Meu querido sonâmbulo 2

24 Minha querida humanidade


Notas iniciais
Olha que eu nem demorei tanto e ainda trouxe um capítulo bem grandinho pra vocês! Eu confesso que eu estava inspirada quando finalmente tive tempo de sentar para escrever (o que foi meio difícil nessa semana tão corrida), o que vocês já sabem o que significa né: dedo no céu e gritaria. Ou seria "choradeira"? De um jeito ou de outro, boa leitura!

Exatas três horas e meia já haviam se passado desde o, até então para a mídia e o restante da população, misterioso ataque ao mais popular dos candidatos a prefeito de Seul, Song Donghae. Muito se especulava sobre um possível atentado oriundo da oposição ao juiz, um partido que vinha logo atrás do mesmo nas pesquisas populares de intenção de voto, mas nada havia sido esclarecido ainda. Repórteres curiosos e até mesmo um tanto desesperados se aglomeravam na porta do hospital particular mais requintado de toda a Seul, pois as últimas notícias eram as de que o Song estivesse lá dentro acompanhado da sua comitiva. Em algum momento de todo aquele tempo de completo silêncio e falta de respostas, a principal assessora do homem pôs a cara a tapa para uma coletiva de imprensa ali mesmo, na frente do hospital, para esclarecer que o candidato não estava ferido, mas sim apenas passando um por check-up preventivo e, devido ao estresse pelo qual havia acabado de passar, aproveitando para repousar um pouco. O que não era a verdade, mas ninguém dentro daquele hospital jamais ousaria desmentir aquela versão.

Naquele meio tempo, Song Donghae ganhava ainda mais popularidade e simpatia do público eleitoral. Senhoras de idade se apiedavam da sua condição, homens mais velhos já haviam o apelidado de “O candidato guerreiro” e os mais novos o chamavam de herói. Assim, sem que ninguém soubesse ao certo o que de fato tinha acontecido, o cargo de prefeito estava cada vez mais próximo do alcance das mãos do juiz — e ele tinha perfeita ciência disso. O homem podia ter contado ao povo sobre Shinhye e sobre como uma corajosa jovem pulou naquele palanque e salvou a sua vida, mas no que exatamente aquilo melhoraria a sua imagem? Ser salvo por uma desconhecida, mesmo tendo à sua disposição toda uma leva de seguranças?

Precisar ser salvo por alguém?

Por isso, ele optou por contar a sua versão da história para quem quisesse ouvir, se aproveitando do fato de que a própria Shinhye não parecia se importar com aquilo e, de bônus, ninguém a tinha visto com uma agulha espetada na mão no meio de toda aquela confusão, uma seringa que tinha um outro destinatário em mente.

Como herói, Song Donghae já estava praticamente eleito. Mas ainda havia um pequeno empecilho no meio do seu caminho.

— Você enlouqueceu? — Lee Jihoon indagou estupefato quando terminou de ouvir todo o plano de Shinhye. — Deve ter enlouquecido para achar mesmo que nós vamos concordar com tudo isso.

Ainda estavam todos reunidos no quarto de hospital onde Shinhye estava internada, todos mais do que atentos à solução que aquela mulher prometia ter para dar um fim de vez a todo aquele caos. De todos os presentes, inclusive daqueles que pareciam estar fazendo apenas uma espécie de figuração próximo à porta do quarto, Taehyung era certamente o mais chocado com tudo o que tinha acabado de ouvir saindo da boca da própria irmã, apesar de não demonstrar aquilo com excelência.

Shinhye fitou a própria mão, agora enfaixada para evitar que o furo feito pela seringa de Yoongi infeccionasse, já que uma enfermeira dissera que se tratava de uma perfuração um tanto profunda causada por uma agulha que ninguém sabia ao certo como tinha sido manuseada. Para quem tinha quase morrido por conta daquele minúsculo furo, ela certamente não estaria ali brincando com aquela situação.

— E que escolha exatamente vocês têm? — ela questionou e, calmamente, alternou o olhar entre Jihoon e o Juiz Song.

Ao contrário do promotor, o juiz ainda não havia se pronunciado.

