Meu romance em preto... Azul?
1 (Capitulo único – Um mar de belos fios)
Notas iniciais
Meu nome é Jhonattan, tenho 29 anos, trabalho como advogado na sede administrativa da prefeitura da minha cidade há 10 anos, e moro em um antigo prédio, bem simples, perto do trabalho. Moro sozinho aqui desde os meus 20 anos, porém passo a maior parte do meu tempo no escritório o que me faz ser de certa forma infeliz.
Alguns meses atras, conheci Petter, ele tem 35 anos e mora no mesmo prédio que eu ha 15 anos, e ainda não sei como não o conhecia. Ele é um pouco mais alto que eu, usa sempre regata preta, calça jeans com correntes e uma jaqueta preta. Seu corpo é repleto de piercings, e seu cabelo... ah, seu cabelo, é completamente azul com algumas mechas pretas, com apenas um dos lados raspados, qual é mesmo o nome do corte? Sidecut? Uma vez minha irmã fez um corte desses aos 17 anos. Nunca vi minha mãe tão fula. Voltando ao Petter, ele é perfeito.
Um tempo atras, voltei para casa um pouco mais cedo, por volta de uma da manha, pois estava com uma enorme dor de cabeça e percebi certo movimento no 4º andar. Parecia que estavam dando uma grande festa, mas resolvi deixar de lado e ir dormir. Por ironia do destino, eu moro no 5º e o barulho me impedia de dormir. Subi um andar e bati na porta, ainda de terno, devido ao cansaço e à preguiça de trocar de roupa, e fui atendido por Petter.
— Mais um festeiro?! – Petter estava completamente bêbado – Venha, entre logo, pegue uma bebida! – disse ele me dando um copo cheio de cerveja me puxando para dentro do apartamento.
— Oh... Não, estou aqui apenas para...
Nesse momento vi seu rosto e fiquei sem palavras, o que contribuiu para ele me levar ate a cozinha onde estavam 90% das pessoas, ja que la era o lugar onde estavam todas as bebidas.
— Sem desculpas, aproveite, qual é o seu nome? – Ele disse abrindo outra cerveja.
— Jhon... Jhonattan – Eu estava vidrado, não conseguia falar nem sequer meu nome, quem dirá conseguiria pedir para abaixar o som.
— Petter, prazer em conhece-lo, Jhon Jhonattan – Ele disse tentando puxar uma cadeira.
Vamos la, tenho que me concentrar e sair daqui logo, amanha o dia será cheio.
— Apenas Jhonattan – Disse ajudando ele a se sentar.
— Oh, tudo bem... John – Ele disse sorrindo para mim, um sorriso de quem desafia alguém a tentar bater nele mesmo. Esse cara esta me provocando com certeza...
— Você não esta bem, venha – eu disse puxando seu braço e o levando para meu apartamento para deixar ele debaixo de uma ducha. Não vou fazer isso em seu apartamento e estragar a festa.
Assim que entramos,deixei ele no sofá e levei uma cadeira para o box do chuveiro. Quando fiz ele se sentar, ele começou a chorar.
— Eu nem te conheço e você me trata tão bem – ele disse aos prantos – ninguém mais se importa comigo, muito obrigado Jhon.
Assim que ele terminou de falar, antes mesmo que eu pudesse ao menos agradecer aquela atitute tão... Estranha, eu nem conheço o cara, o que esta acontecendo aqui? Socorro... Ele me puxou pela gravata e me beijou. Seus lábios eram macios, e o seu piercing fazia o beijo ter uma sensação ainda melhor, foi o melhor beijo da minha vida, assim que eu me sentei em seu colo para beija-lo melhor, ele afastou o seu rosto e disse:
— Eu... Sou hetero... – assim que ele terminou de falar, desmaiou devido ao tanto que ele tinha bebido e eu comecei a chorar.
Como eu consegui me apaixonar em alguns minutos por um cara que nunca vi na vida, após um beijo? E para piorar ele só fez isso pois estava muito bêbado e é hetero, só me beijou como forma de agradecimento por cuidar dele.
