Miguel
1 Um Herói Emerge
Aquela noite estava fria, barulhenta, bêbada, louca, trôpega, estúpida e ilógica, exatamente como deveria ser à noite naquele lugar específico, abaixo do Pequeno Império de Brook, ao lado do País dos Espadachins, no extremo sudeste do Grande Continente do Oeste.
O lugar específico era uma floresta, que estava cheia de pessoas correndo para todos os lados. A maioria nos sentidos da casa para o bar, e do bar para o que pensavam ser a sua casa. Várias pessoas ficavam perdidas no caminho e começavam a ter alucinações, fruto das misturas de álcool com chás variados e água, feitas pelos donos dos bares da região para fazer render a cerveja. Como resultados das bebidas batizadas, ocorriam diversas brigas em decorrência de nada, muitas vezes contra o próprio nada, que acabavam por terminar em mortes múltiplas para o lado em que havia alguma coisa, o que trazia tristeza, o que gerava mais pessoas depressivas e ansiosas e, conseqüentemente, mais pessoas indo religiosamente aos estabelecimentos que vendiam mais daquele álcool misturado com venenos letais, drogas proibidas e com sorte, apenas a urina do rato.
Poderia ter sido assim a noite inteira, ou melhor, deveria ter sido assim. A partir do momento em que aquela pessoa específica começou a jogar poker, em uma mesa podre do bar Chatelie, naquela improvável coordenada geográfica, o mundo já estava fadado a mudar.
Não que ela fosse uma pessoa tão relevante. Era forte, claro, mas sozinha, não teria feito nada de especial naquela noite. Provavelmente haveria morrido antes do amanhecer por conta de três gigantes que, além de não gostarem muito dela, ganhariam bastante dinheiro matando-a ou vendendo-a para alguém matar. Entretanto, enquanto ela jogava poker com cinco pessoas em uma mesa de bar, um meteoro caia.
Era um brilhante, incandescente e rápido. Tinha tudo o que precisava ter para ser chamado de meteoro, tirando o fato de estar dentro da atmosfera, o que o tornava um meteorito. Embora não fosse de fato nenhuma das duas coisas.
Enquanto o garçom, de extremo mau humor, servia na mesa uma bebida desconhecida em uma garrafa sem rótulo, seis pessoas jogavam poker.
Nos lados opostos da mesa, estavam duas pessoas encapuzadas. O primeiro, Burdof, mantinha uma pequena fresta onde era possível ver seus olhos, a única parte do rosto que não tinha razões para esconder. Tinha cicatrizes na bochecha, um nariz mal formado, orelhas pontudas, além de um nojento hábito de lamber o cavanhaque sujo abaixo dos lábios. Era muito rico, mas nada que pudesse comprar com o que ganhava pilhando e matando pessoas podia consolar a sua tristeza diária. Este dia, entretanto, era uma exceção. A pessoa do outro lado da mesa cobria todo o rosto, o corpo e até mesmo, as pernas. Ela sem dúvida era mais desgraçada que ele — era o que pensava.
Algum tempo depois de se iniciar a partida, Burdof recebe mais uma vez as suas cartas, deu uma lambida no cavanhaque enquanto ajeitava o capuz, e colocou todas as suas fichas no centro da mesa dizendo:
— Alguém vai entrar?
Na mesma hora outras quatro pessoas da mesa desistiram. Em parte porque não tinham dinheiro, em parte porque o homem era chefe deles. Um deles estava com uma excelente mão e até ficou um pouco relutante em desistir, mas não tinha cacife para aquela aposta, afinal de contas.
Apesar da desistência de todas as outras pessoas, a pessoa encapuzada, sem dizer uma única palavra, jogou todas as suas fichas no centro da mesa com uma visível determinação… embora não pudessem ver o seu rosto e ninguém fosse se importar em com isso. O meteoro continuava a cair.
A mesa passou por um momento de tensão. Burdof estava atônito, pensando no que seu rival do outro lado da mesa estava pensando que ele estava pensando. O homem encapuzado estava mais preocupado com outra coisa no momento e segurava as cartas levemente com um ar de desleixo enquanto esperava que seu rival acabasse de pensar sobre o que ele estava pensando que ele estava pensando, ou pelo menos era o que pensava. O meteoro estava bem próximo agora.
