Miguel

2 A Amiga do Herói - Parte 1


Aproximadamente doze horas após a fatídica cadeia de eventos improváveis da noite anterior , Miguel despertou do seu longo sono reparador e se deparou com uma paisagem belíssima, confortante e incrivelmente desesperadora para ele, que desconfiava muito quando algo bom acontecia. O garoto sabia que não tinha uma razão lógica para desconfiar de coisas boas, uma vez que não se lembrava de nada, mas perder completamente a memória, surgir do céu e passar o primeiro dia de que se lembra brigando em um bar não parecia ser um sinal de que a boa coisa estava por vir.

O garoto desconfiava muito também pelo fato de ele estar sentado sobre grossas, disformes e confortáveis nuvens, cuja textura lembrava a ele travesseiros cilíndricos de penas de gansos canadenses. Uma análise interessante, que o levava a perguntar a si mesmo “Canadense? O que é Canadá?” e responder a si mesmo “Foda- se”, enquanto levantava questões mais importantes. Antes que pudesse concluir a sua reflexão sobre a impossibilidade daquele lugar existir, deu-se início a um imenso balé astral com quinze anjas pulando, fazendo malabarismos e cantando acordes de metal. Isso fez o herói formular mentalmente a frase “Minha cabeça dói”, então ele acordou.

Ao acordar, o garoto se viu completamente sem roupa, dentro de um cassino, debruçado sobre uma mesa com roleta no centro, onde ninguém se importava com o fato dele estar pelado, ou disfarçavam realmente muito bem. Na verdade, o dono da banca parecia se importar com ele, mas não pela ausência de vestimentas no corpo do nosso herói, mas sim pelo fato dele estar impregnado de penas de ganso que aderiam à caríssima mesa de madeira não lavável.

O dono da banca tinha um olhar de ira e perguntou — Você não vai apostar nada? — , ao que o nosso herói respondeu

– Eu não tenho nada para apostar — , ao que o outro replicou “Você é burro, olha essas fichas caindo pra fora do bolso do seu terno”, que levou o garoto a olhar mais uma vez para si e dizer “É mesmo”, jogando todas as fichas na mesa e apostando no número um da roleta, por mais que não quisesse fazer isso.

A roleta parou de girar no número um. Na mesma hora duas mulheres tropeçaram uma sobre a outra e caíram sobre ele enquanto seus vestidos rasgavam. Estava tudo muito bom. Bom demais para ser verdade, mais uma vez. Nesta hora o garoto percebeu que estava dormindo, então ele acordou de novo.

Ao abrir os olhos desta vez, o garoto viu o teto, que parecia ter sido criado branco, sujo de algo marrom e pintado de branco por cima. Tal visão o fez concluir que agora estava no mundo real.

A primeira idéia que passou pela mente do rapaz foi a de se sentar na cama e tirar de cima do seu corpo uma coberta desnecessariamente grossa que o cobria na manhã de um dia de verão, cuja noite não carece nem mesmo vestimenta normal para se dormir em paz. Assim que ele parou de pensar, e fez o que estava pensando em fazer, pode sentir, pela ventilação, que estava sem cueca, mas com um short branco brilhante, que junto com o cobertor, pareciam ser objetos à parte naquele lugar mal acabado e velho há bastante tempo.

No banheiro ao lado do quarto havia uma mulher em pé, se olhando no espelho com uma preocupação desnecessária, enquanto prendia em um coque seu cabelo, que solto ia até metade das suas costas. Ela devia ter uns cinco centímetros a mais que o nosso jovem herói (que tinha 167 centímetros), tinha um corpo muito bem distribuído, os olhos azuis, cabelos loiros e um rosto que, sem dúvida, fazia jus ao seu nome.

Bela percebeu o barulho da coberta batendo no chão do quarto, arrumou rapidamente o coque, enquanto corava pensando no que diria ao rapaz que a salvou na noite anterior. Quando ela acabou de prender o cabelo, caminhou em direção à cama em que estava o herói e tentou dizer alguma coisa:

— Eu... — e parou de falar. Após vinte segundos de silêncio o rapaz também tentou articular algumas palavras:

— É... — o garoto corou e, após trinta segundos a moça finalmente conseguiu completar uma frase.