Infelizmente, ja estou acostumado, sempre me apaixono por caras com quem nunca poderei estar junto. Ou eles são heteros, ou moram “onde Judas bateu as botas com 5km depois de Deus me livre”, ou ate mesmo algum cliente extremamente gato. Acho que vou tentar dormir e não pensar nisso, vou deixar Petter na minha cama e amanha quando acordar, ele me chama no sofá.
—~|~—
— Bom dia Jhon! – Petter me acorda balançando – É esse o seu nome né? Desculpa por ter dormido aqui, eu estava tão chapado ontem, só me lembro de ser carregado pelas escadas e ser jogado na sua cama, desculpa mesmo – Cara, ele não para de falar – Eu fiz algo? Quebrei alguma coisa? O que rolou mes...
— CALA A BOCA PELO AMOR DE DEUS!! – Eu gritei, acabei de acordar, e ninguém consegue me fazer sorrir de manha – Cara, como você fala! Relaxa, eu só te salvei de ter um coma alcóolico ontem a noite – Eu disse sorrindo (O.K ele foi o único) – Vou arrumar cafe, você quer?
— Jhon, eu ja fiz você dormir no sofá, arrumar o cafe foi mais do que minha obrigação. Por falar nisso, tomei a liberdade de abrir sua despensa e suas gavetas. – Ao terminar de falar, ele puxou uma bandeja com um cafe da manha delicioso.
Eram torradas com manteiga e um café tão forte como ele e tão preto como seus olhos. Assim que mordi a primeira torrada ele me disse:
— Precisamos conversar sobre ontem...
Pronto, acabou. Ele vai me dizer que é hetero, que o que fez foi um erro, e que jamais vai me ver novamente. So consegui responder 3 palavras:
— Deixa pra lá.
— Não, eu insisto, com certeza foi um grande incomodo para você eu ter feito aquela festa e indiretamente te fazer cuidar de mim. Aqui, deve ser o suficiente pela “estadia” – Ele disse tirando duas notas de R$100 e colocando na bandeja.
— Ah... Claro... – eu estava sem palavras – não se preocupe, foi um prazer, fique com o dinheiro.
— Tem certeza Jhon? Eu realmente não fiz nada de mais?
— Claro que não – eu disse isso me levantando em direção à porta – sinta se à vontade para voltar quando quiser, tenho que ir trabalhar agora.
— Oh, claro. Desculpe o incômodo, se quiser, sabe onde eu moro!
Desde então eu e Petter temos saído bastante. Nos tornamos amigos muito próximos, o que apenas piorou minha situação, que me fez apaixonar cada vez mais por ele.
—~|~—
E aqui estamos nos atualmente. Petter ja começou e terminou um namoro com uma vizinha, e cada fim de semana ele esta com uma guria diferente. Ele definitivamente não é gay, e eu me apaixonei por ele. Eu estou muito fudido.
Hoje à noite ele vai dar outra festança, regada de bebida e drogas, talvez seja hoje o dia em que eu conte tudo para ele e assim tudo se acaba, inclusive nossa amizade...
Ja são 23h, vou para seu apartamento daqui alguns minutos, e estou decidido, é hoje. Tomo uma dose de tequila, coloco uma bala embaixo da língua e crio coragem para abrir a porta do apartamento de Petter.
Assim que coloco a mão na maçaneta, um casal lésbico abre a porta e saem quase caindo pelas escadas se beijando. Com certeza elas usaram alguma coisa alem de álcool e bala. Entro no apartamento, e ele esta cinco vezes mais cheio do que da ultima vez. Levo 15min para achar Petter – bêbado pra variar – deitado em cima do frigobar. Quando ele me vê ele exclama meu nome e vem cambaleando em minha direção me dando um abraço.
Seu abraço apenas deixa as coisas mais difíceis, pois é o melhor abraço que ja recebi em toda minha vida. Mas é hoje. Vou falar tudo com Petter.
— Pett? Podemos conversar no seu quarto um pouco?
— Claro Jhon, o que esta acontecendo? – ele levou cerca de dois minutos para conseguir dizer isso – Vamos pro quarto.
