Notas iniciais
"The One That Got Away" - The Civil Wars

O corpo de Selena parecia ser feito de borracha, maleável e gasto, cansado e frágil. No momento em que abriu os olhos, a luz clara do lustre da sala de estar a força a fechá-los novamente. Mesmo exausta e fraca, decidiu confiar em seus outros sentidos. Primeiro o tato, estava quente, a lareira estava acesa (era isso que seu ouvido a informava ou ouvir os estalos da madeira), mas seu corpo estava frio, como se estivesse presa em uma banheira de gelo. Depois o olfato, que lhe permitia sentir o cheiro de sua mãe: shampoo de chocolate e perfume de baunilha.

— Mãe…

— Meu… Ai! — Ela exclama, erguendo o corpo de sua filha para perto de si — Você acordou, finalmente acordou.

— Pai… — Seu irmão geme do outro lado da sala, logo sendo puxado por seu pai para um abraço apertado e sufocante.

— Oh, acordaram! — Celeste arfa enxugando as lágrimas.

— O que aconteceu? — Selena pergunta juntando coragem para abrir os olhos — Parece que apaguei.

— E foi o que fez, Lena — Scorpius comenta se sentando ao lado de sua sobrinha — Beba, é uma unção, vai ajudar.

Selena assente, sem discordar, se voltando para seu irmão, que mal piscava.

Bash?

Lena, você está bem?

Sim. Você?

Sinto que fui atropelado por cinco caminhões de cimento.

A garota engatinha em direção a seu irmão, algo dentro dela fervilhava, como se sua vida dependesse do abraço de Sebastian. Ele a pega em seus braços, apertando-a e fazendo carinho em suas madeixas ruivas.

Lena, não se preocupe. Estou bem.

— Seth Nightingale, por algum acaso, conhece alguém chamado Reaper? — Uma voz sombria ecoa pela sala, fazendo a chama da lareira diminuir e o cômodo esfriar como um oceano no inverno. Força Selena a pular para longe do aconchego dos braços de seu irmão — Desembuche!

— Do que está falando? — Seth parecia confuso, entregando o copo para seu filho, ainda grogue.

— Foi ele quem fez isso — Electra fala enxugando o sangue em sua testa, consequência da queda — E tenho uma péssima notícia: Ele quer a verdade.

O corpo da bruxa estava quente, seu coração bombeava ódio e, por um milésimo de segundo, ela queria colocar aquela casa a baixo, destruir tudo o que via em seu caminho, gritar, socar a cara de Reaper pelo menos umas mil vezes. Ela queria usar o seu poder para vê-lo sofrer e implorar pela própria morte, coisa que Electra era excelente.

— Electra, você não está fazendo sentido — Scorpius diz se aproximando de sua irmã e analisando a ferida — O que aconteceu aqui?

— Foi da queda, fiz uma poção para encontrá-los e… Ai! — Ela resmunga quando seu irmão a toca exatamente no ferimento — Estavam no Limpo, os três.

Um silêncio pesado se instala no cômodo. Sebastian sente seu corpo tencionar, uma vez escutou seu pai falando do Limbo. É um lugar entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, meio que um faixa de terra espiritual onde as almas estavam condenados a viver pela eternidade agonizando. Não sabia ao certo o que uma pessoa precisava fazer para que sua alma parasse no Limbo e ele não estava nem um pouco afim de descobrir.

— Você disse “Limbo”? — Seth pergunta se levantando.

— Você me ouviu muito bem — Electra retruca — Precisamos conversar. Ter a conversa.

Andrômeda escuta o próprio coração partir, tudo isso estava sendo demais para ela. Deixou tudo para trás, sua filha, seu filho e sua mãe e caminhou a passos largos em direção a sua irmã, se alguém passasse ao lado da casa nesse exato momento, seria capaz de ouvir o assoalho rangendo. No momento em que ficou centímetros de distância de sua irmã, a atingindo na bochecha com um tapa forte o suficiente para doer, mas não para fazê-la sangrar. Um estalo percorre o ar, fazendo o irmão mais novo congelar.

