Meu sonho
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Segunda, 09:30 –
— Minhas costas doem! – disse Thomas.
— Problema é seu! – falei.
Eu, Thomas, Rosa e Thalia, estávamos em pé perto de uma sala, era intervalo.
— Está um tédio hoje... –resmunguei.
— O que fez de interessante no final de semana? – perguntou Thalia, encostando na parede.
— Nada importante.
Thomas me olhou e logo falou:
— Ela saiu comigo e quase beijou o Iago.
— O QUE? – gritou Thalia.
— Conta isso direito, mulher!!! – disse Rosa.
Suspirei e disse que depois contaria com calma, agora estou afim de relaxar, nem que for por uns míseros segundos.
— Viu o Breno, Rosa? – perguntou Thalia, dando-lhe um cutucão.
— Sim, eu dei um tapa na cara dele e terminei tudo.
— Ah, o amor jovem... – falei.
— Amor é o caramba, quero tudo em dinheiro o tempo que eu gastei com aquele – ela fechou os punhos — Vagabundo!
Thalia levantou as sobrancelhas e fez um sinal mostrando que não ia se pronunciar. Hoje estou tão desanimada, se alguém me trancar na sala, eu aproveito e fico dormindo.
— Alguém quer ir beber água comigo? – perguntei
— Eu vou. – Thalia disse.
No caminho encontrei com Iago e um amigo. Estranho, acho que conheço esse menino.
— Olívia! Fico feliz que aquele cão de guarda não esteja atrás de você – Iago gargalhou.
— Ah, oi... – falei dando um sorriso.
— Não apresenta suas amigas? – disse ele.
— Ah, sim... Essa é a Thalia.
Os olhos do doidinho que estava ao lado de Iago brilharam. Não é por pouco, Thalia tem um cabelão liso, olhos claros e a pele branca, quase transparente (ela odeia que fala isso, mas eu me arrisco as vezes). Ele é bonitinho também, cabelo liso e jogado pro lado, olhos pretos.
— E você não apresenta os seus? – alfinetei.
— Esse aqui é o Marcelo – ele empurrou o menino – Vamos, cumprimente a moça, apenas a Thalia, Olívia não é para seu bico.
É isso! Marcelo, da minha sala! Como pude esquecer, ele é tão gentil e legal, nunca conversei com ele mas já espiei algumas conversas dele.
— Oi – ele estendeu a mão.
— Ei – Thalia ficou corada.
Ah, achei fofo essa vergonha.
— Me espera na saída... – Iago falou.
— Não posso, Thomas me puxa e não posso chegar em casa sem ele. – expliquei.
— Em casa?
— Esqueça! Vou tentar o máximo para te encontrar. Nos vemos depois.
— Tchau, Thalia. – disse Marcelo.
Thalia balançou a mão. Senti um clima.
Sala de aula, 10:22 –
— Alunos, vocês vão fazer uma atividade em dupla. Porém, eu irei escolher, sem essa de querer fazer com o amiguinho. Como hoje é segunda, vou fazer uma coisa bem light para vocês relaxarem, como se fosse uma brincadeirinha. Vocês terão que descrever a pessoa que fez dupla com você, tanto o lado físico como o interior da pessoa! Não quero que coloquem nada como: “Ela tem dois braços, dois olhos, um nariz e uma boca.”. Depois disso, cada um vai ler o que escreveu EM VOZ ALTA PARA TODA A TURMA OUVIR. Entendidos?! – disse o professor.
Achei que essa era uma aula de artes e não de treinamento para descrever um marginal para a polícia.
— Muito bem – ele pegou o diário para falar os nomes – Rosa e Andriele, Thomas e Olívia, Thalia e Marcelo, João e Cláudia...
Que legal, esse Thomas não desgruda de mim, mas... THALIA ESTÁ COM O MARCELO! DOIS VIVAS!!!
