Midnight Lovers
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Estava ficando cada vez mais difícil para Sebastian escapar das viaturas da polícia local e dos olhares desconfiados dos moradores, tudo era culpa de seu cabelo vermelho vivo, que, graças às chuvas incessantes, o fogo das madeixas rebeldes havia sido apagado. Sua alma estava assim, fraca, infeliz. Desde que Electra havia lhe contado que era sua verdadeira mãe, Sebastian havia pisado em um território perigoso: a raiva.
Um sentimento humano tão antigo quanto a própria humanidade. Movimenta multidões, faz impérios ruírem, exige mudança e, acima de tudo, cegava. A raiva é ardente, consome o nosso interior de forma avassaladora e, quando menos se espera, explode. Sebastian sentia que seu coração era uma bomba-relógio e estava prestes a fazer um grande estrago. Não queria machucar sua família, muito menos sua irmã, então decidiu partir.
Ele sabia muito bem o que sua raiva era capaz de fazer.
Sua visão é ofuscada por uma luz vermelha brilhante e escura como sangue. Era a iluminação de um prédio quadrado e baixo, como uma caixa de sapato. Parecia vazio e, se tivesse alguém dentro, estava além de si mesmo, abusando de bebidas e drogas ilícitas.
Para Sebastian, era um esconderijo.
Para o mal, um reino.
— Melhor que nada… — Ele suspira e adentra o local.
O cheiro doce de drogas fortes e azedo de dejetos invadia as narinas de Sebastian com voracidade, forçando-o a se agachar e unir todas as forças de seu corpo para não vomitar o café da manhã que não comeu. Era como se tudo dentro dele o pedisse para dar meia volta, até que uma melodia etérea e mágica preenche sua alma. Por um momento ele esqueceu do cheio e de sua ânsia, se esqueceu de sua família e de todos os sentimentos que o corroía. Era apenas ele e as notas musicais. Sebastian seguia a música, vidrado, tentando manter-se são ao mesmo tempo que se perdia profundamente, dissolvendo-se no ar.
— Oh, céus, é você? — Uma voz ecoa, atravessando as notas e acordes musicais, sensual e maliciosas — É realmente você!
Uma mão fria e fina entrelaça-se com a de Sebastian, acordando-o de seu transe. Seu toque é como um raio, veloz, impotente e aterrorizador, fazia Sebastian vibrar, como se todas as células de seu corpo quisessem mais e mais.
— Magnus, o que… — Ele fala, mas logo a raiva, antiga amiga, retorna ao seu corpo. Sebastian se afasta do toque do homem e, por uma fração de segundo, a feição de Magnus muda, parecia triste, magoado — O que diabos é esse lugar?
Era uma boate, o chão era feito de luzes, brilhava um tom vermelho-escuro como sangue. No teto havia luzes industriais, cabos cilíndricos e cinzas que escondiam a fiação, focos de luz de festa e, no centro, um disco feito de CD´s, que iluminava o local com as cores do arco-íris.
— Bem-vindo ao Veludo Vermelho — Magnus sorri, repousando as mãos na cintura.
Sebastian sente seu coração apertar. O bruxo era incapaz de negar: Magnus era lindo, diabolicamente esculpido para causar calafrios e acessos de raiva. Desde o momento em que ele tocou Selena e ela sentiu como se o seu mundo tivesse sido sugado para os fundos da Terra, Sebastian o marcou como alguém perigoso, mas ali, em sua boate, Magnus parecia um jovem adulto, curtindo a vida e aproveitando o seu negócio.
Parecia humano.
Frágil.
— Aceita algo para beber?
— Água — Sebastian sibila, apesar de seu cérebro lhe dizer para sair correndo daquele lugar, seu corpo o impedia. Queria conhecer mais sobre o homem por trás de toda a faceta de intocável.
— Posso oferecer mais do que isso, querido — Seu sorriso era diabólico, iluminado pelas luzes coloridas da balada, Magnus parecia um rei. O Veludo Vermelho, seu reinado.
