Miguel
7 A Maga Branca e o Herói - Parte II
Após alguns minutos sonhando com cassinos e anjas cantando acordes de metal, Miguel é acordado por Júnior, agitando energeticamente o seu corpo, enquanto grita:
— Acorda, bela adormecida!
Miguel abre os olhos e vê Bela, Júnior e Jack ao seu redor. A batalha provavelmente havia acabado, o que era bom, mas não conseguia pensar em nenhuma explicação animadora para ele estar ensopado. Incomodado com aquela situação, o herói se levanta e pergunta:
— Por que eu estou todo molhado?
Bela, pensativa, explica:
— Júnior mandou Jack criar gelo sobre você enquanto ela o aquecia para derreter.
Miguel balança a cabeça, incrédulo. Aquilo criava mais perguntas do que explicava. Decidido a fazer com que aquilo tudo fizesse sentido, o herói olha para Júnior e pergunta:
— Por que você fez isso?
Júnior, irritada, levanta um pouco o seu manto e berra:
— Olha isso!
Miguel vê a perna de Júnior, coberta por algo marrom e, preocupado, pergunta:
— Você teve uma dor de barriga?
Júnior, possessa, bate no rosto de Miguel e diz:
— Não, todas as barras de chocolate amargo que eu comprei derreteram por causa dessa briga em que você nos meteu! Tinha chocolate amargo com girassol, você sabe quanto custa uma barra de chocolate amargo com girassol?! Quase o mesmo que duas barras de chocolate amargo normal!
Miguel confuso olha para os lados e, vendo que ninguém além de Júnior entendia aquilo, incluindo ele mesmo, diz, calmamente:
— Desculpe, Júnior. Eu prometo que vou te compensar. Eu sei o quanto perder uma barra de chocolate amargo que custa o preço de duas é algo trágico.
Júnior se acalma e Bela, satisfeita por escapar daquela loucura, diz:
— Pronto, derrotamos os espadachins e Júnior se acalmou, podemos ir embora.
Miguel coça o queixo e, pensativo, diz:
— Espere, nós ainda não vimos a maga branca.
Bela franze a testa. Ela estava incomodada com todo o trabalho que Miguel estava tendo com aquela maga branca. Talvez ele tivesse uma fantasia com magas brancas, o que seria ruim para ela, que era péssima em usar magia. Tentando evitar que o herói a visse, Bela ri forçadamente e diz:
— Nosso trabalho é apenas salvá-la. Tenho certeza de que ela ficará muito feliz quando abrir a porta mais tarde e ver que um bom samaritano derrotou todos os espadachins por ela. Não precisamos chamá-la.
Júnior, percebendo o ciúme de Bela, diz:
— Na verdade nós devemos chamá-la. Por que ela abriria a porta se não sabe que os espadachins foram derrotados. Até onde sabemos, as crianças podem estar passando fome lá dentro por estarem isoladas.
Bela, nervosa, pensa em um argumento para usar contra Júnior, mas não antes que Jack diga:
— A parte final do serviço era falar com a maga branca.
Bela arregala os olhos e grita:
— O que?!
Jack não entedia também o porquê. Miguel, energético, grita:
— Maga branca! O espadachins já foram derrotados!
Bela balança um pouco os braços e suspira aliviada, ao não ouvir nenhuma resposta. Júnior, preocupada em irritar Bela, berra:
— Dona maga branca! Nós derrotamos os espadachins e estamos preocupados com vocês. Vocês estão bem?
Bela passa por mais alguns segundos de suspense, até ser surpreendida por um grito doce vindo de dentro do orfanato, dizendo:
— Estamos bem, obrigada! Como vou saber se isso não é um truque?
Miguel, curioso com relação à maga branca, grita:
— Nós estávamos ajudando um espadachim que foi pago pra te salvar.
Ansiosa, a maga branca grita:
— Quem pagaria para me salvar?!
Miguel coça a cabeça. Ele tinha uma ideia de quem podia ter feito isso, mas dizer poderia apenas aumentar a desconfiança dela e, tentando parecer sincero, diz:
— Nós não sabemos, mas estamos preocupados com o seu isolamento. Vocês não precisam de nada?
A maga branca conversa com as outras responsáveis e responde:
— Não precisamos, mas se vocês tiverem mesmo nós salvados vai ser rude da nossa parte não oferecer nada, então vamos deixar vocês entrarem até o salão para jantar para comer e descansar, nós ficaremos lá atrás!
