Micélios
2 Capítulo 2
Dando continuidade ao relato, Lucas e eu tínhamos uma amizade muito forte, estudamos na mesma sala e compartilhamos de interesses parecidos, que toda hora eram debatidos de forma voraz e muito bem argumentada, como disse, meu amigo tinha gosto por conversas assim. Tinha certa simpatia da sala, principalmente por ter sido uma das pessoas que mais se dispunha a ajudar aqueles que se viam em dúvidas quanto a matéria. Mas recentemente, após um desentendimento com a professora de inglês, ele tem estado distante, sempre escrevendo em seu caderno de páginas amareladas, minha preocupação residia em seu repentino silêncio ante as coisas.
Mas o que eu poderia fazer? Pensei que o óbvio fosse ir conversar, apresentar as minhas preocupações para que essa instigante dúvida que ele havia plantado em mim como que uma erva daninha finalmente secasse e pudesse seguir com a minha vida. E foi o que eu fiz, a casa dele ficava há uma hora e meia de caminhada. Chego por lá já meio cansado, aperto a campainha, do outro lado da porta ouço um grito distante
“Quem é?”
“Sou eu!”
“A porta está aberta, tranque-a depois de entrar”
Abri a porta. Olhei para a magnificência daquela sala e não era comparável em extensão ou em detalhes ao palácio de Versalhes, mas havia um charme naquele lugar, as estantes, os livros, o sofá, que parecia remontar quase duzentos anos atrás, o tapete que em sua estampa evocava o que parecia ser uma tapeçaria medieval. Os animais empalhados que se viam em cima das estantes com o intuito de decorar a casa cumpriam muito bem a função de descrever o tipo de pessoas que chamavam aquele sobrado de lar, igualmente se via nos retratos de família, no qual haviam pessoas de boa aparência em vários cantos do mundo, uma em especial que me chamou a atenção, foi uma foto que estava meu amigo Lucas, mais jovem, e uma figura masculina atrás dele, em um abraço, não sei de quem se tratava, talvez fosse seu pai, ou algo assim relacionado, mas além disso, vi como ele aparentava estar alegre e distante do mundo. Lembro também de ter visto algo que não tinha como se ignorar, havia uma grave infestação de fungos em uma parede, não era algo pequeno, ia do chão até parte do teto, e uma coisa que me fez ficar surpreso, fora a pífia tentativa de esconder essa praga que se estendia pela parede com um retrato pintado de um homem cujo olhar parecia o de um peixe exposto em um mostruário de um açougue. Depois, quando fui me dar conta, ouvi uma música vinda da cozinha, era alta, era suave, era linda, reconhecia de algum lugar tal obra.
Vou andando até onde se encontra a cozinha e vejo então o Lucas sentado à mesa ouvindo Wagner e comendo um sanduíche natural com um achocolatado enquanto lia, ele olha para mim e diz com euforia
“O ofertório de tannhäuser, escrita por ninguém menos que um dos maiores compositores da humanidade, só sinta o poder dessa melodia tão mítica, ao mesmo tempo que traz tristeza, evoca o amor em uma forma realmente romântica e tão poeticamente resgata os valores perdidos dos antigos germânicos. Não há como deixar passar algo assim de tão soberba glória!”
Digo-lhe concordando
“É bonita, mas achei muito triste”
Agora um pouco mais sério, ele me diz com a boca cheia
“Imagino que não tenha vindo aqui para discutir a graciosidade da música de Wagner, o que o trás em minha morada?”
Digo-lhe
“Vim ver como voce está, não acreditei em você quando disse que não ia se vingar da professora…”
sou interrompido por ele
“ Então vieste a minha casa para saberdes de minha situação desde o ocorrido?”
"Sim, voce tem ficado mais silencioso nas aulas, passa horas naquele caderno, escrevendo sabe-se lá o que, pareceu tão de repente que eu fiquei preocupado, voce não é assim, eu precisava falar com você, garantir que não fizesse nenhuma besteira"
Ele responde:
" Mentir nunca foi a minha especialidade, é mais difícil ainda mentir para você meu amigo..."
