Mil Milhas de Tensão

1 Turbulência em Primeira Classe


O som ambiente da primeira classe era um zumbido suave e caro, mas para Antonella Mascarenhas, aquele silêncio estava prestes a ser quebrado. Ela se ajeitou na poltrona de couro, sentindo o alívio de finalmente estar voltando para casa. Seus fones de ouvido já estavam a postos, e ela só esperava que o assento ao lado permanecesse vazio.

O destino, porém, tinha o rosto de um comercial de relógios de luxo e o temperamento de um iceberg.

Quando Kang Ji-hoon entrou na cabine, o ar pareceu esfriar alguns graus. Ele não caminhava; ele se deslocava com uma eficiência militar, vestido em um terno cinza-chumbo que gritava "filho de CEO" a quilômetros de distância. Sem sequer olhar para Antonella, ele ocupou o assento ao lado, jogando uma pasta de couro pesada sobre o console central que dividia os dois.

O impacto da pasta fez o copo de água de Antonella tremer. Ela arqueou uma sobrancelha, retirando um dos fones.

— Ocupado? — ela perguntou, a voz tingida de uma ironia que ele claramente não esperava.

Ji-hoon nem se deu ao trabalho de virar o rosto. Ele abriu o notebook, cujas luzes do teclado brilharam contra seu rosto de traços afiados e expressão impenetrável.

— Este espaço é funcional, não recreativo — ele respondeu em um inglês seco e perfeito. — Se a sua água está no caminho do meu trabalho, sugiro que a mova. Tenho uma fusão de milhões para revisar antes de pousarmos nesse... — ele fez uma pausa, olhando rapidamente pela janela com desdém — ...lugar tropical.

Antonella sentiu o sangue brasileiro ferver. Ela não era do tipo que se encolhia, e aquele tom de superioridade era o combustível perfeito para sua língua afiada.

— "Lugar tropical"? Você quer dizer Maceió? — Ela deu um sorriso de lado, encostando-se no assento e cruzando os braços. — Sabe, Ji-hoon — ela leu o nome na etiqueta da pasta dele, de propósito —, aqui a gente tem uma regra: se você quer tanto espaço para o seu ego, deveria ter fretado um jato particular. Na primeira classe, você ainda tem que dividir o oxigênio com os "meros mortais".

Ji-hoon parou de digitar. O silêncio que se seguiu foi pesado. Ele girou o pescoço lentamente, os olhos escuros e gélidos encontrando os de Antonella pela primeira vez. Ele a mediu de cima a baixo, fixando o olhar no cabelo dela e depois nos olhos desafiadores.

— Você é barulhenta — ele constatou, a voz baixa, quase um sussurro perigoso. — E muito corajosa para quem não sabe com quem está falando.

— E você é muito mal-educado para quem foi criado com etiqueta de príncipe — ela rebateu, sem desviar o olhar. — Não importa quem é seu pai ou quantos milhões você está movendo. Aqui em cima, você é só o cara ranzinza sentado na poltrona 2A.

Ji-hoon soltou um suspiro de impaciência, fechando o notebook com um estalo seco.

— Ótimo. Teremos doze horas de barulho, pelo visto.

— Doze horas de verdade, herdeiro — Antonella colocou os dois fones de volta, dando uma piscadela atrevida antes de aumentar o volume da música. — Tente não quebrar nada com a sua arrogância enquanto eu durmo.

O clima na cabine estava carregado. Ji-hoon voltou a abrir o computador, mas, pela primeira vez em anos, ele não conseguia se concentrar nos números. O cheiro do perfume dela — algo solar, cítrico e completamente diferente do gelo de Seul — invadia o espaço dele, e a audácia daquela mulher era um enigma que ele não estava acostumado a resolver.

O sol de Maceió não perdoava. Kang Ji-hoon sentia o suor começar a brotar sob a gola da sua camisa de linho caríssima, algo que nunca acontecia no clima controlado de Seul. Ele estava parado na calçada, segurando o celular como se fosse uma bússola quebrada, tentando entender por que o motorista da empresa não estava ali.

Até que aquela voz, carregada de um deboche que ele reconheceria em qualquer lugar do mundo, o atingiu.

— Ora, ora... parece que o gênio das finanças se perdeu no "país tropical"?

Ji-hoon travou. Ele fechou os olhos por um breve segundo, respirando fundo o ar salgado, antes de se virar. Ali estava ela. Antonella Mascarenhas.

Ela parecia uma pessoa completamente diferente daquela que estava enrolada em um cobertor na primeira classe. Vestia um short jeans desfiado, um top de biquíni por baixo de uma regata branca folgada e chinelos. O cabelo estava preso em um coque bagunçado, e a pele parecia brilhar sob o sol. Ela exalava uma liberdade que o irritava e, ao mesmo tempo, o deixava sem palavras.

— Você me persegue, ou é apenas o azar do destino? — Ji-hoon perguntou, recuperando a postura rígida e guardando o celular no bolso.

— Eu moro a duas quadras daqui, "Vossa Alteza" — Antonella deu um passo à frente, ajustando os óculos de sol no topo da cabeça. — Esse hotel é o melhor da cidade, mas parece que o seu senso de direção não veio incluído na reserva. Você está parecendo um pinguim tentando sobreviver no deserto com essa roupa.

Ji-hoon olhou para o próprio traje e depois para a informalidade dela. O contraste era absurdo.

— Meu motorista teve um contratempo. Estou apenas esperando — ele mentiu, a voz seca. A verdade é que ele não conseguia explicar o endereço em português e o aplicativo de mapas estava dando erro.

Antonella soltou uma risada curta e deliciosa, que o pegou de surpresa.

— Você está perdido. Admite. Se eu não te ajudar, você vai acabar em uma balsa para o outro lado da lagoa achando que está indo para uma reunião de negócios.

Ele abriu a boca para protestar, mas o calor estava vencendo sua resistência. Ji-hoon olhou para a rua movimentada, para os coqueiros e para a mulher que o desafiava com um sorriso atrevido. Ele precisava de um tradutor, de um guia e, infelizmente, a única pessoa que falava seu idioma (técnico e arrogante) era a mulher que ele mais queria evitar.

— O que você quer em troca? — ele perguntou, cruzando os braços, os olhos escuros fixos nela.

Antonella inclinou a cabeça, os olhos brilhando com uma ideia perigosa.

— Em troca? Eu quero que você tire essa máscara de CEO por uma tarde. Quero que você venha comigo e conheça o que é o Brasil de verdade. Sem hotéis cinco estrelas, sem ar-condicionado. Se você sobreviver a uma tarde como um "mero mortal", eu te levo onde você precisa ir.

Ji-hoon hesitou. O protocolo dizia para ele entrar no lobby do hotel e esperar por horas. Mas o olhar de Antonella era um desafio que ele, como um competidor nato, não conseguia recusar.

— Aceito — ele disse, a voz baixa. — Mas se eu for sequestrado ou acabar em algum lugar insalubre, meu pai vai comprar essa orla inteira só para te achar.

— Menos drama, Ji-hoon — ela estendeu a mão para ele, um gesto simples que fez o coração dele dar um solavanco estranho. — Bem-vindo a Maceió. Tente não se apaixonar pelo meu paraíso... ou por mim.

Notas finais
E aí, o que acharam desse primeiro embate? A Antonella não brinca em serviço e o Ji-hoon... bom, ele ainda tem muito o que aprender sobre o "calor" brasileiro, né? Preparem-se, porque se no ar o clima já ficou tenso, em solo firme as coisas vão ferver de vez. Deixem nos comentários o que acharam dessa primeira impressão do nosso herdeiro de gelo! ✨