— Nós podemos culpar o Namjoon por tudo. — o Lee respondeu, dando de ombros. Em sua cabeça, aquele era o melhor jeito de ameaçar Shinhye até que ela fizesse qualquer coisa que ele sugerisse ao invés daquele seu plano. — Pelos assassinatos, pelo ataque ao Juiz Song... Podem não existir evidências contra ele, mas também não existe nenhuma a seu favor, certo? E acontece queeu consigo fazer um ótimo trabalho com isso no tribunal.

Uma única risada sarcástica foi ouvida no recinto, sendo a mesma pertencendo à própria Shinhye.

— E o que você acha disso, Juiz Song? — a terapeuta indagou fitando diretamente o candidato a prefeito. — Você acha mesmo uma boa ideia ter a sua imagem associada ao Namjoon desse jeito? Porque, se esse for o caso, você deve ter preparado uma resposta no mínimo esplêndida para dar quando as pessoas começarem a se perguntar o porquê do Namjoon ter feito tudo isso de que o acusam.

Porque ninguém ficaria exatamente satisfeito em ouvir a reposta verdadeira: a de que Song Donghae era do tipo de juiz que se vendia ao mais poderoso. Porque o caso de Kim Namjoon acabaria vindo à tona e, quando isso acontecesse e as pessoas descobrissem a injustiça cruel que ele tinha sofrido, um adolescente em coma com uma vida inteira pela frente interrompida, todos automaticamente descobririam que Song Donghae havia errado na sua sentença naquele dia — um erro intencional. Ter filhos de personalidades poderosas de Daegu inocentados por conveniência na sua carreira com certeza afastaria os eleitores, que jamais dariam nas mãos de alguém como o Song o cargo de prefeito de Seul.

Depois de pensar por um momento, Jihoon conseguiu encontrar um possível jeito de corrigir o seu próprio argumento.

— Nós o culparemos apenas pelos assassinatos, então. — o homem bradou, confiante. — A culpa pelo ataque ao juiz pode ser da oposição, o que o deixaria ainda mais popular. Assim, Namjoon ficaria preso pelo resto da sua vida e Song Donghae seria eleito o próximo prefeito de Seul, uma coisa nunca tendo a ver com a outra.

— Você planeja interrogar o Namjoon quando ele for indiciado, certo? Óbvio que sim, porque Lee Jihoon jamais perderia a chance de humilhar alguém publicamente para alavancar a sua carreira. — a terapeuta disse, respondendo à sua própria pergunta. — Mas o que você acha que ele vai dizer quando for questionado sobre o motivo de ter assassinado duas pessoas a sangue frio? Porque você não acha mesmo que ele vai alegar inocência tão estupidamente, acha?

E Namjoon com certeza o faria, mas Jihoon não o conhecia bem o suficiente para ter certeza daquilo e Shinhye sabia que podia se aproveitar daquilo. Assim, diante daquela possibilidade, o argumento do Lee se mostrava falho mais uma vez e ainda um tanto ameaçador à sua preciosa carreira. Se Kim Namjoon contasse em julgamento sobre o passado, sobre como tinha sofrido uma nítida tentativa de homicídio e, ainda assim, os seus agressores tinham sido inocentados por um juiz que claramente havia vendido a sua sentença, tudo aquilo ainda seria um tiro no pé do próprio candidato a prefeito. Namjoon poderia acabar preso, claro, mas ele não seria o único.

— Você me conhece bem, Lee Jihoon. Bem o suficiente para saber que eu não vou descansar enquanto não conseguir provar a verdade, que no caso é a inocência de Kim Namjoon. — Shinhye afirmou, séria. — E, quando isso acontecer, quem será o culpado por ter colocado um inocente, alguém que já sofreu tanto no passado, atrás das grades injustamente? A carreira de quem estará completamente destruída?

Com aquelas palavras, Shinhye sabia que tinha atingido com sucesso o maior e, talvez único, ponto fraco de Jihoon: o seu próprio ego. O homem já não podia mais contar nos dedos por cima de quantas pessoas ele havia passado para chegar onde estava, isso começando ainda na academia de polícia. Quantos alunos ele havia feito desistir dos seus sonhos para que ele pudesse ser o primeiro, o mais reconhecido da sua turma. Quantos colegas de profissão havia manipulado, enganado e enrolado na sua teia de mentiras apenas para seu benefício próprio?

