bad boy e do imigrante na banda de pagode que abriria o evento. Passava das 16 horas, quando Mercedes apertou com vontade a buzina na frente da residência da família Fabray a fim de apressar a sister e a amiga de faculdade, Brooke Davis. Sam estava resmungando pelo risco de perder a primeira exibição da tarde e no banco de trás, Blaine reclamava pela falta de empenho de Kurt em visitá-lo com mais freqüência. Logo atrás, Mike sinalizava que estavam bem atrasados. Por sorte, o carro da frente estava ocupado pelos casais novatos mais cômicos de todo o estado. Nathan implicava com a escolha musical de Haley, Rory gesticulava algo sobre o tamanho da roupa de Harmony e Charlie tentava chamar a atenção de Aylin. O repique do conhecido samba era ouvido ainda no estacionamento. O comboio New Directions se completou ao cruzarem com Adam, Brittany, Artie, Sugar, Blake e Nellie no salão. A ação imediata dos garotos é correr para encher os copos e aproveitar a opção open bar, enquanto a ala feminina prefere abrir espaço na frente do palco para prestigiar os amigos. As canções em outro idioma não impediam ninguém de aproveitar a comemoração ao máximo e ao flagrar o brasileiro na percussão, Quinn sorri. Sorri por vê-lo puxar a nova música e, especialmente, pelo sutil aceno em sua direção.
Well you done done me and you bet I felt it
I tried to be chill but you're so hot that I melted
I fell right through the cracks, now I'm trying to get back
A versão de I’m Yours, de Jason Mraz, em ritmo de pagode causa uma ótima impressão em todos, principalmente, nos recém-chegados. Daniel se concentra na canção e se permite colocar os olhos sobre Quinn após dois meses. Ela tinha se interessado por um carinha da Universidade de Columbus, ele tinha se envolvido com uma colega do Glee Club. Ela estava ainda mais certa da escolha por cursar Fisioterapia e recusar Yale, ele estava ainda mais perdido sobre o futuro. Ela estava ainda mais bonita, se é que isso era possível. Ele continuava com a mesma cara de sessenta dias atrás, se é que isso era possível. “Não posso esperar. Eu sou seu”. Ele era dela, ela era dele. Daniel e Quinn se pertenciam e não haveria distancia que pudesse alterar isso. Pelo menos, era a sensação da loira ao observá-lo tão confiante em cima do palco. Como ela conseguiu ficar tanto tempo sem te-lo no alcance de suas vistas? É, tudo tem seu tempo.
Before the cool done run out, I'll be giving it my bestest
And nothing's going to stop me but divine intervention
I reckon it's again my turn to win some or learn some
But I won't hesitate no more, no more
It cannot wait, I'm yours
A batucada perdura por quarenta minutos e os aplausos ecoam pelo recinto tomado por adolescentes. Para a alegria do hippie, o reggae é o ritmo da vez que abre os trabalhos com um hit de Bob Marley. Por pura ousadia, ele estende a mão e Harmony acaba aceitando o convite para a dança. O irlandês visualiza a situação do bar somente levando o copo de uísque aos lábios. É, o Leprechaun estava bem mais seguro com seu relacionamento após ter certeza de ser correspondido. Os formandos correm para os bastidores para resolver algum problema com o grupo musical seguinte e agilizam as vendas no bar. Ninguém poderia prever a competência de Lauren Zizes para gerir crises e orientar pessoas sobre pressão. A lutadora era uma líder nata. O bad boy respeita os termos da sua quase alguma coisa em correr para o palco e ajeitar o retorno para os músicos. Ao passar pelo salão bateu o olho na moça desconhecida que conversava com Quinn. Gostosa. Definitivamente, ele e o comparsa se juntariam aos amigos muito em breve. Ao receber o aval do vocalista, ele abandona o recinto e puxa o carioca para a roda com os veterenos do coral. O melhor amigo resmunga algo sem importância, desarruma os cachos e é obrigado a seguir os passos do bad boy cumprimentando os amigos. Imediatamente, o cara do moicano puxa uma conversa ao pé do ouvido com a acadêmica de moda e a loira não resiste as gargalhadas ao flagrar o casal aos beijos após poucas palavras trocadas. O imigrante explicava para o asiático a origem das canções adaptadas para o samba, quando sentiu o toque em seu ombro. O garoto se vira, encara a loira com um sorriso imenso, passa a mão livre pelos cachos e leva o copo de cerveja aos lábios. Ninguem deveria ter uma discussão de relação absolutamente sóbrio.