— Já! — disse o homem de tapa-olho estiloso que comandava a banca nessa rodada. Os dois colocaram suas cartas para as combinações. Os dois jogaram um ás e um rei. Os dois fizeram Royal Flush. Os dois eram do naipe de espadas...
Depois de alguns segundos de silêncio profundo, Burdof estava tão irado que não conseguia falar. Havia se preparado muito para esse jogo e não sabia expressar em palavras sua insatisfação em relação ao roubo do seu oponente. A única coisa que conseguiu falar ao se levantar da mesa, depois de mais ou menos dois minutos de reflexão e dois copos de cerveja servidos pelo garçom, a dois outros jogadores, foi:
— Peguem, peguem!— houve mais uma pausa de alguns segundos até que ele refletisse melhor sobre o que falou, desse duas lambidas na barba, apontasse para o alvo e dissesse:
— Peguem ele!
Na mesma hora três pessoas que estavam na mesa se levantaram, se preparando para lutar e se lançar ao inimigo sujo e desonesto. Um deles demorou um pouco mais para se levantar, quase tinha entrado naquela aposta e precisava refletir mais um pouco sobre o ás de espadas que também estava em sua mão.
Todos se levantaram e se lançaram contra o encapuzado desconhecido. Um deles segurou o capuz, que o dono o rasgou para que pudesse escapar. Foi quando todos viram sair debaixo dele uma belíssima mulher. Ela vestia uma saia longa, mas aberta lateralmente e uma blusa um pouco decotada. Como era possível olhar suas pernas, e ter a ilusão de ver seus peitos, todos pararam de se mexer para olhar, aumentando ainda mais a descrença de Burdof, que além de ter subordinados tarados e estúpidos, era mais feio que todos, afinal de contas.
— Por que pararam? Ela é Bela, seus idiotas! —disse Burdof, enquanto tirava seu próprio capuz.
Todos os seus subordinados permaneceram parados. “Qual era o problema dela ser bela?”, “Tudo isso só porque não existe ninguém mais feio que o chefe?”, “Ela é realmente muito gostosa.”, “Por que havia três ases de espadas no jogo?” era o que pensavam os quatro abobalhados em pé. Foi preciso que o chefe gritasse mais uma vez, agora espumando de raiva:
— Ela é Bela, A Retalhadora, seus imbecis.
Eles continuaram parados, até que um deles se tocasse que foi ela que amarrou e quase matou todos eles a pontapés dois dias antes e finalmente gritasse “Uaaaaaaaaa”, para que os outros saíssem de sua letargia contemplativa e iniciassem o ataque.
Bela estava preparada. Esperava há dias pela oportunidade de matá-los disfarçadamente, em uma briga de bar qualquer. Era a única que não atormentava a líder da organização chamando muita atenção em capturas, ou com problemas pessoais. Problemas tais como a imensa alegria em provocar incêndios quando faziam missões em floretas, a estupidez de contar estratégias para colegas de bar, mas principalmente, a necessidade de destruir propriedade pública ou privada para mostrar que era homem.
Neste momento, a tensão se torna máxima. Os quatro homens pulam sobre a mesa, Bela coloca as mãos nas duas espadas presas em sua cintura e, finalmente, o meteoro atravessa o teto e cai sobre a mesa que estava entre os dois grupos, parando completamente a luta.
No começo só se via a fumaça. Alguns segundos mais tarde, podia-se ver um brilho. Logo depois sentiram o cheiro da madeira podre da mesa quebrada e ninguém conseguiu se preocupar em ver mais nada até que aquele desagradável odor de bactérias, esporos e suor passasse.
Quando o odor finalmente passou, foi possível ver no meio da confusão um garoto afundado no chão, brilhando muito. Tinha um metro e sessenta e sete centímetros de altura, era branco de cabelos castanhos, aparentava ter uns quinze anos e vestia roupas militares brancas. Na mesma hora em que a fumaça passou, os quatro subordinados de Burdof foram atingidos por um sincero sentimento de compaixão pela pessoa estirada no piso. “Deve ter bebido muito, resolveu passear pelo teto olhando o céu e caiu”, “Poderia ter sido qualquer um de nós”, “Vamos levantá-lo”, “Você está bem, amigo?” era o que estavam falando, enquanto o chefe rasgava a língua de tanto raspar na barba e Bela olhava toda aquela cena insana com um ar de indignação. Decepcionada, foi com uma voz de choro que a espadachim perguntou:
— Ei, vocês não querem mais me matar?