Porém, ele nunca havia conseguido encostar um único dedo sequer em Shinhye, fosse de forma física ou mentalmente. Porque, no fundo, ele não era capaz de dobrá-la e vencê-la como fazia com os outros.

— Sr. Song, eu tenho certeza de que consigo pensar em algo melhor do que aceitar as condições dessa mulher. — o promotor se voltou para o juiz. Em sua voz, ele estava quase implorando para ser ouvido. — Eu posso fazer isso, só preciso de mais...

— Tempo? — o juiz interrompeu e, pela primeira vez naquela conversa, realmente se pronunciou. — Lee Jihoon, não é de tempo que você precisa, mas sim de capacidade. E se você realmente fosse capaz de pensar em algo, já o teria feito há muito tempo.

Era justamente aquilo que Kim Shinhye precisava ouvir, sem tirar e nem por uma única vírgula. Aquela constatação rude e irritada do Juiz Song só poderia significar uma coisa: ele estava se sentindo encurralado. Ninguém naquele quarto tinha para aonde correr, o que fazia com que todos fossem obrigados a remar juntos naquele barco, por quaisquer motivos pessoais e egoístas que fossem. Shinhye precisaria ser cuidadosa para nadar com tubarões como aqueles, porém, os tinha amedrontados o suficiente para que não tentassem nada contra ela.

E muito menos contra Namjoon.

— E então, Juiz Song? — a terapeuta questionou. — Nós temos um acordo?

A mulher estendeu a mão que não estava enfaixada na direção do juiz, que a fitou com certa raiva contida em seus olhos. Um homem como ele odiava se sentir pressionado, porém, não tinha outra escolha naquele momento.

Apertou de volta a mão da Kim e ambos puderam ouvir um grunhido contrariado vindo de Jihoon, que não ousou dizer mais nada.

— Sim, nós temos um acordo. — respondeu. — Agora, me diga exatamente onde está Kim Namjoon. Afinal, é essa a primeira etapa do seu plano, certo?

Por um momento, o aperto que ela exercia na mão do juiz enfraqueceu. De repente, Shinhye sentiu como se estivesse vendendo o Kim, o negociando como se ele fosse apenas uma mercadoria. E ele sequer tinha tido o direito de dar um parecer sobre tudo aquilo, mesmo sendo a verdadeira vítima de toda a história.

Hesitou.

— Onde ele está, noona? — Taehyung sussurrou com firmeza para a irmã, já não suportando mais aquela situação.

De pé ao lado da cama, como sempre estivera desde que todas aquelas pessoas tinham entrado sem permissão no quarto da sua irmã, ele a fitou, sério.

— Guryong. — a Kim mais velha respondeu, por fim. Fitou Taehyung de volta no momento exato para flagrar os seus olhos se arregalando, espantados.

— Você não o levou para a nossa...

— Para a nossa casa. — Shinhye interrompeu a fala incrédula do irmão. — É exatamente lá que ele está.

Taehyung não podia acreditar naquilo que estava ouvindo. Sua irmã mais velha, aquela que deveria zelar pela memória dos pais já falecidos dos dois, a mesma que prometeu preservar aquela pequena casa pelo resto da sua vida, tinha levado justamente Kim Namjoon para lá.

E depois quase morreu por ele.

Pela primeira vez, Taehyung deixou o posto ao lado da irmã já em direção à porta, marchando firma e furioso.

— Kim Taehyung. — Shinhye o chamou, porém, o que o fez parar no meio do caminho. Fitou a irmã apenas por cima do ombro. — Só faça o combinado, por favor. Eu estou indo logo atrás de você.

A terapeuta ainda não tinha tido alta do hospital, mas também não se importava com aquilo. Primeiro de tudo, ela arrancou sem cerimônia a agulha que injetava soro no topo da sua mão esquerda, o que logo fez com que um filete de sangue começasse a escorrer da pequena perfuração. Em seguida, jogou as pernas para fora da cama.

— Você não está pensando em ir junto com as viaturas, está? — Jihoon a questionou, incrédulo com a cena que estava acontecendo bem diante dos seus olhos.

Mesmo que ainda estivesse um pouco fraca, Shinhye conseguiu se colocar de pé sem precisar de ajuda. No meio tempo, Taehyung já havia deixado o quarto.

