Meu querido sonâmbulo 2
10 Meu querido horror
Notas iniciais
Shinhye tinha, no mínimo, um milhão de ideias rondando a sua cabeça quando finalmente conseguiu alcançar o conforto da sua cama naquele dia. Tinha virado a noite acordada por conta da polissonografia de Namjoon e, pela manhã, acabou sendo obrigada a ficar na clínica para resolver algumas pendências como gerente — inclusive sobre a vidraça estilhaçada por Park Jimin, agora já consertada — o que acabou não lhe permitindo nenhuma hora de sono sequer. Por sorte, conseguira uma meia hora fajuta para correr em casa, tomar um banho rápido e trocar suas roupas por peças mais apropriadas para um velório, tudo isso lutando contra o tempo necessário para buscar Namjoon na porta do seu prédio para poderem irem juntos ao tal funeral.
Ah, o velório de Kim Seokjin... Tanto tinha acontecido na despedida fúnebre que, sinceramente, Shinhye sentia a necessidade de tirar alguns minutos da sua noite para repassar cada acontecimento com um pouco mais de calma e atenção. Primeiro de tudo, o episódio envolvendo Hoseok ainda martelava sua mente; o modo assustado como ele olhava para Namjoon e como, às pressas, tinha desviado dos questionamentos de Shinhye e ido embora do velório do melhor amigo tão repentinamente. O ruivo claramente conhecia o Kim, apesar de Shinhye não fazer ideia de como. Depois, o fato de que Namjoon havia sentido algo estranho ao se deparar com a fotografia de Seokjin também deveria ser levado em conta. Afinal, se Hoseok e Seokjin eram amigos de longa data, nada impedia o Kim de ter conhecido Namjoon em algum momento da sua vida também.
E ainda tinha Min Yoongi. Shinhye simplesmente não conseguia confiar no homem de pele pálida e olhar duvidoso, que ora parecia perturbado por ter encontrado o melhor amigo em um ambiente nada convencional e ora parecia tentar desafiar ou, ainda, ameaçar a Kim. Quem diabos era Min Yoongi de verdade e o que ele tanto escondia? Sinceramente, Shinhye chegou a sentir que já tinha o encontrado em alguma outra ocasião anterior, contudo, teria minimamente lembrado do rosto do rapaz se isso realmente tivesse acontecido.
Se tivesse visto o seu rosto, no caso.
— Aish, por que eu me sinto dentro de um filme policial? — ela resmungou ao enterrar a cabeça em um dos seus travesseiros. Não deveria estar fazendo aquilo, afinal, sequer tinha passado no banheiro ainda para tomar o longo banho quente que merecia, mas o cansaço simplesmente estava a impedindo de fazê-lo. — Eu deveria ter me formado na academia de polícia...
De repente, algo feito um estalo a atingiu e a fez voltar à realidade: o arquivo de Kim Namjoon. Antes de ter o mesmo em suas mãos, ela por muito pouco não tinha se ruído de curiosidade e frustração causada pela espera; contudo, agora de posse do mesmo, tinha passado o dia inteiro variando entre hesitação e negação. Tratou de ocupar sua tarde o máximo que conseguiu para, assim, sequer ter a oportunidade de pôr as mãos em seu celular e consequentemente nas informações sobre Namjoon. E se descobrisse o que não queria? Se acabasse lendo algo que a faria voltar atrás em toda a sua ajuda oferecida ao Kim?
E se o antigo Kim Namjoon não fosse mesmo quem ela esperava?
Shinhye insistia em acreditar na inocência do Kim e, justamente por isso, sabia o quão devastador seria se descobrisse ter aplicado sua fé de modo equívoco em Namjoon. Porém, por um outro lado, também não tinha mais nenhuma desculpa para continuar evitando a verdade. Naquele momento, sozinha em seu quarto escuro, porém igualmente confortável, ela não tinha mais com o que se ocupar ou para onde correr. O verdadeiro Kim Namjoon estava bem ali, na palma das suas mãos, e já tinha passado da hora de Shinhye conhecê-lo.
Sentou-se sobre a sua cama e desbloqueou a tela do celular, abrindo a mensagem de Taehyung. Já tinha baixado o tal arquivo, então não tardou a abri-lo. Respirou fundo e começou a ler, torcendo internamente para que não encontrasse nada que a fizesse se arrepender disso.
