Michael
7 Ariel
Quando os primeiros raios solares tocavam o Atlântico, os pontos multicolores se converteram em agulhas prateadas espetando o céu azulado e sem nuvens.
Sozinho, de novo...
Depois do ataque um a um dos membros da tripulação da Virgem Ousada, foram desaparecendo na imensidão escura. Michael se lembra de ter ouvido gritos de socorro e dor.
A sonda caçou um de cada vez!
No alto do seu campo de visão, a palavra Luanda, flutuava indicando a localização do loiro.
Molhado, mas não perdido!
Uma correnteza o arrastou para longe, apesar de ter tentado resistir, suas braçadas foram inúteis contra o mar. Cansado, com sede, fome e solitário fechou os olhos por um instante...
– De onde veio? - sibilou uma voz infantil.
Outras vozes se uniram a primeira, logo Michael não sentia mais o calor tórrido do sol.
– Afastem-se dele, deixe respirar! — soou uma voz mais madura.
Trevas novamente.
Os implantes neurais costumam possuírem executar algumas funções automáticas como tentar reanimar o cérebro com uma descarga elétrica, ativar o sistema de geolocalização se o indivíduo estiver perdido... No caso do NicoTesla 8.6, o exocórtex de Michael, permite ao usuário "rever" os momentos de maior estresse ou tensão.
Depois de Melissa ter derrubado o robô assassino, a lente de contato captou a imagem da irmã mais velha dela, trajando um macacão de mergulho com Juan ao seu lado. Só não conseguia distinguir se ele estava preso a ela ou era por espontânea vontade.
– Meu irmãozinho vai te levar até Salvador, eu marquei o encontro lá com o S! — Dany tinha dito antes de embarcar naquela espaçonave.
Em que merda eu fui me meter...
Despertou com algo beliscando seu dedão do pé. Acordou sobressalto, um caranguejo partiu desesperado.
Foi por pouco!
Sem perder tempo, saiu do quartinho de madeira em que estava e atravessou o corredor cujo e úmido, imerso em cheiros que variavam ao de fezes de bebê ao de maresia.
Cansei de ser jogado para um lado para outro!
– Ai caramba...
Michael freou antes de cair no precipício. Estava em um prédio, ou quase isso, os andaimes que davam acesso aos andares inferiores eram de plástico cor-de-musgo envelhecido, á sua frente situava uma torre semelhante a que estava.
– Lá está ele!
Os prédios pareciam um formigueiro sendo atiçada, a maioria das portas se abriram. Sem querer saber o que estava por vir, saltou.
Caiu por dois segundos, já se arrependendo. Frouxo! Devia ter lutado em vez de fugir feito uma galinha! A queda tinha sido interrompida, alguém o segurara pelo cós.
– Ufa... — aliviou-se.
Um som de rasgo anunciou o fim de seu sossego. Voltou a cair, agora gritando. Segurou em dos andaimes, sentiu uma vibração na estrutura, uma mulher com olhos globulosos, magra, mas apresentado uma aura de sabedoria invejável, estendia a mão para ele.
– Segure!
Michael obedeceu, pouco depois estava livre do problema. Bem agora... Onde diabos, estou?
– Quantos anos você tem, meu filho? — a mulher com ar de sábia o cobriu com seu xale engordurado.
Acham que sou uma criança...
– Onze! — respondeu imaginando uma história.
– MENTIROSO! É um daqueles homens que se disfarçam de jovens!
Quem havia gritado era um homem, dava para ver que o tempo não tinha sido muito gentil com ele. Parou na frente de Michael e puxou a cueca do loiro: — Vejam por vocês mesmos!
– Ô meu! — ele puxou de volta, constrangido.
– Mas... Mas não é um homem! — exclamou o velho confuso.
Uma garotinha tinha arregalado os olhos e um grupo de meninos caiu na gargalhada.
– Sai daqui, velho maluco! — a mulher que estava com Michael empurrou o homem — Se ele está mentindo... — ela o ajudou a se levantar — Vamos... Fale a verdade!