— Cala-se, Electra, antes que se arrependa!

A mulher atingida ergue o rosto com um sorriso maníaco, massageando a face vermelha, ignorando por completo a sua agressora.

— Seth, conhece alguém chamado Reaper? — Ela repete entredentes, desviando seu olhar.

— Não me ignore! — Andrômeda pede, rígida como uma árvore.

— Irmã, você não sabe o que eu ouvi e se quiser manter Selena e Sebastian nesse plano espiritual, eu sugiro que me ouça e… — Outro tapa a interrompe de continuar — Eu vou matar você.

Electra avança para cima de sua irmã, a atirando no chão e socando seu rosto com força e, em seguida, mexendo seus dedos para que Andrômeda ficasse paralisada no chão, como uma estátua com sangue que escorria pelo nariz e entre os lábios. Seth sente seu corpo aquecer, a fúria tomava conta dele e, sem nem pensar, ele pula em direção a bruxa, sendo preso no ar por um feitiço.

— Electra…

— Feche a matraca, Scorpius! — Ela sopra sem nem olhá-lo.

Selena engole o choro e parte para cima de sua tia.

— O que pensa que está fazendo? — Ela grita socando o estômago de aço da mulher e se arrependendo miseravelmente.

Magia sempre agia nos momentos mais oportunos.

A garota urra de dor, segurando a mão machucada e inchada. Sebastian se levanta de supetão e corre em direção a sua irmã, segurando o membro levemente vermelho e recitando um feitiço de cura.

— O que eu estou fazendo? — Electra suspira e sorri — Alguém chamado Reaper nos conhece, sabe de nosso passado — Ela olha para Seth e Andrômeda e se desfaz do feitiço — Ele comando o Limbo, foi ele quem apagou Selena, Sebastian e a menina Hollister.

— Você vai pagar, Electra… — A irmã mais velha sibila limpando o sangue de seu nariz.

— Parem, parem todos vocês — Celeste choraminga — Parem de brigar! São irmãs.

— Vocês prometeram! — Seth extravasa — Isso é um segredo e me recuso deixar a birra de Electra estragar tudo!

— Birra?! — Electra grita reunindo todas as forças de seu corpo para não socá-lo — Não é birra, Seth, toque em mim e veja se estou mentindo?

— Parem! — Scorpius clama mexendo os dedos.

A sala para por um momento, uma onda de calma atravessa o corpo de todos. Seth sente seu coração acalmar, como se tivesse tomado um remédio para dormir. O sangue de Andrômeda corre frio, curando suas feridas e a fazendo cair sentada em uma poltrona. Os poderes de Electra são desativados por um pequeno instante e, pela primeira vez na vida de Scorpius ele viu sua irmã chorar. A ruiva desaba no chão, em prantos, fraca como nunca antes.

Selena se agacha na frente dela, compadecida com sua dor, era como se os gêmeos estivessem tão conectados sua tia que pareciam sentir o seu coração partir. A abraçam com cuidado, mesmo tendo em mente o que ela acabou de fazer.

— Eles tem que saber — Ela soluça repousando as mãos nos cabelos cor de fogo dos dois, acariciando as bochechas rosadas e mornas — Foi isso que Reaper propôs. Eu falo a verdade e eles não são arrastados para o Limbo.

— Você não está fazendo sentido — A voz de Andrômeda soa cansada, fraca — Electra, se nos ama, mantenha-se de boca fechada.

— Não posso — Ela sopra segurando a mão dos gêmeos — Já os perdi uma vez e não posso perdê-los de novo.

— Do que está falando, tia? — Selena pergunta com a voz trêmula.

— Pense bem, mana. Nós sempre podemos dar um jeito.

