Meu querido sonâmbulo 2
33 Minha querida renúncia
Notas iniciais
1h antes do encontro no parque de diversões.
Kim Taehyung tinha um sexto sentido extremamente apurado — algo que ele tinha trabalhado duro em desenvolver e apurar ao longo dos anos, já que infelizmente não havia nascido com aquilo que considerava uma espécie de dom — e que raramente falhava em lhe dizer quando algo estava prestes a dar errado ou não caminhava na direção que ele esperava. E o mesmo, inclusive, tinha uma maneira um tanto peculiar de se manifestar: enquanto sua consciência estivesse lhe alertando de que algo não estava dando certo, o Kim mais novo tinha uma espécie de tique nervoso que consistia em inclinar a cabeça algumas vezes. Fora Shinhye a primeira pessoa a notar aquela particularidade do irmão e, com isso, Taehyung passou a reparar que realmente o fazia. Inquieto, o seu queixo sempre se movia para a direita e num ângulo um pouco mais para cima, como se ele tivesse escutado algo e não entendido de primeira. Ainda quando crianças, a Kim mais velha costumava implicar com ele o comparando com um filhotinho de cachorro confuso, mas aquilo certamente caíra em desuso conforme os anos passaram e Taehyung se tornou um homem feito e um tanto inexpressivo.
Naquela noite, porém, ele já havia movido a cabeça daquele mesmo jeito mais de meia dúzia de vezes — o que indicava que algo já estava dando ou daria seriamente errado.
E ele sabia do que se tratava.
— Nós não deveríamos colocar uma escolta para acompanhar as outras possíveis vítimas? — Taehyung questionou o Delegado Jun, quem costumava estar no comando daquela investigação envolvendo Namjoon antes de Lee Jihoon chegar e tomar todo o caso de suas mãos. — Ao menos policiais disfarçados ou algo do tipo. Afinal de contas, nós não temos certeza de que eles estão realmente seguros.
O Delegado Jun Youngchul era um homem de poucos amigos, o que estava fielmente estampado na sua expressão facial irônica e barba por fazer. Já ocupando aquele cargo há mais de dez anos, era impossível não se deixar afetar pelas atrocidades que via no seu dia a dia, o que o fazia beber além da conta durante as suas folgas e adquirir o estranho hábito de sempre que possível cruzar os braços sobre o estômago. Na verdade, no fundo, Taehyung temia se tornar uma versão mais alta e ainda mais fechada do homem no futuro, apesar de nunca ter expressado aquela preocupação em voz alta — não que o Jun fosse uma má pessoa, mas também não era um ótimo exemplo a ser seguido.
— Bem, o Juiz Song está no tribunal nesse momento, onde passa o dia inteiro rodeado por guardas mais bem preparados do que eu para proteger aquele bando de engravatados. — o mais velho respondeu sem muito ânimo. — E você disse que a sua irmã está em casa, lá no apartamento dela, certo? O Min não vai ser louco o suficiente para invadir um prédio cheio de moradores, então ela vai ficar bem.
Taehyung tinha as suas dúvidas se Yoongi realmente não era mesmo louco o suficiente para fazer aquilo, mas permaneceu em silêncio diante da sutil negativa do superior. Estavam todos reunidos na delegacia, inclusive o próprio Lee Jihoon, e o plano até então era seguir com o expediente até próximo do horário que Namjoon havia alertado que Yoongi planejava atacar o promotor. Obviamente, o movimento de oficiais da polícia no local era sempre constante e intenso, mas estava ainda maior e mais tenso naquela noite em específico, já que todos foram instruídos pelo próprio Jihoon a permanecerem em estado máximo de alerta justamente para protegê-lo. Como se todos estivessem ali apenas para servi-lo.
Ainda faltava cerca de meia hora e, mais uma vez, Taehyung inclinou a cabeça de forma incômoda para o lado. De repente, tudo parecia estar dando certo demais para alguém como Min Yoongi que, se sua irmã estivesse mesmo certa, era um psicopata tão imprevisível e igualmente inteligente. E quanto a Kim Namjoon? Mesmo que o Kim mais novo tivesse lhe dito para lhe avisar apenas sobre as informações mais essenciais pelo celular que o policial havia dado a ele mais cedo, era estranho que Namjoon não tivesse enviado mais nenhuma outra mensagem ao longo do dia. E havia o risco de Yoongi acabar descobrindo sobre o celular escondido caso Taehyung insistisse enviando mensagens de texto ele mesmo para saber sobre os próximos passos da dupla, por isso, não havia muito o que o oficial pudesse fazer além de esperar e seguir com o planejado.