Quando o professor terminou de falar as duplas, a maioria começou a reclamar.
— Continuem reclamando e eu mando vocês ir desenhar um avestruz, valendo o total do bimestre!!!!!!
Não tive saída. Mandei Thomas puxar sua mesa porque eu não estava em condições para ir até lá (como se fosse longe a mesa dele). Rosa foi para o outro canto da sala e Thalia foi parar na nossa frente.
— Vamos lá. Você é uma menina chata, mal-humorada, dorminhoca, preguiçosa, agressiva, o que salva são seus cachos – falou Thomas me avaliando.
— Você é um preguiçoso, idiota, lerdo, atrevido, intrometido e metido. Seus olhos são claros e seu cabelo é loiro, eu faria tudo para pintar ele de azul mas não tenho dinheiro no momento.
Thomas sorriu e voltou a escrever, parece que agora ele está fazendo com seriedade. Queria ser um mosquito para ouvir o que Thalia e Marcelo estão conversando.
Mesa de Thalia e Marcelo:
— Terminou? – perguntou Thalia.
— Hm, só falta algumas coisas... Não sei muito sobre você. – respondeu Marcelo dando um sorriso frouxo.
Thalia não tinha ideia do que escrever, ela também não o conhecia. Ficou rodeada de pensamentos até que decidiu dar um passo.
— Já que um não conhece o outro, vamos nos entrevistar e colocamos no papel. – disse ela.
Marcelo assentiu e começou a perguntar coisas simultaneamente.
— Qual sua música preferida? Gosta de praticar esportes? Tem irmãos? Quantos anos você tem?
— Calma – ela levantou e abaixou as mãos de forma suave. – Minha música preferida é Blame It On the Rain. Hoje em dia não pratico esportes, antes eu gostava de participar das aulas de Educação Física. Tenho 1 irmão, ele se chama Vitor e tenho 15 anos de idade – respirou fundo, cansada de dizer tudo rápido. – E você? Me responde as mesmas perguntas – ela sorriu por final.
Ele tirou o lápis da mão esquerda e o colocou em cima da mesa, assim, Thalia percebeu que ele é canhoto.
— Hunger Strike, do Linkin Park. Jogo futebol, nada mais que isso – ele deu um peteleco na borracha que por sua vez caiu no chão, mas ele não se dispôs a pegar. – Tenho uma meia-irmã, o nome dela é Annie, porém ela mora na Bahia com minha mãe. E por fim, tenho sua idade.
— Você é o tipo que sai para uma festa no final de semana, fica em casa e faz algo interessante ou que fica no futebol quase o dia todo? – ela perguntou.
— Sou os dois últimos – ele deu uma risadinha.
Entre perguntas e respostas, uma ponte ia sendo construída. Através das palavras de Marcelo e as perguntas de Thalia, a vontade de saber mais e mais um sobre o outro ia ficando grande e, sem que percebessem, eles estavam atrasados para entregar os relatórios.
O professor deu alguns minutos para terminarem e depois anunciou que ia ler alguns.
— Peguei o de Thalia e de Marcelo – ele limpou a garganta. – “Thalia é uma menina bonita, inteligente pelo que entendi, curte eventos e coisas calmas, é curta mas não grossa. Não gosta de chamar muita atenção e nem ficar se gabando, mas gosta quando os outros reconhece seu empenho. Ela tem olhos claros de tom mel misturado com uma folha verde seca, cabelos longos, lisos e castanhos, pele clara.” – o professor engoliu as características e foi procurando com os olhos a pessoa descrita.
Percebi o quanto Thalia se encantou com aquela descrição, me senti bem com o sorriso dela. Esse Marcelo...
