O dia mal havia começado e o sol já castigava o asfalto. Antonella estacionou seu jipe antigo em frente ao hotel, buzinando duas vezes. Quando Ji-hoon apareceu, ela teve que morder o lábio para não rir. Ele estava tentando se adaptar: usava bermuda de linho, uma camiseta branca de algodão egípcio e óculos escuros de uma grife que provavelmente custava o preço do carro dela.

— Pronta para o resgate do herdeiro? — ela gritou da janela.

— Eu ainda não entendo por que precisamos sair tão cedo — ele resmungou, subindo no jipe e sentindo o calor do estofado. — E por que este veículo não tem... portas laterais completas?

— Para o vento levar sua arrogância embora, Ji-hoon! — Antonella arrancou, fazendo o coreano se segurar no painel com força.

...

Depois de uma manhã mágica nas águas paradas de Maragogi, onde Ji-hoon finalmente relaxou um pouco ao ver os peixes coloridos, eles seguiram para a Praia do Gunga. Mas o verdadeiro teste de fogo começou quando Antonella o levou até a área dos buggys.

— Você vai dirigir? — Ji-hoon perguntou, olhando para o veículo aberto e cheio de areia.

— Não. Você vai — ela entregou a chave para ele, com um brilho desafiador nos olhos. — Quero ver se o gênio da tecnologia consegue dominar um motor manual nas dunas.

Ji-hoon encarou a chave como se fosse um artefato alienígena. Ele estava acostumado com carros que dirigiam sozinhos. Mas o deboche no olhar de Antonella o atingiu em cheio. Ele assumiu o volante, ajustou os óculos e ligou o motor.

— Segure-se, Mascarenhas.

O início foi desastroso. O buggy deu dois solavancos e morreu. Antonella gargalhou tanto que precisou de ar.

— É uma duna, Ji-hoon, não uma negociação na bolsa! Acelera!

Ele rosnou algo em coreano que ela teve certeza de ser um palavrão, e então, algo estalou. O espírito competitivo de Kang Ji-hoon assumiu o controle. Ele acelerou fundo, as rodas traseiras jogando areia para o alto enquanto o buggy subia a primeira duna.

O vento batia forte, desfazendo completamente o penteado impecável dele. Antonella gritava de alegria enquanto eles desciam uma ladeira íngreme de areia branca, e Ji-hoon, para sua própria surpresa, soltou um grito de adrenalina que nunca se permitiria dar em Seul.

Ao chegarem no topo das falésias coloridas, ele freou bruscamente. Estavam cobertos de areia, com os cabelos bagunçados e os corações disparados. Ji-hoon olhou para Antonella, a respiração ofegante, e começou a rir. Uma risada alta, solta, que transformou completamente o rosto dele.

— Você está horrível — ela disse, limpando um pouco de areia da bochecha dele, o toque demorando um segundo a mais do que o necessário.

— E você é uma péssima influência — ele retrucou, mas não se afastou. — Minha equipe em Seul não acreditaria se visse isso.

A tensão entre eles mudou ali, no topo daquelas falésias, com o mar azul infinito ao fundo. O "pinguim" tinha perdido a pose, e Antonella estava começando a ver o homem fascinante que existia por trás do herdeiro.

Se as dunas do Gunga tinham desestabilizado Ji-hoon, nada o preparou para o que veio a seguir. Quando Antonella disse que o jantar seria na casa dela, ele imaginou uma recepção formal. O que encontrou foi uma varanda iluminada por luzes coloridas, o cheiro defumado de uma churrasqueira acesa e o som alto de uma conversa que parecia uma briga, mas que Antonella garantiu ser apenas "o jeito normal da família falar".

— Gente, esse é o Ji-hoon. Ele é coreano, então falem devagar e, por favor, não assustem o rapaz! — Antonella anunciou, puxando-o para o centro do furacão.

Em cinco minutos, Ji-hoon tinha uma caneca de cerveja gelada na mão e estava sendo cercado pelos tios e primos de Antonella. Ele, que estava acostumado a jantares silenciosos em Seul onde cada movimento era coreografado, sentia-se em outro planeta.

— Ele é muito branco, né? Precisa de mais sol! — comentou uma das tias, batendo no ombro dele com uma intimidade que o fez arregalar os olhos.

A mesa era um banquete de cores. Ji-hoon observava o prato que Antonella montava para ele com uma curiosidade quase científica.

— O que é este... bolo amarelo? — perguntou ele, apontando para o cuscuz fumegante.

— Isso, meu caro pinguim, é o coração do Nordeste. Cuscuz com carne do sol — Antonella explicou, servindo também uma fatia de tapioca de queijo coalho e outra de coco. — Experimente. Se você sobreviver ao molho de pimenta da minha avó, sobrevive a qualquer coisa em Seul.

Ji-hoon deu a primeira garfada. O contraste da textura do cuscuz com o salgado da carne do sol e a doçura da tapioca de coco fez algo mudar em seu paladar. Ele mastigou devagar, surpreso.

— É... intenso — ele disse, e para a surpresa de todos, pegou mais um pedaço de churrasco direto da tábua. — Mas é muito bom. Tem um gosto de... — ele buscou a palavra — ...acolhimento.

A noite seguiu entre risadas e histórias constrangedoras que a família contava sobre Antonella (o que o fazia sorrir de lado, vitorioso). Depois de algumas cervejas, Ji-hoon já não parecia mais o herdeiro intocável da primeira classe. Ele estava com a camisa levemente amarrotada, o rosto relaxado e tentando aprender a dizer "obrigado" com o sotaque alagoano, o que levava a família à loucura.

No final da noite, enquanto os dois se afastavam para o canto da varanda para fugir do barulho, Ji-hoon olhou para Antonella com uma sinceridade que o álcool e o ambiente proporcionaram.

— Em Seul, meus jantares são sobre quem tem mais poder na mesa — ele confessou, observando o pai de Antonella rindo com os sobrinhos. — Aqui, parece ser sobre quem ama mais. Eu nunca vi nada parecido.

Antonella se encostou no pilar da varanda, olhando para ele com carinho.

— O Brasil tem esse jeito de desarmar as pessoas, Ji-hoon. Mas acho que você já estava querendo ser desarmado há muito tempo.

Notas finais
Ver o Ji-hoon comendo cuscuz e tomando cerveja de garrafa é a elite! 🌽🍻 A família da Antonella fez o que nenhuma reunião de diretoria conseguiu: fez ele se sentir parte de algo. Mas agora que ele conheceu o "mundo real" dela, como será que ele vai reagir quando tiver que voltar para a bolha de cristal em Seul?