Ele se cala por um momento, e depois termina a frase sorrindo:
"Por isso acho melhor me calar, vai dar tudo certo eu prometo"
Insistente, pergunto de novo para ele
"Você está realmente bem?"
Ele responde a contragosto
"Acho que sim, não importa eu falar isso agora"
Ele levanta da mesa e diz agora olhando para mim
"Como disse, aquela mulherzinha não vale que eu dispenda meu tão sacrossanto tempo. Porém, tal tempo tem sido usado para uma invenção sublime que meu pai havia concebido, e que por acidente vi outros usos"
Ele saiu andando e sinalizou para que eu o seguisse. Me senti mais tranquilizado quando ele me contou de sua descoberta, de fato isso explicava muito bem seu silêncio e o tempo que ele passava em suas anotações.
Fomos ao segundo andar, enquanto ele andava via o quão ornado era aquele lugar. Algumas imagens penduradas na parede deixavam claro o gosto de Lucas quanto a botânica, eram folhas de plantas que estavam secas e postas na parede com uma moldura, abaixo com uma fita estava a indicação do espécime em questão. Estantes de cristal guardavam potes e mais potes contendo raízes em conserva, abaixo de cada pote havia uma observação, creio que sejam sobre as plantas que ali estavam contidas ou algo do gênero, em contraste a essa organização de museu são os arranjos de ferro que estavam presos a parede, não sei ao certo o que possa ser, mas numa observação minuciosa poderia constatar que eram uma espécie de arma, espadas, machadinhas de mão talvez. Lucas, mesmo de costas se mantinha falando comigo, até o momento eu o ignorava olhando para sua casa, voltando a prestar atenção nele, começo a ouvi-lo contando sobre seu pai, na verdade, uma coisa que eu lembro e muito bem é o respeito contido em seu tom ao tratar-se dele.
“Meu pai é um botânico”
Dizia Lucas
“Metade do ano ele passa pelas universidades afora em sua grande pesquisa, são coisas de fato absurdas, muitos chegaram a chamá-lo de louco, pois em seu projeto não reside somente na área da biologia, mas também numa espécie de metafísica, e talvez criptozoologia. Não me esqueço de quando ele falava comigo sobre as vezes em que a vida parecia dar errado, tudo conspirando ao fracasso, mas meu pai, mesmo assim nunca desistiu, ele dizia que no final tudo valeria a pena.”
Indago-lhe
“E seu pai? onde ele está?”
“Não sei ao certo, da última vez que ele me mandou uma carta ele estava a procurar algo que validasse o projeto de sua vida”
“E em que ele estava trabalhando?”
Ele dá um suspiro, paramos em frente a uma porta, subitamente e ele vira para mim e diz de forma ameaçadora
“O que estás prestes a ver é o trabalho de uma vida, algo que demorou anos para ser feito, e que percebo hoje em dia a sua magnitude, como disse, não trata-se somente de uma pesquisa ordinária sobre botânica, é também o portal para vastos conhecimentos ocultos, digamos assim uma 'porta de entrada e saída' para certas áreas cujo homem sequer imaginou cruzar. Se estou a lhe mostrar isso de fato, é por que eu acho que você merece a confiança que lhe dou, se por acaso o que está aqui ficar no conhecimento de alheias pessoas, acabará por condenar as nossas vidas”
Ao ouvir tal aviso, me senti intimidado. Minha mente estava a beira do colapso, numa dança confusa de medo e curiosidade, transpirava, o nervosismo além de evidente era sufocante em minha tez, o que reside naquela sala? Ademais não queria pensar em consequências, queria ver a tão grande pesquisa que o pai de Lucas havia criado para poder entender, mesmo com tal aviso vindo dele, nunca pensei que algo de tamanha importância poderia estar atrás daquela porta. Por deus, depois de tanto tempo o que ali residia ainda me assombra, e o que se sucedeu dias após nesta sala também me furtam o sono, mas me manterei firme... Pelo menos até terminar esse relato.
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