A linguagem tipicamente policial não foi um empecilho, afinal, ela já estava familiarizada com todos aqueles termos — que totalizavam um total de oito páginas, diga-se de passagem. Primeiramente, como de costume, vinham alguns dados pessoais: o nome completo que ela já conhecia, a data de nascimento que revelava que ele e a Kim tinham a mesma idade e, em seguida, o seu local de nascença; no caso, Daegu. Pai e mãe ainda casados, uma irmã mais nova e mais alguns familiares, todos ainda vivos e residentes na sua cidade natal. Um diploma de conclusão do ensino médio e, ao longo do mesmo, uma quantidade considerável de prêmios acadêmicos registrados no seu histórico escolar.
Kim Namjoon costumava ser um destaque no seu antigo colégio e, para isso, nem era necessário tanto esforço de sua parte. Suas participações e vitórias em diversas olímpiadas, desde matemática básica, física avançada e até mesmo sobre a língua coreana, constavam ali e, por um momento, acabaram pegando Shinhye de surpresa. Não que ela esperasse alguma coisa especificamente sobre o histórico escolar de Namjoon, contudo, encontrar algo tão impecável e invejável definitivamente não estava na sua lista de expectativas. O Kim tinha, até mesmo, estudado como bolsista durante todos os seus anos escolares, tudo isso devido às notas altas e o bom desempenho acadêmico.
De repente, Shinhye se perguntou como ele tinha acabado atrás do balcão de uma cafeteria. Alguém como ele, cujo o mínimo a ser esperado era um futuro promissor, só poderia sofrer uma mudança tão drástica no seu destino se acabasse levando uma rasteira da vida — e foi justamente isso que aconteceu. Contudo, antes de chegar à parte específica que registrava o seu atropelamento, Shinhye se deparou com algo que chamou a sua atenção.
Uma ocorrência policial ainda na sua adolescência. A primeira pergunta a surgir na cabeça da Kim foi: como alguém com aquele histórico tão impecável poderia ter tal mancha? A ocorrência, que envolvia mais três adolescentes, registrava uma briga de rua que acabou ficando por isso mesmo, sem maiores acusações. Os nomes dos outros três envolvidos estavam cobertos, censurados devido ao fato de que, naquela época, se tratavam de menores de idade que não poderiam ter suas identidades expostas daquele jeito.
— Por que isso me soa tão familiar? — Shinhye sussurrou para si mesma, sentindo como se estivesse deixando passar algo despercebido bem diante dos seus olhos.
Forçou as vistas e se obrigou a ler aquela parte de novo com mais atenção, contudo, não achou nada que pudesse aquietar aquela sensação de estar deixando algo para trás. Suspirou e sacudiu a cabeça e, mesmo frustrada, decidiu seguir com a sua leitura.
Talvez se lembrasse de algo mais tarde, já mais descansada e com a cabeça fresca.
E lá estava o registro sobre o seu acidente. Um motorista em alta velocidade tinha o atropelado, interrompendo a sua juventude tão brutalmente no auge dos seus dezenove anos, e fugido sem prestar socorro — e, por isso, não havia nenhum nome a ser acusado no boletim de ocorrência.
— Ele não mentiu. — a Kim constatou ainda para si mesma, sentindo um alívio enorme tomar conta de si.
Permitiu-se soltar o ar que vinha prendendo em seus pulmões por conta da ansiedade e, pela primeira vez, respirou livremente. Kim Namjoon não tinha mentido em nada sobre o seu passado, nem mesmo sobre o seu acidente. Ainda lhe faltava o prontuário do Hospital Geral de Daegu para que ela conseguisse comprovar de vez a sua perda de memória, contudo, não acreditava que ele teria mentido justamente sobre aquilo. Namjoon era exatamente quem dizia ser. Apesar de uma briga de adolescentes no seu histórico, não havia nada realmente ameaçador ou obscuro em seu passado, o que Shinhye podia tomar para si como prova de que o Kim era quem ela, de fato, acreditava que era.
De repente, sentindo-se mais aliviada, ela correu o dedo para o lado na tela de seu celular, pulando para a última página do arquivo — e foi exatamente naquele momento que o seu alívio, há pouco tão leve e libertador, desapareceu na mesma proporção e rapidez com a qual surgiu. A última página sobre a vida de Kim Namjoon revelava que, poucos dias depois do seu atropelamento, o motorista acabou por ser encontrado e preso pela polícia. Tratava-se de um jovem de vinte anos, recém contemplado pela idade adulta, e cujo nome Shinhye já conhecia de cor e salteado.
Kim Seokjin.
De acordo com o relatório, Kim Seokjin tinha atropelado Kim Namjoon algumas ruas depois da escola na qual estudavam, Seokjin no último ano e Namjoon no penúltimo. O garoto dirigia o carro do pai, Kim Hansol, mais conhecido como Delegado Hansol pelo restante da cidade. Fora preso devido a uma investigação iniciada pelo depoimento de uma testemunha chave, alguém que estava acompanhando Namjoon no dia do acidente e viu com clareza quando tudo aconteceu: Min Yoongi.