– Me perdi de meus amigos, estávamos em um barco e fomos atacados, não sei por quem... — Michael começou a tossir e lágrimas escorreram pelo seu rosto.
Ah moleque! Ainda sou um ótimo ator!
A mulher pareceu comovida e o levantou nos braços e o levou até um dos apartamentos. De apenas de um cômodo, a residência da mulher parecia carecer de tudo: de segurança a alimentos... Mas mesmo assim ela o acolheu.
– Fique a vontade! — desejou ela — Vou trazer algo para você comer, viu?
Michael confirmou com a cabeça, logo estava sozinho.
Tenho que me localizar, encontrar um transporte e voltar para o Brasil.
A ideia de Juan tê-lo traído ainda o perturbava. Será que ele vendeu aquilo que Daniela falava tanto? Impossível, segundo ela aquilo era mais valioso do que "toda a Companhia!”.
Alguém bateu na porta, o loiro preferiu continuar calado.
Mesmo assim, ela foi aberta e um garoto entrou e fechou a porta por trás de si.
Lá vem coisa...
– Mike!
Michael estremeceu. Sabe meu nome?
– Sei que não deve se recordar da minha pessoa... — o garoto se aproximou.
– Desculpe, mas tem certeza de que nos conhecemos?
– Para falar a verdade, tenho sim... — ele deitou em cima de Michael e falou no ouvido deste: — Só vou perguntar uma vez...
O garoto se sentou na barriga de Michael e diante do rosto do loiro reluzia uma Dragon 8 mm.
– Vamos Mike, faz um esfocinho... — ele se moveu para cima da virilha.
– Eu não te conheço, cara... — Michael parou quando ouviu o outro assoviando uma música.
Gagnam Style! Só uma pessoa em todo o sistema solar, ainda gostava daquilo.
– Ariel?
O garoto se aproximou a ponto de Michael sentir o cheiro de álcool do hálito dele.
– Se lembra disso... Deve se lembrar de que ainda me deve e... — Ariel saltou e o puxou pelo braço ainda apontando a Drogon contra a nuca de Michael — Eu nunca esqueço!
– Tá, o que você vai fazer? — desafiou Michael — Vai vender meus órgãos?
– Não, como eu tinha te dito uma vez. Ás vezes minhas criações são verdadeiras obras primas, e como um bom artista vou aproveitar da minha arte antes de se desfazer dela.
Não tô gostando disso!
Enquanto andavam, Ariel tropeçou em uma rachadura no piso. Minha chance! O loiro disparou pelo corredor imundo, empurrando as pessoas que por ali passavam.
Para onde vou? Atrás de si deixou um mar de reclamações e xingamentos. Seu corpo todo chacoalhou e desabou em uma poça que parecia ser vômito, ou algo pior...
– Parece que vai ter que tomar uma ducha! — Ariel soou ofegante.
A água estava gelada, as paredes eram cheias de buracos de onde baratas vinham ver quem tinha vindo perturbar o sossego delas. Recobrou o equilíbrio do corpo e disparou em direção à porta aberta, na sua frente apareceu à garotinha de antes.
– Oi! Como eu faço para sair...
Michael se engasgou, a menina tinha lançado algo em sua garganta com um estilingue.
– Filha da... — grunhiu o loiro.
Ariel surgiu e alisou a cabeça da garota e a dispensou com um gesto. Fechou a porta. Como arma, Michael sacou um escovão — Muito... be... Bem — tentou falar — Vou te matar aqui mesmo!
O outro ficou apenas tirando suas vestes lenta e calmamente, entre uma risada e outra.
– Qual é a graça? — reclamou Michael.
O garoto sorriu e falou com os braços abertos: — Essa!
Que merda de brincadeira é essa?
O loiro largou a escova, seu corpo ficou quente, sua visão turva, as cores das coisas pareciam realçadas, o coração batia fortemente.
Ariel se aproximou e passou as mãos pelo corpo de Michael, este reagiu apenas arfando, o outro o beijou longamente. O loiro percebeu que estava excitado, contra a sua vontade, Ariel empurrou a cabeça de Michael em direção a virilha dele, mais perto...
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