Meu sonho
23 Eu deveria ter te escutado, mas agora é tarde.
Notas iniciais
Eu estava entre os braços de Thomas, estava quente e confortável. Era como se ele estivesse fazendo um escudo e me protegendo. Não queria me soltar dele. Ainda me pergunto se coloquei tudo a perder, apostei as fichas em um cara que eu não sinto praticamente mais nada, se eu deveria ser honesta comigo mesmo e com meus sentimentos. Mas não dá. Simplesmente não dá para voltar atrás e pedir para tudo ficar bem.
Derramei minha última lágrima e olhei no fundo dos olhos de Thomas. Ele me olhava com carinho. Me lembrei da bela cena que ele fez com aquela idiota. Quis socar ele ali mesmo. E foi isso que eu fiz.
– Está ficando maluca? – perguntou ele segurando uma das minhas mãos.
– Já se esqueceu? Acha que eu não vi você quase devorando a Maria Cecília na minha frente?
– E você acha que eu não vi você fazendo o mesmo com o Iago? Olívia, gostar do menino é uma coisa, me provocar é outra completamente diferente.
– Thomas, eu não estava te provocando, nem aqui e nem no Japão!!!
Thomas me puxou para perto. Dei alguns tapas para ele me soltar, mas ele é um moleque insistente.
– Qual é? Thomas... Me deixa. – falei desistindo dos tapas e brotando lágrimas nos olhos.
– Já disse que não ia te deixar!
– Estou com o Iago e você com a Maria – acalmei a voz.
– Você não gosta dele. Olívia, nós dois sabemos o que está rolando entre nós, a única pessoa que não quer enxergar isso é você!
Me afastei dele e sentei na beira da cama.
– É que – cocei o pescoço.
– Diga...
– Eu te odiava.
– Ok, agora me conta uma novidade.
– Deixa de ser ridículo e escuta o que eu tenho a dizer – fechei a cara. – Thomas, eu simplesmente não gostava de você, sério, por mim que você se lascasse, não faria diferença.
– Credo, o que eu fiz? – ele se sentou ao meu lado.
– O que você fez? Você simplesmente me ignorou quando fui dar as boas-vindas, eu me senti um chiclete debaixo de uma carteira.
Ele sorriu. É tão cínico que não percebe o quanto aquilo me deixou furiosa.
– Me desculpe – ele sorriu novamente. Vou socar aquela boca até sair sangue. – Mas, eu não estava afim de me mudar. Não foi fácil deixar minha namorada e...
– Espera! – interrompi. – Deixar ela? Mas você disse que ela tinha se mudado...
Thomas coçou a cabeça e tentou se explicar.
– Logo depois de me mudar, claro... – falou ele. Não sei, isso não tem um cheiro muito agradável. – Continue o que ia falar.
– Ah, sim. Bom, como sabe, minha vizinha foi embora e não deu mais sinal de vida. O que me encabulava, era poder pensar que você estava tomando o lugar dela, não no sentido de afeto mas sim da moradia. Fui uma idiota, Thomas, reconheço isso. Com os dias fui me adaptando ao seu estilo, seu jeito e percebi o que as coisas que pensava de você, foram sumindo aos poucos. E hoje estou aqui, fazendo um mini discurso retardado.
– Olívia...
– E o que você pensava sobre mim?
– No primeiro dia, achava você uma menina mimada, afinal, quem dava boas-vindas a um vizinho? Hoje em dia não tem mais nada disso, é cada um no seu lado. Quando meus pais precisaram sair, não passava na minha cabeça que eu tinha que ficar uns dias na casa da menina que ignorei, muito menos dormir no mesmo quarto que ela. Entretanto, não fiquei emburrado, apenas fui eu mesmo. Os dias se passaram e você ia me enchendo de sorrisos, algo que não fazia desde que deixei onde vivia.
Dei um suspiro.
– Vamos comer logo, estou afim de comer um elefante. – falei para acabar com aquele assunto que não ia levar a lugar algum.
No outro dia:
– Thalia, o que houve contigo? Um caminhoneiro não te sequestrou, certo?
– Que engraçadinha você. Se eu estou aqui, Olívia, obviamente não!
– Ham? — disse Rosa.