Assim que entramos no quarto o idiota apagou novamente, pelo menos dessa vez ele estava na sua cama e então não podia fazer nenhuma besteira. Eu voltei para a festa, não ia desperdiçar a bala. Depois que o efeito passou fui no quarto de Petter apenas para ter certeza que estava tudo bem e subi para meu apartamento.
—~|~—
No dia seguinte acordo com uma mensagem de Petter agradecendo por ter ajudado ele ontem a noite. Ele disse que não beberia novamente, veremos na próxima festa... Respondi apenas que tinha que conversar com ele, mas sóbrio, e como esperado ele respondeu: “O que eu fiz ontem??? :o”, não posso adiar mais essa conversa, então marquei de encontrar com ele assim que eu sair do trabalho hoje, às 22h no cafe perto do prédio.
Assim que saio do trabalho, vejo um carro um pouco velho, porem bem conservado vindo a mais de 70km/h pela rua, com o som no máximo tocando algo que parecia Blink 182. Para minha surpresa o carro parou na minha frente o vidro se abriu — ainda estou tentando descobrir como ele abriu ao invés de simplesmente cair, mas tudo bem — e Petter apareceu.
— Quer uma carona? É velho mas ainda corre.
— Não sei se seria seguro andar a 10km/h nessa lata velha — eu disse sorrindo — imagine CORRER!!
— Tudo bem, então vai andando, te encontro no cafe – ele disse dando partida no carro.
— Não! Me espera – coloquei a mão na maçaneta da porta.
— Vai arriscar sua vida na lata velha então? — ele disse com o mesmo sorriso que quando começou a me chamar de Jhon.
Ainda não acredito que eu entrei no carro. A cada lombada sentia todos os ossos do meu corpo se quebrando, a cada curva meu corpo era projetado de um lado para o outro, e para completar, o cinto de segurança estava quebrado.
Assim que chegamos no cafe, eu comecei a falar:
— Então Petter, eu disse que tinha algumas coisas a falar contigo sobre... — neste momento pensei “não vou falar sobre o beijo, ele pode acabar pensando que eu o forcei” — sobre varias coisas...
— Pode dizer, Jhon. Sou todo ouvidos. – foi a primeira vez que o vi serio. O que eu estou fazendo?? Meu Deus!!! – O que quer falar?
— Petter, o que vou dizer agora pode acabar ate mesmo com nossa amizade, então antes de tudo queria pedir desculpas.
— O que eu fiz dessa vez? – esse cara tem algum transtorno de culpa, não é possível — O assunto é tão serio assim?
— Não Pett, você não fez nada. Vou direto ao ponto. Desde a festa em que nos conhecemos, vem acontecendo coisas estranhas comigo, eu nutri por você um sentimento incontrolável e inevitável. Petter, eu estou apaixonado por você, se você não quiser nem nunca mais olhar na minha cara, eu entendo, mas precisava que você soubesse que eu te amo, e você pode ter certeza que se alguém um dia te amou de verdade, esse alguém fui eu.
Nesse momento eu ja estava segurando o choro, cabisbaixo, esperando Petter responder o quanto isso é repulsivo e como ele pode ficar amigo de alguém assim. Isso ja aconteceu antes...
Então, para minha surpresa, ele colocou a mão em meu rosto para que eu não chorasse e me puxou para me dar um beijo. Eu estava completamente desnorteado, primeiro o cara me diz que é hetero, eu vejo uma mulher diferente todo dia entrando em seu apartamento – e as vezes ate escuto – e agora ele esta me beijando? Eu parei de beija-lo. Vou ter que contar sobre o dia em sua festa.
— Mas... Você não é hetero? Você me disse isso em sua festa, você me beijou em forma de agradecimento e logo em seguida disse que não podia ja que é hetero!
— Eu disse? – ele parecia confuso – Não jhon, eu sou bi, e você não devia ter levado a serio, eu estava completamente bêbado. Eu também queria ter lhe dito isso a algum tempo, mas pensei que não fosse uma boa ideia.
Assim que ele terminou de falar, voltamos a nos beijar.
Atualmente posso dizer que não sou tão infeliz quanto antes. Provavelmente por que o meu namorado mora um andar abaixo de mim.
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