— Não é possível... — Shinhye sussurrou, descrente.
Contudo, ela não conseguia impedir-se de continuar lendo aquelas palavras. Seokjin foi julgado quando Namjoon ainda estava em coma e, em sua defesa, ele levou para o tribunal o melhor amigo, que alegava estar sentado justamente no banco do carona quando tudo aconteceu e cujo depoimento parecia correr na direção oposta ao de Yoongi: Jung Hoseok.
— Hoseok? — a Kim repetiu para si mesma e, em sua voz, podia sentir toda a esperança que lhe restava se esvaindo para fora do seu próprio corpo.
Como aquele não se tratava de um documento judicial que registrava oficialmente o julgamento de Seokjin, Shinhye não pode obter nenhuma informação detalhada, apenas uma única e simples sentença final: inocência. Se Namjoon falava a verdade sobre o seu coma, a pessoa que o tinha colocado entre a vida e a morte tinha sido inocentada enquanto ele ainda estava desacordado.
E essa pessoa era Kim Seokjin.
Shinhye se encontrava em um completo estado de choque naquele momento. Não conseguiu sequer ler as últimas informações da página, que se tratavam basicamente de endereço e algumas outras informações atuais, pois ainda estava presa no que tinha lido. Aterrorizada, ela começou a ligar alguns pontos: seu vizinho, aquele que tinha sido assassinado na porta do seu prédio, quase matou uma outra pessoa atropelada quando era mais novo e saiu inocentado de toda a situação. E a pessoa a sofrer tal atropelamento, a que quase perdera a vida por isso, tinha sido encontrada por Shinhye a poucos metros de distância do corpo de Seokjin enquanto dormia e estava coberto de sangue.
Simplesmente, não tinha como Namjoon não ter nada a ver com a morte de Seokjin. Shinhye seria louca se continuasse acreditando, mesmo depois do que tinha lido, que tudo aquilo não passava de uma coincidência.
Kim Namjoon estava presente quando Kim Seokjin foi assassinado.
Shinhye respirou fundo, tentando conter o enjoo repentino que havia lhe atingido. Algo dentro dela ainda se negava a acreditar no que tinha lido, ainda que se tratasse de um documento oficial da polícia enviado pelo seu próprio irmão mais novo, também policial. Por fim, Namjoon tinha razão em temer a pessoa que era, contudo, quem mais o temia naquele momento era a única pessoa que havia lhe estendido a mão.
Shinhye, ainda imersa em teorias e pensamentos descontrolados, acabou se assustando quando seu celular vibrou em suas mãos. Na tela, o nome de Kim Namjoon estava aceso e provocou um frio repentino na boca do seu estômago. De todos os momentos, aquele era o pior possível para que ele estivesse lhe ligando — contudo, ela acabou por atender à chamada. Necessitava ouvir o que ele tinha a dizer, mas não foi exatamente isso a lhe incentivar.
Apenas sentia que deveria fazê-lo.
Atendeu à chamada e aproximou o telefone do ouvido, permanecendo em silêncio. Não fazia ideia do que dizer, ainda mais quando ouviu a respiração ofegante do outro lado da linha.
— Shinhye, eu... Desculpa, eu... — Namjoon estava murmurando e parecia extremamente assustado, além do tom choroso que dominava a sua voz. — Eu preciso da sua ajuda... Eu não queria envolvê-la, mas só você pode me ajudar. Eu... eu acho que fiz alguma coisa de ruim a alguém.
***
Shinhye nunca tinha estado naquela vizinhança tão tranquila e aparentemente caseira e, ainda mais por já se tratar de um horário tão tarde da noite, não haviam muitas pessoas pela rua a quem ela pudesse recorrer por informações — também, não era como se ela sequer tivesse alguma noção de para onde estava indo para, aí sim, poder pedir alguma informação para alguém. O bairro majoritariamente residencial tinha pouquíssimos comércios, o quais já estavam todos fechados devido ao horário. A Kim chegou a passar por uma lojinha de conveniência que ainda estava aberta, contudo, o que perguntaria para a atendente jovem e sonolenta que se enfiava em livros atrás do balcão?
Por acaso você viu um homem na casa dos vinte anos, sonâmbulo, perdido e todo ensanguentado passar por aqui?
Se ela não acabasse questionada pela própria polícia depois daquilo, já seria uma vitória. Por isso, optou por respirar fundo, balançar a cabeça e voltar a prestar toda a sua atenção no caminho relativamente escuro que percorria com um veículo que nem seu era, de fato.