— Eu tenho dezesseis anos — O bruxo retruca, arqueando a sobrancelha — Não deveria me oferecer bebidas alcoólicas…
— E eu, dezenove. Vamos fingir que esse tipo de lei não existe aqui, querido — Ele continua, acenando para o barman — Eu sou dono do lugar e…
— Você não está acima da lei, Magnus — Alertou, encarando-o.
Os olhos do homem faiscaram e Sebastian estava certo que havia um brilho maníaco de luxúria neles: roxos como vinho, perigoso como uma maldição. O bruxo engoliu em seco, não deveria estar ali, mas algo dentro dele queria mais. Entretanto, Sebastian e Magnus eram como água e óleo, uma combinação impossível, uma explosão de diferenças que, se unidas, marcariam os dois com o fogo alastrador da perdição.
— Não há lei nesse pedaço de terra, Sebastian — A voz dele era baixa, passando despercebida entre os acordes da música, rouca e sensual — Não se preocupe com leis e moral, aqui, essas palavras não se encaixam…
— Magnus…
— A bebida dos senhores — Um homem musculoso, usando um terno preto, aparece com uma bandeja prateada, interrompendo a conversa.
Dois copos.
Um com um líquido transparente e o outro, rouge.
— Obrigado — Magnus fala, entregando o copo de água para Sebastian — Acredite se quiser, mas não forço ninguém a nada.
— Muita gentileza sua.
— Porque me odeia?
Sebastian cerra o maxilar, enquanto o homem o analisa com o olhar. Os olhos dele pareciam roxos, mas o bruxo tinha certeza que era por conta da luz da boate (ou era isso que Sebastian mentia para si mesmo). Mordendo o lábio inferior, Magnus balança a cabeça, encorajando o mais novo a falar.
— Não odeio você — Mentiu, sentindo seu corpo aquecer, mas dessa vez ele não sabia se era por conta da raiva ou se era a vergonha de parecer tão frágil perante aquele homem desprezível — Isso implicaria em sentimentos fortes por você e…
— Não é o que a sua calça me diz… — Sua voz soa cortante, áspera como uma lixa, interrompendo o garoto.
Sebastian, a essa altura, estava tão vermelho quanto o seu cabelo. Seu corpo estava tão duro que o bruxo mais parecia uma árvore plantada, estático na pista, inabalável. Ou, pelo menos, era isso que ele tentava transmitir, apesar de sentir-se vacilar com as palavras sinceras de Magnus. A verdade era que havia algo que atraia Sebastian, como um inseto era atraído por uma luz qualquer, atraído para sua morte.
Sebastian era o inseto.
Magnus, o destino cruel.
— Um gato comeu a sua língua? — Lascivo como veneno.
O bruxo decide, então, tomar de sua bebida, virando o copo de água de uma vez, isso lhe daria alguns segundos sem olhar para o rosto perfeitamente esculpido de Magnus. Tudo nele era uma batalha entre o bem e o mal, seus cabelos loiros são angelicais, enquanto sua boca, diabolicamente desenhadas, são o inferno de Sebastian.
— Vou assumir o seu silêncio como um sim — Ele fala, se aproximando do garoto, deixando poucos centímetros de distância entre os dois — Assumirei, também, que eu sou o gato…
Nesse momento, o bruxo percebeu que era alguns centímetros mais alto do que ele. Pôde, também, sentir o seu perfume: amadeirado e levemente alcoólico. Uma mistura sensual e ardente, se Sebastian provasse um pouco mais de seu cheiro estava certo de que seria levado à loucura.
— Presunçoso — O mais novo sibilou, reunindo todas as forças de seu corpo para não voar para cima do maldito homem.
— Dedutivo — Ele retruca, ficando nas pontas dos pés, ficando perigosamente perto da orelha de Sebastian.
O ar quente que emana da boca de Magnus faz o corpo do bruxo estremecer, e, logo em seguida, todos os pelos de seu corpo eriçaram-se. Entretanto, antes que ele pudesse falar mais alguma coisa, Sebastian agarra o seu pescoço. O bruxo queria vê-lo parar respirar e finalmente calar-se para sempre.