Voltou-se para o Lee.

— Quando você vai finalmente perceber que não é mais você quem dá as cartas nesse jogo, Lee Jihoon? — a terapeuta cuspiu entre os dentes as palavras na direção do promotor, que arregalou os olhos. — Enquanto isso, você deveria mandar uma viatura atrás do meu irmão, porque nós dois sabemos bem do que ele é capaz quando está assim.

Dito isso, os dois apenas se encararam durante um breve momento, produzindo uma tensão palpável entre ambos. O que Lee Jihoon mais queria naquele momento era destruir Kim Shinhye em todos os sentidos possíveis da palavra, mas sabia que não poderia fazer aquilo, pelo menos não por enquanto.

Por isso, o promotor deixou o quarto primeiro, saindo logo atrás de Taehyung enquanto ordenava que um grupo de viaturas seguissem o policial irritado.

***

— Acabou para você, Kim Namjoon. — Taehyung grunhiu ainda em cima do Kim mais velho. Fitou o rosto machucado do rapaz, que parecia extremamente atordoado pela dor naquele momento. — Eu só queria poder dizer isso por mais tempo.

Namjoon não conseguiu ouvir o último sussurro do policial, que logo em seguida tirou o peso do seu corpo de cima do mais velho. A casa dos Kim era escura e Namjoon estava muito machucado no rosto, por isso, viu apenas ao longe pequenos feixes de luz inundarem nervosamente o local, como se procurassem por algo.

— Ele está aqui. — Kim Taehyung alertou os colegas policias, os quais tinham o seguido até Guryong.

Com as suas lanternas ainda em mãos, cerca de sete homens foram até o Kim, que ainda estava caído no chão. Não era como se ele realmente não conseguisse se levantar sozinho, porém, estava confuso e perplexo demais com tudo o que estava acontecendo para sequer pensar em fazê-lo. Dois homens, cada um segurando em um braço de Namjoon, o ergueram e o colocaram de pé enquanto Taehyung recitava de cor e salteado os seus direitos como mais novo fugitivo capturado de Seul. O Kim mais novo bateu uma mão contra a outra algumas vezes para limpá-las, o que não surtiu muito efeito no gotejo de sangue que manchava os seus dedos, enquanto os dois policiais que ainda seguravam Namjoon já começavam a arrastá-lo para fora da casa.

O Kim sentia um pé embolando no outro, como se realmente não conseguisse andar por conta do choque. Quando foi retirado da casa, viu sirenes ao longe no horizonte, mas que eram nitidamente visíveis devido à falta de luz elétrica que atingia grande parte daquela vizinhança. As viaturas tinham sido impedidas de passarem por todas aquelas vielas e becos sem saídas, por isso, vários policiais armados o esperavam de prontidão do lado de fora da casa, o que obviamente acabou atraindo vários curiosos. Um cordão de isolamento improvisado com alguns homens já havia sido montado para impedir que qualquer coisa atrapalhasse a captura de Namjoon, porém, isso não foi o suficiente para evitar que uma pessoa específica irrompesse pelo mesmo.

Kim Shinhye era a única coisa que Namjoon conseguia enxergar no meio daquele caos de luzes vermelhas e azuis, homens armados e moradores assustados e curiosos. Havia muito barulho ao seu redor, contudo, tudo pareceu ser silenciado pelo fato de que ela estava ali, de pé e aparentemente bem diante de si.

Pela primeira vez desde o primeiro soco que levara, Kim Namjoon conseguiu se firmar sobre os seus próprios pés.

— Espera! — a voz da mulher se sobressaiu a qualquer outro ruído presente, o que fez com que os policiais que carregavam Namjoon parassem de sobressalto. Fizeram menção de continuar ao perceberem que Shinhye não estava fardada e nem possuía nada que a desse o direito de interromper aquela operação, porém, Taehyung vinha logo atrás da dupla e fez um único sinal com as mãos para que dessem um minuto para a irmã.

Os dois homens acataram a ordem do Kim apenas por se tratar de um superior, o que permitiu que Shinhye logo os alcançasse. Mesmo estando escuro, ela se espantou quando viu as feridas no rosto de Namjoon e, antes de mais nada, fitou primeiro o irmão mais novo que acompanhava tudo de perto.