_ Você acredita nisso? Eu tinha quase certeza que rolaria algo entre a Brooke e o Puck, mas, não tão depressa... Ele não tinha voltado com a Lauren Zizes? – o carioca ri pela rápida ação do amigo.
_ Voltou, mas, ela não quis nada muito sério... Não queria tirar o foco da “carreira”... Há dois meses, a sua amiga estaria correndo risco de vida...Só que as coisas mudam, né? – ele dispara a afirmação a queima-roupa.
_ Dois meses, é bastante tempo... Eu sei... Mas, tempo nenhum é capaz de mudar certas coisas, sabia? – ela sorri pela aparente leveza na expressão dele.
_ Tipo o que? – ele mira a movimentação em torno do salão e não se atreve a fita-la. Aquela garota poderia quebrar todas as suas defesas com um simples sorriso.
_ Tipo o que eu sinto por você. A falta que sinto de nós. – ela entrelaça sua mão a dele.
_ Quer dizer, que você ainda pensa nessa possibilidade? — o brasileiro finalmente vira-se para encarar a loira — Nós?- relembra o jogo particular do casal.
_ Você sempre foi uma realidade para mim, estrangeiro. – ela entra na brincadeira.
Ele esboça um sorriso invejável e leva uma das mãos ao rosto da jovem antes de acabar com a milimétrica distancia. As reações são instantâneas. Os gritinhos histéricos de Mercedes, Tina e Brittany, a zoação dos rapazes e o pulo nada amigável de Adam nas costas do comparsa. Quinn cora diante de tamanha repercussão, escondendo o rosto no peito do rapaz. O bad boy se separa de Brooke momentaneamente para distribuir tapas na cabeça do melhor amigo e se cobrar da demora em se juntarem ao grupo. O chamado de Artie para introduzir sua aparelhagem no local da “apresentação” interrompe a tiração de sarro e salva o quase casal temporariamente. Honestamente, o único favorecido com o pedido de socorro do cadeirante é o rapaz, que se apressa em ajeitar a mesa de som, enquanto a loira é sufocada pelas amigas a fim de detalhes da “reconciliação”. Artie tinha se viciado em programas de edição de áudio e video desde a direção do Especial de Natal transmitido pela televisão de Lima no ano passado. Por isso, o interesse em mixar músicas se transformou em obsessão e arrancou elogios rasgados dos companheiros com alguma noção instrumental ao sugerir a trilha sonora para o evento. Com o pouco capital, o convite para estrear como DJ foi duplamente útil. O cadeirante irradiava alegria pela confiança depositada e garantia agitar a festa com o som das ruas. O hip hop estoura as caixas de som e os remixes improvisados são exaltados pela multidão. Mike Chang era o mais animado da roda, afinal, street dance era o ritmo abordado em seu primeiro semestre na faculdade em Chicago.
Brooke se impressiona com a interação daquele estranho bando de adolescentes. Obviamente que o moicano e o estilo de bad boy de Noah Puckerman também causaram ótima impressão. Contudo, o ponto mais fora de contexto fora a sintonia Quinnel. A colega de quarto sempre exaltou as qualidades do antigo interesse romântico, especialmente, o conforto do seu abraço. Por isso, a loira mal tinha se afastado dos braços dele. Até aquele momento. A visitante repara que o rapaz cochila algo para a garota e ruma para outra parte do salão.
_ Ei, Daniel, espera! — Brooke impede a partida do imigrante.
_ Você quer alguma coisa do bar? — ele comenta despreocupado.
_ Yeah, você poderia me trazer mais disto? Eu não sabia que bacardi era tão bom!
_ É, legalzinho, né? Amanhã, no churrasco... Eu te preparo uma caipirinha, você vai provar a melhor bebida do mundo!
_ Ah, Quinn já me falou a respeito... Mas, por que você ta fazendo isso? — ele estranha a pergunta e bebe o último gole da cerveja.
_ Por que eu to com sede? — ele bagunça os cachos e arqueja a sombracelha contrariado.
_ Não... Digo, com a Quinn. Você zanzou tempo demais depois do show. Não achou nada e veio procurá-la, é isso?
_ Uau... Você andou falando com a Mercedes ou o que? — ele ri desorientado – Olha, eu tava ocupado com as coisas da banda... Instrumentos, aparalhagem, bebidas...E eu precisava de um tempinho para digerir tudo. As coisas se complicaram, né?
