Mie Ken no Densetsu
1 Chapter I
Notas iniciais
No cair da noite tive novamente o mesmo sonho de sempre...
Eu estava à frente ao lago Inawashiro. Era véspera de meu aniversário de dez anos, e estávamos na primavera.
Minha mãe olhava para mim, com um sorriso brilhante no rosto. Seu abraço era aconchegante, me fazia sentir seguro. Vestia um tecido bordado simples, e um óculos vermelho escuro.
Meu pai se encontrava na praia, vislumbrando atentamente o horizonte, onde o sol já se punha, transmitindo uma linda claridade avermelhada. Sua expressão era séria, porém notava-se que estava feliz. As ondas dançavam em meio a areia, tocando seus pés.
Toshie, meu melhor amigo desde quando éramos bem pequenos, desenhava em sua tela a bela paisagem apresentada. De fato ele desenhava muito bem. Enriquecia cada detalhe, dando vida a silhueta.
Era o meu melhor dia, entre todos os outros.
Mas naquele momento, vendo meus pais, lembrei-me de meu irmão. Akujiki nunca fora aquele tipo de irmão, na qual é divertido e amoroso. Mas de qualquer forma eu o amo e sinto falta dele. Havia acabado de partir em uma viagem à outra província, em um treinamento, o qual meu pai não dizia do que se tratava e nem gostava de quando lhe perguntávamos à respeito.
As pétalas roxas das árvores caiam e cercavam o lago. As nuvens sobre o céu formavam desenhos um pouco engraçados, como por exemplo, um cavalo-galinha e um leão com cara de peixe.
— É raro termos um momento como esse... — dissera minha mãe, quebrando o silêncio. A brisa vinda do lago fazia seus cabelos voarem.
Concordei com um sorriso.
Sempre em dias especiais íamos à lugares como Inawashiro, para aproveitarmos o pouco momento de paz. Mas infelizmente nunca podíamos ficar o dia inteiro.
O que minha mãe dissera a seguir me fez pensar no seu real significado. Porém eu não fazia ideia do que se tratava.
— Haverá um dia em que você terá um objetivo, Hanzö... — tocou meus cabelos, bagunçando-os. — E deverá segui-lo... Sem medo...
O que ela queria dizer com aquilo? Era como se ela soubesse que algo vai acontecer, e esta tentando me avisar, só que sem eu perceber... Estranho.
Naquela noite, voltamos para casa e cantamos o parabéns. Não era lá uma festa de aniversário muito empolgante, mas mesmo assim eu estava feliz.
Um pouco antes de me deitar, não pude deixar de ouvir a conversa entre meus pais.
—... Ele esta crescendo... — dizia minha mãe.
— O tempo passa muito depressa não é? — comentou meu pai.
Fez-se silêncio por um breve instante.
— Humm...
— Hanzö já não é mais um bebê. Esta chegando o momento...
— Quando vai levá-lo? — minha mãe interrompeu-o.
Somente nessa hora percebi que ela estava chorando. Iria correr até lá e perguntar do que estavam falando, porém no exato momento Toshie segurou meu braço.
— É melhor não, cara. Deixe-os conversarem. No momento certo vão te contar.
Titubeei por um instante, mas concordei com ele.
Meu pai suspirou.
— Bem... Eu estive pensando...
— Quando deve levá-lo? Diga!
— Quando completar a idade certa...
— Você que dizer...?
— Sim... Quanto antes melhor. Você sabe Asaye, ele será o meu sucessor...
Sucessor? Eu serei seu sucessor?
Nesse instante ouvi passos em nossa direção.
Toshie e eu entramos desesperados no quarto e deitamos em nossas respectivas camas.
Logo em seguida mamãe entrou, e como sempre faz, beijou minha testa.
— Konbanwa, querido. Eu te amo muito. — e se juntou ao meu pai.
Fingi um bocejo para que Toshie olhasse para mim, e deu certo.
Havia certas perguntas em minha mente.
— Hey Toshie — chamei-o. — Você por acaso sabe do que eles estavam falando?
Meu amigo revirou os olhos, como querendo trocar de assunto.
— Não, Hanzö... Não faço ideia! — respondeu.
Como se eu não o conhecesse muito bem.
— Cara... Você mente muito mal.
Ele segurou um sorriso.
— Certo, eles me disseram para não te contar. Como eu havia dito Hanzö... No momento certo você vai saber de tudo!
— Ta bom, então... Mas, por acaso, esse "momento certo" esta chegando?
— Ué, não sou um kami para saber do futuro...
É... Ele até que tinha razão. Vire-me de lado, tentando pegar no sono.
Na manhã seguinte, fui acordado pelos berros de meu pai, que deviam ter acordado toda a vizinhança. Por que ele estava gritando?
Não pensei duas vezes, corri em direção ao quarto, sem saber o que estava acontecendo.
