Micha e a fechadura
1 PRÓLOGO
Notas iniciais
A chuva não fazia descansar. As ruas estavam alagadas, e, fora do aconchego das residências, estava frio a ponto do nariz congelar com fim de dificultar a respiração. Ao longo da rua – talvez até em toda a cidade – só se observava um menino correndo. Ele estava de um tom branco azulado congelante. É importante observar que nele só se encontrava um terno simples acinzentado que era exatamente do seu tamanho. Não era grande e tão pouco largo; no entanto, não era suficiente para fazê-lo aguentar o frio que hoje fazia. Fora o terno, ele também carregava uma maleta marrom proporcional ao seu tamanho. Provavelmente, ao que se entendia das pessoas (principalmente das crianças), vestido daquela maneira, ele devia estar voltando da escola. Não demoraria muito a cair a neve de inverno que sempre gostava de se instalar em cidades pacatas, aonde se reparava mais na sua fria beleza branca. Era de suma importância que o menino chegasse à casa antes de escurecer, pois, caso contrário, ele estaria sujeito a encontrar pelo caminho aquele frio que derruba a mais forte e saudável das pessoas. O garoto tentava correr, suas pernas eram pequenas e fracas, e o frio dificultava ainda mais essa tarefa que, para um corredor de maratona, já parecia impossível. O primeiro floco de neve, daqueles que parecem perfeitamente desenhados por deuses, já caía do céu que lutava com o Sol para escurecer. Não faltava muito para o menino chegar, mais dez números e ele estaria seguro. O tempo e a velocidade com que andava não foram suficientes. Como um cadáver morto, ele ficara caído no chão molhado, que ia já recebendo mais daqueles flocos que pareciam sorvetes congelados; ficaram perdidos, ele e os flocos, no número 623 de sua rua, onde sua casa era o 646, na rua oposta, a dos números pares.
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