— Não há outro jeito, Scorpius. Não há, simples assim — Ela se vira para Andrômeda e Seth, os encarando com os olhos marejados — Ou querem que as almas dos dois seja arrastada para o Limbo? Para uma vida eterna de desespero e solidão?

— Como era esse Reaper? — Celeste pergunta se ajoelhando perto de sua filha e de seus netos.

— Poderoso, pisava naquelas terras negras como se mandasse no lugar. Ele era o Guardião dali, mãe, eu sei disso. Eu sinto isso — Electra suspira, limpando as lágrimas estúpidas que desciam pelo seu rosto — Fiz um acordo. Não temos como voltar atrás.

— Eu não acredito… — Andrômeda soluça.

— Falem, por favor, falem — Selena pede, se levantando — Estou tão perdida...

— Falem logo antes da mundana acordar — Scorpius aconselha — Não devíamos ter mantido eles no escuro. Eu avisei.

— Mãe, pai — Sebastian os chama — Digam.

— Não consigo… — Andrômeda tapa a boca, incapaz de conter as lágrimas.

— Eu sou a mãe de vocês — Electra diz, finalmente.

Selena sente seu corpo vacilar, pendendo para frente, sendo segurada por seu tio, que a envolve em seus braços quentes. Sebastian se afasta do toque de sua tia, ou melhor, mãe, se encostando na parede do outro lado, perdendo total controle de seus sentimentos. As lágrimas se acumulam em seus olhos.

— Cuidado, mocinha — Scorpius sussurra, sentando sua sobrinha em uma das poltronas, segurando sua mão enquanto se ajoelha na sua frente.

— Toquem em mim e eu provarei a verdade — Electra murmura — Venham.

— Eu…

— Por favor, Selena — Ela pede ficando de joelhos na frente da garota — Você também, Sebastian.

Ela está mentindo, Lena. Só pode. Minha mãe não é ela!

Precisamos saber a verdade.

Não! Ela pode estar nos enganando.

Só temos uma forma de saber.

Selena ergue sua mão em direção a seu irmão, que a segura. Os dois tremiam e mal conseguiam respirar, o coração estava acelerado demais. A garota se afasta do toque gentil de seu tio e segura a mão de sua tia/mãe e logo sente seu corpo dissolver no ar.

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31 de outubro de 2000

Uma mulher ruiva estava deitada em uma cama suja de um motel de beira de estrada, estava mais pálida que o considerado normal, com fundas marcas de cansaço debaixo de seus olhos esmeraldas. Parecia dez anos mais velha do que realmente era. Estava acompanhada de outra ruiva e um homem de longos cabelos negros, que estava sentado na beira da cama, segurando a mão da mãe que estava parindo.

— Essa sou eu — Electra sussurra, segurando os ombros de Selena e Sebastian, atônitos e boquiabertos — Primeiro veio o menino e depois você, Lena.

— Eu não acredito… — Sebastian sopra, se afastando do toque da mulher — É mentira.

Um urro de dor escoa pelo quarto e depois um alto choro de bebê preenche o ar.

— S-Sou eu?

— Sim, Lena — Electra murmura, engolindo em seco — Eu e Seth éramos namorados e, bem, ele se apaixonou por Andrômeda e esqueceu de mencionar.

A Electra dezesseis anos mais nova deixa as lágrimas escaparem, segurando seus filhos em seus braços. Eram pequenos, mas saudáveis. O menino era chorão, gritava e estava inquieto no colo de sua mãe, enquanto a menina estava dormindo, roncando de leve, como se o seu nascimento fosse apenas um trabalho já terminado.

— Deixei vocês com minha irmã, não ia ser capaz de deixar a morte de meu pai para trás. Estava caçando os Caçadores e não podia levar vocês — Ela explica se sentando em uma cadeira empoeirada — Seth fez um acordo mágico, passando a maternidade e todos os seus problemas para Andrômeda, seu verdadeiro amor. Foi nessa noite que assinei e, bem, perdi a guarda de vocês dois.

