Meus Mortos

1 Para: você, meu amor que desistiu de tudo


Notas iniciais
Esse texto foi escrito em meio ao luto, porém nunca publicado. Agora que me encontro na mesma situação, escrevo-o novamente na esperança de achar algum alívio.

Para: você, meu amor que desistiu de tudo.

De: aquela que ficou até o fim.

Você desistiu.

Logo você que dizia que nós nunca desistimos. Nós de sangue bagunçado. Misturado. Brasileiros, nós nunca desistimos. Não importa a situação, fique em pé e se mantenha firme. Continue forte. Você mentiu e me partiu. Todas as vezes que eu estive ao seu lado, precisando ou não, com mãos e o “O importante é tentar” de sempre. Você lembra quantas vezes você tentou fazer dar certo?

Várias.

Mas agora nada mais importa.

Porque você enganou e desistiu.

O que mais temos de precioso, o que costumávamos ter, você o deixou ir. Você fez o impossível acabou com as minhas esperanças. Eu assisti o fogo queimar, reduzir a cinzas o que um dia eu mais amei. Eu assisti você descer e descansar, finalmente em paz, enquanto o que eu mais amei me deixava conforme você ia.

Por todo esse tempo, eu continuei firme.

Você não.

Eu tento não derramar lágrima alguma, você sempre disse que eu era forte demais para a minha idade. Eu percebo isso porque só agora precisei criar raízes no chão e ser o que clamou, pois me é a única alternativa.

Eu tento não chorar.

Mas meu único desejo é cair e gritar em pânico. Quero que os céus saibam da minha dor, que anjos me digam que é apenas uma brincadeira. Porque não podemos mais ficar juntos. Por quê? Quero gritar, exigir respostas, amaldiçoar todos que separaram as nossas vidas. Cupido maldito que errou. Mas eu movo os meus olhos de você e olho o cinza lá em cima. Não há nenhuma face angelical negando. Não vejo Deus.

Só tristeza.

Eu quero acordar e descobrir que esse dia ainda não aconteceu e que está longe, longe demais. Que ele nunca se realizará, porque, mesmo agora em que eu pareço forte, por dentro eu estou desmoronando. Preciso manter a pose, porque. Por quê? Deus, dói, não posso tirar a máscara? Não quero permanecer firme, não quero ficar de pé. Eu cansei. Mas fico, continuo. Por você. Eu tive todas as opções, e ainda assim, eu escolhi viver por você.

Mas você não fez o mesmo.

Claro que não. No meio de todo esse preto, eu rio. Você sempre foi muito cabeça dura. Muito durão para algumas coisas. Muito bruto com esses coturnos e o cabelo longo. As tatuagens que desenham os seus braços, as camisetas rasgadas que adornavam o seu corpo forte. Alto, moreno e sombrio, a definição perfeita de você.

Novamente, eu rio. Porque você riu quando eu te descrevi assim.

Você riu e me puxou para um beijo, e eu agradeci aos anjos pelo dia em que tudo deu errado. Eu me pergunto se você lembra. Sim? Era o meu primeiro dia naquela casa que me deixaram. Eu estava ansiosa, preocupada se conseguiria arcar com tudo que estava acontecendo. Meu primeiro ano na faculdade, meu primeiro emprego registrado. Meu primeiro luto.

Você estava lá quando eu saí do carro com caixas e mais caixas cheias de meus pertences. Você só olhou, sentado em sua moto dos infernos com uma cerveja na mão. Pela grade do portão negro, eu observei o homem que papai teria caracterizado como ‘não chegue perto dele’ e mamãe como ‘má influência’.

Logicamente, eles estavam certos.

Mas eu nunca me arrependi.

Nunca. Mesmo quando as coisas estavam de mal a pior. Quando tudo era tão bom que parecia mentira. Todo mundo tem altos e baixos, nós também. E com o passar do tempo, superamos, vencemos. Mas o último não era só alto, era supremo. Demorou um tempo, mas um dia eu disse que te queria. Você só sorriu daquele jeito displicente e então nós rolávamos na cama. Foi aí que tudo começou, comigo dando o primeiro passo.

E você dando o seu último.

Mas é como você disse.

Nós nascemos para morrer.

Fato. É a nossa única certeza. No início, eu reclamei, resmunguei por horas, te dizendo para ser otimista, mas você replicou dizendo que era realista demais para isso. Eu disse, então, que nós nascemos para muitas coisas, morrer é somente uma delas. Você sorriu e me beijou os lábios, sussurrando que nasceu para mim.

Do mesmo jeito que eu nasci para você.

Só que todo conto de fadas tem um fim, não é? Claro que o nosso não poderia ser diferente. O nosso termina aqui, com você descendo para a terra; comigo tentando me achar nas migalhas das cinzas do que mais amei. No fim, você disse que não queria viver como uma sombra, muito bruto para tal coisa. Mas você nunca poderia ser uma, você sempre foi a luz. Sombria, mas luz. Como os primeiros raios de sol a iluminar o céu de manhã.

Sem você aqui, a sombra sou eu.

Eu olho ao meu redor e vejo as poucas pessoas que vieram se despedir, vestidas de preto, segurando guarda-chuva para evitar as lágrimas que eu não choro. Mas não eu. Visto amarelo porque você uma vez disse que me fazia parecer o sol de manhã no verão. Porque antes de terminar o seu fim, eu quero estar radiante para te iluminar enquanto parte. Pode estar chovendo, mas eu estou aqui, vestindo o sol para tirar as sombras de você.

Eles continuam a te colocar para dormir na terra enquanto eu permaneço forte e assisto o amor que eu mais amei morrer.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.