Bela já estava segurando Júnior, para evitar que ela falasse algo para convencer Miguel a entrar, mas não contava com Jack dizendo:
— Eu estou com fome. Nós podemos entrar, não podemos?
Miguel, que estava pensando em não entrar, mas que ficaria sem graça se não atendesse ao pedido do homem que levou arrastado até lá, diz:
— Nós aceitamos o convite. Obrigado!
A maga branca, extremamente preocupada, mas decidida a retribuir o favor, grita:
— Nós vamos arrumar as coisas. Quando ficar pronto avisamos.
Bela solta Júnior, que já estava se debatendo em desespero por falta de ar e, rindo, diz:
— Talvez demore muito. Podemos voltar para a cidade e comer, não é longe daqui!
A maga branca, sorrindo, grita:
— Já estamos prontos! Podem entrar!
Miguel abre a porta, enquanto comenta:
— Eles são realmente rápidos.
Jack entra correndo, Júnior vem atrás, com medo que Bela a estrangule novamente e logo depois a espadachim, torcendo para que a maga branca não estivesse lá mesmo. Miguel estranha aquela correria e as marcas roxas no pescoço de Júnior, mas estava cansado de questionar coisas que aconteciam e entra, andando calmamente.
O corredor de entrada levava para uma sala de jantar, com uma grande mesa e quinze pratos servidos, com arroz, feijão e cenoura. Os quatro sentam em lugares aleatórios da mesa e Miguel, um pouco preocupado, mas disposto a confiar na maga branca, prova o prato e quase chora, enquanto diz com a boca cheia:
— Isso é a melhor coisa que eu já comi na minha vida.
Jack, que não estava prestando em Miguel, e sim na comida, já estava no terceiro prato, Júnior provou e ficou tão impressionada que não conseguiu fazer um comentário sarcástico e Bela, ao provar, pergunta, com lágrimas nos olhos:
— Como algo tão simples pode ter ficado tão bom?
A maga branca, que escutava do outro lado da porta, pronta para segurá-la caso alguém tentasse forçar a entrada, diz:
— Nós não temos muita coisa para comer aqui, nós vivemos de doações, então tive que me esforçar para criar algo que as crianças quisessem comer.
Júnior, tentando conter sua vontade irresistível de comer mais para se vingar de Bela por agarrar seu pescoço, pergunta:
— Por que você não vem ver a gente agora?
A maga branca, séria, responde:
— Desculpe, eu sei que parece mal educado, mas não posso por em risco as crianças.
Júnior, de boca cheia, por não conseguir resistir até acabar de convencer a maga, diz:
— Nós sabemos que você tem um ataque poderoso, mas por ser uma maga branca, e não ter derrotado todos os espadachins, suponho que você só possa usar uma vez, então se quiséssemos entrar, poderíamos forçar a porta com um enquanto os outros esperam você atacar. Você está segura, venha aqui com a gente.
A maga branca suspira, nervosa, e, lentamente, abre a porta, dizendo:
— Boa noite. Meu nome é Isabela, obrigada por tirarem os espadachins daqui.
O herói e seus amigos finalmente conhecem a aparência da maga branca. Isabela tinha a mesma altura de Miguel, era jovem, tinha aparentemente dezesseis anos, tinha cabelo branco cacheado, olhos azuis e vestia um vestido branco, folgado, sem magas e que alcançava o joelho. Ela certamente não era bela como Júnior, mas tinha uma expressão gentil, que compensava por isso.
Miguel pensa em se levantar para cumprimentar Isabela, mas uma horda de crianças invade o salão e pula sobre ele e seus companheiros, seguidos por duas mulheres que tentavam tirar elas de cima das pessoas.
Isabela se assusta e, tentando soar doce, diz:
— Crianças, eles acabaram de nos salvar e estão cansados, vamos deixá-los comer para que possam ficar fortes como vocês e venham nos salvar mais uma vez. Quem chegar primeiro no quarto não vai ter que tomar banho essa noite.
As crianças, rapidamente, voltam para o lugar de onde vieram, gritando:
— Tchau, amigos da Bela!
Bela fica intrigada. Ela não conseguia imaginar onde eles haviam aprendido o seu nome e, curiosa, pergunta:
— De onde eles me conhecem?
Isabela, intrigada, pergunta:
— Te conhecem?