Os quatro que já estavam tentando enfaixar o rapaz caído no chão quando se lembraram do que havia acontecido há alguns minutos atrás. Mais uma vez o homem de tapa olho estiloso gritou “Uaaaaaaaaaaa” e todos voltam para a grande luta de suas vidas.
Inesperadamente, o homem de tapa olho, que ia à frente, sentiu sua perna ser puxada por alguma coisa. Primeiro não tinha dúvidas que era um fantasma, depois concluiu que era uma alucinação, mas como a perna permanecia sem se mover ele finalmente olhou, pensando ser um fantasma, provavelmente o da sua tia avó. Mas o que viu na era o garoto que havia caído do teto que estava segurando firmemente sua perna. Ele começou a se erguer e disse ao ficar de joelhos:
— Essa espada... Ei, você não pode apontar isso para uma dama! — disse com uma incrível convicção, mas sem a menor noção da razão pela qual o estava fazendo.
— Quem você acha que é pra dizer alguma coisa, seu tampinha? Nem tamanho de gente você tem. Por que você está agindo como se fosse alguém com moral? Panaca. Vá encher o saco de alguém do seu tamanho, moleque!— gritou Burdof, que estava extremamente estressado. A situação já estava passando dos limites do bom senso na visão de qualquer um que o possuísse.
De repente, uma pessoa de tapa olho estiloso, com uma marca de mão na perna direita, voa pelo bar e acerta o chefe de um clã de guerreiros na mesa de trás. Todos perderam a fala, de medo e surpresa. O líder do clã foi o único a perguntar:
— Quem foi?! — gritou, espumando de ódio. Ele se levantou pasmo. Ninguém fazia uma afronta dessas a alguém importante da sua família e permanecia vivo. Isso desde o incidente há dez anos quando um garoto deu um tapa em seu pai e escapou, correndo como uma criança normal.
Depois de um pequeno momento de lembranças antigas, G, o líder do clã gritou:
— Matem ele! — todos obedeceram, inclusive umas oito pessoas de outras mesas que estavam apenas tomando partido no que não era da conta deles.
Quatro pessoas simultaneamente correram, munidos de pistolas e espadas, para cima do garoto, que olhou para os lados para ver se encontrava algo com o que pudesse se defender. Ao seu lado direito não havia nada, acima havia um candelabro pendurado no teto, atrás estava Bela, se afastando, e à sua esquerda havia apenas uma imensa mesa redonda.
Até hoje não se sabe ao certo do que aconteceu naquele momento, além de que quatro pessoas sofreram um traumatismo craniano, cujas marcas lembram a beirada de uma mesa redonda.
Outros dois tentaram cercá-lo, vindo um de um lado, com uma espada e outro, do lado oposto, com uma pistola. “Matei ele!”, foi a última coisa que o homem com a arma de fogo pensou, já que não houve muito tempo depois de ver o garoto desaparecendo da sua frente, seu colega receber o tiro que disparou e escutar sobre seu ombro alguém dizendo “Lento...”, enquanto o desacordava pisando com força a sua cabeça, adquirindo impulso para chegar na parte alta da parede, onde havia uma espingarda ainda carregada, pregada num quadro de madeira, apenas para decorar o ambiente.
O garoto pegou o objeto decorativo e usou-o para se defender de seis espadachins que o atacaram pelas contas, contendo todos ao mesmo tempo com o tubo da espingarda e empurrando com força as espadas deles contra eles mesmos, enquanto já se preparava para estocar os que vinham atacá-lo pela frente.
O chef do Chatelie sorriu ao ver aquela cena. Aquela espingarda pertenceu a um velho bêbado, que ao discutir com outro homem embriagado, bem mais novo que ele, por terem o mesmo endereço, se impacientou e atirou no mais jovem, suicidando em seguida. O garçom que limpou os corpos logo percebeu que os dois moravam na vizinhança e eram pai e filho. O chef decidiu aproveitar a espingarda, sem dono e herdeiro para decorar o bar, colocando-a ainda carregada na parede. Estava bastante feliz em saber ela havia ficado lá três semanas antes que algum cliente a pegasse e a usasse para matar mais alguém.