Sentindo as veias pulsarem de acordo com a batida da música, Sebastian o arrasta até uma parede, pressionando-o entre ela e seu corpo que fervilhava. Magnus arfa, sua respiração estava fraca, mas, ainda assim, sorria, segurando as mão seguras e fortes do bruxo. Seu olhar era sedutor, quase felino.
— Dominante... — Ele brincava com a própria sorte, soava etéreo e atrevido — Eu gosto…
— Cale a boca!
Sebastian fecha ainda mais as suas mãos, vendo-o abrir a boca em busca de ar, aquele homem o enlouquecia. “O que está acontecendo comigo?”, pensou, sentindo seu coração palpitar aceleradamente. Magnus derruba seu copo, fazendo o vidro estilhaçar no chão.
— Você vai… me matar? — Ele pergunta, regulando cada palavra para não perder mais ar do que o necessário.
— Eu queria... — O bruxo sibilou, soltando-o.
O homem respira com dificuldade, seu peito subia e descia dramaticamente, deixando cair sua camisa social branca, pendendo imprudentemente em seu ombro. Naquela posição ele não parecia estar vulnerável, estava fraco, “Mas não o suficiente”, Sebastian pensou. Magnus se apoia na bancada do bar, a poucos centímetros do bruxo e, mesmo distante, Bash conseguia ainda sentir a frieza da pele do homem ao seu lado.
— Você é louco — Magnus ri, endireitando a postura e acenando para alguém atrás do homem à sua frente — Meu segurança estava pronto para matá-lo.
Uma gota de suor gélida percorre a espinha de Sebastian, fazendo-o tremer. Ele estava louco, completamente insano. A música provocativa, as luzes que variam entre vermelho vivo e rosa choque e a voz maliciosa de Magnus levavam, aos poucos, Sebastian à insanidade.
— Muitas pessoas nessa cidade não gostam de mim, inclusive minha irmã e minha própria família. Já recebi muitas ameaças, mas… — Ele suspira tocando, com o polegar, os lábios de Sebastian — Essa foi, sem dúvida, a mais divertida. Quem sabe não fazemos de novo e…
Porém, antes que ele pudesse terminar de falar, Sebastian o segura pelos punhos, prendendo seus braços na vertical, impedindo-o de se movimentar. Tocá-lo fazia a pele do mais novo arrepiar, uma descarga elétrica percorria o seu corpo, um alerta de que ele deveria se afastar e que Sebastian adorava ignorar.
— Você vai dizer para o seu guarda-costas que está tudo bem — Ele sibilou perto da orelha de Magnus e, por um momento, o sentiu vacilar, tremer em seus braços — Depois, vai me levar para o seu escritório e vamos ter uma conversa amigável.
— Para alguém que se diz ser bonzinho…
— Eu nunca disse isso — A voz de Sebastian soa rouca, nervosa, como uma ameaça.
Magnus se cala, mas não se rende.
— Não sou louco que nem você — Magnus diz, divertindo-se com a dificuldade de autocontrole de Sebastian — Tudo o que quiser conversar, terá que falar aqui, com o meu segurança a poucos metros de distância de nós dois…
— O que você é? — Ele grunhiu, mordendo a própria língua para se conter.
— Do que está falando?
— Eu não estou conseguindo me contro… — Magnus o atiça entre as pernas mais uma vez — Há algo em você que me descontrola. Me diga o que é!
A cabeça de Magnus pende para o lado, parecia confuso ao mesmo tempo que dominava toda a situação.
— Isso é simples… — Ele sorri, olhando fixamente para o bruxo — Você realmente não me odeia… Me ama!
Magnus consegue se afastar do toque do bruxo, desviando, por pouco, do punho extremamente fechado de Sebastian, que, a essa altura, sentia a pele arder de ódio. Seu soco atinge o gesso vermelho da parede, formando uma buraco relativamente fundo.
— Não gostou?
— Só cala a boca!
— Vem me calar… — Entretanto, para a surpresa de Magnus, ele é avassaladoramente calado.
Um beijo.
Sedento, ardente e raivoso.
Perigoso.
Fale com o autor