—Vou pegar outro – ele leu as duas folhas que pegou e decidiu ler as duas. – “Thomas é o nome do ser que irei descrever...” – algumas pessoas soltaram risos – “... Ele é alto, não uma girafa ou algo parecido, apenas alguns centímetros maiores que eu. É loiro natural, não é um loiro berrante. Seus olhos são verdes, e tem pele clara. Não sei como descrever a personalidade dele, mas vou tentar. Ele é o tipo de menino exibido! Não, na verdade ele é do tipo de preguiçoso que não gosta de me ajudar a fazer faxina. Sempre me tira do sério, me atormenta noite e dia. Também é aquele menino estraga prazeres e intrometido. Mas...” – o professor limpou a garganta e deu um sorriso. – “... ele deixa meu dia feliz. Gosta de ser cuidadoso quando o assunto sou eu e está me ajudando a não ser louca sozinha. Vai me ajudar a encontrar meu sonho”.
Corei de vergonha. Não pensava que ia ser logo o meu papel que o professor ia ler, estou com vontade de desenhar um avestruz.
Thomas virou para trás e jogou um papelzinho, nele estava escrito: “Não se esqueça: meu sonho é poder encontrar e realizar o seu!”. Dei um sorriso ao ler aquilo.
— Quem é Olívia? – perguntou o professor. Levantei minha mão. – É, você não deu mole pro seu colega, vou ler a parte dele – ajeitou o papel. – “Irritada, teimosa e nervosa, é o que Olívia Constance me mostrou nos primeiros dias de convívio com ela. Apesar desse jeito agressivo, ela possui um grande coração. Quantas vezes já parei para ver ela ensinando dever para meu irmão, e mesmo que ele esqueça 1000 vezes, ela vai lá e ensina 2000 vezes se necessário, com o mesmo sorriso. Ela diz me odiar mas no fundo gosta de mim, tanto que ficou ao meu lado dias atrás, me cuidando e dando carinho. Ela tem grandes e brilhantes olhos castanhos, cabelo castanho claro e cacheado, a pele morena clara. Eu adoro o jeito dela de ser, minha vida tem mudado desde que conheci essa menina, espero que um dia ela entenda o que faço.” – o professor procurou Thomas e viu que ele se sentava na minha frente. – Thomas, pelo o que eu entendi, você é próximo da Olívia no sentido de local. Mora perto dela?
— Sou vizinho dela, professor! – Thomas balançou a cabeça.
Fiquei sem palavras, Pedi ao professor para ir ao banheiro e chegando lá fiquei me encarando no espelho. Meu reflexo parecia dizer que eu era a pessoa mais idiota desse mundo. Enquanto eu pensava só em ódio e rancor, Thomas pensava ao contrário. A sensação que tenho é que realmente gosto dele, não quero que nenhum momento ele fique perto de outra ou se vá, que se esqueça de mim como simples sandálias usadas, que eu seja a concha que o mar levou. Mas como dizer isso a ele? Como demonstrar isso para ele? Tudo o que eu faço é xingar e deixar a desejar, ser meio louca e gritar. Nessas duas semanas eu descobri lados do Thomas que passei a admirar. É isso... devo falar para ele o que está passando em minha cabeça para tomarmos uma atitude juntos.
Como aquele era o último horário, o sinal apitou e eu sai às pressas do banheiro. Com medo do que ia falar, com medo do que ia levar.
Entrei na sala e todos tinham saído, não encontrei minhas coisas então deduzi que ele estava me esperando lá fora. Desci as escadas correndo e quando virei para o corredor perto do bebedouro, Iago estava lá.
— Pelo visto conseguiu fugir – disse ele.
— Iago, estou muito ocupada agora deixa para outra hora...
Ele me puxou e me beijou com toda sua força. Fiquei com os olhos abertos não acreditando no que acabara de acontecer. Me afastei depressa e olhei para o lado, era Thomas segurando minha mochila e as meninas indo atrás.

— T-Thomas... – falei surpresa e aflita.
Ele saiu com ar de desapontado e raivoso. Empurrei Iago e corri atrás dele.
Fim do capítulo 19.
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