Burdof saiu correndo minutos antes para chamar três grandes caçadores de recompensa que estavam nos arredores. Bela observava atentamente a luta à sua frente, ao lado de um garçom completamente paralisado que segurava uma bandeja. Ela pegou um pequeno aperitivo sobre o prato que, de longe, parecia ser feito de polvo, tinha cheiro de polvo, textura de polvo, gosto de lula e era feito de camarão. Ela de fato apreciou bastante o controverso petisco, mastigando-o calmamente enquanto dizia:
— Puxa... — alguém atira no garçom, que cai. Bela segura a bandeja de metal e continua dizendo, agora de boca cheia — o garoto é mesmo bom. — termina a frase entortando a bandeja na cabeça de alguém que vinha atacá-la por trás.
Depois de nocautear vinte pessoas, o garoto caído do céu viu à sua frente o chefe do clã de guerreiros que deu a ordem da sua execução. Os dois se aproximaram calmamente e pararam a dois passos um do outro. Houve um silêncio demorado, pela completa falta de vontade de falar qualquer coisa com qualquer tipo de espadachim que desse qualquer ordem envolvendo matá-lo, pela parte do garoto, e pela profunda reflexão que estava fazendo sobre o que falaria, pela parte do espadachim. G pensou num plano e decidiu começar a conversa:
— Você é um adversário poderosíssimo, antes de começarmos nosso honrado e memorável duelo, gostaria muito de saber o nome de tão ilustre guerreiro!
O rapaz, com o maior desinteresse do mundo, começou a responder:
— Meu nome é... — parou de falar, olhou para cima e abstraiu-se do mundo tentando lembrar o seu nome. Como não teve resultado, tentou pensar no que fazia da vida. Sem obter resposta alguma de si mesmo em relação a isso também, tentou ver se sabia o que tinha feito no dia anterior, ignorando completamente tudo o que estava a sua volta com uma imensa preocupação, que desapareceu quando a espada de G entrou em sua barriga.
O garoto recuou instantaneamente, sofrendo apenas um ferimento leve, menos de um centímetro. A dor o fizera voltar para a luta com quase a mesma indiferença ao seu oponente que tinha quando começaram a se encarar. Ele não se lembrava de nada, mas tinha certeza que ao longo de sua vida, seu corpo já tinha passado por coisas bem piores que uma estocada mal feita.
Os dois começam lutar um contra o outro, espada com espingarda, chefe de clã com uma pessoa que não lembrava o próprio nome, desonra com indiferença. O garoto manejava a espingarda com uma imensa agilidade, como alguém com muitos anos de treinamento manejaria um objeto com um formato e uma aerodinâmica mais adequados que dois tubos de metal sem lugar anatômico para segurar.
Depois de alguns minutos de duelo, os dois aproximaram suas armas, encostadas uma na outra, com a ponta de uma, e o cano da outra, apontados para a cabeça do adversário. G, sorrindo, disse:
— Hahaha. Você não percebeu, mas esteve esta luta inteira sobre meu total controle. Agora você está na posição perfeita para que eu use a minha mais poderosa técnica, passada de geração em geração na minha família a mais de quinhentos anos, contra a qual você não terá chance de... — é interrompido pelo som do tiro da espingarda. O garoto declarou, substituindo a indiferença pelo desprezo:
— Idiota. — o inimigo caiu.
Bela estava numa mesa, observando tudo e se levantou enquanto decidia se os aperitivos eram feitos de lula ou polvo. A parte interessante da luta parecia ter acabado e ela precisava sumir enquanto ninguém notava sua presença e a delatava para a sua chefa por ter agido como qualquer outra pessoa da organização e ter destruído toda aquela propriedade privada apenas para provar que era homem. Saiu vagarosamente do bar pensando em voz alta:
— Esse rapaz... Queria vê-lo de novo algum dia. — ela parou, refletiu mais um pouco e olhou para trás, viu o garoto ainda brilhando e brigando, voltou a olhar para a saída da espelunca — Vamos nos ver de novo algum dia, não tenho dúvidas. —seus olhos brilhavam e sentia uma leve palpitação no peito.