_ Quer dizer, que vocês estão numa boa? Você só pode ta de brincadeira! — ela praticamente berra no ouvido dele.
_ Hã...Isso é ruim? — ela sorri e nega — Eu não iria ficar de cara amarrada a noite inteira... Além do mais, vocês vão embora, amanhã, né? Então, já volto com o seu drinque!
Brooke ainda não acredita em como o rapaz poderia pensar de forma tão despreocupada sobre o envolvimento da colega de quarto com outro cara. Sinceramente, envolvimento com outro cara era muito. Ela aceita o copo oferecido por Mercedes e se aproxima da negra ainda em duvida.
_ O que há de errado com esse garoto? — ela se refere ao brasileiro — Quinn é linda como uma princesa, mas normalmente, um cara não aceitaria isso tão tranquilamente.
_ Definitivamente, você precisa se antenar, girl. Eles não estavam juntos, e bem... Não foi nada demais, não é? — a visitante dá de ombros – Quinn lhe contou sobre os meses na cadeira de rodas? Bom, no dia... As primeiras pessoas que chegaram ao local do acidente foram Dan e o hippie ali. Quinn e Dan já tinham se perdido algumas vezes, mas, nunca por algo assim...Depois disso, a gente enxerga as coisas de outro jeito, sabe?
_ É, faz sentido. E só me faz pensar como eu sou extremamente azarada.
_ Não se preocupe, Puck pode ter esse jeitão de bad boy, mas, é um cara sensacional! – a negra sorri incentivando a desconhecida a se juntar ao grupo novamente.
A opção música muda para o funk e o brasileiro se exalta do outro lado do salão em meio aos calouros do Glee Club. A volta rápida é cancelada e a puxada nada inocente de Aylin trazendo-o para mais perto chama a atenção de Charlie e da loira mesmo a distância. Totalmente descarados Adam e Blake imitam os passos mais ousados do veterano e quase constrangem as respectivas parceiras, especialmente, a tímida Nellie. O relacionameto com o novo fenômeno dos campos ainda não estava definido e a garota tentava ao máximo passar despercebida, o que não estava dando muito certo no momento. Nathan trazia Haley pela mão e se junta a rodinha de amigos, Sugar e Brittany fazem palhaçadas para descontrair o introvertido Charlie e aos poucos, o restante dos gleeks se reúnem bem no meio do salão. Puck mostra os passos mais simples para Brooke, que acha o estilo sensacional, Mike e Tina entram no embalo, Harmony tem o maior trabalho para orientar o namorado desastrado para dança e mesmo com o incentivo de Mercedes, Quinn não vê a menor graça em continuar ali.
_ Você deveria tomar cuidado com a Aylin, sabe? – Sugar solta a dúvida.
_ Não dê muita importância para isso, Quinn. Eu conheço a Aylin e esse jeito é normal, entende? Ela é da equipe de atletismo e teve esse rolo com o Dan, nada demais. Agora, ela ta enrolada com o Charlie, não se preocupe. – Harmony tenta consertar a situação.
_ Não tenho nenhum motivo para me preocupar. Eu e o Daniel não estamos juntos... E como assim...Agora? Aconteceu algo sério entre os dois? – questiona a loira tentando disfarçar a ponta de ciume pela intimidade demonstrada nos trejeitos de dança.
_ Não quero me meter nisso...A gente tem essa amizade forte por causa das pistas e a Aylin adora dançar com ele nos ensaios, mas, quem não gostaria, né? Ele é ótimo!
Rory dá de ombros e beija o rosto da namorada, que retribui com um sorriso de canto. Harmony tinha razão. Com a saida do asiático, o carioca se tornou o melhor dançarino do coral e a parceria mais desejada. O estranho era se sentir tão desconexa de algo que costumava ser tão rotineiro. O terceiro funk chega ao fim e o estrangeiro se demora em um abraço forte com a atual companheira de dança e numa conversa sussurrada com o garoto apontado como novo destaque vocal. A despachada garota sorri em sua direção inesperadamente e apanha a mão do tal rapaz, que precisa de alguns segundos para se familiarizar com o ritmo. Mercedes se aproxima do seu homem e fala qualquer coisa que provoca uma estrondosa gargalhada, Sam ainda entra no dialogo e aponta para a loira. Quinn sente o rosto queimar e vira o restante do drinque antes de se embrenhar na multidão. O seu nome é dito e ela não ousa olhar para trás. Com pouco mais de quinze metros percorridos, sente um toque familiar no ombro. Ela se vira e encontra o carioca com uma expressão confusa e a mão estendida lhe convidando a retornar para o grupo.
