Meu verdadeiro Mundo
4 Capítulo 3: Pé de valsa
Notas iniciais
Capítulo 3: Pé de valsa
Nádia ficou falando sobre as provas, sobre querer fugir da escola e voltar de ônibus para casa ao invés de esperar o escolar, porém eu não estava afim. Tínhamos de trazer uma autorização e cópia do documento de nossos pais para sair, não queria me dar ao trabalho de ir a uma lan house e pedir à minha avó para escrever, se ela mal sabia. Depois de um tempo, ficou chato estar por lá, naquela sala amontoada de livros desorganizados que a bibliotecária estava tendo um trabalho árduo para organizar. Saímos da sala caminhando alegremente como duas gazelas, Nana pulando e dando tchau para o pessoal do primeiro bloco e eu de fones de ouvido. As janelas eram viradas para nós, entrei no banheiro e Nana também o fez, me olhei no espelho, com o batom matte gasto e quis tirá-lo, arrancar meus cílios exagerados e comer sorvete até engordar mais do que já era. A música de Fifth Harmony – Them Girls Be Like ecoava nos meus ouvidos, de repente quis saber dançar, nem que fosse o passinho do Michael Jackson.
— Quero te ensinar a dançar! – Nana exclamou batendo palmas, ela parecia ser uma criança e acho que a personalidade combinava extremamente com ela.
— Sou péssima, tenho três pés esquerdos, provavelmente minhas mãos também são pés. – revirei os olhos me apoiando na pia de mármore e sorri gentilmente para ela.
— Talvez eu consiga! Sou BR, eu não desisto “nunca”. – ela ajeitou os cabelos ondulados e longos enquanto eu me virava para sair do banheiro. Então tive uma ideia brilhante, quando estávamos a caminho da quadra, seguindo em direção contrária da biblioteca, subíamos os degraus de concreto, olhei para a cerca e a grade da quadra trancada. Girei os calcanhares e vi ali um pouco antes da mini escada a rampa para o terceiro bloco e entrada ao lado do banheiro masculino. (ECA!)
— Vamos para a biblioteca, vamos dançar lá. – Nana arregalou os olhos, mas a vi processando a ideia.
— Ela não vai xingar? – colocou as mãos na cintura.
— Acho que não, sei lá. Que se dane, vamos. – ela ficou ainda mais animada, a felicidade explodindo por seus poros. Quando chegamos na biblioteca, um silencio pairava na sala, Arthur, Amanda e amiguinha deles já haviam ido embora. Senti meu coração murchar, mas era melhor assim, se ele visse como eu sabia dançar, não iria aguentar olhar para mim sem rir por uma semana. A música seria coreana, de um grupo feminino e “muito rosinha” (que fique óbvio que meu amor por rosa é de 3% em consideração a Nana, que combina com rosa e a minha única saia preferida).
Lá vamos nós, eu tropecei no início e não tinha sido nem o refrão que era ainda mais complicado, coloquei as mãos na cintura viradas para o lado de fora e levantei uma perna para trás, abaixei e levantei os ombros três vezes. Isso foi um sacrifício, fora que tem a entrada. Ficar de costas, olhar para trás com “carão”, passar a mão em forma de concha envolta do traseiro, virar de frente caminhar com “carão”, parar, dar um pulinho e fazer uma pose, para depois vir a parte das pernas. MUITO DIFICIL.
Já em casa, almocei igual a um “pedreiro” e me deitei sem fazer o quilo, peguei o livro da mochila e voltei a ler. Eu entrava na personagem de uma forma maravilhosa, queria que a vida dela fosse a minha, mesmo que a dela estivesse bem ruída, eu ainda queria ser ela. Com a probabilidade de eu ter um romance quente com o cara gostoso da história, tirando o fato da magia estar entrelaçada com o fator amor. Eu tinha cerca de 100 livros na minha biblioteca particular e naquele ano, eu estava determinada a ler todos os que restavam, seria mais da metade. Eu dormi igual uma porca, acordei babando e fui para a sala ver se minha avó estava em casa, ela dormia no sofá. (Ótimo, sou de uma família onde o sono é uma doença hereditária).
Nana me chamou mais tarde por mensagem para conversarmos, falamos sobre um anime extraordinário que ela havia encontrado, larguei o livro em questão de minutos para ver o primeiro episódio, eu já havia visto, a muito tempo, foi bom recordar, era a segunda temporada e novíssima, “saída do forno”, sobre garotas que se transformavam em bruxinhas, mahou shoujo ou moças mágicas, tinham conseguido esses poderes através de duas varinhas que não queriam mais suas donas, que sabiam mais sobre magia do que essas duas humanas leigas, achei idiotice as varinhas largarem as adolescentes experientes por duas crianças. Porém as outras duas viviam brigando, mas fizeram um pacto de servidão com as meninas, tornando-se escravas das mais velhas e ajudando-as em uma missão importante. Era 21:30 quando me joguei na cama, fuçando o celular esperando meu amigo chegar (não era Arthur), eu tinha quase namorado com esse bobão, sentia algo por ele um tanto quanto indecifrável, era bom até. Nos tornamos amigos “dependentes” um do outro, eu acabei apagando de novo sem que ele chegasse, desliguei a internet 1:23 da manhã, o horário que geralmente eu acordo, com a luz do celular no meu rosto.
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