Quando me deparei à frente da porta, eu não podia acreditar no que meus olhos viam.
Mamãe se encontrava aos braços de meu pai. Sua pele estava pálida e os lábios vermelhos. Havia um estranho sorriso em seu rosto.
Não tive reação a não ser a única que se encaixava ao fato: chorar. Mamãe havia partido dessa vida, creio que fora para algo bem melhor, mas ainda era muito doloroso perdê-la. Toshie abraçou-me, tentando consolar-me.
No exato momento me perguntei por que tinha que ser assim. Não era justo. Logo minha mãe, que era tão doce e carinhosa, realmente não era justo.
Então de repente o sonho mudara. Já não era mais uma lembrança.
O lugar era escuro; as trevas reinavam na cidade. Havia uma muralha que cercava o campo. Era completamente negra e polida. O céu era de um tom avermelhado, como tingido de sangue.
"Hanzö...", dizia uma voz em minha mente. "Esta chegando a hora... Após cinco séculos... Até que enfim...".
Eu estava assustado, como em um transe. Tentava dizer algo, mas minha voz não saia. Eu tentei dar um passo para trás — o meu eu do sonho, quer dizer —, mas era o mesmo que tentar levantar uma casa enorme com apenas uma mão — ou seja, não consegui.
Uma figura caminhava por entre a escuridão à frente. Era humano, pelo menos. Seus cabelos eram cumpridos e brancos, e esvoaçavam com o vento forte e congelante do lugar. Não era possível ver seu rosto, mas tinha uma feição de velho. Não qualquer tipo de velho, mas um velho muito antigo. Vestia um tipo de túnica medieval, que cintilava com a luz vermelha vinda do céu.
"Você não tem chance alguma, Yang. Yin esta mais forte, e mais poderoso. O Período de Caos acontecerá novamente, e o mundo se ajoelhará diante de Yin...". Sua risada era áspera e demoníaca.
Do que ele estava falando?
Quem é ele? E como me conhece?
Yang? Yin?
Acordei desesperado, com a respiração ofegante.
A janela do quarto estava aberta. O sol atrapalhava a minha visão, quase me cegando. Havia alguém à minha frente, de costas para mim.
— Ahn... Martha?
Bocejei enquanto a chamava. Desde a morte de minha mãe, tia Martha cuidava de mim. Meu pai quase nunca estava presente.
Quando vi melhor, percebi que não era Martha. Ela não era alta. E muito menos era de ficar em silêncio.
— Olá... Filho... — dissera meu pai.
Eu não sabia o que dizer. Por que ele estava ali? Depois de muito tempo sem me ver, admito que estava com um pouco de raiva dele. E, aliás, nem estávamos em um dia especial. Eu acho.
— Pai... O que veio fazer aqui?
Ele gargalhou baixo.
— Esqueceu que dia é hoje?
Por um instante eu não fazia ideia e que dia seria. Mas então me lembrei. Era óbvio, hoje é meu aniversário de onze anos. Mas infelizmente a notícia não me deixou alegre, ainda mais após aquele sonho.
— Ah, que ótimo! — murmurei. — Para onde vamos agora? Novamente à outro lago ou algum lugar especial só para me lembras do fato de que minha mãe não esta mais viva?
— Não... — respondeu.
Não? Aquele era mesmo ele?
— Dessa vez será diferente, Hanzö — prosseguiu. — Você irá se mudar. Irei levá-lo à outra província, onde possa ficar perto de mim...
— Outra província? Mas e a escola? E a tia Martha? E Toshie?
— É preciso deixá-los de lado. Você esta na idade certa, devo levá-lo. Não me surpreendo por você não entender...
Bingo.
—... Mas você não sabe de muitas coisas. Coisas que só irá descobrir na hora certa...
Lembrei-me de um fato.
— Vai me levar à sua tal "organização"? — perguntei.
— Você é realmente esperto.
— Para qual província, pai? — ele esperou um pouco antes de responder. Virou-se para mim.
— Para Mie. Você deve ir para o Clã. Estou surpreso por aquelas criaturas não terem te encontrado. Deve ser porque ainda era muito novo... — sua expressão se tornou séria, como sempre ficava quando estava preocupado.
— Clã? Que Clã? Que criaturas?
As perguntas martelavam em minha cabeça.
— Não há tempo para explicações. Arrume suas malas, partiremos logo em seguida...
(...)
Pouco tempo depois, fui até a casa de Toshie para me despedir. Nunca pensara que seria tão difícil de dizer adeus à ele. Vivemos muito tempo juntos e agora, por motivos que não faço ideia, íamos nos separar. Admito que vou sentir falta do garoto. Portanto, pelo modo como ficou, acho que ele já sabia que uma hora isso ia acontecer...
(...)
