Millenium Warriors - The Battle of Voyagers
1 Emily - Sensações (Parte 1)
Notas iniciais
Espero que gostem e boa leitura.
Chuva e maçãs. Era nisso que Emily pensava enquanto aguardava em uma fila seu nome ser chamado. Eram duas coisas tão diferentes uma da outra que era quase impossível haver alguma relação entre elas, mas tinham algo em comum, Emily nunca tinha visto nenhuma das duas pessoalmente. Estava na lista daquilo que queria conhecer quando finalmente pudesse sair da Ostra. A chuva ela só conhecia pelos filmes que via na pequena televisão que mantinha no pequeno compartimento que chamava de casa, adorava ver como a água caia do céu e molhava as pessoas, e o barulho de trovão e tempestade era algo que a encantava. As maçãs vieram antes dos filmes, quando tinha sete anos sua mãe comprava shampoo com o cheiro de maçãs, ela amava o cheiro que a espuma tinha, quando teve que deixar o shampoo infantil de maçã por algo mais barato e adulto, sentiu muita falta daquele cheiro. Depois de 16 anos finalmente poderia conhecer a chuva, maçãs e tudo o que quisesse.
Ela tinha a estranha mania de se perder em pensamentos quando estava ansiosa com algo, uma espécie de fuga da realidade, e ansiedade definia bem aquele momento. Tinha esperado uma vida toda para que finalmente fizesse 16 anos e pudesse se alistar na Legião, se tivesse sorte o suficiente iria ser chamada para a Academia, e aí poderia conhecer o resto do universo. Para alguém que esperou por tanto tempo, os últimos 20 minutos tinham sido uma eternidade.
— Emily Heynes. – Chamou uma voz feminina sentada em uma mesa metálica a frente.
Avançou lentamente, com uma estranha sensação de frio se formando na boca do estômago, ela olhou em volta procurando por algo familiar. O prédio do Governo, que na verdade era apenas mais um compartimento da plataforma, talvez o maior de todos que haviam ali, — as portas principais ficavam de frente para a área que chamavam de praça, a área central de toda a plataforma. Da praça saiam cerca de oito corredores como pernas de uma aranha, cada corredor levava a uma nova ala, onde mais compartimentos serviam de casa para as 8 mil pessoas que moravam naquele lugar. Naquele dia, a praça tinha sido preparada para receber os legionários que iriam recolher as inscrições. Haviam três mesas metálicas na frente do prédio do governo, as mesas tinham um computador e uma pilha de papeis, e em cada mesa haviam três soldados, homens e mulheres vestidos de preto recolhendo os testes dos jovens que se alistavam.
Emily tentava a todo custo convencer a si mesmo que aquela sensação estranha não era medo, mas estava complicado. Será se tinha tomado a decisão certa? Sua mãe não concordava, nem mesmo seus irmãos, e por esse motivo ela tinha deixado o seu compartimento tão cedo, antes que eles acordassem e pudessem pará-la de alguma forma. Mas era a única chance que tinha de sair da colônia, de estar cercada por qualquer coisa que não fosse as plataformas em que vivia. Ela não ia deixar que nada ficasse em seu caminho, nem mesmo sua família, por mais que isso significasse ter que magoá-los. Conhecer outra coisa, outros lugares que não a Ostra era seu maior desejo, desde que se entende por gente.
A Ostra, era assim que os moradores da colônia β-137 chamavam sua casa. A colônia era nova, tinha menos de 20 anos, e era quase um experimento, uma colônia fixada em um planetoide cuja a atmosfera não era apropriada, era uma plataforma tão grande como uma cidade, toda mecanicamente projetada para garantir a vida dos humanos durante toda uma vida, por várias gerações. Tinha tudo dentro das paredes metálicas e janelas de vidro resistente a radiação, lojas, alimento, escola, hospital, não era luxuoso, nem remotamente rico comparado com colônias como Alyssa onde viviam celebridades, e tudo era racionado, inclusive o espaço, mas até hoje o experimento estava dando certo.
Emily reconheceu dois ou três colegas de escola, inclusive Peter, que talvez fosse seu único amigo enquanto se encaminhava para a mesa cuja mulher havia chamado seu nome. Recebeu um sorriso de encorajamento que retribuiu de maneira torta mas não houve uma troca de palavras. Ela respirou fundo e se aproximou da mesa, as mãos unidas por trás do corpo.
— Emily Heynes, 16 anos. β-137.
A mulher disse e Emily concordou com a cabeça. Ela digitou alguns comandos no computador e recolheu uma amostra de sangue, uma leve picada de agulha no indicador que deixou uma coceira e pediu que acompanhasse um dos outros dois soldados que estavam parados em seus flancos até o lado de dentro do prédio.