– Esqueça, é uma longa história, um dia ela te conta. Um cara sentiu sua falta e ele está indo até você. – falei.
Thalia fez uma grande interrogação no rosto.
– Thalia... Olá! – disse Marcelo.
Rosa me olhou com uma cara que dizia: “Hmm, entendi tudo.”.
– Então, Rosa, eu esqueci uma coisa lá fora, você vem? – falei fazendo sinais com os olhos.
– Certo, vou contigo – ela disse entendendo o que eu queria dizer.
Marcelo deu um sorriso em forma de agradecimento. Parecia que eu estava ouvindo Rosa pensar: “Queridinho, não quero sorriso, quero o dinheiro na minha mão!”.
Eles estavam perto da porta, então arrastei Rosa para lá e ficamos escondidas tentando ouvir a conversa.
– Por que faltou ontem? – perguntou Marcelo.
– Motivos pessoais.
– Entendi. Bom, Iago quer levar sua amiga para o cinema, ele me convidou mas não quero ficar segurando vela para os dois – ele balbuciou. Meu filho, vou no cinema não é para beijar na boca. – Enfim, queria perguntar se você... Se você quer ir conosco?
– O que? Estão me excluindo da parada? É isso mesmo? – disse Rosa baixinho.
– Rosa, fica quieta, eles podem nos escutar!!!
– Ah, eu não sei... Depende muito do meu irmão. Mas vou tentar fazer o possível, te dou a resposta depois que conversar com ele – falou Thalia.
– Se você quiser, eu posso conversar com ele, só me falar onde você mora e...
– Não, não – Thalia o interrompeu, para o bem dele. – Digo, acho que não é uma boa ideia...
– Por que?
– Acho que meu irmão não ia gostar muito. – ela fez movimentos com as mãos. Acho que ela quis dizer que ele ia bater no Marcelo até ele implorar para parar.
Marcelo assentiu e eles ficaram alguns segundos calados. Percebi que o clima estava acabando e falei para Rosa dar uma mãozinha. Nós passamos perto deles e Rosa empurrou Thalia propositalmente, e assim, como manda o roteiro, Marcelo a segurou.
– T-Thalia, você está bem? – ele balbuciou olhando no fundo dos olhos dela.
Thalia não conseguia falar nada, o rosto dos dois estavam quase colados. Eu e Rosa cruzamos os dedos para eles se agarrassem logo e...
– Olá gente, bom dia.
DROGA!!!! RAIOS!!! MALDITO SEJA THOMAS!!!! POR QUE ESSA PESTE ESTÁ AQUI INTERROMPENDO ESSE MOMENTO HISTÓRICO?
– THOMAS!!!!! – gritei. – Eu vou lhe mostrar com quantos paus se faz uma canoa, seu idiota!!!! – pulei para cima dele e o empurrei até a porta da sala.
– Meu Deus, que eu fiz? – perguntou ele passando a mão no seu braço que eu havia apertado.
– O que você fez? O de sempre: meter o bico onde não é chamado!
Ele olhou para dentro da sala para procurar as meninas e o Marcelo.
– Já entendi tudo.
– S-sério?
– Sim...
– Está tão aparente?
– Mas é claro. Está na cara que vocês estão ensinando Thalia a dançar valsa.
Para quem se mostra inteligente, é na realidade um lerdo! Não aguentei e soltei uma risada de hiena.
– Qual a graça?
– Thomas, fica calado e deixa que eu passo as coordenadas do plano.
– Plano?
Expliquei para Thomas que estava querendo juntar a Thalia com o Marcelo, e para isso, ele deveria colaborar.
– Entendi mas – ele deu uma pausa. – E a Rosa? Quero dizer, se eles ficarem juntos, a Rosa vai ficar sozinha.
– Acha que eu não sei disso? Uma coisa de cada vez, Thomas! Depois que a operação cupido der certo, você me ajuda com a Rosa – disse cruzando os braços com um breve sorriso.
Entramos na sala e sentamos nos nossos devidos lugares.
O sinal para o intervalo indicou que eu deveria procurar meu “ficante”. Seria muito mais fácil eu seguir o Marcelo para encontra-lo, mas ele foi para algum lugar com a Thalia.