Assim que acabou de atravessar a porta, Bela se deparou com algo absurdo e permaneceu olhando para frente, se esforçando ao máximo para não rir, um gigante de dez metros estava escondido atrás de uma árvore de cinco, preparando-se para emboscá-la, sem que lhe passasse pela mente que seria percebido.
Antes que Bela pudesse pensar em um plano de fuga, dois gigantes saltaram de trás do bar, causando um tremor que o destruiu o Chatelie por completo. Aquele que estava atrás da árvore a agarrou e começou a apertar. O que estava ao seu lado direito perguntou com uma voz extremamente fina e irritante:
— É essa garota que o tal Birdofi queria?
— Deve ser. Se não for, não importa. Nós a esmagamos e pegamos nosso dinheiro do mesmo jeito. Vamos embora. — respondeu o que tinha um machado com coraçõezinhos, do lado esquerdo do gigante que segurava a garota com força.
Do outro lado da floresta, foi possível sentir um tremor, que pouco abalou as pessoas da região. As que tiveram a chance de ver um meteoro caindo minutos antes, não se importaram. Entretanto, existiam, nesse momento, duas pessoas vindas de terras menos senis e que tiveram a chance de reparar no meteoro, no tremor, e no fato de que passariam muita raiva esta noite.
A mais velha, Andressa, usava um vestido desnecessariamente longo, tinha cabelos castanhos cacheados soltos e que, por alguma razão, balançavam ao vento, mesmo quando não havia vento nenhum. Tinha quase trinta anos e era belíssima, embora tivesse cara de poucos amigos. Pelo que se podia observar, sem dúvida, ela estava pronta para matar qualquer um que tivesse o atrevimento de fazer qualquer um dos dois comentários.
A mais nova, Harpy, tinha olhos nem(nem azul, nem branco, nem verde), um cabelo loiro desbotado preso num rabo de cavalo e trajava uma pseudo-roupa, cujas únicas partes com espessura não desprezível eram as que cobriam os seus grandes seios e a área imediatamente ao redor da sua virilha.
Esta última, após sentir o tremor,perdeu a sua expressão sedutora e disse, não sem gaguejar um pouco antes, temendo pela sua integridade física e de algumas dúzias de pessoas:
— Che-chefe, a direção do meteoro e do tremor é pro lado do bar aonde a Bela ia... Capturar o Burdof?
O vento na região para, os cabelos de Andressa balançam ainda mais, enquanto ela tocava levemente a sua fonte expressou com resignação:
— É minha culpa, não é? É sempre a minha culpa, não é?! — faz uma pequena pausa — Iremos lá agora, Harpy!
— Si, sim, senhorita.
Do outro lado da floresta, uma pesada coluna de rocha matriz foi atirada com furia à frente dos gigantes. O garoto que surgiu debaixo dela correu de encontra a eles e, quando viu que tinha as suas atenções, gritou:
— Hey, vocês três ai em cima. Eu não parti umas vinte cabeças pra que três babacas tamanho G surgissem do nada e pegassem a mulher que eu estava protegendo a quase meia hora. Coloquem ela no chão! AGORA!
O gigante de machado com coraçõezinhos, rindo, desdenhou:
— Mesmo que tivesse destruído sozinho todo esse bar, você não duraria nem mesmo um minuto lutando contra um gigante, quanto mais contra três de nós, seu tampinha brilhante.
— Um minuto, não é? — diz o garoto rindo — Posso acabar com três fracassados como vocês em... — conta nos dedos — Cinqüenta segundos. — e começou a brilhar mais intensamente, até que faíscas brancas percorressem todo o seu corpo e se reunissem nas suas costas, criando duas asas. Agora, uma armadura branca o cobria por completo.
O gigante que segurava Bela ficou morrendo de medo e resolveu atacá-lo antes da transformação acabar. Na mesma hora em que pulou e tentou pisar em seu oponente, o que era a única técnica de combate que conhecia (o que lhe causava sérios problemas quando vivia entre os gigantes e ao ser zoado, saia correndo atrás da sua mamãe, enquanto os outros não paravam de caçoar dele e sua mãe, em vez de consolá-lo, mandava virar homem).