— Eu não faço ideia de onde estou, mas é um beco... Tem um alfaiate na esquina, uma lojinha amarela. Está escrito Le Monde no letreiro, eu acho. — foi o que Namjoon conseguiu dizer ao telefone, aos prantos. Suas palavras eram cortadas e fracas, como se ele estivesse tentando se agarrar a qualquer coisa ao seu redor capaz de salvá-lo daquele pesadelo tão vívido. — Eu não posso sair daqui porque tem sangue, Shinhye... Há sangue para todos os lados.
O Kim parecia tão perdido e desolado que, por um momento, Shinhye apenas se deixou levar pela sua voz desesperada e esqueceu de tudo o que tinha acabado de descobrir. Esqueceu-se do verdadeiro Namjoon. Passou a mão em sua bolsa e correu para fora do apartamento, chegando no saguão térreo em questão de segundos. Por sorte, ainda não tinha conseguido devolver o carro de Haechan para o assistente e, por isso, ela se apressou para alcançar o mesmo no estacionamento do seu prédio, na vaga de número trinta e dois que lhe fora dada quando comprou o seu próprio apartamento. Correu e, quando finalmente se viu dentro do veículo, um rápido choque de realidade lhe atingiu feito um raio tão devastador quanto a voz de Namjoon há poucos minutos no telefone.
Devia mesmo ir até ele?
Tinha acontecido de novo. Coberto de sangue num beco escuro... Shinhye conhecia aquela história muito bem, infelizmente o suficiente para já ter visto tal cena com os seus próprios olhos. Estaria aquela mesma história se repetindo? Haveria outro corpo por perto do Kim? E se ele fosse pego?
Céus, ela precisava ir. Fosse pelo seu maldito instinto policial, sua intuição ou, ainda, aquela estranha e inquieta necessidade de pôr seus olhos em Namjoon para ter certeza de que ele estava bem, apesar de tudo... Ela precisava encontrá-lo, não havia outro jeito. Decidiria depois o que fazer com o Kim e como prosseguir com todas as informações que tinha em mãos, contudo, por ora, sua necessidade maior era a de achá-lo.
Shinhye respirou fundo, voltando a organizar os seus próprios pensamentos e fitando o telefone preso ao painel do carro por um suporte já de fábrica do veículo. Em algum momento no meio de toda aquela correria, do qual a Kim sequer se lembrava com muita clareza, ela tinha tido a ideia de pesquisar a loja que Namjoon mencionara, seu único ponto de referência, na primeira ferramenta de busca que encontrou no seu celular. Acabou achando uma pequena alfaiataria bem antiga em Seul, uma das primeiras daquele bairro em específico, cujo nome batia exatamente com aquele que o Kim havia lhe falado pelo telefone. Como não tinha mais nada com o que agir em mãos, ela virou o volante e partiu em direção ao tal estabelecimento, esperando fielmente que pudesse encontrar Namjoon por perto e a salvo — e primeiro do que qualquer outra pessoa, obviamente. O GPS ia lhe indicando o caminho com certa dificuldade, já que a bateria do seu celular começava a se esgotar de vez e, por consequência, algumas funcionalidades iam simplesmente parando de trabalhar, mas houve um momento em específico no qual Shinhye pode ter certeza de que estava próxima de Namjoon e isso sem sequer precisar de nenhum tipo de navegador.
Sirenes.
Ela ouviu o barulho com certa nitidez, o suficiente para conseguir seguir o mesmo; além do mais, o GPS pareceu concordar com o caminho que ela estava traçando com os próprios ouvidos. O som foi ficando cada vez mais forte, até Shinhye finalmente virar em uma rua larga e repleta de casas, onde as luzes do giroflex do carro da polícia foram a primeira coisa na qual ela bateu os olhos — e a do corpo de bombeiros, a segunda. Havia uma pequena aglomeração formada bem no meio da rua e, por um momento, a Kim pensou que estava vivendo a mesma cena do assassinato de Seokjin novamente.
E estava, de fato.
Parou o carro a uma certa distância do grupo reduzido de pessoas, cuja grande maioria vestia pijamas ou robes, o que denunciava de cara que se tratavam de moradores do local. O barulho das sirenes era alto por si só, contudo, havendo nada além de um burburinho dos presentes para abafar aquele som, a calmaria da noite fazia com que o mesmo ecoasse e parecesse muito mais estrondoso do que realmente era. Por um outro lado, Shinhye era um tanto acostumada com aqueles barulhos e, também, com as luzes vermelhas e azuis que emanavam gritantes dos veículos policias, então nada lhe impediu ou incomodou quando ela se aproximou do aglomerado de curiosos, agora a pé. Nada além do péssimo clima que rodeava o local, como já era de se esperar.