E era justamente isso que estava o incomodando.
Ergueu a cabeça e fitou a figura um tanto elétrica de Jihoon, que caminhava de um lado para o outro da delegacia enquanto dava ordens aos policiais designados para aquela operação.
— Daqui a pouco eu vou sair e pegarei direto o caminho de casa. Vocês três irão atrás de mim em um carro caracterizado, não podem demorar muito para não me perder de vista, mas também não podem sair muito junto comigo e...
— Além de inexperiente, ele é claramente um incompetente. — o Delegado Jun sussurrou ao lado de Taehyung e bufou. Como de costume, seus braços estavam cruzados. — Eu custei a acreditar que estavam tomando o meu caso para dar para alguém como diziam os rumores, mas parecem que eles estavam certos.
— Rumores? — o Kim questionou e franziu o cenho, confuso. — Que rumores?
— Você está me dizendo que estudou junto com esse enfeite de tabacaria na academia de polícia e nunca ouviu os rumores sobre ele? — o mais velho retrucou e ergueu uma sobrancelha, surpreso. Taehyung não tinha entendido a sua comparação sobre enfeites e tabacarias, mas preferiu não interromper o outro. — Bem, dizem as más línguas que ele só conseguiu se formar porque o pai dele, um juiz influente de Daegu, comprou a aprovação do filho. Eu ouvi dizer que ele era muito bom no que desrespeitava à teoria, mas, na prática, ele era um desastre. Esse tal de Lee Jihoon nunca levou jeito para a ação do nosso dia a dia e, aparentemente, os professores sabiam disso, mas o diretor os obrigou a aprová-lo. Deu no que deu... — o delegado comentou e balançou a cabeça negativamente. — Agora ele está aí, desesperado e tentando não morrer hoje à noite.
Diante daquelas informações, Taehyung chegou a abrir e fechar a boca um par de vezes sem saber o que dizer. Como teria sido possível que o pai de Jihoon pudesse comprar alguém como um diretor de uma das academias de polícia mais renomadas e bem conceituadas do país? E, se aquilo era mesmo verdade, como tantas pessoas sabiam daquilo, mas ninguém até então tinha feito absolutamente nada a respeito?
— Que cara de negação é essa? — o Delegado Jun questionou ao se deparar com a expressão espantada no rosto do mais novo. — Oras, não me diga que você não acredita que essas coisas sejam possíveis só porque nós estamos falando da polícia?
— Mas... — o Kim balbuciou. — Essas são acusações muito graves. Se isso for verdade, o escândalo que seria...
— Sinceramente, eu não sei como as pessoas têm a coragem de dizer que você se parece comigo. — o mais velho o interrompeu com uma expressão desgostosa em seu semblante. — Não faz muito tempo que você chegou aqui, Kim Taehyung. Acredite em mim quando eu digo que você ainda tem muito o que aprender sobre como realmente funciona a polícia aqui em Seul.
Era verdade que, até então, Taehyung tinha escutado rumores e cochichos parecidos com aquele uma vez ou outra durante o seu tempo servindo o país como policial, mas nunca da boca de alguém como o Delegado Jun, que ocupava uma posição que impunha respeito a qualquer um. Além disso, Jun Youngchul não diria aquelas coisas por amargura ou o que quer que fosse, porque, afinal, ele não precisava estar dizendo nada daquilo ou espalhando fofocas maldosas, o que fazia com que Taehyung finalmente acreditasse no que estava ouvindo. Mas, se aquilo era verdade, como era possível que tanto ele quanto Lee Jihoon estivessem naquela delegacia — estando Jihoon ocupando um cargo hierarquicamente bem mais alto do que o Kim — mas tivessem usado de meios tão discrepantes para chegar até ali? Enquanto o Kim mais novo passava noites em claro e dias sem comer para se dedicar apenas aos seus estudos, tudo isso enquanto via vários de seus colegas de turma ficando para trás e pelo meio do caminho, Lee Jihoon tinha literalmente comprado a sua passagem até ali.