O gigante quase morreu de surpresa ao ver uma ilusão, como o vulto de um punho feito de ar concentrado, com metade de seu tamanho, vindo em sua direção, e quase morreu de fato, quando descobriu que o vulto era duro como um punho de verdade.
O gigante soltou Bela atordoada no ar e o rapaz se moveu rapidamente. Com um enorme salto, a segurou e executou um pouso macio, se valendo de suas asas de faíscas brancas, que antes qualquer um pensaria ser enfeite, ou quando muito, uma ilusão. Nisso se passaram dezesseis segundos.
O gigante com machado de coraçõezinhos tentou se vingar daquele garoto, que atacou com violência seu o amiguinho que esmagava covardemente a mulher. Aquele rapaz de armadura branca simbolizava todos aqueles que caçoaram dele quando fez a escolha do machado que receberia de seu pai, como comemoração simbólica do décimo sexto minuto, da décima sexta hora, do décimo sexto dia, do décimo sexto mês do seu décimo sexto ano.
O gigante girou o machado e bateu contra o chão, errando miseravelmente o alvo, como só péssimos gigantes sabem errar. O rapaz, se valendo disso, subiu pelo machado do gigante, depois pelo braço, depois saltou, apoiou a garota sobre o ombro, pressionando-a com a face para que ela não caísse, criou um arco feito do mesmo material da armadura em sua mão esquerda e puxou uma flecha das suas asas com a mão direita. A cabeça do gigante quase explode com o impacto da flecha de faíscas brancas.
O garoto desceu pelo corpo do gigante, enquanto ele caia.Deixou Bela a uma distância segura da luta, e já se preparou para derrubar o próximo oponente e cumprir sua palavra. Até agora, já haviam passado trinta e oito segundos.
O terceiro gigante deu um rugido incrivelmente fino e se jogou sobre o garoto, que já havia se afastado da sua protegida e estava agora ao lado do gigante que acabara de derrubar. O rapaz pensou em duas coisas. A segunda coisa que pensou foi “babaca”. A primeira foi na idéia de virar o machado de coraçõezinhos, no chão, de modo que sua lâmina atingisse o peito do gigante, que gritou ainda mais fino que da primeira vez, atraindo todos os veados campestres da região. O grandalhão se virou espontaneamente sobre o machado para que acabasse de cair no solo. O garoto cumpriu sua palavra, a luta acabou em quarenta e oito segundos.
Bela tentava respirar normalmente, fracassando completamente em fazê-lo, quando o garoto que a havia salvado correu em sua direção, desfez sua armadura e suas asas em faíscas brancas e ofereceu sua mão para ajudá-la a se levantar, sorria com convicção e tinha um olhar cativante:
— Você precisa de ajuda?
Bela fica corada, pegou na mão do seu incrível salvador e se levantou, sem saber se deveria inspirar, expirar, ou fazer seu coração bater. Ela pensou em várias coisas: nas crianças que a cantavam na sua infância, em todos os amigos que deram em cima dela, nos bêbados que deram em cima dela, nas crianças de doze anos que, ocasionalmente, ainda davam em cima dela (no auge dos seus dezesseis anos) e, finalmente, ela decidiu que perguntaria “Você quer casar comigo?”, mas disse:
— Qua, qua, — Bela ficou ainda mais vermelha, respirou mais uma vez e terminou a frase com os olhos lacrimejando enquanto perguntava — Qual é o seu nome?
— Meu nome é... — o garoto entraria em pânico, ao saber que uma garota estava pronta parar fazer qualquer coisa que ele quisesse estava perguntando seu nome e ele não sabia responder, mas em vez disso, ele perdeu os sentidos e desabou no chão, ainda brilhando.
Bela conseguiu estancar o sangramento na barriga do rapaz usando um pedaço do seu vestido, o que não impediu que seu corpo continuasse a esfriar. A situação em que estava a levou a uma conclusão: deveria tirar a roupa abraçá-lo, dividir seu calor com ele e caso falhasse, morrerem juntos. Entretanto foi impedida ao começar a tirar a camisa pelo impacto psicológico de uma lambida na sua orelha direita.
Ao se virar, Bela entra em choque, vendo Harpy atrás dela. Virando a cabeça num ângulo de trinta graus para a direita ela vê Andressa, há dois metros de distância, fuzilando-a com os olhos.