Por um momento, Shinhye simplesmente travou onde estava, no meio da rua. Aquela pequena e controlada multidão poderia ser a única coisa a separando de Namjoon e de uma reviravolta inimaginável em sua vida, contudo, podia estar a impedindo de chegar a algo mais. Como da primeira vez que aquilo acontecera, o que estava prestes a encontrar poderia ser muito pior do que esperava.
Por fim, deu um passo para frente, depois outro e mais alguns apressados, até finalmente alcançar aquelas tantas figuras embaçadas pela noite, umas coladas às outras devido ao frio e à curiosidade. Não parou, pois tinha medo de que, se algum dos seus pés vacilasse ou interrompesse a sua caminhada, ela acabasse voltando atrás. E, não importava qual fosse a situação, Kim Shinhye jamais seria a pessoa que desistia num momento como aquele.
— Desculpe senhorita, mas você não pode passar. — a voz grave e autoritária lhe disse e só então ela se deu conta de que já tinha alcançado o cerco policial. — Trata-se de uma cena de crime e somente o pessoal autorizado segue daqui em diante.
Shinhye fitou o homem que deveria ter por volta de quarenta anos e, fardado, era quem lhe impedia de cruzar a fita de isolamento que dividia os civis da polícia que estava ali apenas fazendo o seu trabalho. Então, ela levou seus olhos para o cenário adiante do homem, onde encontrou peritos e mais alguns outros policiais caminhando pela rua com suas câmeras e objetos de trabalho no geral. A cena parecia um retrato fiel, porém um tanto mais caótico e assustador, de um daqueles seriados americanos de investigação: os profissionais que ali estavam rodeavam um plástico tipo papel alumínio, que fora colocado no chão com o único e bizarro propósito de cobrir um corpo. O formato que a coberta tinha assumido denunciava, sem necessidade de grandes raciocínios, que havia uma pessoa sob a sua extensão — uma pessoa morta. Havia uma quantidade considerável de sangue ao redor do grande papel laminado e, além disso, alguns outros respingos ao perto do mesmo, inclusive manchando um carro esportivo estacionado muito próximo do corpo. Todo aquele sangue parecia estar no meio do seu processo de secagem, o que indicava que, o que quer que tinha acontecido ali, acontecera há algum tempo já, talvez um par de horas ou mais.
— O que aconteceu? — Shinhye indagou num sussurro horrorizado com toda aquela cena sem, de fato, estar perguntando aquilo para alguém em específico.
Contudo, a senhora já de idade que se encontrava ao seu lado, entendeu aquilo como um questionamento real e se propôs a explicar.
— Um rapaz foi assassinado de modo tão brutal, minha jovem. Novo igual a você. — a mais velha iniciou num tom assustado, porém com uma pitada deprimida em sua voz. — Parece que ainda não sabem de quem se trata, pois levaram os documentos e tudo mais. Um verdadeiro horror...
Contudo, a parte mais aterrorizante fez-se presente assim que a velha senhora terminou o seu lamento, pelo menos para Shinhye. Fazia frio naquela noite e a brisa, que naquela época do ano costumava ser um pouco mais amena, por algum motivo estava mais forte e revoltada naquele dia em específico — o suficiente para mover coisas que não deveriam, de maneira alguma, serem movidas.
Como o manto laminado que cobria aquele corpo sem vida. Tudo aconteceu e também terminou num piscar de olhos, já que o oficial que estava próximo da vítima analisando o local do crime logo percebeu o que tinha acontecido e, rapidamente, voltou a cobrir o rosto da mesma, mas não rápido o suficiente para que o homem não fosse visto por ninguém. Shinhye, que estava praticamente encostada na fita de isolamento, viu com nitidez a face pálida e sem vida, inclusive já um tanto inchada pela falta de circulação de sangue. Os olhos fechados, um deles rodeado por uma marca roxa, não precisavam estar abertos para que a Kim pudesse reconhecê-los. A forte brisa revelou um rosto machucado e, junto do mesmo, cabelos vermelhos que pareciam ser a única coisa que ainda trazia um resquício de vida para aquela pessoa.
Shinhye se espantou com o que viu. A cena por si só já era traumatizante e pesada para qualquer um, contudo, o fato de que ela conseguiu imediatamente reconhecer aquele corpo fez com que deixasse escapar uma arfada horrorizada por entre os seus lábios.
— Jung Hoseok... — sussurrou para si mesma em completo estado de choque.
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