Bela balança a cabeça e diz:
— Sim, eles sabem meu nome.
Isabela sorri e explica:
— Seu nome é Bela? Que coincidência, é assim que eles me chamam.
Bela, boquiaberta, pergunta:
— Bela?
Jack, já pegando o sétimo prato, diz:
— É o final de Isabela.
Miguel bate na mão de Jack e pega os três últimos pratos sobrando. Júnior, ainda querendo se vingar de Bela, diz:
— Eu acho que eles a chamam assim porque ela é muito bela.
Miguel, percebendo que aquela conversa estava indo em uma direção ruim para todos, exceto Júnior, que se divertia com brigas, interrompe suas amigas e pergunta:
— Por que aqueles espadachins queriam te pegar?
Isabela, já confortável com a presença deles, se senta a mesa e explica:
— É que, desde pequena eu treino para ser uma maga branca, para ajudar as pessoas, mas meu pai acha que o mundo é muito perigoso e que eu devo viver com ele até arrumar um marido que possa me proteger, mas eu tenho dezesseis anos e talvez eu não ache um marido que queira viajar o mundo comigo. Há alguns meses atrás eu arrumei minhas coisas e fugi. Digo, eu sei que ele deve estar preocupado e que ele quer o melhor pra mim, mas existem pessoas morrendo enquanto eu arrumo o castelo e faço a comida dele.
Júnior, triste, diz:
— Eu te entendo... — Júnior percebe que deu informações demais sobre ela mesma e, debochada, grita — Você é uma menina malvada.
Isabela abaixa a cabeça e, triste, diz:
— Você acha mesmo? Digo, eu tento fazer a coisa certa e estou quase certa de que faço mais coisas aqui, mas ele é meu pai e ele se preocupa muito comigo, eu quero dizer...
Bela, encontrando algo na explicação de Isabela que pode fazê-la realmente malvada, pergunta:
— Se o seu pai só queria você, então por que você não se entregou em vez de prender as crianças aqui dentro?
Isabela, envergonhada, diz:
— Eu pensei em ir, mas aqueles espadachins pareciam malvados e eu tinha medo que eles atacassem as crianças, além do mais, elas choraram muito quando viram os lábios da... Sharon?
Miguel sente algo estranho, Isabela tinha algo de familiar. Júnior, que queria despistar a coisa séria que tentou dizer, pergunta:
— Mas, e ai? Vocês já decidiram qual é mais bonita entre as duas Belas?
Bela, irritada, diz:
— A gente não tem que decidir isso!
Jack, que estava inconsolável sem ter mais o que comer, se anima ao ouvir a discussão e diz:
— A Júnior é mais bonita, peraí, você está falando Bela de apelido ou bela de linda?
Bela, possessa, grita:
— O que?!
Júnior começa a gargalhar e pergunta:
— Quem é mais bonita, Miguel?
Miguel, surpreso, diz;
— Vocês todas são igualmente bonitas.
Isabela, constrangida, diz:
— Miguel está certo, nós somos igualmente bonitas, digo, eu sou menos bonita que vocês duas, que são absurdamente bonitas.
Bela, possessa, sobe em cima da mesa e pergunta a Miguel:
— Quem é mais bonita?
Miguel, tremendo de medo, diz:
— A Júnior é mais bonita.
Júnior grita:
— Aha!
Miguel percebe a expressão atônita de Bela e, tentando concertar o que havia dito, diz:
— Mas ela não tem corpo nenhum, você é muito mais gostosa!
Bela, incrédula, desce da mesa e sai correndo para fora do orfanato. Júnior, já curada da euforia de saber que era a mais bonita, pergunta:
— Por que você disse que ela era gostosa?
Miguel, sério, diz:
— Ela é!
Júnior, assumindo sua personalidade séria, explica:
— Você não pode dizer pra uma mulher que ela é gostosa, ou ela vai pensar que você só quer ela pelo corpo dela e que não se importaria de ficar com ela e jogar fora.
Miguel, preocupado, diz:
— Mas não é assim que eu me sinto em relação a ela, eu gosto dela! Por que você não me avisou?
Júnior suspira e diz:
— Não é culpa minha se você não entende senso comum!
Miguel se levanta e corre para fora do orfanato.