_ Eu to com sede, vou passar no bar. Você ficou de pegar uma água para mim, lembra?
O carioca leva as mãos a cabeça, balança a cabeça com semblante culpado e apanha a mão dela gentilmente. A primeira parada é o bar, onde uma água e outro copo de cerveja são pedidos. O rumo do casal é a parte externa do clube e antes de iniciar a conversa, ele bagunça novamente os cachos e o copo vazio é arremessado longe.
_ Eu só posso te pedir desculpas...Você sabe como eu piro no funk e esqueci mesmo... – ele entrelaça as mãos dela as suas e abaixa os olhos.
_ Não precisa se desculpar, Dan... Não era nada muito importante, não é? Eu só não me acostumei com isso ainda... É estranho pensar que existem outras pessoas no Glee Club. Foi algo tão nosso por três anos que é difícil lidar com tantas mudanças, entende? – ela aceita a proximidade maior e cola a testa na dele.
_ Yeah, muita coisa para digerir em pouco tempo, né? – ela concorda – E eu ficar dançando com outra garota não é de muita ajuda...Sinto muito por não ter notado antes.
_ Dan, eu nunca tive ciúmes da sua dança com quem fosse e não começaria agora...
_ Não, não to falando disso... É mais sobre eu ter estado desligado como sempre e não sei exatamente como agir, sabe? Isso é muito diferente do que tínhamos. – ele abraça a garota e suspira longamente. A dúvida é nitada em ambos.
_ Eu sinto saudade de você, de nós...Mas, diferente não precisa ser ruim, estrangeiro.
_ Eu gostei disso. – ele deposita um beijo casto nos lábios dele e sinaliza para voltarem para dentro do salão. Afinal, a festa era praticamente dele e dos formandos de inverno.
A batida da música eletrônica ecoava pelo pequeno Centro de Eventos de Lima quando o quase casal voltou para o convívio dos amigos. Artie tinha reassumido as picapes como dee jay e estava fazendo um verdadeiro alvoroço com o repertorio muito bem escolhido. Os novatos estavam agitando com uma coreografia engreçadissima liderada por Blake e Aylin. Logo Mike convoca o antigo parceiro de dança para combater a “ousadia” dos calouros e os passos do asiático são seguidos prontamente pela roda mais enlouquecida do salão. A animação do público ameaçava seriamente o horário máximo estipulado para o encerramento da histórica festa Do Samba ao Hip Hop. Entretanto, ninguém poderia duvidar do poder de influencia de Lauren Zizes. No momento em que o relógio apontou às duas da manhã, a lutadores pediu que a banda de rock tocasse sua saideira e subiu ao palco para comunicar o findar do festejo. A jovem não demonstrou preocupação ao cruzar com o atual qualquer coisa Noah Puckerman aos beijos com Brooke Davis. Com as luzes acesas, Lauren solicitou a presença dos dois colegas de classe para executar o restante dos trabalhos, ou seja, a limpeza do local. Os gleeks rasgam elogios a comemoração e se despedem já com tudo programado para o churrasco de domingo na casa de Artie Abrams.
Uma semana para as Seletivas e Will jamais cogitou que o afilhado pudesse temer tanto o palco. Medo de desafinar, errar a coreografia, trocar as notas do violão ou esquecer a letra, afinal, se Rachel Berry congelou em sua audição que experiência Daniel possuía para se dar bem no dueto? Definitivamente, ele estava uma pilha de nervos. Tina, que sempre sonhou com a chance de brilhar, mantinha o bom senso e sugeriu que ensaiassem em outros horários e colocou a sua casa a disposição. Era para lá que o brasileiro se dirigia naquela quarta-feira com o violão a tira colo. No horário combinado, ele apertou a campainha e se surpreendeu com a expressão confusa da asiática. Ao adentrar a residência compreendeu que a companheira de dueto perdera a noção do tempo conversando pelo skype com o namorado. Enquanto a asiática apanhava a partitura e organizava as coisas, o brasileiro colhia algumas dicas de coreografia com o melhor dançarino da história da Escola Secundária Willian Mckinley.