Ele tinha comprado a própria polícia.
— Ao invés de ficar se remoendo por coisas que estão completamente fora do seu alcance, por que você não checa a sua irmã? — o Jun voltou a se pronunciar, distraindo Taehyung dos seus próprios pensamentos. — Você disse que tinha como saber a localização dela, não disse? Bem, faça logo isso para ficar mais tranquilo e voltar a se concentrar no seu trabalho.
O Delegado Jun tinha levantado uma boa opção. Na verdade, Shinhye não fazia ideia daquilo, mas o seu irmão mais novo tinha instalado um rastreador no seu telefone na primeira vez que ela acabara indo parar no hospital por causa de Namjoon — ou quem quer que fosse o culpado para Taehyung. Enquanto esperava que a irmã tomasse uma bolsa de soro e descansasse depois de todo o ocorrido no comício do Juiz Song, Taehyung foi abordado na sala de espera do hospital por um jovem rapaz de pele levemente bronzeada e olhar desconfiado. Ele se apresentara como Lee Haechan, o assistente de Shinhye, e entregou a ele o celular que a Kim mais velha tinha deixado consigo há algumas horas atrás. Não explicou muito, apenas pediu que alguém lhe atualizasse sobre o estado de saúde de sua chefe, fosse ela mesma ou o irmão mais novo, e foi embora às pressas e um tanto assustado. Taehyung não entendeu direito a situação, porém, viu ali a única oportunidade que tinha de estar sempre ciente do paradeiro da irmã e, assim, evitar que noites como aquela do comício voltassem a se repetir: seguindo-a.
Ele sabia que o que estava fazendo não era exatamente o certo e que, se Shinhye descobrisse sobre o rastreador, certamente o Kim estaria diante dos seus últimos momentos de vida, mas não acreditava existir outro jeito de poder estar sempre de olho na mais velha e no que ela andava fazendo. Se ele apenas perguntasse, ela não responderia ou poderia até mentir com o único intuito estupidamente heroico de não o preocupar, mas isso se ele chegasse a perguntar alguma coisa — pois ainda havia aquela barreira emocional entre os irmãos. Por isso, Taehyung fez o que fez e, vez ou outra, sacava o celular do bolso da calça do uniforme apenas para ter certeza de que Shinhye estava realmente em casa, exatamente como estava fazendo naquele momento.
Sendo que, daquela vez, o que ele encontrou exposto na tela do seu celular o pegou completamente de surpresa.
Shinhye além de não estar mais em casa, se distanciava cada vez mais do seu apartamento, indo em direção a uma área perigosamente esquecida da cidade. E, pela velocidade com que se movia, Taehyung deduzia que ela estava dirigindo o próprio carro no meio da noite.
— O que diabos ela está fazendo? — o Kim murmurou para si mesmo sem realmente acreditar no que estava vendo. Quando Shinhye prometeu que ficaria em casa e deixaria que ele cuidasse de tudo, o mais novo tinha inocentemente acreditado naquilo.
— O que foi? — o delegado resmungou ao seu lado sem realmente fitá-lo.
— Sunbae, eu preciso da sua ajuda. — Taehyung disse em um tom urgente e inconscientemente segurou o braço do mais velho. De repente, era como se ele tivesse mudado da água para o vinho com o virar de uma chave. — A minha irmã vai fazer alguma besteira.
— Você enlouqueceu? — o Jun retrucou e soltou o braço do aperto do mais novo. — Quer que eu deixe o meu posto só porque você está vendo por um aplicativo que a sua irmã saiu de casa? E se ela só estiver indo ao supermercado?
— E se ela estiver indo direto para uma armadilha? — o oficial imediatamente rebateu, realmente esperando convencer o outro.
E o questionamento chegou, de fato, a fazer o delegado ponderar sobre a situação, mas havia algo muito importante que os mais de dez anos naquela delegacia haviam lhe ensinado.
— Esquece. De qualquer jeito, nós só podemos sair daqui se o tal promotor autorizar. — o delegado reforçou e deu de ombros.
