Mil novecentos e setenta e um

1 Mil novecentos e setenta e um


Samuel tinha dez anos de idade
e mais de vinte bolinhas de gude
ganhadas nas apostas das calçadas.
Tinha uma caixa cheia de giz
um badoque de madeira firme
para pegar passarinho na roça
e um novo livro de fábulas.

Ele sorria da beleza da vida
nas camisas sujas e listradas dos amigos
nas sombras agitadas da roupa pendurada no varal
nos cigarros deprimidos que a mãe fumava
e das manchetes que ele não lia no jornal.

Tinha a intensa liberdade
das pedras que calçavam sua rua
que o mundo havia de ser o que a vista alcança e agarra.
Haveria de caber da sua casa até o boteco da esquina
onde domingo tocava um samba
com cheiro de cerveja, futebol e menina.

As miniaturas de carros que papai trazia
todas enfileiradas na penteadeira
um Porshe, uma Mercedes, um Volkswagen.
Dar a partida à Chigago, L.A, ou o outro lado da cidade
pois o que a vista não alcança e agarra
não passa de um sonho.

Delírios enfiados debaixo do travesseiro.

Um herói, um pirata, um espadachim
"Sou poeta da Lua, desbravador de mim"
de chapéu na cabeça ele pulava e corria e
as farpas do mato fincavam em seus dedos nus
mas é que os pés descalços não tem medo
– tem é pressa de lugar nenhum.

Tudo ia bem para Samuel
com seus dez anos de idade
e as tais bolinhas de gude.
Até que um dia amanheceu nublado
com o céu todo amassado pela chuva de verão
de má fé os egoístas secamente lhe contaram
que as nuvens não são feitas de algodão.

Não podia acreditar, não queria
iria para casar cortar todas as cortinas!
que essa vida é uma farsa, que não pode ser só água
as nuvens que enfeitam o azul do céu.
Qual a graça dessas gotas condensadas
se não podem ser coladas no papel?

"– Como assim eu não posso comer uma nuvem?"
O garoto chorou atrás da porta, aturdido
E desde então não admite ser chamado de menino.

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