Mil Flores de Cerejeira

14 Capítulo 14 - É apenas o Destino


Ainda abraçados, ele me disse o real motivos pelo qual foi à floresta naquele dia:

—Eu... fui me encontrar com a Kyoko.

—Com a Kyoko? — repeti

—Sim. Naquele mesmo dia nós marcamos de nos encontrar na floresta do parque porque ela queria falar algo importante comigo — admitiu Patrick, abraçando-me mais forte -Eu...pensei que fosse algo relacionado à antiga paixão que eu tinha por ela, e que talvez ela...

—Queira algo com você? — completei.

—S-sim... — cochichou ele, soluçando — e por culpa dessa ilusão inútil que eu tive, estamos nessa situação.

—Não é culpa sua.

Patrick levantou o rosto e desfez nosso abraço, olhou para mim com as mãos em meus ombros e disse:

—É sim, Naomi. A culpa é toda minha! Se eu não tivesse sido tão trouxa, não estaríamos nesta situação.

—Não.

—Hã?

—Eu acredito que há coisas que devem acontecer, predestinadas. Se você não tivesse ido encontrar a Kyoko naquele dia, seria em outro, cedo ou tarde isso iria ocorrer.

Patrick franziu a testa, provavelmente questionando-se mentalmente de minha afirmação, custando a acreditar.

—Mas ainda não sei o que ela queria falar comigo.

—Pergunte a ela. — sugeri, sorrindo.

—Já faz muito tempo, acho que ela nem lembra mais.

—Tem razão...

—Ah, Naomi! — lembrou Patrick, de repente — Shang veio aqui ontem, antes de você chegar e nos convidou a ir na tal organização.
Fingi estar surpresa para ele não suspeitar de que eu já sabia.
—Acho que não vou — murmurei, olhando para o lado com a mão na nuca e expressão apreensiva.
—Por que? — questionou ele, olhando-me com a cabeça torta e as mãos em meus antebraços.
—N-nada demais. — respondi disfarçadamente.
Notei que Patrick entendeu que eu não queria falar sobre o assunto e não insistiu. Preciso aprender essa arte.
—E se eu for com você?
Fiquei corada com a proposta, mesmo não me sentindo confortável, não poderia dizer "não" àquela carinha de cachorro que caiu da mudança.
—Tudo bem... vamos. — aceitei, sorrindo.

(***)

Ao término da aula, eu e Patrick fomos para o endereço que Shang nos deu.
Logo que chegamos em frente ao prédio, pude notar que era bem alto. Comecei a pensar que se alguém caísse daquela altura, certamente faria estrago. Nas paredes haviam vidros azulados que refletiam a imagem do céu nublado.
Na nossa frente havia uma porta preta de metal. A entrada era cercada por câmeras nas duas pontas superiores, direcionadas ao centro da porta, ou seja, apontadas para nós. Ao lado havia um interfone, apertei o botão de chamada e logo após alguns segundos fomos atendidos por uma voz grossa que disse:
—Digam seus nomes.
—Naomi Nagasawa
—Patrick Harasaki
Nesse momento, as câmeras começaram a focar em nós dois e a emitir ruídos.
—Estão aqui a mandado de quem?
—Fomos convidados por Shang Araya. — respondi seriamente.
—Os dois são ECM's?
—Apenas eu. — corrigi.
—Mostre seus documentos.
Abri minha mochila, peguei os papeis e os mostrei à câmera. Houve alguns segundos de silêncio e logo o tal homem disse:
—Podem entrar.
O grande portão se abriu pela lateral e entramos. Lá dentro parecia uma base militar misturada com uma empresa de contabilidade. No salão principal haviam centenas de outros caçadores, alguns deles carregavam armas nas costas, alguns usavam armaduras de ferro, outros seguravam socos ingleses, adagas e pistolas na cintura.
Patrick estava nervoso, pois sua linguagem corporal dizia estar apreensivo, algo o incomodava naquele ambiente. Eu tentava relaxar mas aquilo me deixava insegura.
Caminhamos até o meio do salão e olhei em volta procurando por Shang. Por enquanto sem sucesso.
—Que estranho, onde está ela? — dos se Patrick, franzindo a testa.
Quando passei o olhar pela entrada, vi Shang passando pelo portão e no momento de euforia, exclamei, chamando Patrick:
—Ali!
Caminhamos rapidamente até onde estava ela e a mesma, logo que nos viu, deu um sorriso e caminhou um pouco em nossa direção. Sorridente, Shang nos cumprimentou com as mãos juntas:
—Vocês vieram!
—Eu não sabia que tinha uma OECM — Organização dos Exterminadores de Criaturas Mágicas — aqui na cidade. — eu disse, sorrindo de volta.
—Nem eu!
—Como assim? Você não faz parte dessa aqui? — perguntou Patrick, confuso assim como eu.
—Ah é eu não contei a vocês, não é? Eu sou tailandesa!
Eu já suspeitava que ela não era japonesa devido à pele que ela possui, sendo marrom tom de terra.
—Mas e o seu sobrenome?
—Minha mãe era japonesa. Decidi vir ao Japão para recomeçar a vida como ECM. Quando viajei para cá, fiquei em Ueda por uns dias na casa de uma amiga, mas consegui ser ECM e agora estou aqui em Nagano, consequentemente tive que me mudar para a OECM daqui, portanto é a primeira vez que venho nessa organização. É tão emocionante, vamos olhar o prédio!
Shang caminhava, seguida por nós dois logo atrás. Ela nos revelava um pouco mais sobre sua vida:
—Quando meus pais morreram há quatro anos atrás, tive que aprender a me virar sozinha. E como sempre tive boas habilidades de caça, por causa de meu pai, decidi virar ECM para fazer o que gosto e para poder me sustentar, e para isso, tive que entrar em uma organização.
Às vezes, nós ECM's, recebemos uma certa recompensa pelo trabalho que fazemos. Em dinheiro, a recompensa é dada apenas se o indivíduo for membro de alguma OECM. Porém, para aqueles que não querem entrar numa organização, podem obter alguns "prêmios" que os monstros fornecem após seu óbito, como por exemplo o sangue verde do dragão.
Eu, Patrick e Shang explorávamos o edifício, quando vi Patrick pôr sua mão direita em sua barriga e apertá-la, enrrugando o tecido da camisa do uniforme. Foi aí que comecei a ficar ainda mais preocupada, pois sei que se ele fez esse gesto, é porque algo não cheira bem.