—Eu… meu nome é Bela e eu estou muito… Ahn, obrigada por ter me salvo. Ontem você não me disse o seu nome…

Ainda um pouco constrangido, o rapaz começou a responder:

— Meu nome é — ele sentiu o pânico da possibilidade de perder uma mulher que faria tudo o que ele quisesse, por toda a sua vida, apenas por não saber o próprio nome. A frase terminou com um lento, baixo, decepcionado, depressivo e quase suicida — Eu não sei.

— O que?

— Eu não lembro!

— Você não lembra o seu próprio nome! Como assim? — seu rosto se enrubesceu ainda mais, dessa vez pela raiva.

— Eu não sei, eu não lembro!

— Se você não queria nenhum compromisso, nem mesmo falar o seu nome, bem que você podia ter inventado algum pra não me responder dessa maneira depois de... — diz Bela, denotando muita impaciência e quase chorando de raiva e decepção. Ela definitivamente estava naqueles dias.

— Eu realmente não lembro. — e lágrimas sinceras escorreram dos seus olhos.

— Você está falando sério? — disse Bela, mais calma e confiante, agora que ele seria provavelmente apenas um grande amigo seu.

— Sim. — responde o garoto levantando sua cabeça com resignação.

— Você se lembra de onde veio? — perguntou, com certa doçura, com a qual tratava os amigos.

— Não... — pensou bastante, mas como não se lembrava de nada marcante em sua vida que precedesse o incidente do líder do clã de guerreiros gritando “Quem, foi, o viado?”, e continuou — Não lembro de nada, de nada antes de ontem, se aquela coisa de derrubar gigantes foi mesmo ontem.

— Nossa! — Bela suspirou enquanto olhava de cima a baixo o corpo do garoto, era coberto de cicatrizes, muitas das quais jamais poderiam existir em pessoas vivas (e que por razões lógicas, jamais existiriam em pessoas mortas). Elas começavam logo abaixo do seu pescoço, com marcas de queimaduras nos ombros, continuavam com uma cicatriz espessa no peito e outra cruzando a anterior transversalmente. Possuía também três marcas de um tridente, que começavam no abdômen e terminavam nas costas (atravessando a coluna vertebral), uma marca de corte nas costas da mão esquerda e marcas de costura na parte de cima dos seus quatro membros, que davam a impressão de que tinham sido arrancados e, inexplicavelmente, costurados de volta no lugar. Por fim, possuía também várias pequenas marcas de cortes, e algumas de tiros, espalhadas pelo corpo.

Era um conjunto de cicatrizes que assustavam qualquer um que olhasse pela primeira vez e intrigavam na segunda, pela impossibilidade de existência que apresentavam. Após Bela refletir um pouco sobre isso, sobre o rapaz, toda a sua vida antes disso e no que ela devia pensar agora, ela se dirigiu à porta que dava para a saída do quarto e disse:

— Eu trabalho numa organização de… caçadores de recompensa. Estou cumprindo uma missão. Preciso encontrar uma pessoa na cidade. Você pode ficar aqui se quiser, logo estarei de volta, depois podemos sair e comprar roupas para você.

— Ei, Bela!

— Sim? — ela respondeu um pouco antes de fechar a porta.

— Por que você não pensa num nome pra mim?

— Ahn? Mas você... Você parece um guerreiro lendário, eu não posso simplesmente inventar um nome. Por que você mesmo não escolhe?— respondeu Bela, surpresa.

— Eu não estou bem certo disso. Não estou certo de nada, aliás. Acho que a primeira coisa que eu preciso é de um nome e eu tenho certeza que você terá uma boa ideia. — o rapaz explicou com um olhar sedutor de forma que a moça não pudesse recusar o seu pedido.

— Acho que posso pensar em alguma coisa para você. Mas não vou te dar um nome. Só vou dar uma sugestão para você pensar nela. Ok? — disse Bela desconsertada, mas alegre.

— Obrigado, você é muito gentil.

Bela saiu do quarto pensando sobre toda a situação que estava vivendo. O garoto provavelmente não passava de maldito mentiroso. Mas algo dentro dela estava muito contente por ele ter-lhe pedido para escolher um nome, uma forma de chamá-lo enquanto os dois estivessem juntos, era como se fossem cúmplices em algo secreto e especial, e isso já o fazia extremamente superior a todos os seus predecessores. Sem querer, Bela já amava o desconhecido com todo o seu coração.

Depois de ver Bela sair o garoto deitou na cama, coçou a barba por fazer e pensou em qual era exatamente a relação que estava tendo com Bela. Dois minutos mais tarde, a porta do quarto se abriu e um homem educadamente informou que o café da manhã estava servido.

