Midori
1 Sorte
Notas iniciais
Saí pela porta levando meu moletom preto que por sorte estava ali perto, já que assim que passei pela porta senti um arrepio pelo vento frio, e praticamente corri portão afora.
Não conseguiria ficar mais um segundo naquela sala, com minha irmã se agarrando com o namorado da semana no meu lado, aquelas crianças correndo e gritando, tentando — em vão — chamar a atenção dos pais que os ignoravam enquanto bebiam a terceira garrafa de vinho, sentados no mesmo lugar durante todo o almoço e pareciam pretender ficar ali por horas.
Pensando nessas coisas nem percebi que já tinha percorrido todo o caminho até a praça. Passei pela quadra de areia e pelos brinquedos, ambos com crianças de diversas idades brincando. Alguns anos atrás eu estava entre eles, fugindo da mesma forma, só que arrastando um primo aleatório junto .
A única coisa que me atraia no lugar era a rampa graffitada de skate, sendo alguns desses desenhos os que eu carregava em um caderno e Percy me ensinou a passar para o cimento.Não que eu fosse ótima, era o máximo boa. E sabia fazer algumas manobras simples na rampa, nada além disso.
Repeti meu ritual. Subi a escada de metal e fui recebida por um dos garotos, que eu sempre encontrava por ali.
– Hey, Porco-Espinho! -Disse o garoto de olhos verdes que vivia sorrindo, fazendo com que alguns de seus amigos se virassem para nós. Ele me comprimentou me dando um abraço com o braço livre — Quer andar um pouco com meu bebê? — Apontou para o skate apoiado no chão sendo segurado pela outra mão. Assenti positivamente — Cuide bem dele.
– Vou cuidar como se fosse sua namorada. — Aquela vaca, completei mentalmente, e ele riu comigo.
Estendeu-me o skate, eu o peguei com uma das mãos e não consegui deixar de sorrir de volta , enquanto inclinava-me para frente.
XXX
Me sentei encostada a uma árvore ali perto, que julguei ser um ipê amarelo, que parecia ser bem antigo. Não me importei com as flores que a brisa de começo de primavera derrubava em meu cabelo colorido de verde, ou melhor, verde “radioativo”, como insistia Percy e seu amigo ruivo em falar. Eu não sabia como aquele garoto que andava de muletas conseguia acompanhar o ritmo imperativo de Percy, mas eles eram grandes amigos, e o ruivo o observava de cima da rampa enquanto comia barrinhas de cereais.
A visão a minha frente não era — nem um pouco — ruim. Percy e seus amigos fazendo manobras na pista, fazendo piadas com quem caia ou errava, dando gargalhadas por qualquer coisa. Confesso que ficava analisando-os.
Deve ter sido por isso que não percebi quando alguém sentou-se ao meu lado. Me fazendo pular de susto quando resolveu falar.
– Aproveitando a visão? — Disse em tom sarcástico, antes de dar uma última tragada no cigarro e o apagar na grama.
Eu devo ter babado.
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