Meu último amor

1 MEU ÚLTIMO AMOR


Escrevi tantas cartas, rasurei tantas folhas, e constatei o quão ingênuo fui ao perceber apenas depois da partida que o fim já vem timbrado no corpo. Depois de gastar tantas penas e uma tinta nobre, surge-me a visão de que nada valeu quando o dia termina depois de inúmeros conhaques, uma carteira de menor e um RG falso, o balcão quase fechando e tantas mulheres, tantas almas perdidas, no meu entorno, dançando como num festival endiabrado, um lúgubre ritual de partida. O futuro é uma piada, é apenas o que ouço e o que vejo.

Falando para a escuridão, contando as velas acesas. Quantos nós fazem uma corda? Quantos tremores derrubariam esse banco? O que nos impede? O que nos leva? É... Concordo com os sons que duram a me ensurdecer, o existencialismo é a nula possibilidade de sermos ocos, o existencialismo por si só é de uma profundidade inenarrável. Buscando o céu prometido, conheci o meu único amor, aquele que impede qualquer chance com outro alguém, aquele que te dá a certeza de que não importa o quão incrível alguém seja, nunca será igual, o beijo não terá o mesmo gosto e a chuva só molhará os pés.

Para tornar o meio mais lúgubre do que almejo, deveria citar corvos, com o seu tom de negritude e busca por carne putrefata. Porém, do que vale? Se o nosso amor se resumia num pote de doces. Sempre, nos mais ensolarados dias, devíamos a nossa vaidade àquele pote, tão açucarado, simbolista da nossa união. E há analogia mais triste do que dizer que agora as formigas invadiram-no, e os doces, persistiram, agora estragados?

FIM

04/11/2015

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!