Meu sonho

6 O sonho quase encontrado


Havia uns minutos que eu estava lá observando o Thomas a mergulhar naquela água, tão gelada que o Thomas estava perdendo a sua pose de “machão” e ficando um pouco no sol. Eu já não aguentava mais ficar no sol, dava uma pequena vontade de entrar naquela água e tomar um banho de cachoeira... Mas, alguma coisa me impede de ir lá e mergulhar. Acho que não quero esbarrar em alguns peixinhos, nem em aranhas aquáticas, se isso lá existe né... Acho também que esse menino ia ficar bem melhor sem mim. Bom, enfim, vamos esquecer um pouco o hoje e focar no amanhã. Nossa, é mesmo, amanhã a luta começa, deveres atrás de deveres, implicância atrás de implicância e preguiça atrás de preguiça. Mas esse ano vai ser divertido, vou fazer novos amigos e estou na torcida para minhas amigas serem da minha sala de novo. E quem sabe esse ano eu não dou sorte e realizo meu sonho?

– Oi? Você está bem?

Eu olhei para cima e lá estava ele. Sim, o Thomas. Não sei o motivo da preocupação mas vamos ouvir o que ele tem a dizer.

– Oi... –respondi.

Ele se sentou ao meu lado, passou as mãos em seu cabelo e ficou lá de frente para o sol junto comigo. Estava todo molhado, mas parecia que aquele banho de cachoeira o fez bem... Como se ele estivesse esquecido todos os problemas por um instante.

– Sabe, a natureza nos deixa calmo... –disse ele.

– Sim... -falei.

Ficamos em silêncio. Eu queria conversar com ele e saber um pouco mais de sua vida, mas ele é muito fechado...

–Me conte dos seus namorados Olívia. –falou ele dando outro largo sorriso.

Já deu pra imaginar minha cara não é?!

– Não tenho “namorados”! –eu disse.

– Tem namoradas?

Ele gosta de ser um palhaço tem horas, e tem horas que eu gosto de fingir que aquilo tudo não passa de um circo.

–Ha ha ha, que engraçado. Você deveria virar comediante, não acha?

– A primeira pessoa a comprar o ingresso pra ver meu show seria você! –disse Thomas olhando para mim e dando um sorriso.

– Pode tirar esse sonho da sua lista de desejos. –falei amarrando meu cabelo.

– Sonho... –ele falou olhando para a cachoeira. – Qual seria seu sonho?

Meu sonho... É algo tolo, algo que toda menina deseja, algo que se conquista e não se compra...

– Ainda não sei bem... –menti. – Você tem algum?

– Não parei pra pensar nisso... Talvez eu esteja procurando.

Ficamos sem falar por alguns minutos.

– Acho que já sei meu sonho... –disse Thomas.

– E qual é?

– Ajudar a achar seu sonho, e nisso eu poderei achar o meu.

Não sei bem porque aquelas palavras fizeram meu coração bater mais rápido... Sei qual é meu sonho, e acho que esse sonho, o Thomas não irá encontrar.

– Quando achar seu sonho, me avise. –falei sorrindo para ele.

Aquele papo de “sonho” foi um pouco estranho. Mas, acho que não menti ao dizer para ele que eu não sabia qual era meu sonho... Talvez eu esteja me escondendo dele.

– Vou entrar na água de novo! –falou Thomas.

–Vai lá.

–Você vem?

–Não.

–Tudo bem...

Avistei uma linda borboleta perto de umas pedras, e lá fui eu igual uma criança levada para ver mais de perto. Ela era realmente muito bonita, era azul, meus olhos até doíam só de olhar aquela beleza e...

– Pra quem não queria entrar né Olívia!!! –gritou Thomas.

Escorreguei nas pedras e caí naquela água que parecia mais um gelo. Ainda tive que aguentar as piadinhas idiotas daquele moleque.

– Acho mesmo que sua carreira é ser comediante, Thomas!

Ele sorriu e deu um mergulho. Se eu estava na água, eu tinha que me molhar, literalmente. Peguei meu chinelo que por sorte ainda estavam no meu pé, não me pergunte como, e os joguei perto da minha bolsa. Mergulhei e por acidente minha cabeça bateu com a do Thomas.

–Me desculpe, eu não te vi, essa água é um pouco escura. –eu disse.

Thomas pegou em minhas mãos e disse que ia me levar até a queda d’água. Ele ficou debaixo da queda de água e me puxou junto. Ficamos lá tomando aquele banho de água gelada, porém muito boa.

Tinha muitas pedras naquele local e Thomas estava me segurando para eu não cair. Eu estava prestes a cair, mas ele me agarrou para que eu não caísse e me machucasse com a queda. Justo nesse momento, papai chegou. Ele estava feliz mas ao me ver lá abraçada com o Thomas na cachoeira, ele sem a blusa, seu humor caiu de uma maneira extraordinária.

A minha vontade era de deixar a correnteza me levar pra bem longe, colocar um saco na minha cabeça e mudar meu nome pra Morgana. Entretanto, eu apenas acenei com um sorriso amarelo como se tudo estivesse tranquilo. Quem me dera se estivesse. Logo me desgrudei do Thomas e me virei ao tentar sair da água. Foi cansativo e doloroso sair dali, as pedras estavam machucando meu pé, parecia que alguém tivesse dado vários tiros na sola dele. Quando cheguei em terra firme eu olhei para o céu e pedi pra Deus me dar mais uns aninhos de vida, pois não queria morrer daquela forma.

Papai me lançou um olhar que eu tremi de cima em baixo, que até uma vara bamba perdia para mim.

–Estava bom na cachoeira, Olívia Constance? –disse meu pai quase pulando na água e estrangulando o Thomas.

–É, acredita que eu caí? Sim, foi uma queda e tanto, nossa eu acho que um bicho me mordeu, olha papai. –falei.

Lucas se sentou como se fosse ver uma briga. O que me impressionou foi que ele desviou o assunto, algo que eu estava tentando fazer desde que meu pai chegou.

– Decidiram onde vai ser o jantar? -perguntou Lucas.

– Eu e o Thomas ainda não sabemos, na verdade a gente nem conversou sobre isso... –respondi.

Eu fiquei sentada com o Lucas, meu pai foi molhar seu rosto e o irmão do Lucas estava mergulhando como se não houvesse mais amanhã. Tudo o que eu mais queria naquele momento era ir pra casa, e foi isso que meu pai sugeriu.

O trajeto de volta foi tudo silencioso, parecia que alguém tinha morrido. Quando chegamos até a mamãe, tudo estava arrumado para nós voltarmos para casa. O relógio marcava 13:23. Nós almoçamos em um restaurante ali perto, fomos a uma sorveteria e voltamos para o carro para ir para casa. Desde que saímos do parque, Thomas não trocou uma palavra comigo.

Fim do capítulo 6.