Eu nunca havia saído da província onde morávamos. Meu pai me levou ao Aeroporto de Fukushima, mas á todo instante olhava para os lados, como se esperasse por alguém... Ou por algo acontecer. Parecia mais preocupado do que nunca.
— Hanzö... Fique Aqui, irei assinar esses documentos para podermos partir...
Assenti com a cabeça.
Fiquei olhando enquanto ele se dirigia a um galpão.
O avião estava na pista de decolagem. Era enorme, nunca havia visto um de perto. Só suas asas davam duzentos de mim. Pessoas caminhavam em toda parte.
Mas algo estava estranho. Não com o avião, mas sobre ele. Era como se minicomputadores estivessem flutuando e procurando alguém. Estavam longe demais para que eu pudesse distinguir o que realmente eram. Pareciam minicomputadores, mas podiam ser apenas pombos. Ou não...
— Aqui esta — dissera meu pai. Parecia que ele havia percebido meu incômodo. Sua expressão se tornou sombria.
— Venha... Vamos para a fila...
Ele agarrou meu braço e puxou-me. Ele nunca fizera isso. Isso significava que alguma coisa realmente estava prestes a acontecer.
Olhei para trás, para cima do avião, e para minha surpresa, não havia mais nada lá. Talvez os pombos houvessem saído em busca de algo para se alimentar ou algo do tipo. Foi então que percebi que não se tratava de pombos (e nem de minicomputadores).
à nossa frente, acima de uma coluna de ferro, estranhas criaturas nos olhavam atentamente. Possuíam uma placa metálica repleta de engrenagens. Seus olhos eram como diamantes completamente negros, que rodavam em movimentos aleatórios. Papai se pós à minha frente. Mais ninguém parecia estar prestando atenção neles. Era como se estivessem invisíveis. Mas nós os estávamos vendo. Não havia dúvida.
De repente uma das criaturas de jogou no chão (literalmente). Suas engrenagens saltavam para fora, como tentando encontrar o lugar certo de onde ficar. Começou a se metamorfosear, até assumir a forma de uma espada, só que sem o espadachim. Avançava sobre nós, com um único objetivo: matar.
Outra criatura assumia a forma de uma enorme serpente, com dentes como navalhas semelhantes à estalactites.
Não era possível que ninguém as estava vendo. Todos passavam despercebidos.
O que eram aquelas coisas? Eu não estava compreendendo nada.
— Eu sabia que não seria fácil... — comentou papai. — Estavam apenas esperando nossa chegada...
— O quê?
A serpente metálica deu o bote. Fui jogado para trás enquanto o chão era estraçalhado. Meu pai sacou uma espada (não me perguntem da onde saiu àquela lâmina), e bloqueou o ataque do espadachim invisível. Foi tão rápido que mal pode vislumbrar o que havia acontecido. A lâmina de meu pai brilhava em roxo, como se houvesse uma aura sobre o gume.
Por um instante eu não o reconheci. O que estava acontecendo?
A serpente se voltou para mim. Seu rosto estava amassado, por causa do impacto no chão. Preparava-se para atacar. A língua era um fio rosa que sibilava alegremente. Mas antes mesmo de me matar, foi arremessada para longe com um chute fatality de meu pai. Como ele fizera aquilo? Era algum tipo de super-homem por acaso? Bem, então eu era uma donzela em apuros.
Desviou dos ataques da espada. O som dos metais se tocando fez um ruído estrondoso, o que provocou um pequeno terremoto, e uma rachadura no chão onde antes estavam.
Mas ele estava tão preocupado em se defender da espada que se esqueceu completamente da serpente. Enquanto bloqueava os ataques, a enorme serpente metálica avançava lentamente. Olhou para mim e parece que me considerou como um lanche não muito agradável (graças aos kami). Seu alvo agora era meu pai.
— Cuidado! — exclamei.
Ele olhou para trás então... Apareceu atrás da serpente e lhe deu um golpe na espinha dorsal. Mas... Ele continuava lutando contra a espada, e ao mesmo tempo havia acabado com o basilisco. Havia dois dele. A serpente se derreteu até evaporar por completo, como se nunca houvesse existido.
Com um ataque fatal, quebrou a espada inimiga, a qual também se derreteu.
Porém, outras criaturas surgiam, e não estavam nada feliz. Se e possível as criaturas demonstrarem emoções, elas estavam realmente furiosas.
— Não há tempo para isso... — falou.
Papai segurou minha mão, e com a outra fez um gesto o qual não sei descrever.
— Estilo Tempo, Nenriki! — exclamou.
O sol já não iluminava mais a Terra. De repente fomos cercados pela escuridão, e a única coisa de que me recordo após isso foi de meu pai me dizendo:
— Vai ficar tudo bem... Eu estou aqui...
Então desmaiei, com a leve impressão de que havia morrido.
Fale com o autor