Quando ergueu a cabeça, Taehyung reparou que Jihoon estava se preparando para deixar a delegacia e, assim, todo o plano que eles tinham traçado para capturar Min Yoongi começaria a ser colocado em prática — exceto pela parte de que tudo aquilo seria em vão. Como a sua intuição já vinha lhe dizendo e ele confiava na mesma o suficiente para saber que estava certa, havia algo de errado naquilo tudo.
A vítima.
— Espera! — Taehyung exclamou alto o suficiente para pegar de surpresa todos os presentes na delegacia. Apressou-se até alcançar o Lee, que tinha parado no meio do caminho. — Lee Jihoon, isso é uma armadilha.
— O que? — o promotor questionou, confuso. — O que foi dessa vez?
— Eu tenho quase certeza de que nós estamos caindo em uma armadilha. — o policial afirmou, sério. — O verdadeiro alvo de Min Yoongi não é você, mas sim a minha irmã. Isso tudo é só uma distração.
Durante um instante, Jihoon apenas encarou o mais novo de forma inexpressiva. Internamente, ele estava se perguntando o que poderia ter levado Taehyung a pensar naquilo e, ainda por cima, de forma tão repentina.
— Quase certeza? — o promotor questionou e ergueu uma sobrancelha. — Você tem alguma prova concreta do que está dizendo?
Taehyung respirou fundo. Quis gritar com o Lee e dizer que apenas tinha certeza de que algo estava prestes a dar errado, especialmente para Shinhye, mas teria que manter a calma se quisesse convencer o outro.
— Não tenho nada concreto, mas...
— Então você está me dizendo para comprometer uma operação policial inteira e, consequentemente, a minha própria segurança por causa da sua teoria? — o Lee o interrompeu, o que provocou um silêncio tenso no ambiente. Dito isso, ele deu um par de passos para frente, na direção de Taehyung, e sussurrou. — Ou você só está fazendo essa cena toda porque é a sua irmã que está envolvida? Se fosse qualquer outra pessoa, você estaria nervoso assim?
Naquele momento, o Kim mais novo já começava a sentir o sangue subindo para a cabeça. Respirou fundo e encarou o Lee.
— Eu poderia não estar nervoso assim, mas ainda estaria lutando pelo o que acho certo. — sussurrou de volta, firme.
E então, Taehyung olhou ao seu redor apenas para se deparar com cabeças abaixadas e olhares que automaticamente fugiam quando encontravam o seu. Ninguém ali estava disposto a desafiar Lee Jihoon, o que significava que ninguém o ajudaria. Policiais conhecidos, pessoas em quem ele confiava e com quem Taehyung dividia o seu dia a dia e se encontrava mais do que com a própria irmã... nenhum deles ousou se manifestar. Nem mesmo os mais velhos, que tinham sim autoridade para baterem de frente com as ordens do promotor, levaram em consideração os últimos anos que tinham passado como mentores do Kim mais novo. Ele entendia que alguns tivessem medo de Jihoon ou, ainda, não acreditassem nas palavras de Taehyung, mas jamais esperaria que todos agissem daquele modo.
A polícia, pela qual Kim Taehyung tinha dedicado toda a sua vida, estava lhe virando as costas naquele exato momento de necessidade.
O peito de Taehyung subia e descia de forma irregular. Ele estava irritado, mas não tinha tempo para lidar com aquilo naquele momento — sentia que Shinhye precisava dele e, mesmo sem fazer a menor ideia do que estava prestes a encarar naquela noite, ele correia sozinho até ela. E foi o que fez. Passou feito um furacão por Jihoon, chegando a esbarrar no mesmo no meio do caminho, e seguiu em direção à porta da delegacia.
— Se você sair agora por essa porta sem a minha autorização, terá que arcar com as consequências depois. — o promotor o alertou em alto e bom som, garantindo, assim, que ninguém ousasse seguir o policial.
Taehyung virou-se para o Lee.
— Você deveria estar torcendo para a minha irmã ficar bem e isso realmente ser tudo fruto da minha cabeça, Lee Jihoon. — o Kim rebateu. — Caso contrário, tem terá que arcar com as consequências será você.