_ Ah! Conversei com a Quinn esses dias, cara. Ela contou que também vai assistir as Seletivas. Vai ser a primeiro encontro inteiro do coral, legal não é? – ele percebe a confusão do amigo – Bom, eu estava ajudando na mudança de Kurchel... E Kurt tava discutindo com Blaine no celular e a Rachel reclamando do Finn... Só quis ser educado!
_ É, Klaine ta em crise depois da traição do Blaine com o Sebastian, acredita nisso? E cara, Finchel sempre foi o casal mais dramático do mundo! – pontuou o carioca.
_ Yeah, nós conversamos sobre isso. De repente, o pessoal começou a discutir por qualquer coisa... Senti que soubemos lidar com isso, não é? – o asiático comenta.
_ O que? Eu e a Quinn não estamos juntos, cara! – ele tenta explicar o inexplicável.
_ Você age como se estivesse, Daniel. Fala sério, vocês praticamente voltaram...Só não quiseram oficializar isso. E se faz sentido para vocês, só posso ficar na torcida, cara.
O imigrante fica sem palavras para contrariar o parecer de Mike e opta pelo silêncio. Tina chega em seguida lhe chamado para o ensaio e o assunto é encerrado. Por que diabos asiáticos precisam ser tão espertos?
“Onde vocês estão?”. A mensagem de Santana faz com que Rachel desvie os olhos do palco, levante-se e acene para a amiga. A latina esbraveja pelo atraso no estúpido embarque e lamenta por ter perdido o primeiro concorrente do New Directions. Era estranho estar apenas sentados na torcida. A judia resmunga novamente pelas informações escassas que conseguiu arrancar do maestro e Mike ressalta que Tina apenas lhe adiantou que tocaria piano em algum momento do solo inicial. O dueto deveria dar mais destaque a um cara. Mesmo com a entrada de novos integrantes, a voz masculina mais poderosa era de Blaine e bem... O rapaz possuía vasta experiência. Seria uma opção segura. Porém, não se ajustava ao tom da apresentação que se formava. As luzes são bastante reduzidas e o locutor anuncia o grupo tricampeão da Escola Willian Mckinley e Quinn olha atravessado para Finn e Kurt que insistiam em palpitar sobre as canções escolhidas. Silêncio e escuridão total. Somente o dedilhar da asiática no piano é ouvido e a expectativa poderia render boa vantagem para o Glee Club de Lima.
Daniel ajeita a camisa pela centésima vez e respira profundamente. Jamais deveria ter concordado com aquilo. Mercedes e Harmony ainda soltam que a loira estava na primeira fila e as risadinhas custam um palavrão em português. Emma abraça o afilhado e deseja sorte antes de lhe empurrar para os holofotes. O canhão de luz lhe focaliza antes de seu primeiro verso e por impulso, olha para o público. Ele pode imaginar as risadinhas dos colegas de coral ao flagrarem a pequena cena. Tina acelera o toque e ele espera pela sua entrada na melodia arranhando o violão. Simetria perfeita.
É só isso, não tem mais jeito
Acabou, boa sorte
Não tenho o que dizer, são só palavras
E o que eu sinto não mudará
A ação é coletiva. Surpresos. Totalmente embasbacados pela escolha tão improvável do professor campeão nacional. Após o primeiro espanto, os olhares recaem sobre Quinn, ainda vidrada no palco e impressionada pela evolução vocal do forasteiro. A apresentação apenas embalada por violão e piano é totalmente intimista e quando a asiática se levanta para cantarolar seu trecho, a interação da dupla é impecável. A coreografia é simples e o dedilhar no violão conduz praticamente as passadas durante o refrão. A mistura do português com o inglês soa demasiadamente apropriada e Mike e Quinn se entreolham orgulhosos.
Tudo o que quer me dar (Everything you want to give me)
É demais (It's too much)
É pesado (It's heavy)
Não há paz (There is no peace)
Os jurados se impressionam pela ousadia do grupo musical de Lima e tecnicamente não colocam defeitos na utilizam de dois idiomas no dueto. Mais confiante, Daniel se solta no palco e cumpre com perfeição os seus giros em torno do piano. Dos bastidores, o maestro acompanhava a ótima performance e não ocultava a satisfação por ter optado em dar brilho aos dois alunos. Tina sempre justificou a aposta e após a química estridente nas danças, os timbres apenas confirmaram a convicção do professor. As vozes se mesclavam com precisão. Aos poucos, o restante dos integrantes se posicionava no palco e o dueto é encerrado com uma poderosa salva de palmas da platéia. Tina corre para abraçar o companheiro de canto e tem a preocupação de apresentar o coral.