Emily havia entrado no Prédio do Governo uma única vez, durante uma cerimônia junto com sua turma de escola, a quatro anos atrás, mas as paredes metálicas e os móveis metodicamente organizados eram muito familiar a ela e até mesmo as pessoas em uniformes vermelhos perambulando com microfones presos a orelha. O soldado a guiou por um conjunto de corredores — ela não imaginava que aquele lugar pudesse ser tão grande — até que chegaram a uma sala minúscula cujo os únicos moveis era uma mesa metálica e duas cadeiras, lembrava a ela muito salas de interrogação de filmes policiais. Sentada em uma das cadeiras estava uma outra mulher, com os cabelos loiros, dois tons mais escuro que os seus presos em um coque e o uniforme preto tão alinhado que parecia que ela era algo como um robô, algo artificial. Emily não disse nada ao se sentar na cadeira vazia.
Suas mãos estavam unidas em cima do colo, e ela brincava com os dedos, tentando estralar as juntas como uma mania nervosa. Olhar para a mulher por mais que alguns segundos, era quase doloroso, ela mexia em um computador de mão, recebendo informações.
— Senhorita Heynes. Certo? Meu nome é Myriam vou fazer sua entrevista. Vejo na sua ficha que era uma boa aluna, notas boas na escola, interesse especial por física e matemática.
Concordou com um aceno novamente. Emily sempre se interessou por física e astronomia. Estudar o universo e suas relações, nem que fossem através de livros e do computador, era o mais perto que tinha de poder viajar e isso a encantava, saber como a vida existia lá fora e como tudo poderia estar interligado. Sua facilidade com números era algo natural, desde muito jovem.
— Números são mais fáceis de entender que pessoas. – Suspirou, falando pela primeira vez desde que chegou a praça.
Myriam sorriu divertindo-se com as palavras, o que parecia completamente deslocado em seu rosto de robô.
— Se conseguir, acho que é interessante saber que poderá trabalhar com isso na Academia. Não formamos apenas soldados, mas cientistas. Talvez se dê bem nessa área.
Emily pensou um pouco sobre aquilo. O pouco que sabia sobre cientistas eram que ficavam a maior parte da vida em laboratórios tentando entender as coisas sem realmente conhece-las. Não era para ser uma cientista que estava se alistando.
— Quero ser patrulheira. – Disse de maneira firme. – Exploradora. Quero viajar pelo espaço, descobrir planetas e outras raças.
Tantas vezes ouvira na televisão, nos boletins informativos sobre os mais novos achados da Patrulha da Legião, um novo planeta conquistado, uma nova colônia fixada em um ponto distante do universo. E era por causa daquelas notas informativas que decidira entrar para a legião.
— Todos querem certo? Para falar a verdade eu entrei na Legião com essa mesma vontade. No meio do caminho descobri que outras áreas eram tão interessantes tanto. Mas veja bem, para ser uma patrulheira terá que se destacar. Fazer o seu melhor entende? – Myriam disse com aquele sorriso deslocado novamente. Emily entendeu que ela estava tentando parecer gentil.
— Irei ser a melhor. – Suas palavras saíram firmes e confiantes, e ela quase se sentia daquela forma.
A porta pela qual entrara estava fechada e não haviam janelas na sala, ela notou quando desviou os olhos para observar as coisas ao seu redor. Suas mãos novamente estavam unidas no colo e o nervosismo a atacou de novo. Mas se ela não fosse aceita? Era uma possibilidade. Emily teria que viver toda sua vida na Ostra, provavelmente seria treinada para ser professora da escola, ou ajudaria sua mãe com a loja que mantinham no corredor quatro. Ela não se imaginava com aquela vida no entanto. Aquela comum e ordinária vida da Ostra.
— Por que acha que poderá ser uma Patrulheira. Digo, por que quer ser uma patrulheira? – A mulher perguntou voltando a sua seriedade robótica natural.
— O Universo é muito grande, é maravilhoso. Não acho justo ter que me contentar com a vida dentro desse lugar. Eu sei que poderia fazer muito mais lá fora. Eu sei que poderia fazer... alguma diferença, entende? – Sua resposta foi sincera. Buscava lá no fundo da sua mente as palavras certas que poderiam ser a chave, a passagem para fora daquele lugar.
— A seleção para a Academia vai analisar seus testes físicos, sua saúde em geral, e ver se está apta. Além dessa entrevista e um teste psicológico. Se você conseguir passar nos testes, se conseguir as notas maiores, poderá ser chamada. – Myriam explicava. – Eu vou aplicar o teste psicológico agora e nós iremos finalizar aqui. Está preparada?
Certamente não estava, não sabia como seria aquele teste e o que eles iriam analisar. Pensava que poderiam talvez entrar dentro da sua mente com algum sensor e descobrir seus pensamentos e aquilo a assustava. Mas mesmo assim acenou positivamente para a mulher.
Myriam se levantou fazendo um barulho estranho com a cadeira raspando no chão, e aquilo acelerou o coração da menina, mas a mulher pareceu não notar. Ela se aproximou ficando de frente para Emily e delicadamente afastou alguns cachos soltos do seu cabelo da testa e ela sentiu algo frio grudando em sua testa. No metal das paredes da sala e conseguiu ver um reflexo desfocado de uma peça prateada comprida grudada em suas têmporas, na imagem pareciam vermes metálicos brilhando com uma luz vermelha na cabeça. A outra peça semelhante foi colocada do outro lado e em um relance ela viu a luz se tornando azul.
Continua...
Fale com o autor