Lidaria com ele depois.

Em algum momento no meio de toda aquela bagunça, Namjoon havia sido algemado com as mãos para atrás do seu corpo e, ao se deparar com aquela cena, Shinhye momentaneamente quis desistir tudo.

Era por causa dela que ele estava daquele jeito. Daquele seu plano tão arriscado e precipitado.

— Eu... — ela iniciou quando se aproximou dele, porém, um nó se formou na sua garganta e impediu que ela continuasse.

Já o Kim, por outro lado, tinha algo urgente a dizer.

— Você está bem? — ele perguntou com a voz um tanto falha, já que o seu maxilar ainda doía quando era movimentado por causa do par de socos que havia levado. — O seu irmão disse que...

— Eu estou bem. — ela o interrompeu com urgência, como se quisesse evitar que ele fizesse qualquer tipo de esforço. Quis erguer as mãos para segurar aquele rosto machucado, limpá-lo e cuidar das suas feridas, porém, pensou duas vezes ao se lembrar da mão enfaixada. Não queria preocupar ainda mais Namjoon, por isso, escondeu a mão machucada atrás de si. — Céus, como você pode parecer se preocupar mais comigo do que consigo próprio, mesmo em um momento como esse?

— Porque é exatamente o que você faria por mim. — o Kim respondeu sem hesitar.

E aquilo era, na verdade, o que ambos estavam fazendo naquele momento. Mesmo com a saúde um tanto debilitada, nitidamente cansada, pálida e ainda um pouco fraca, Shinhye tinha corrido até Guryong apenas por causa de Namjoon. E o Kim, por sua vez, mesmo com o rosto tão machucado e em choque pela sua prisão tão repentina, só estava se mantendo de pé por causa dela.

Porque eles só estavam fazendo aquilo um pelo outro.

— Obrigado. — foi Namjoon quem sussurrou, um tanto dolorido. Ele estava cansado e dolorido, por isso, precisava lutar contra os próprios olhos para mantê-los abertos. — Obrigado por tudo, Kim Shinhye.

— O... — ela balbuciou. — Obrigado?

Por um momento, no meio de toda aquela confusão, Shinhye havia se esquecido de um detalhe importante: Namjoon não fazia a menor ideia do que estava realmente acontecendo ali. E, ainda que não fizesse, também não a tinha culpado por ter lhe entregue parada a polícia; o que era óbvio, afinal, só a terapeuta sabia daquele esconderijo e mais ninguém. Por isso, em suma, o Kim tinha sido agredido pelo irmão mais novo dela e entregue pela própria numa bandeja de prata para a polícia e, mesmo assim, ainda estava a agradecendo.

Shinhye sentiu seus olhos começarem a arder.

— Obrigado por ter acreditado em mim todo esse tempo. — ele sussurrou já um tanto sem forças.

Kim Shinhye quis gritar. Quis correr para longe, para o mais distante possível de todo aquele caos, mas, principalmente, quis levar Namjoon consigo. Ele não merecia nada daquilo, todo aquele sofrimento depois de já ter passado por tanta coisa ruim nos últimos anos, mas não havia nada o que Shinhye pudesse fazer quanto àquilo. Seu plano poderia ser muito promissor e, se todos agissem conforme o designado, tinha grandes chances de dar certo mesmo com os nítidos riscos, mas ainda havia uma enorme e imperdoável falha no meio de todas aquelas ideias certeiras: Kim Namjoon estava sofrendo. Nitidamente machucado e não só fisicamente, o sonâmbulo estava passando por tudo aquilo sem sequer ter sido consultado sobre as decisões que haviam tomado por si sobre a sua própria vida.

Como se ele tivesse voltado ao coma, porém sendo capaz de sentir toda aquela dor.

— Namjoon, me escuta, não é bem isso o que você está...

— Podem levá-lo. — a ordem vinda de algum outro policial interrompeu a fala um tanto desesperada de Shinhye.

Os dois homens que carregavam Namjoon fitaram Taehyung, que nada pode fazer contra alguém que estava hierarquicamente acima de si. Acenou positivamente com a cabeça e, assim, Namjoon foi brutalmente tirado do campo de visão de uma Shinhye que ainda estava presa numa batalha contra si mesma. Em silêncio, ela ainda tinha em sua garganta um nó que lhe impedia de expressar qualquer palavra, sendo que parecia que alguém estava o apertando ainda mais.