Enquanto Bela corria, chorando, ela sente uma presença próxima a ela, mas logo percebe que era tarde demais. Uma espada faz um corte profundo em sua perna, fazendo-a cair e ao chão e um homem alto e magro, vestido como um samurai, a encara, dizendo:
— Você não pode fugir para sempre, Bela.
Bela tremendo, pergunta:
— A Espada Rápida?
O homem pega Bela pela roupa e a puxa, enquanto corre velozmente. Miguel, que chega nesse instante, grita:
— Bela!
Bela, desesperada, diz:
— Volte, Miguel!
Miguel corre na direção de Bela e, ao se aproximar, é atacado no peito, mais rápido do que pode desviar, e cai no chão, ferido, mas volta ocorrer, até ser interrompido por uma corrente de Júnior, segurando-o pela perna.
Miguel se levanta, percebe que perdeu o espadachim de vista, e grita:
— Júnior!
Júnior se aproxima de Miguel, com uma expressão grave, e diz:
— Ele era muito rápido, se você continuasse se jogando contra ele, você ia acabar sendo morto.
Miguel, revoltado, se aproxima de Júnior dizendo:
— Como eu vou resgatar ela agora? Eu não sei quem a levou!
Júnior balança a cabeça e diz:
— Ele é um Grande Soldado, A Espada Rápida. Ele é do País dos Espadachins. Algum espadachim deve ter escapado, avisou o líder deles, o Soldado Divino que reina sobre o país dos espadachins, que enviou um dos seis membros da sua guarda pessoal para capturá-la.
Miguel, irritado, pergunta:
— Onde nós temos que ir para salvá-la?
Júnior balança a cabeça e explica:
— Nós não vamos salvá-la. Eu vou avisar a Andressa e esperar que ela consiga se resolver com o líder deles. Nós não podemos lutar contra o Reino dos Espadachins.
Miguel, possesso, pergunta:
— Mas e se eles machucarem ela, ou o crime for muito grave e ela sofrer pena de morte?
Júnior, irritada, diz:
— Eu não sei onde ficam as cidades deles, quanto mais onde ficam os presos. Nós nem sabemos onde ir.
Jack, que estava sentado, pensativo, diz:
— Ela está na capital.
Júnior, irritada, pergunta:
— Como você sabe?
Jack, triste, responde:
— Eu já fui carcereiro de lá, mas deixei alguns homens saírem para comprar cigarro e eles nunca mais voltaram. Eu pedi para fazermos uma busca, eles podiam ter sido sequestrados, mas meus superiores me demitiram. Eles não estão nem aí para a segurança dos presos.
Miguel, sorrindo, diz:
— Ótimo, temos alguém que sabe onde temos que ir, agora só falta...
Miguel cai no chão. O ferimento em seu peito era maior que o esperado e ele estava perdendo muito sangue. Júnior se aproxima dele e, com um tom grave, diz:
— Você não pode lutar desse jeito.
Isabela, que estava afastada, se aproxima de Miguel e toca o seu peito, fazendo uma luz branca sair de sua mão, curando-o imediatamente.
Miguel se levanta e, constrangido, diz:
— Obrigado.
Isabela sorri e diz:
— Isso não é nada. Vocês me fizeram um grande favor. Escute, se vocês quiserem ir ao País dos Espadachins eu posso ir com vocês. Eu quero fazer algo bom com vocês.
Júnior, intrigada, pergunta:
— E as crianças?
Isabela suspira e diz:
— Meu pai vai continuar mandando mercenários aqui se eu permanecer. Pode ser perigoso para as crianças. Se eu ficar viajando, meu pai não vai saber onde me procurar.
Miguel, sorrindo, diz:
— Eu não queria colocar você em perigo, mas aceitarei sua ajuda. Jack, você pode nos guiar até lá?
Jack se levanta e diz:
— Acho que não faz mal visitar meus velhos amigos presidiários.
Júnior balança a cabeça e diz:
— Eu vou avisar a Andressa do que estamos fazendo e então... Vamos. Mas escute, tampinha, nós vamos entrar lá disfarçadamente, pegar nossa criminosa de estimação e ir embora, sem chamar atenção!
Miguel, sério, diz:
— Tudo bem. Avise Andressa, Isabela, se despeça das crianças. Não posso deixar que Bela passe por isso, não por minha culpa.
Isabela se aproxima de Miguel, para consolá-lo, mas Júnior a segura e sussurra:
— Se apresse. Ele só vai ficar bem quando a trouxermos de volta.
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