_ Senhoras e senhoras, nós somos o New Directions!
Rachel, Quinn, Kurt, Finn, Santana e Mike pulam das cadeiras e assobiam pelo incrivel começo. O arranjo empolgante da música mais tocada no verão é executado e a judia solta um gritinho histérico. Era a música perfeita para levantar o auditório, Call Me Maybe. Blaine, Mercedes, Brittany e Artie assumem os vocais e a coreografia mais agitada agrada a multidão, que passa a fazer coro a canção de Carly Rae Jepsen.
Hey, I just met you,
And this is crazy,
But here's my number,
So call me, maybe?
Na seqüência, os acordes conhecidos de Loser Like Me levantam os formandos na platéia e a coreografia bolada por Brittany é executada de maneira impecável pelo conjunto. Desta vez, os novatos ganham os holofotes e o bom entrosamento dos prováveis casais Haley e Nathan, Aylin e Charlie e Nellie e Blake é o ponto alto da performance. O New Directions abandona o placo com a sensação de dever cumprido devido ao favoritismo latente. Ninguém ousaria falar em voz alta, porém, a maioria pressente que o tetracampeonato seria conquistado por unanimidade.
Will ergue o troféu do quarto título consecutivo das Seletivas e Rachel puxa a fila dos graduados ao correr para comemorar com os amigos nos bastidores. A primeira ação da judia é parabeizar Tina pelo excepcional solo e abraçar calorosamente o garoto mais maneiro do Rio de Janeiro. Sugar convocou a turma para a confraternização da vitória no salão de festa de sua mansão. De repente, as luzes se ajustam, Artie conecta sua mesa de áudio a caixa de som e amplificadores, a música ecoa pelos auto-falantes e os adolescentes fervem na improvisada pista de dança. Will e Emma se despedem a fim de acertar alguns detalhes do casamento que aconteceria em poucos meses. A bebida começa a fazer efeito na corrente sanguinea e Puck, totalmente embrigado, grita para que a garrafa seja girada e inicia a brincadeira mais alucinada da noite. A latina ri ao ter que beijar o ex-namorado Noah Puckerman, que segue com o jogo dando um beijo estalado no rosto de Harmony. O irlandês suspira aliviado. O outro primo metralha leva sorte melhor e a garrafa para preguiçosamente diante de Aylin. Charlie não consegue ocultar o ciume e cerra os punhos ao nottar o interminável amasso. O hippie ri abobalhado e a bobagem prossegue até o celular de Daniel tocar e lhe arrancar do agito. Da mesma forma, o novato passa a sua vez, cruza os braços e se afasta da roda para apanhar outra dose de uísque. Charlie Lubeck estava furioso.
_ Nos conte tudo, Aylin. Você praticamente sugou a alma do Adam! – debocha Mercedes e imediatamente a face da menina turca é tingida de vermelho.
_ Yeah, o que ta rolando entre vocês, garota? O carinha dos dreads é quente! – confirma Santana virando mais um copo de vodca.
_ Eu sei que o Adam é um gato, mas, não tem nada demais... Só aconteceu, entendem? – ela tenta explicar e quase agradece aos céus quando Brittany chama as garotas para relembrar a coreografia de Edge Of Glory – O que aconteceu, Charlie? Você ta irritando com o que? Temos que comemorar as Seletivas, não é? – ela não compreende o semblante fechado e muito menos a revirada de olhos. O problema era com ela?
_ Você ficou desapontada por não ter caído comigo? Me diga que você está desapontada... Porque eu fiquei extremamente desapontado por... – Aylin interrompe a falação ao colar seus lábios aos dele. O rapaz demora a reagir e se limita a fechar os olhos. A garota leva as mãos ao seu pescoço e sente a cintura ser enlaçada pelos braços dele – Uau... Isso... Uau! Não estou mais nenhum pouco desapontado. Isso foi incrivel.