Bela fechou os olhos, pensou numa praia, em patinhos, gatos brincando com novelos de lã, malabarismo com espadas e finalmente ela ficou calma e irresponsável o bastante para mexer os lábios enquanto soprava o ar dos pulmões tentando pronunciar:
— O garoto, ele-e, salvou minha vida. Eu fechei a ferida na barriga dele, mas ele não para de esfriar. Você...
Andressa, assim como Bela, refletiu. Pensou primeiro num furacão, depois em um monte de furacões, depois nos furacões crescendo e destruindo toda a superfície da Terra.
Finalmente, Andressa acordou do seu relaxante sonho e conseguiu se acalmar o bastante para virar um pouco os olhos e ver o rosto assustador da pessoa caída no chão, para a qual Bela não parava de apontar.
Pasma, Andressa deu três passos a frente. Curiosa, Harpy deu dois. As duas olham boquiabertas para a pessoa deitada. Harpy passou a língua no indicador e disse, com certa surpresa:
— O rosto desse garoto parece muito com o do...
— Não só o rosto, mas a magia que ele libera, a aura que ele emana… — falou Andressa, com dificuldades para respirar, frente àquela absurda visão.
— Mas ele não é...
— Ele salvou minha vida — grita Bela, se aproximando das duas — ele derrotou um bando de malfeitores, um clã de guerreiros e três gigantes, apenas porque não é certo alguém levantar uma espada contra uma mulher. Não importa qual seja o meu castigo pelo incidente, salve ele, eu imploro. — abaixa a cabeça, suplicando.
Há um curto silencio, interrompido pela Andressa, que diz:
— Harpy, tire todos daqui! Este brilho não é enfeite, ele está perdendo magia sem parar, eu vou fazer um selo de nível cinco neste rapaz!
— Você quem manda... — Harpy fez surgir à sua volta vários pássaros que afastaram todos os veados campestres da região, enquanto ela mesma afastou Bela, abraçando-a por trás e andando com ela para fora da área de ação do selo. Depois de pensar por alguns segundos sobre a associação de palavras “selo” e “nível cinco” e seu significado conjunto, Bela perguntou:
— Mas, se ela fizer isso nele, ele nunca mais vai poder usar magia na vida, não é? — Harpy fica de frente para Bela, encosta os lábios de Bela no seu indicador e logo depois os seus próprios em seu dedo, dizendo:
— Só há uma razão para que ele esteja perdendo magia dessa maneira. Sendo essa a razão, é melhor para todos que ele nunca mais a use.
Houve uma grande explosão, com uma intensa luz verde destruindo o solo ao redor e afastando os últimos veados campestres que estavam por lá. Quando tudo acabou, o garoto parou de brilhar e as suas costas ficaram marcadas, com um círculo verde feito de vários símbolos estranhos, logo acima da sua, já existente, marca de um arco azul, que cobria as suas costas. Andressa foi de encontro às outras duas e disse para Bela:
— Ele vai ficar bem.
— Obriga...
— Escute: sua nova missão é escoltar esse rapaz, alimentá-lo, protegê-lo e matá-lo, caso necessário.
— Mas, hein?
— Enviarei outro membro da organização para se encontrar com você na próxima cidade ao leste.
— Mas por...
— Você já sabe o que fazer. Estou confiando em você.
Enquanto Bela se prepara para a próxima indagação, Harpy diz:
— Muita boa sorte para você. Creia, você vai precisar! — terminou mandando um beijo para sua interlocutora e se desfez em pássaros, de baixo para cima, enquanto Andressa fez o mesmo, mas se tornando folhas, e de cima para baixo. As duas desaparecem no ar e frente aquela situação, Bela só pensa “Nossa, mas que sorte eu dei”.
Bela pegou o rapaz e o colocou sobre seu ombro direito. Depois de dar alguns passos com ele, ela parou de andar e disse:
— Nas cidades do leste existem boas lojas de roupa. — Bela olha a cueca furada do garoto (sua única peça de roupa que não foi feita em pedaços) e termina dizendo. — É, acho que você vai mesmo precisar. — riu do que vira em sua última olhada. Estava bem fria, aquela noite.
Bela anda toda a noite, rumo a Primor, a primeira cidade a leste, onde estão para encontrar a primeira amiga do herói.
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