E, assim, Taehyung saiu porta afora da delegacia quase carregando a mesma consigo. No meio do caminho, apenas se certificou de que estava mesmo trazendo a chave do carro e, mais importante de tudo, a sua arma consigo.
Pois estava pressentindo que precisaria usá-la naquela noite.
***
Atualmente.
Alguns longos minutos já haviam se passado desde que Taehyung se dispusera a guardar a porta do quarto da irmã mais velha e, desde então, ele tinha permanecido completamente imóvel diante da entrada do mesmo. O quarto onde Shinhye estava internada não ficava muito distante do elevador e, por isso, cada vez que as portas da caixa de aço se abriam naquele andar, o Kim mais novo conseguia ouvir a sinalização e se perguntava se seria daquela vez que veria o corredor sendo tomado por policiais, os quais ele já esperava que viriam diretamente na sua direção.
Até que, finalmente, o momento chegou.
As portas do elevador se abriram no décimo primeiro andar do hospital e, dentro do mesmo, estavam apenas homens fardados e muito bem armados, com a exceção de um único homem. O que vinha na frente de todos eles, trajando nada além de um terno de uma grife italiana, era o promotor que comandava aquela investigação e o principal interessado na cabeça de Kim Taehyung naquele momento — Lee Jihoon. Todos eles ainda estavam prestes a virar o corredor que dava acesso ao quarto de Shinhye, porém, Taehyung já conseguia ouvir ecoando pelo ambiente o bater apressado das diversas botas do uniforme da polícia de Seul contra o chão branco de porcelanato. Respirou fundo e levou ambas as mãos para a parte de trás do seu tronco, apenas esperando.
— Até que eles demoraram mais do que eu esperava... — sussurrou para si mesmo e, logo, a figura do grupo de policias já preenchia a sua visão periférica.
O primeiro a alcançá-lo, obviamente, foi Jihoon, que trazia estampado em seu rosto um misto de raiva e incredulidade.
— Você! — ele exclamou pelo corredor, assustando um par de enfermeiras que passavam por todos aqueles homens naquele momento. Ergueu o indicador na direção do Kim mais novo. — Você enlouqueceu, Kim Taehyung?!
— Você não sabe onde está? — Taehyung rebateu com a sua típica voz grave e séria. Porém, em nenhum momento ele erguera o seu tom. — Isso é um hospital, Lee Jihoon. Você não deveria se exaltar assim e perturbar os pacientes.
— Então você realmente enlouqueceu. — o Lee constatou e, logo em seguida, soltou uma risada amarga. Parou exatamente de frente para Taehyung. — O Namjoon está aí dentro, não está? Se você me devolvê-lo agora, eu prometo considerar não o denunciar para a corregedoria por infringir uma meia dúzia de leis e códigos policias diferentes.
— Corregedoria? Você está me falando sobre a corregedoria da polícia? — o Kim retrucou e, então, fitou diretamente os olhos do promotor ao ponto de conseguir sustentar tranquilamente toda a ira do outro. — Bem, até que seria bom ir até lá, pois eu estava realmente querendo falar com eles...
O tom ameaçador presente na voz de Taehyung deixava algo tão claro quanto a luz de um dia de verão: se ele sofresse um processo na corregedoria, com certeza não iria sozinho. E o Lee tinha entendido aquela mensagem, porém, ainda assim optou por manter a pose ereta e superior diante do mais novo.
— Saia da minha frente. — rosnou.
Porém, o contra-ataque não pareceu surtir muito efeito em Taehyung, que sequer se moveu diante da ordem do promotor. Na verdade, instantes depois ele chegou a se mexer, mas não para o que Jihoon esperava: com um movimento simples e sem nenhum alarde, o Kim mais novo sacou do cós da calça a sua arma de trabalho. Quando perceberam a ação, os outros policias presentes logo entraram em estado de alerta e fizeram menção de também sacarem suas armas, mas foram impedidos por um gesto brusco do Promotor Lee, que ergueu o indicador na direção do grupo de homens e silenciosamente ordenou que não fizessem nada, pelo menos não por enquanto. A tensão entre os presentes dobrou de intensidade, contudo, o único que não parecia afetado por aquilo era o próprio Kim Taehyung.