Blake, Nellie, Haley, Nathan e Rory flagram o acerto e os assobios acabam entregando a integração aos demais. O garoto abre os olhos, exibe o seu melhor sorriso e traz a garota mais perto. Aylin ri contra o peito dele e tenta agüentar a onda de gozação sem sentir seu rosto queimando novamente. Inútil. Sua face é tomada pela tonalidade vermelha e o rapaz acha graça na reação. Outro beijo, nova onda de piadas, que acaba logo após Puck anunciar a terceira rodada de caipirinhas. Quinn estranha a ausência prolongada do responsável pelo drinque predileto do coral de Lima e se preocupa genuinamente ao judeu apenas dar de ombros sobre o seu paradeiro. O que teria acontecido? Ela ganha a área externa da casa de Sugar e logo lhe avista cabisbaixo em uma cadeira qualquer a beira da piscina. Os ombros caídos, o semblante perturbado e as mãos segurando o celular com desmazelo. A fisionomia confusa lhe traz a pior lembrança a mente. A despedida no abrigo. Por um momento, ela quis dar meia volta. Neste intante, a loira hesitou e quase respeitou o eterno instinto dele em se isolar, agüentar tudo sozinho. Sempre. Entretanto, no segundo momento, ele percebeu a vigília conhecida e acenou. Praticamente, um pedido de ajuda. Ela se senta ao lado dele e é imediatamente abraçada. A respiração descompassada, os olhos semicerrados e a tensão espalhada por todo o corpo. O que diabos teria acontecido? Ela cola a testa na dele.
_ Meu pai ligou. Queria me avisar que ganhou a liberdade condicional, acredita nisso?
_ Eu lembro que ele te ligou no Natal... Vocês tiveram contato deste então?
_ Algumas cartas. E eu nunca parei para pensar que ele poderia voltar à fazer parte da minha vida... E justamente agora, sabe? Tudo ta bagunçado, não sei se preciso disso.
_ Sei, sei muito bem... Sei que pais sempre farão parte da nossa vida, não importa o que façamos...Eu precisei reaprender a andar para ter minha mãe de volta.
_ Você quer dizer que eu deveria oferecer uma segunda chance à ele?
_ Algumas pessoas precisam de mais. Você e a sua mãe não estão bem agora? Não digo para dar chances infinitas, em algum ponto você deve deixar isso para lá. Você tenta até se sentir livre para seguir adiante.
_ Você ta falando do seu pai, certo? – ela confirma. Desde o drama da gravidez, Russel jamais tornou a se aproximar da filha – Sinto muito por isso, branquinha. – o sorriso torna a aparecer no rosto dela – Se der tudo errado, eu posso me mudar para o seu dormitório na Ohio State? – a gargalhada dela devolve o humor à ele.
_ Acho que teríamos que dividir com o Puck e Brooke, mas, poderíamos dar um jeito. Sempre vou estar aqui para te apoiar, estrangeiro. Agora, me dá a mão e vem comigo?
O carioca acena positivamente e entrelaça a sua mão a dela. O caos ainda imperava no salão de festa, a exceção era a frieza com que Kurt tratava Blaine. A mudança para Nova Iorque também abalou consideravelmente o relacionamento com a pequena notável e o quarterback calouro da Universidade de Columbus. Finn se mostrava ainda mais inseguro com a distancia e discutir com a namorada a impossibilidade de se transferir antes do primeiro ano de faculdade concluído. O primeiro trimestre quase implodiu Finchel, como agüentariam os próximos nove meses? A distância também estava colocando em perigo a relação mais duradoura que Santava tivera em seus poucos anos de existência. O carinho pela melhor amiga seguia intacto, o risco eram as insuportáveis duas semanas de afastamento forçado. A latina começava a cogitar que a alternativa mais razoável deveria ser o rompimento temporário. O problema era encontrar coragem para dizer isso em voz alta. A sanidade parecia restrita a Tike. Mike Chang e Tina tinham construído o relacionamento mais sólido e lidavam com uma maturidade invejável para o fato de estarem em mundos tão distintos.
Além disso, o desejo da asiática em cursar Jornalismo na capital de Ohio não contribuía para diminuir as barreiras. Talvez, o segredo estivesse neste ponto de cumplicidade. Nenhum dos dois ficaria no caminho para a concretização de seus sonhos particulares, mesmo que em estados diferentes. Quem disse que para se estar junto é preciso estar irremediavelmente perto? De alguma forma, Daniel percebeu que poderia compartilhar com Tina e Mike mais que apenas o apreço pela dança. Talvez, a alternativa de Tike tambem começasse a funcionar para Quinnel.
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