O dono da pensão estava com um péssimo humor e fitou o garoto com desdém, “desgraçado” ele pensou, foi por causa daquele moleque que a sua mulher o tirou a força de seu cobertor, às três da manhã, para que pudesse atender a dois jovens de fora de Primor e que, por isso, podiam ser clientes que pagam.

O herói, alheio ao desprezo que o homem emanava, imediatamente respondeu:

— Obrigado, já vou descer. Escuta, você poderia, por favor, arrumar uma camisa pra mim?

— Não! – o dono da pensão respondeu com rispidez.

— Mas, acho que descendo eu talvez assuste um pouco as pessoas com essas cicatrizes e...

— De maneira nenhuma.

— Mas você...

— Vai se fuder, desgraçado. — disse sorrindo pela primeira vez no dia, que começou às três da manhã para ele, bateu a porta e foi embora, deixando o rapaz sem entender absolutamente nada.

O garoto desceu com bastante vergonha até o andar de baixo, sem camisa e descalço e admirou a falta de surpresa das pessoas que estavam sentadas no balcão esperando pelo café da manhã simplesmente ignorando sua presença. — O mundo não deveria ser assim — ele pensou.

Antes que pudesse obter uma explicação para isso, o herói bateu o olho no balcão e viu uma jovem de pele branca, olhos castanho avermelhados, quase vermelhos, cabelos negros, mais curtos que os dele, vestindo um manto vermelho, cheio de linhas douradas, que parecia ser, pelo menos, duas vezes mais largo que o necessário para cobrir o seu pequeno corpo. “Ela é a mulher mais bonita que eu já vi”, pensou o herói olhando para aquele frágil e delicado rosto. Ele só se lembrava de ter visto duas mulheres, então a referência dele podia ser ruim, mas ainda sim, sentiu que era necessário sentar ao seu lado dela e dizer algo, entretanto, assim que abriu a boca foi interrompido pela voz da mulher.

— Ou, loirona! — disse a mulher apontando para a garçonete atrás do balcão — É, você mesmo. Me vê uma vitamina de manga! — grita a moça de manto vermelho.

O rapaz se assustou. A voz com certeza era fina, mas de modo algum delicada. Ela falava como um marginal rude e debochado. O desencanto foi imediato, mas como já estava sentado e, desde que se lembrou que se lembrou que também queria beber vitamina de manga:

— Por favor, eu também quero uma vitamina de manga — A mulher com manto vermelho começou a estalar os dedos sem motivo nenhum parecendo um pouco furiosa, ela fitou o garoto e perguntou:

— Qual é o seu nome? — o garoto olhou para cima e pensou antes de responder:

— Juro que não sei.

— Que estranho? Você pira que eu também não tenho nome? — recebeu a vitamina de leite com manga, enquanto o herói perguntou:

— Sério? Nenhum?

— Me chamam de Júnior. — disse a dita cuja, depois que acabou de beber a vitamina e antes de limpar o bigodinho amarelo com a língua.

— Qual é seu primeiro nome?

— Já falei, eu não tenho nome. É só Júnior, é assim que chamam todos da minha família, antes que eles se tornem o líder do clã.

— Então isso existe porque é uma antiga tradição de família?

— Não... Há oitocentos anos o patriarca do clã levou uma pancada forte na cabeça e ficou com sérios problemas de memória. Para evitar problemas, ele botou em todos os filhos o nome dele, nome que ele mesmo logo esqueceu e passou a chamar todos de Júnior. As pessoas da família continuaram fazendo isso, mas já conheci uma meia dúzia que teve um nome diferente. Acho que é mais por preguiça dos nossos pais de escolher um nome.

— Se não é uma regra, então por que você não cria um nome normal pra você?

— Porque eu também tenho preguiça, oras!

— Mas, qual é o nome do líder do clã?

— Não importa. — a mulher riu e deu um tapa na bunda da garçonete, que correu assustada. Depois tirou um chocolate do bolso — Hey, você gosta de chocolate meio amargo?

— Não, é ruim. – disse o herói com uma careta.

— O que? Você é burro? É chocolate!

— Ué, eu tenho que achar bom?

— Não é não achar bom. Você disse que é ruim. Por acaso não dá pra comer?!

— Não! Eu estou meio zonzo hoje. — disse, tentando mudar de assunto — Ontem eu fiquei até tarde metido numa briga de bar no meio do nada a uns 5 km daqui.