O encontrei em pé na sua rodinha de amigos. Logo percebi que Thomas tomava um achocolato não muito longe dali, e ele estava sozinho, a Maria com certeza havia faltado.
– Iago – encostei minha mão em seu braço e ele se virou.
– Olívia? – respondeu ele.
– Ih... – um menino do grupo havia falado, os outros olharam com uma cara estranha e saíram de perto, nos deixando às sós.
– Acho que eu não avisei que ia passar o intervalo com meus amigos – Iago disse.
– Amigos? Você tem coragem de chamar aqueles garotos de amigos? Você viu como eles me olharam?
– Olívia, entenda que... – ele pegou no meu braço.
– Não entendo nada! – eu disse me soltando dele. – Você nem fez o esforço de me defender, se fosse o Thomas...
– Thomas? O que o babaca do Thomas tem a ver com isso?
Me calei, uma coisa difícil de acontecer em meio a uma discussão. Não me acostumei com o fato.
– Se você me der licença, tenho coisas a resolver com meus amigos. – ele falou fechando a cara
– Iago, você ainda tem a cara de madeira de me deixar e ir com aqueles caras que me desprezaram?
– E qual o problema, Olívia? Não namoramos!!
O que? Ele acha que é quem para falar assim comigo?
– Escuta aqui...
– Por que ainda está com essa escandalosa, parceiro? – um amigo do Iago apareceu de repente e me interrompeu. — A aposta acabou quando você beijou ela!
Eu estou escutando direito? Aposta? Escandalosa?
– O que? – balbuciei.
– Cara, some daqui!!! – falou Iago.
– Uma aposta? V-você está comigo por causa de uma aposta?
– O-Olívia, eu posso explicar...
Dei um tapa bem forte na cara daquele canalha, filho de uma égua, desgraçado!
– Eu não sou um objeto ou um brinquedo, Iago!!! Eu fui tola em acreditar que você realmente gostava de mim, FUI TOLA!!!! – meus olhos encheram de lágrimas. – E por que ainda está comigo? Heim? Para tirar mais proveito dessa idiota?
– Por favor, Olívia, vamos conversar...
– Vai conversar com seus amigos, seu idiota!! Some da minha vida! Você não merece e não merecia os 12 meses que eu amei você, tudo o sofrimento que passei por não ser correspondida, a indecisão e as discussões que tive com a pessoa que nesses últimos dias esteve tentando abrir minha mente.
– Olívia, eu ia mesmo te contar sobre isso mas... Eu acabei me apaixonando por você de verdade. Nos primeiros dias de aula o plano estava todo formado, porém a cada dia que passava, eu fui me encantando com você. Mas o meu tempo estava acabando e a aposta ainda estava erguida, então eu peguei você de surpresa e te beijei – ele abaixou o olhar. – Quando você correu, vi o quanto você sente algo por aquele cara, esperei você voltar e não quis me dar por vencido. Tudo o que eu disse para você foi verdade, os beijos que die em você foram todos com um sentimento e não por uma aposta... E, eu não havia contado aos garotos que ainda estava com você, por isso eles te ignoraram daquele jeito...
– Eles queriam que você me desse um fora aqui mesmo...
– Vamos passar uma borracha nisso e seguir adiante. Eu visito seus pais, prometo brincar com seu cachorro, te acompanho para os lugares, converso com seu pai sobre futebol e ajudo com a louça... Apenas, fica comigo.
Poucos dias atrás era tudo isso que eu desejava. Hoje, quero que o Dandi morda ele, meu pai jogue uma chuteira na cara dele, minha mãe quebre um copo na cabeça dele. Estou sem chão, me esforço para não deixar uma lágrima cair na frente dele, ele não merece essa honra.
– Quer saber? Vai fazer suas apostas... Ah, e pode apostar que eu não quero saber de você, o que tivemos termina aqui. Procure outra trouxa, essa aqui deixou de ser uma.
Virei as costas e caminhei devagar. Me sentia traída mas ao mesmo tempo livre. Entrei no corredor perto da secretaria, não tinha uma alma viva por ali. Me sentei, encostei na parede, arredei minhas pernas para perto do meu corpo e me debrucei nela. Deixei a emoção e as lágrimas tomarem conta de mim.
Fim do capítulo 23.
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