Atando. Prendendo. Sufocando.

Depois de um tempo, Namjoon sumiu do seu campo de visão viela afora. Ela estava paralisada, enraizada naquele pedaço de chão de terra, e sentia os olhos queimarem com lágrimas que queriam a todo custo serem liberadas.

— Desculpe, mas eu tinha que fazer aquilo. — ouviu a voz grave de Taehyung atrás de si. — Tinha que parecer real.

— Foi real, Taehyung. Você descontou toda a sua raiva e frustração nele. — ela rebateu, rouca. O mais novo não discordou. — Vá atrás daquela viatura e se certifique de que tudo corra como o planejado.

— Mas e você? — o Kim questionou. — Você precisa ir para casa e...

— Eu vou, mas vou sozinha. — Shinhye o interrompeu, firme.

Tirou forças do fato de que, naquele momento, a coisa que mais queria era sair daquele lugar e do foco de todos aqueles curiosos — pessoas que, na sua infância, haviam cuidado de si como uma joia rara, mas que naquele momento a fitavam como uma criminosa genuína — e conseguiu dar o primeiro passo. Depois outro, mais um e, por fim, já estava longe de Taehyung e de todas aquelas pessoas.

Não viu mais sirenes ligadas e nem sequer as ouviu, tudo o que havia ao seu redor por aquelas vielas era a noite de Guryong, que parecia ser ainda mais escura do que o normal. Caminhou sem nenhum foco, afinal, sua cabeça estava cansada demais para pensar em um caminho que os seus pés já conheciam de cor e salteado. Sendo sincera, não se lembrava ao certo como o tinha feito, mas em algum momento estava saindo do elevador do seu prédio já no andar do seu apartamento.

Poderia ter pegado um táxi, talvez, mas o seu cérebro parecia simplesmente se recusar a armazenar mais informações do que as muitas que já tinha. Sem celular, ela tinha no bolso apenas a identidade e alguns trocados. Arrastou os pés até a sua porta da frente, mas acabou encontrando ali a última pessoa no mundo que ela esperava rever.

— Nós podemos conversar?

Ao contrário do que ela mesma esperava, não expressou nenhuma reação quando se deparou com Jeon Jungkook parado na sua porta — na verdade, ele parecia simplesmente invisível aos olhos dela.

— Olha, eu sei que eu errei, mas você pode, por favor...

A voz do Jeon foi ficando cada vez mais distante, mas isso se devia ao fato de que Shinhye já havia digitado a sua senha no painel eletrônico de segurança e aberto a porta. Entrou no apartamento sem se importar em fechar a mesma, o que Jungkook encarou como uma espécie de permissão um tanto distorcida para que ele entrasse logo atrás.

— Shinhye, você está me ouvindo?

Não, ela não estava mais. Assim que alcançou a sala de estar, antes mesmos de pôr os pés ainda calçados no seu carpete favorito, os joelhos da Kim se chocaram contra o chão quando as suas pernas declararam simplesmente não terem mais forças para continuar.

Ela não tinha mais forças. Desabou.

A primeira lágrima escorreu fria do olho direito, percorrendo todo o caminho da sua bochecha até pingar solitária no chão, mas não por muito tempo. Outra veio logo atrás, mais uma e, sem sequer se dar conta daquilo, Shinhye começou a chorar descontroladamente. Um choro cortado por soluços e engasgos com as próprias lágrimas. Um choro que misturava desespero e alívio.

Um choro que ela não chorava há mais de uma década, algo que não tinha feito sequer quando recebeu a notícia da morte do próprio pai.

Um grito de humanidade.

Notas finais
E então, o que acharam? Para alguns perdidos de plantão, voltamos para a ordem cronológica dos fatos, mas... creio eu que a felicidade de vocês parou por aí kkkkkk. Mas olha, se serve de consolo, no próximo eu FINALMENTE trarei uma boa luz no fim desse túnel, prometo! Até breve ♥ OBS: se alguém aí também acompanha a outra fanfic que eu tenho em andamento nesse momento, Meu CEO de Estimação, saiba que eu não morri, ok? Em breve aparecerei por lá também rssss.