— Eu não sei o que falar…

— Não precisa, Lena. Sei como deve estar sendo para vocês.

— Não, não sabe — Sebastian sibila, virando-se para Electra. Seus olhos pareciam um vulcão em erupção — Você não é a nossa mãe, pode falar e mostrar o que quiser, mas essa é a verdade. A nossa mãe é a Andrômeda.

— Bash…

— Nem tente, Lena, pois sabe que estou certo — Por um momento Selena foi capaz de ver uma fina lágrima escorrer pelos olhos vermelhos de seu irmão, mas ela foi rapidamente enxugada, de uma forma que a faz desaparecer em milésimos de segundos — Nos leve de volta.

— Sebastian, você sabe o porquê de eu mostrar isso a vocês, não sabe?

— Espero que não seja para assumir o lugar de nossa verdadeira mãe.

— Bash, eu…

— Você é só nossa tia, Electra. Um de nossos parentes que nunca aparece…

— Não seja tão dura com ela, Bash, por favor.

— Ela não nos quis quando nascemos, Lena e provavelmente não nos quer agora.

— Sebastian, não questione minhas intenções — Electra soa ameaçadora, como um uivo de lobo prestes a atacar sua presa — Você não me conhece.

— Exatamente, não conhecemos você e, consequentemente, você não nos conhece. Se espera que eu e minha irmã passemos a tratar você como mãe, depois dessa demonstração…

— Me acha estúpida, Sebastian?

— Não, não diria isso de uma bruxa poderosa.

— Então acha que estou mentindo? — Ela indaga, se levantando da cadeira e parando perigosamente perto do garoto.

Selena sentiu sua voz travar na garganta, era como se ela tivesse presenciando o encontro de duas grandes feras mitológicas. Seu irmão estava vermelho de raiva, com os olhos piscando uma luz laranja fumegante, um aviso de que logo ele perderia o controle de si mesmo. Electra o fuzilava com o olhar, brilhando em verde como uma gema preciosa.

— Obviamente não está — Ele praticamente cospe as palavras — Apesar de desejar com todo o meu coração que estivesse.

— Não quero que me chame de mãe, Sebastian, apenas que veja a mentira que estava vivendo — Ela sibila, sem tirar os olhos do menino — É para o seu bem.

— Discordo.

Electra vira a cabeça, perdendo cada vez mais a paciência.

— Está apenas nos mostrando tudo isso por conta de sua consciência pesada.

— Fofo… Acha mesmo que eu sinto esse tipo de coisa? — Ela sorri, maliciosa como uma víbora e demoníaca como o próprio Diabo.

— Tenho certeza — Sebastian sopra — Você foi atrás de nós, não foi? Encontrou o tal de “Reaper”, não é? Ou tudo isso é uma mentira para você conseguir dormir de noite depois de nos enganar a vida toda?

— Bash… — Selena tenta falar mas é cortada por Electra.

— Vá em frente, continue me achando uma tola mentirosa — Ela abre os braços — Você sabe que estou certa, só não está pronto para digerir a verdade e, eu espero, que logo a engula, ou vai ficar cada vez mais preso em minhas mentiras.

— Sua víbora.

— Já fui chamada de coisas piores, Sebastian.

O menino cerra o maxilar tão forte que quase sentiu seus dentes quebrarem. Selena o toca no ombro, sentindo instantaneamente, o seu calor.

— Podemos voltar? — Ela pede — Temo que Salém esteja inundada a esse ponto.

Electra assente, esticando sua mão em direção a garota.

— Essa é a verdade nua e crua, meninos. Cabe a vocês decidir o que fazer com ela — A bruxa de olhos brilhantes diz entredentes, podia ser tanto uma ameaça quanto um alerta, porém, Selena não sabia qual era pior.

Notas finais
Espero que esteja gostando de acompanhar a jornada dos Bishop.