Michael
9 Thomaz
Uma mensagem apareceu no canto de seu campo de visão:
“Siga essas coordenadas. Aqui é seguro!”
Ass: S
Eu não acredito... Pelo menos tenho carga suficiente até chegar lá!
O tempo fechou relâmpagos transformavam por instantes, à noite em dia. O vento balançava fortemente as árvores. Logo a estrada estava cheia de poças, Michael tremia como uma folha.
Pelado, sujo... A bateria acabando, o que é que falta acontecer?
Passou por fazendas, avistou pequenas casas simples, viu um raio torrar uma vaca viva. Já pensando em ter errado o caminho, considerou a possibilidade de Ariel ter hackeado a sua conexão.
Ai meu Deus! Perdeu o controle da moto, se esparramou na lama. Merda!
– O que está fazendo na chuva?
Michael se levantou: — Ah?! O que estou fazendo aqui? Não, é que não tem água na minha casa, então resolvi tomar banho aqui mesmo!
– As mesmas piadas ruins de sempre! — retrucou o outro.
– Que milagre é esse? Não estar na cidade pegando uma prostituta! — o loiro tentou tirar a lama dos seus braços.
– Não... É que agora parece que deram para virem por conta própria! Venha... — ele pegou a moto caída -... Vai tomar um banho, pois precisamos por a conversa em dia!
– Então Michael, como vai a Dany?
– Morta!
– Meus pêsames! — o outro abraçou o amigo recém chegado.
– Por isso que vim aqui, para você me alegrar! — o loiro deu um sorriso cansado.
Depois de tudo aquilo que Michael passou nesses últimos dias, era a primeira vez em que se sentia seguro. Vestido, alimentado, até dormiu um pouco, contou a suas desventuras para Thomaz ao lado de sua lareira e saboreando um bom whisky.
Depois de encerrada a narrativa, o som do crepitar da lenha, alimentava a paz sentida agora por Michael. Mas tinha que encontrar com S, felizmente o seu amigo o iria ajudar nesse objetivo.
Mas estranho... As coordenadas marcam que aqui é o lugar...
– Quer que dizer todo mundo ou queria comer você ou te matar?
– Nem me lembre disso!
Os dois riram, um raio rasgou o céu, o trovão foi alto o suficiente para fazer os dentes de eles rangerem.
A bebida alcóolica agia como dedos quentes no estomago de Michael, olhou para o seu velho amigo: aqueles lisos cabelos negros e olhos cinzentos davam um ar de seriedade ao homem no corpo de garoto.
Thomaz havia sido um dos primeiros a fazer uma modificação tão radical e até mesmo bizarra. Usar nano robôs e biologia sintética para desmanchar a estrutura celular do corpo e preservar as informações do cérebro, convertendo você em qualquer pessoa, com qualquer sexo, com qualquer idade. A Fonte da Juventude trazida a realidade pelas mãos da ciência. No início era só uma mania excêntrica, até que órgãos governamentais e religiões consideraram uma aberração, um crime. Agora, a magia estava nas mãos de clínicas clandestinas. Mais uma máscara no teatro do mundo real. O disfarce perfeito.
Michael ficou observando a tempestade que não parecia perder força, enquanto seu amigo lia A Guerra dos Mundos de H.G. Wells na sua poltrona de couro.
– Thomaz
– Sim?
– Você é o S?
O outro largou o livro em uma escrivaninha. E encarou o loiro.
– Aposto que está louco por explicações não é?
Michael ficou calado, pois temia a verdade.
– Eu conheci a sua namorada enquanto trabalhávamos na Companhia Turritopsis. Lá soubemos que eles desenvolviam armamento para o governo brasileiro, na guerra contra a Força Revolucionária Caiçara. O problema é que a Polícia Federal e a Abin, descobriram que...
– Já sei! – interrompeu o loiro – Que a Companhia vendia para o inimigo deles!
– Isso mesmo! — confirmou Thomaz
Michael ficou olhando pela janela a tempestade fustigar lá fora. – Só não entendo o que tenho a ver com isso, porque ela queria que eu fosse com Juan até você?
– O irmão dela também estava envolvido na confusão, mas ele chefia as equipes de segurança de informação da Turritopsis...
– Ninguém merece! — exclamou o loiro.
– Já chegaram? — Thomaz já estava de pé e alerta. O outro confirmou com a cabeça.
É hora do show!
Um aero carro blindado pousou duzentos metros ao lado da casa, saltaram quatro indivíduos portando Tigers 1.8, armas do tamanho de submetralhadoras, que disparam projéteis capazes de perfurar um muro de chumbo com seis metros de espessura. Logo após estarem a pé, ativaram a camuflagem, estavam invisíveis.
A residência de Thomaz parecia mais uma biblioteca do que uma casa. Ele fez questão de salvar todas as grandes obras: De Júlio Verne a Sigmund Freud, de Descartes até Tolkien. Adorava chamar sua coleção de cápsula do tempo, seu único desejo após a sua morte era que seus amigos, mantessem segredo da localização, por quanto tempo fosse possível. Como Thomaz mesmo disse: Até que as Areias do Tempo enterrem as conquistas da civilização global, e outras surjam, com novos sonhos, desejos e realizações!
O esquadrão cercou a casa, avançavam de modo a eliminar todas as possíveis chances de fuga. Um grito varreu a noite tempestuosa, um sorriso brotou no rosto de Michael. Menos um!
É claro que a casa possuía suas próprias defesas, aliás, como se manteria por séculos!
– Tome! — Thomaz ofereceu ao loiro uma tela transparente, do tamanho de um livro.
– Como isso vai ajudar?
– Aponte para a janela e clique em um dos bastardos! — apesar de aparentar não ter mais do que catorze anos, o tom de voz era muito madura e firme.
Michael obedeceu, mirou em um invasor que vinha pelo caminho de paralelepípedos e clicou na tela. No mesmo instante o indivíduo foi estraçalhado, a morte fora silenciosa, os outros nem perceberam o que tinha acontecido.
– Vou querer um desses na minha casa! — exclamou Michael.
– São minas subsônicas! — explicou o dono da casa soando didático.
Eles se divertiram matando os outros dois.
– Cara! Você é um gênio! — Michael fez uma reverência.
– Não foi nada, apenas fiz o qu...
Uma rajada de tiros perpassou a residência, destruíram móveis, rasgou livros... Quando acabou, era como se um furacão tivesse passado por ali, no ar havia cheiro de papel queimado, madeira carbonizada e... Sangue.
Fui atingido!
Michael olhou para suas mãos, estavam ensanguentadas. Ouviu um baque, seu amigo desabou inerte no piso de carvalho. Lágrimas subiram em seus olhos, suas pernas amoleceram. Caiu na poltrona de couro, ficou fitando a lareira. A lenha ainda era consumida, faíscas dançavam no ar logo estavam projetando lembranças de sua vida: As brincadeiras na escola, o dia do enterro de seu pai, o primeiro beijo, a formatura, quando viu sua irmã partir para a missão em Marte, o dia em que conheceu Daniela...
O sorriso dela figurava nas chamas, ela estendeu seus braços, chamando para uma última aventura, um convite. Ele a seguiu.
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