— Foi você quem acabou de me dizer que nós estamos em um hospital. — o promotor se pronunciou e, de modo um tanto ansioso, revezava o olhar entre o rosto de Taehyung e a arma que o mais novo mantinha abaixada ao lado do seu próprio corpo. — Você quer mesmo fazer isso aqui?
Vendo aquilo, o modo como Jihoon parecia apreensivo imaginando algo completamente diferente da verdadeira intenção de Taehyung, o policial esboçou brevemente um sorriso de canto.
— Por mim, quando mais rápido, melhor. — ele afirmou.
Então, em um gesto sem pressa, Taehyung ergueu a arma na direção de Lee Jihoon, que naquela altura do campeonato já estava prestes a abaixar o indicador erguido, permitindo que os policiais atrás de si fizessem o que precisassem fazer com Taehyung em troca da sua própria segurança. Contudo, o que o Kim fez a seguir pegou todos de surpresa: quando a arma alcançou a altura do peito do promotor, Taehyung a girou em sua mão e parou com o cano apontado para si e o cabo para Jihoon. Com a outra mão livre, a esquerda, ele desprendeu do seu cinto da calça o seu distintivo e fez o mesmo, o erguendo na direção do promotor.
— O que significa isso? — Jihoon balbuciou, ainda hesitante.
— Eu, Oficial Kim Taehyung do 32° Batalhão da Polícia Militar de Seul, estou oficialmente renunciando à minha posição. — o Kim respondeu, em nenhum momento permitindo que sua voz falhasse. — Como meu atual superior, é você quem deve reter tanto o meu distintivo, quanto a minha arma.
Aquilo foi um choque imediato para o Lee. Desde os tempos da academia, um dos maiores prazeres de Jihoon era infernizar Taehyung o suficiente até que o mais novo desistisse da polícia, mas aquilo nunca tinha sequer chegado perto de acontecer. Cada vez que ele atacava o Kim, o outro parecia se fortalecer e obstinar ainda mais, aos poucos deixando de ser o pobre garoto assustado que começara aquele treinamento, até se tornar um policial formado com honras. Por conta disso, forçar Taehyung aos seus limites tinha se tornado um hobby para Jihoon, que nunca escondera a antipatia imediata que sentira pelo mais novo. Contudo, naquele exato momento, aquilo estava acontecendo bem diante dos seus olhos, depois de tantos anos de tentativas frustradas e ódio acumulado.
— Você está... — o Lee murmurou tentando organizar os pensamentos. Deixou de fitar os objetos ainda suspensos no ar pelas mãos de Taehyung e olhou para o rosto do policial. — Desistindo?
O Kim respirou fundo, estranhamento calmo. Não esperava uma reação tão espantada da parte de Jihoon — fogos de artifício, talvez, mas não aquela expressão um tanto desamparada — porém, também pouco se importou com aquilo no momento.
— Não, eu estou apenas fechando uma porta que nunca deveria ter aberto. — respondeu, firme.
Ao ouvir aquilo, Lee Jihoon permaneceu mais alguns instantes em silêncio. Contudo, ele logo tratou de se recompor, tomou das mãos de Taehyung a sua arma e distintivo e, fitando diretamente os olhos do mesmo, alertou.
— Você não vai conseguir escapar de um processo interno na corregedoria, ainda mais depois de abandonar o seu cargo assim.
Enquanto falava, o promotor guardou o distintivo do Kim no bolso do paletó e a arma presa em sua cintura — afinal de contas, ele tinha autorização para andar armado, apenas optava por não o fazer no seu dia a dia.
— A polícia faz tantas coisas, aceita que todo tipo de gente integre a sua corporação através dos mais diversos meios, mas não pode proteger a única pessoa que realmente importa para mim quando eu mais precisei. Porque, no único momento que eu realmente precisei de ajuda, que eu estava correndo contra o tempo para salvar a vida da minha irmã, a polícia me deu as costas. — Taehyung rangeu as palavras por entre os dentes, não conseguindo manter a expressão neutra diante de toda a raiva que armazenava dentro de si. — Você, Lee Jihoon, não fazia ideia do quão ansioso eu estou para poder dizer isso diretamente para o primeiro superior que aparecer para me condenar.