Júnior entortou a sobrancelha direita e, após um curto momento de reflexão, indagou:

— Nesse bar... Você por acaso viu três gigantes caídos ao lado dele?

— Mais ou menos... — disse o garoto, quase consciente de que iria se arrepender mais tarde por falar isso.

Júnior riu, jogou dinheiro no balcão e gritou:

— Bebida de graça pra todo mundo!

Uma enorme multidão se juntou ao redor da mesa e surgiu rapidamente uma turba. O herói sentiu um grande desconforto, que atingiu seu ápice quando uma mão coberta por correntes se chocou contra sua cabeça. Júnior prendeu o rapaz com as correntes que saiam da manga do seu manto e se dirigiu para fora do bar. Apenas uma criança se deu ao trabalho de observar a cena. Júnior, ao vê-la, rosnou:

— Que foi?! Nunca viu antes não?!

Júnior saiu do bar e a mãe deu um tapa na cabeça da criança, que a fizera passar vergonha na frente de todos que balançavam a cabeça e suspiravam com um ar de repreensão. Uma criança que apesar de ser tão jovem, já tomava partido em problemas de outra pessoa.

O rapaz abriu os olhos algum tempo depois, não sem antes se debater muito e se espreguiçar o melhor que se pode, quando se está preso por uma corrente. Ela dava várias voltas em seu corpo e atrelavam completamente à parede o nosso herói.

Do outro lado estava sentado em uma das várias mesas do galpão, Júnior, com as correntes que aprisionavam o rapaz saindo debaixo das suas mangas. Logo depois que o garoto abre os olhos, e um pouco antes dele retomar completamente a consciência, seu raptor começou a falar:

— Parece que eu peguei você, safadinho. — disse, pausadamente, enquanto balançava o dedo.

— Por que você me prendeu aqui?

— Sinceramente, eu não sei. Mas me passaram um comunicado falando que eu tinha que matar um cara que derrotou três gigantes em um bar e tem um olho castanho e outro azul. Então estamos aqui, mais uma vez.

— Eu tenho um olho castanho e outro azul? Espera, por que alguém quer me matar?

— Sei lá, deve ter algo a ver com os três gigantes que você derrubou antes. Você tem que chamar menos atenção nas suas brigas de rua. Me mandaram um comunicado falando que tinha um membro da organização vigiando você, mas parece que é mais um bêbado fracassado.

— Espera, tem uma garota, ela é Bela e...

— E daí se ela é bela? Não importa se você é virgem. Vou matar você sufocando pouco a pouco para fazer menos barulho, ok?

Júnior começa a apertar a corrente. No começo o garoto apenas ficou se debatendo. Depois de algumas tentativas estúpidas de se soltar, um sorriso alegremente diabólico brotou em seus lábios, que adquiriram cor de sangue. Ignorando toda a dor provocada pelas suas costelas quase quebrando, o garoto começou a bater, com força, a nuca na parede. Júnior meio incrédulo, diz debochando:

— Pfff. Essa parede é feita de pedaços de pedra prensados. Batendo a cabeça assim você vai quebrar o seu crânio, espedaçar o seu cérebro, morrer de hemorragia, mas jamais vai conseguir quebrar a... — Júnior foi interrompida por um estrondoso barulho provocado pelo rapaz, que destruiu a parede.

A situação começa a ficar ilógica. Júnior já não sabia mais o que estava acontecendo, tampouco às pessoas que andavam pela rua e assistiam embasbacadas àquele enorme desabamento. O garoto, que acabara de se soltar, também não tinha ideia alguma da situação na qual estava se metendo e como tudo iria acabar, mas tinha nos lábios um sorriso diabólico demais para que pudesse se importar com isso.

Enquanto Júnior se recuperava do susto, dois enormes blocos de pedra voaram em direção à sua cabeça. Ela se esquivou dos dois, mas sua evasão falhou completamente quando uma enorme carroça carregada de abacaxis surgiu voando em sua direção.

Na hora em que conseguiu tirar a carroça de cima do seu corpo, Júnior fez correr fogo pelas correntes que chegavam aos braços do garoto. O reflexo dele foi, em vez de desviar, trazer a inimiga para cima de si mesmo puxando a corrente. Os dois bateram a cabeça um contra o outro. Júnior caiu desacordada. O garoto que continuava de pé suspirou satisfeito, mas só antes que seus olhos brilhassem intensamente e ele caísse no chão também.

