O calçadão de Maceió estava em seu ápice. O cheiro de tapioca fresca se misturava à brisa salgada, e o som do axé vindo de um quiosque distante parecia fazer Kang Ji-hoon querer entrar em colapso sensorial. Ele caminhava ao lado de Antonella como se estivesse pisando em campo minado, segurando seu paletó caro sobre o braço, enquanto os primeiros botões de sua camisa já estavam abertos.

— Você está sendo muito dramático — Antonella riu, parando em frente a uma barraca de água de coco. — Beba isso. Vai impedir que seu cérebro de CEO derreta com o nosso sol.

Ela entregou o coco gelado para ele. Ji-hoon olhou para o canudo de plástico com uma desconfiança quase cômica.

— Eu não costumo consumir bebidas que não venham em recipientes de vidro ou devidamente lacrados — ele murmurou, mas o calor venceu. Ao dar o primeiro gole, seus olhos se arregalaram levemente. — É... aceitável.

— "Aceitável"? Ji-hoon, isso é o paraíso em forma líquida! — Ela balançou a cabeça, voltando a caminhar.

Eles passaram o resto da tarde percorrendo a orla. Antonella fez questão de levá-lo para ver o artesanato no Pontal da Barra e o fez experimentar um picolé de caipirinha (que ele jurou que não ia gostar, mas terminou em dois minutos).

O que Ji-hoon não esperava era como as pessoas tratavam Antonella. Por onde passavam, ela recebia sorrisos, cumprimentos e brincadeiras. Ela pertencia àquele lugar de uma forma que ele nunca pertenceu a lugar nenhum, nem mesmo aos seus escritórios envidraçados em Seul.

— Por que todos olham para você? — ele perguntou, enquanto observavam o pôr do sol tingir o céu de laranja e rosa perto do farol.

— Porque aqui a gente se vê, Ji-hoon. A gente não é só um número em uma planilha — ela o encarou, a luz do sol poente refletindo em seus olhos castanhos. — Você passa o dia cercado de gente e parece a pessoa mais solitária que eu já conheci.

Ji-hoon sentiu um soco no estômago. Ninguém nunca tinha tido a audácia de ler a alma dele daquele jeito. Ele abriu a boca para retrucar, para dizer que a solidão era o preço do poder, mas as palavras morreram na garganta. Pela primeira vez, o silêncio entre eles não era de briga, era de reconhecimento.

...

Quando a lua já brilhava sobre o mar, Antonella o guiou de volta para a entrada do luxuoso hotel onde ele estava hospedado. O carro preto da empresa já o esperava, com o motorista coreano curvando-se em respeito assim que os viu.

Ji-hoon parou diante da porta giratória, voltando a vestir o paletó, recuperando sua armadura de herdeiro. Mas havia areia em seus sapatos de couro e um brilho diferente no olhar.

— Entregue são e salvo — Antonella disse, colocando as mãos nos bolsos do short. — Consegue subir o elevador sozinho ou quer que eu segure sua mão até o quarto?

Ji-hoon deu um meio sorriso — o primeiro sorriso real que ela viu.

— Eu acho que consigo sobreviver a partir daqui, Mascarenhas. Obrigado pela... — ele buscou a palavra — ...excursão antropológica.

— De nada, "pinguim" — ela brincou, começando a se afastar. — Tente não sonhar com água de coco.

Ji-hoon ficou parado, observando-a desaparecer na multidão do calçadão. Ele entrou no hotel climatizado, onde tudo era perfeito e frio, mas, pela primeira vez em sua vida planejada, ele se pegou desejando o calor barulhento do lado de fora.

A suíte presidencial do hotel era impecável. Paredes de vidro, lençóis de mil fios e um silêncio absoluto que, pela primeira vez na vida, incomodou Kang Ji-hoon. Ele estava deitado, encarando o teto, mas sua mente não estava nos contratos que precisava assinar no dia seguinte.

Ele ainda conseguia sentir o rastro de sal na pele e ouvir a risada de Antonella. Era irritante o quanto aquela brasileira conseguia desestabilizar séculos de tradição e autocontrole coreano com apenas um sorriso irônico. Ele fechou os olhos, tentando dormir, mas a imagem dela contra o pôr do sol de Maceió foi a última coisa que viu antes de finalmente apagar.

...

Na manhã seguinte, o sol de Alagoas entrou pela fresta da cortina, lembrando-o de que ele não estava em Seul. Ji-hoon tomou seu café preto, vestiu uma camisa de linho azul-clara (aprendendo a lição sobre o calor) e olhou para o cartão de visitas que havia conseguido com o contato dela.

Ele hesitou. O orgulho dizia para focar no trabalho. O instinto — aquele que ele raramente ouvia — dizia que ele precisava vê-la de novo.

...

Do outro lado da cidade, Antonella estava terminando de organizar seus livros de Psicologia quando o celular vibrou sobre a mesa. Um número desconhecido.

— Alô? — ela atendeu, curiosa.

— Você disse que eu parecia um pinguim no deserto — a voz profunda, com aquele sotaque coreano elegante e seco, preencheu a linha. — Então, decidi que hoje preciso de uma consultoria para não cometer mais crimes de moda ou de etiqueta.

Antonella sorriu, encostando-se na parede.

— Ji-hoon? Achei que você já estivesse em uma sala de reuniões climatizada, ignorando a existência do resto do mundo.

— As reuniões podem esperar uma hora — ele respondeu, e ela pôde quase ouvir o meio sorriso dele do outro lado. — Vou enviar um carro para te buscar às treze horas. Quero almoçar. E, desta vez, eu escolho o lugar. Quero ver se você consegue lidar com o meu padrão de ambiente.

— Está me desafiando, herdeiro? — Antonella soltou uma risadinha. — Aceito o convite. Mas já vou avisando: se o restaurante for fresco demais, eu vou embora e te deixo com a conta.

— Esteja pronta, Mascarenhas.

Quando ele desligou, Antonella ficou encarando o celular por alguns segundos. O coração dela bateu um pouco mais rápido do que o normal. O "gelo" de Seul estava começando a derreter, e ela estava curiosa para ver o que havia por baixo daquela armadura de milhões.

Notas finais
O jogo virou! Agora o Ji-hoon está nas mãos da Antonella. Será que ele aguenta o ritmo dela ou vai pedir arrego no primeiro picolé de fruta local? Preparem-se, porque a tensão física entre esses dois só tende a aumentar sob esse sol de 30 graus! 🔥