Mesmo já o conhecendo há alguns anos, no fundo, Jihoon ainda se espantava com a coragem tolamente sem limites de Taehyung. Sempre se arriscando sozinho, fazendo além do que lhe era pedido... Naquela noite mesmo, quando Shinhye fora atacada por Yoongi, o promotor não tinha colocado fé nos instintos de Taehyung; e, novamente, tinha sido surpreendido pelo mesmo. E, agora, mais uma vez.
Mas não mais.
O que Jihoon não sabia era que aquele Kim Taehyung que ele havia conhecido na academia de polícia, que dava até o seu sangue se fosse preciso pelos seus estudos e para não ser deixado para trás pelo restante da turma, não existia de fato. Aquele jovem desesperado por aprovação e que dizia a todos sonhar em ser policial, estava ali apenas reproduzindo um discurso que fora enraizado na sua cabeça anos atrás pelo seu próprio pai. Porque ser policial não era e nunca tinha sido o sonho de Taehyung, mas sim do seu pai. E, no fim das contas, ele estava finalmente percebendo que nada de bom tinha vindo com aquele falso sonho. Por causa disso, tinha se distanciado da sua irmã mais velha e a negligenciado, tinha pedido ajuda aos seus próprios colegas de trabalho e os viu, um a um, fingir que o Kim sequer estava presente naquela delegacia naquela noite... Tinha se tornado uma pessoa fria, fechada e emocionalmente em falta consigo mesmo, tudo por uma instituição que se mostrara corrupta, injusta e egoísta. Não generalizava, claro, tinha conhecido sim ótimos policiais e que mereciam estar onde estavam, mas não se via mais vivendo como e pelo o que vivia e lutava diariamente.
Porque os seus ideais e princípios eram todos uma tremenda farsa.
Estava na hora de Taehyung conhecer a si próprio e ao que ele realmente queria para si. Redefiniria as suas prioridades e encontraria os próprios objetivos e, certamente, não seria alguém como Lee Jihoon que iria impedi-lo de dar aquele passo.
— Tragam Kim Namjoon. — o Lee ordenou enquanto fitava os policias atrás de si por cima do ombro.
Treinados para acatarem ordens, os homens empurraram Taehyung para o lado e praticamente invadiram o quarto de Shinhye atrás de Namjoon. Ainda na porta, do lado de fora do cômodo, o Kim mais novo não resistiu ou sequer se moveu enquanto os homens, um a um, empunhavam suas armas ao se depararem com Namjoon, ainda que o mesmo estivesse preso a uma cadeira de rodas e completamente vulnerável naquele momento. Jihoon ainda tinha os olhos presos em Taehyung quando um dos oficiais veio de dentro do quarto empurrando a cadeira do Kim mais velho de uma forma um tanto brusca, o que obrigou o mais novo a se conter onde estava e não começar uma confusão ainda maior bem diante de sua irmã em coma — afinal, o estado de saúde de Shinhye era a única coisa que ainda lhe importava.
Porém, quando o oficial que conduzia Namjoon aproximou a cadeira de Taehyung, já que o agora ex-policial estava no meio do caminho, o Kim agarrou o pulso do que estava de pé com certa urgência, o que o assustou.
— Obrigado por ter me deixado vê-la. — Namjoon disse apressado, já que se aproveitava do fato de ter pego o oficial que o empurrava de surpresa e, assim, feito o mesmo parar de fazê-lo, mas igualmente sincero. — Ela segurou a minha mão, Taehyung. Ela está lutando.
Taehyung arregalou os olhos ao ouvir aquilo, surpreso. De repente, não existia mais nada ao seu redor: nem Jihoon, nem renúncia, nem policiais e nem Namjoon sendo levado preso, apenas o primeiro sinal de melhora, ainda que mínimo, que sua irmã tinha dado naqueles últimos dias. Sem pensar duas vezes, ele deixou tudo para trás e saiu se livrando dos policias no meio do seu caminho como se fossem feitos de papel.
Porque Kim Taehyung tinha, finalmente, escolhido se dedicar à única pessoa que jamais o decepcionaria ou abandonaria.
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