Mil Flores de Cerejeira

15 Capítulo 15 - Trabalho sozinha


Conforme passávamos pela sala de armamento, Shang observava tudo maravilhada, como uma criança num parque de diversões.
Porém, quando voltamos ao primeiro andar, estávamos no centro do saguão novamente e olhei para o lado. Meu coração disparou, minha respiração ficou mais ofegante, meu corpo paralisado: cerca de dez caçadores andavam em fila carregando gaiolas com gnomos, filhotes de formigas gigantes, fadas solares e pequenos lobos azuis da montanha. Animais que contribuem para o ecossistema do país, que não fazem mal a ninguém! ECM's exterminam apenas as criaturas que prejudicam a humanidade. Isso é uma prática ilegal, e provavelmente pegaram essas criaturas para servirem de cobaias em testes torturantes, já que cobaias artificiais são caras.
Patrick percebeu que parei de repente e disse:
—Naomi?
Na agonia, acabei apontando para aqueles caçadores e gritei:
—É uma organização clandestina!
Shang virou-se e viu os indivíduos carregando as gaiolas e chocou-se, colocando a mão sobre a boca e arregalando seus olhos. Todo o salão olhou para nós, e um homem de bigode branco e farda de general apontou para nós e gritou:
—São espiões!
Todos puxaram suas armas e apontaram para nós.
—Corram! — gritou Shang.
Puxei minha katanas da mochila enquanto corríamos desesperados.
—Eu sabia que tinha algo errado! — disse Patrick.
—Relaxa, a gente dá um jeito. — confortei-o
Shang foi na nossa frente e atirou com a bazuca em torno de nós, atingindo todos em volta. Logo vieram mais reforços, eu dava o máximo de mim para esquartejar os inimigos e ao mesmo tempo proteger Patrick. Tiros vindos dos adversários acabavam atingindo a eles mesmos, pois sempre estávamos desviando. O que me fez perceber que eles são muito ruins de mira. De que adianta obter tantas armas evoluídas e caras, se não sabe como usá-las?
Em uma das explosões, Shang conseguiu derrubar o portão. Peguei na mão de Patrick e o puxei. Atravessávamos o saguão o mais rápido possível, e vi que Patrick estava suado e ofegante.
—Naomi! Não posso correr muito! — exclamou ele, pondo a mão na barriga.
—Peguem o garoto! Ele está com a criança no ventre! — gritou um dos oficiais.
—É O QUE? -exclamou de volta Patrick, virando a cabeça na direção do oficial.
—Droga! Patrick, aguenta mais um pouco!
—Não dá! Eu tô quase morrendo!
Conseguimos finalmente chegar ao portão e saímos daquele terror. Tão exausto, Patrick caiu no chão, de quatro, com a cabeça abaixada e respiração forte.
—Patrick! Meu Deus! — gritou Shang, com os olhos dilatados e os dedos encostados nós lábios.
—O que houve? — perguntei.
Quando Shang apontou para as costas de Patrick, havia uma marca de bala no lado esquerdo. Fiquei horrorizada. Então era por isso que ele estava tão cansado, até porque, uma gestação de 3 meses não deve deixar alguém tão esgotado.
—O que foi? — questionou ele, que devido à adrenalina, não percebeu que levou um tiro.
Patrick encostou a mão em suas costas e sentiu. Olhou sua mão e lá estava ela, machada de sangue. Ele arregalou os olhos e gritou de horror.
—Calma! Vai ficar tudo bem! Só vamos...
—Não tá nada bem, Naomi! Eu levei um tiro nas costas!
Foi aí que lembrei do sangue verde do dragão, com poder de cura. Rapidamente, abri a mochila e peguei a garrafa enquanto Shang havia tirado sua jaqueta para controlar a perda de sangue do ferimento.
Olhando para a garrafa, comecei a pensar:
—"Como eu sou estúpida! Como pude gritar aquilo?! E agora, por culpa minha, o Patrick pode morrer!"
—Naomi, vem logo! — disse Shang, desviando-me de meus pensamentos.
—Ah, sim! — respondi.
Corri até Patrick e banhei sua ferida com o conteúdo da garrafa. Mas já era tarde demais, ele já estava caído no chão, seus olhos ainda abertos, não expressavam movimento algum.
—Naomi, ele... não tá respirando.
—Não... não! -exclamei, com os olhos repletos de lágrimas. -Não acredito! Patrick, por favor, não faz isso comigo!
Debrucei minha cabeça em seu peito e disse, pondo minha mão suavemente sobre sua barriga:
—Eu não quero perder vocês dois... eu os amo tanto...
Shang também cedeu e começou a chorar. O silêncio tomava conta daquele terror, unido à tristeza e ao desespero.
De repente, Patrick abre os olhos e se levanta me abraçando.
—Nós também te amamos. — cochichou ele em meu ouvido, me assustando.

—Patrick! — disse, eufórica, enquanto o abraçava forte — pensei que havia perdido vocês...
—Ele conseguiu? — perguntou Shang, sorrindo.
—Acho que o sangue do dragão funciona até mesmo poucos instantes após a morte.
—Sangue do...? — questionou-se Patrick, colocando a mão no peito e ao ver o remédio ali.- Ah... nossa...
—Desculpe por ter causado isso a vocês. — lamentou Shang.
—Não foi culpa sua, você nem sabia essa farsa toda. — confortei-a.
Patrick agradeceu à Shang por nos ajudar a ir embora daquele lugar terrível.
—Vão para casa descansar, deixem que eu ligo para a polícia.
—Obrigada Shang, como sempre, cuidando da bagunça, não é?
— Gosto de te deixar tranquila... — respondeu ela, se aproximando de mim e beijando minha face, me deixando corada. Dei-lhe um abraço e saímos.
Caminhávamos em silêncio pela rua deserta e Patrick disse:
—Obrigado por me salvar...
—Não tem que agradecer, é a minha obrigação.
—... Então foi por isso que você não queria..
—Por isso que eu trabalho sozinha. Sem esse bando de desconhecidos. Apenas com meus irmãos e a Shang.
—...
Chegamos na casa de Patrick, abri a porta que já estava destrancada e indaguei:
—Temos que ir ao hospital para ver se não aconteceu nada com o bebê.
—Não se preocupe com isso agora... — disse ele pegando em meus pulsos e unindo-os no alto na parede, deixando me encostada na mesma e ele à minha frente, olhando sensualmente nos meus olhos. -Temos outros assuntos a tratar.