Notas iniciais
Verde;
Era a cor que mais odiava;
O verde das gramas foi substituído pelo cinza, preto e vermelho pós-guerra;
Poderia ele odiar uma cor que nem ao menos tinha visto tanto?
Sim;
Ele odiava guerras, e não ver o verde no meio daquelas outras cores neutras o desanimava;
Por isso odiava verde;
Odiava pelo fato de não estar ali para pintar aquele cenário de tristeza e morte;
Por vezes tentou tirar a própria vida;
Mas de nada valeria, e sabia disso;
Já que teria seu irmão menor para cuidar;
Seus pais tinham falecido no campo de batalha, teria de ser forte;
Fora forçado a ter responsabilidade para proteger o único motivo de viver;
Motivo este que chorava de fome;
Queria chorar também, mas tinha que se manter forte e passar proteção ao pequeno;
Estava fraco demais para continuar seu caminho;
Seus pés doíam, seus braços estavam ficando dormentes, não aguentaria mais;
Sentou-se na calçada e agarrou mais ainda o pequeno irmão;
Logo ia chover e aquele lugar passava longe de ser um bom abrigo;
Uma moça que chegava das compras;
Deparou-se com as duas crianças encostadas ao muro de sua casa;
Tinha um coração mole, e não demorou muito para resolver aquele problema;
Com as compras em cima da mesa, foi até os pequenos e os abrigou;
Seu cuidado foi tanto que nenhum deles havia acordado de seu sono;
Após longas horas, o garotinho acorda;
Uma bandeja com leite quente e uma fatia de torta de frutas;
Seu irmão estava brincando com um pedaço de maçã nas mãos da mulher;
Ainda sem entender muito ele sorriu, a bondade dela o emocionou;
Chorou como no dia que viu seus pais mortos aos seus pés;
A diferença era que agora era um choro de felicidade, esperança;
A partir daquele dia tinha feito uma nova família;
Descobrira que a bondosa mulher era viúva e não podia ter filhos;
A solidão não estava mais presente no seu dia a dia, pois eles estavam ali;
Ganharam um quarto só para eles;
E assim foram vivendo;
Até o dia que a “mãe” resolveu se mudar para a Hungria;
Onde ela tinha outra casa;
O pequeno ficara maravilhado com o novo ambiente, assim como seu irmão;
E foi nessa época que conhecerá uma garotinha;
Era sua vizinha até mesmo de janela;
Sempre que ia ler um novo livro, ou revista que ganhava de sua “mãe”;
Ia correndo para a janela sentar em sua cadeira e folhear as páginas;
E foi numa dessas leituras que percebeu a garota o observando de seu quarto;
Apenas sorrisos trocados naquele dia;
Na semana seguinte já brincavam no quintal;
Os olhos dela o encantavam cada vez que os via brilhar;
Era a cor que ele mais tinha odiado;
Odiado por naquele tempo não ter pintado o cenário de tristeza e morte;
Mas agora brincava na grama;
Verde como os olhos dela;
O verde que tanto amava;
Não mais odiava;
Elizabeta era o seu nome;
E é para ela a quem eu dedico este poema;
Mesmo que não tenha estrutura para ser chamado de poema;
É apenas o modo que achei de te mandar esta carta;
Para dizer o quanto te amo e sinto saudades;
Para explicar porque teus olhos me emocionam toda a vez que os vejo;
Por favor, volte assim que possível;
Pois eu preciso de teus olhos verdes para sentir-me seguro novamente.
E traga também nosso querido filho, nova mamãe.
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