Bela percebeu o barulho e a estranha movimentação a algumas ruas de distância e lembrou “Esqueci que foi ele que eu deixei sozinho..."Apressou-se em terminar de negociar com o informante e correu na direção em que todos estavam fugindo.

Algumas horas mais tarde, Bela, Júnior e o garoto estavam sentados numa taverna, numa mesa com três cadeiras e ao lado da janela. Bela de um lado, nervosa como sua chefe, do outro, Júnior, irritada como deveria estar, e o garoto ao seu lado, de calça jeans, blusa vermelha, sonhando com nuvens de penas de ganso e cassinos, mais uma vez.

— Onde está a carta? — pediu Bela.

— Aqui. — disse Júnior, entregando o papel.

— “Um garoto potencialmente perigoso matou três gigantes ontem numa briga de bar. Ele está indo em direção a Primor, escoltado por alguém da organização. Mate-o pra mim. Você vai saber que é ele porque ele tem um olho azul e outro castanho escuro. Ninguém tem olhos assim, tem? Beijos, Harpy”?!

— Tem também mais uma carta cujo destinatário é... Senhorita B? — tira mais uma carta do manto.

— Me dá isso aqui! — Bela tomou a carta com violência.

— O que diz?

— “Bela, como vai, amorzinho? Já está me trocando pelo garotinho fofo? Que coisa feia... Mandei outra mulher da organização matar ele, se ele sobreviveu, dê a ele os parabéns por mim. Pode dar pra Júnior os outros detalhes da missão (ela é bem bobagenta, mas é forte e tem um bom coração), fale para ele aquelas coisas sobre protegê-lo, alimentá-lo, amá-lo, abraçá-lo, matá-lo, etc, etc, e tal. Beijos da Harpy.” — Bela termina de ler rapidamente e rasga a carta, com ódio.

— Espera um pouco — diz Júnior, com tom de revolta — Nós vamos proteger esse animal raivoso? — pergunta, apontando para o rapaz.

— É o nosso trabalho. — diz Bela, fuzilando-a com os olhos.

— Proteger ele?! O cara quebrou uma parede de pedras com essa cabeça oca dele e desmaiou só minutos depois! Eu é que preciso de proteção desse cara.

— Ahn? — murmurou o rapaz, enquanto levantava a sua dolorida cabeça que parecia mais leve quando estava jogando numa roleta, deitado numa nuvem com textura de penas de gansos canadenses.

— Você está bem? — pergunta Bela.

— Deve estar. Seria muito normal se não estivesse. — respondeu Júnior, à pergunta dirigida ao garoto.

— Bela? Ah, acho que sim. — respondeu o verdadeiro interlocutor desse pequeno diálogo, que logo virou a cabeça notando a presença de Júnior — O que ela está fazendo aqui?

— O mesmo que você! — bufou Júnior.

— É, olha, houve uma confusão. Você só precisa saber que ela está do nosso lado e vai se comportar bem melhor daqui em diante. Desculpe, eu deveria ter ficado com você e... — disse Bela.

— Ah, não, imagine... Eu tenho a impressão de que esse tipo de coisa acontece quase diariamente comigo.

Houve um longo silêncio constrangedor, até que Bela toma a iniciativa de interrompê-lo:

— Que bom.

— Mas, hein, você... — balbuciou o garoto, apreensivo.

— Eu...

— Você pensou...

— Ah é, eu pensei.

— Vai ser o que?

— Que moléstia é essa que “vai ser”... — disse Júnior sendo cortada pela vitamina de manga jogada em sua boca aberta, quase afogando-a.

— Eu pensei muito e acho que, quando você apareceu com aquela armadura, aquelas asas, você ficou parecendo um anjo guerreiro, como Miguel! – explicou Bela solenemente.

— Miguel?

— Você não gostou?

— Nada, é só que esse nome…

Puf, o recém batizado, Miguel, sumiu. Um enorme círculo, cheio de símbolos, apareceu sobre onde estava a sua cabeça e logo desapareceu. Tudo parecia ter sido feito por um mago minúsculo, que saiu correndo gritando “Eu peguei! Eu peguei! Sou vitorioso! Eu não preciso ter mais medo de ser eu mesmo na frente das outras pessoas”, apenas para si mesmo.

— Ahn, aquele maguinho... — balbucia Bela.

— Esse dia podia ficar pior?! — falou Júnior, cuspindo a vitamina de manga.