Meu querido novato
1 I - Isso não vai dar certo. Garoto novo.
Passei correndo pelo portão da escola.
Estou atrasada, por favor, que o professor ainda não tenha chegado, pensei.
Corri para minha sala e antes de entrar verifico se o professor já estava em sala. Não vi ninguém a frente e entrei.
— Atrasada, Mariane. – Ouvi a voz do professor bem atrás de mim.
Tomei um susto e me virei bruscamente para trás e cai no chão. Todos riram.
— Você está bem? – Falou o professor me ajudando a levantar.
— Nossa, que susto. – Ele havia me assustado, mas não tanto, apenas me fingi de vítima.
— Sinto muito. Não imaginei que fosse tomar um susto. – Ele falou. – Vá para seu lugar.
Fui apressadamente para a cadeira e me sentei. Meus colegas perto de mim ainda estavam rindo baixinho da minha queda.
— Você está bem? – Minha amiga, Carol, me perguntou ao meu lado.
— Estou. Foi só para disfarçar que eu cheguei atrasada. – A Carol prendeu o riso, antes que começasse a gargalhar do feito que eu disse.
— Por favor, silêncio. – Pediu o professor Francisco, que ministrava aula de literatura.
Eu estava no segundo ano do ensino médio, estava em uma escola estadual, apesar de meus pais insistirem muito para eu ir a uma escola particular. Elas não me agradavam.
Assim que o professor saiu, me virei na cadeira para fiar de frente para Carol.
— Ei Carol, você tem aquele exercício de geografia da semana passada? – As aulas haviam começado a quase um mês.
— Só fiz uma parte. – Ela falou abrindo o caderno e olhando.
— A gente termina o restante. – Completamos o exercício e na aula seguinte a professora Carmem chegou.
— Bom dia, turma.
— Bom dia. – Todos falaram em um coral.
— Fizeram o exercício que pedi aula passada...? – Depois da aula, a Carol e eu fomos a biblioteca.
— Mas, Mariane, por que você chegou tarde? – Ela me perguntou enquanto escolhíamos um livro para ler.
— Ah, mulher, pai foi procurar uns papeis para levar para o trabalho em cima da hora.
Encontramos um livro e nos sentamos em umas mesas distribuída pela biblioteca. Lemos o intervalo quase todo, menos pelos momentos que a Carol não conseguia se concentrar e começávamos a conversar.
— Mariane, sabe aquele meu amigo, o Juan?
— Sim, o que tem ele?
— Chegou lá em casa ontem e passou a tarde toda me perturbando, mandei ele ir embora e na cara de pau disse que só ia sair quando me deixasse louca. – Ele falava muito rápido, não sabia se era de empolgação ou de raiva. – Quase bati nele. Sabe que odeio quando mexem no meu cabelo. – Ela passou a mão por ele arrumando-o.
— Mas você não disse que ele é como seu irmão?
— É, mas ele não precisa fazer isso.
— A culpa é sua. – Comecei a rir dela, e ela riu comigo.
As aulas finalmente terminaram e fui para a casa da Carol. Era a três quarteirões da escola. Ficamos lá conversando e na internet ouvindo música enquanto meu pai não chegava.
— Não aguento mais ficar em casa toda tarde. – Ela resmungou com o computador, sem falar comigo, mas mesmo assim falei.
— E o que vai fazer, então?
— Preciso de um namorado, urgente.
— Precisa de quê? – O irmão mais novo dela, Carlos, disse quando entrou pelo quarto de repente.
— Nada que lhe interesse, Carlinhos. Sai daqui.
— Vou dizer a mamãe que você não me deixa brinca aqui. – Ele disse com voz dengosa.
— Diga, diga. Você tem o seu quarto, vai para ele.
Uma hora depois o meu pai chegou. Carol me acompanhou até a porta.
— Tchau, Carol. Até amanhã. – Eu disse me despedindo dela.
— Tchau.
— Tchau, abrigada por deixar ela ficar aqui por enquanto. – Disse meu pai.
— De nada, senhor Fábio. – Ele estava vestido socialmente, tinha cabelos bem cortados e chamava atenção pelo seu charme.
— Vamos. – Entremos no carro e fomos para casa.
Passei direto para meu quarto no segundo andar, entrei e joguei a mochila em cima de uma poltrona de lado e tirei a roupa e me cobri a uma toalha, tomei banho e finalmente, desci para jantar.
— Como foi sua aula hoje? – Perguntou-me Fábio, servindo-me o macarrão com almondega que havia feito.
— Foi bom. – Disse apenas, não queria falar como havia sido meu dia, porque não teve nada de interessante, então decidi puxar o assunto dele, sabia que queria falar do escritório de advocacia. – E o seu?
— O meu foi ótimo, – Falou muito empolgado. Viu? Não disse que queria falar sobre ele. – Tivemos um cliente no escritório, muito importante. Ele queria falar com o juiz Gilberto, estava com um problema na empresa dele... – Ele continuou falando como se estivesse ainda naquela situação.
O Juiz Gilberto era seu amigo de infância. Fizeram a faculdade de direito juntos e anos depois do termino da faculdade se encontraram de novo no escritório onde trabalham, Fábio como promotor e Gilberto como juiz.
Depois do jantar fui para meu quarto resolver meus exercícios, fiquei na internet vendo algumas aulas de inglês para completar meu vocabulário e acabei dormindo na cadeira encostada na mesa.
Acordei com o pescoço dolorido da mesma posição, olhei o relógio sobre a mesa e eram 05:24 da manhã.
— Hum... – Resmunguei a me levantar, estava rígida. Deitei-me na cama, mas não consegui mais dormir. Me remexi na cama procurando uma posição que me fizesse dormir, mas não adiantou, continuei acordada.
Já eram 06:15 quando levantei para tomar banho e me arrumar para o colégio, prendi o cabelo em um rabo de cavalo e vesti o uniforme. Desci.
— Já pronta? – Fábio falou com ironia e um pouco de surpresa.
— Acabei por acordar cedo demais. – Minha voz parecia triste.
— Certo, assim não vamos nos atrasar.
— Verdade. – Falei como se não me importasse.
Chegamos no colégio faltando cinco minutos para soar o sino, eu já estava sentada em frente a sala só esperando todos chegarem. No corredor vi a Carol andando apressadamente em minha direção, como se não estivesse se controlando de tanta emoção.
— Mariane. – Ela praticamente se jogou em cima de mim.
— O que foi, menina? – Falei devagar demais, ela já estava falando tão rápido que eu mal consegui a acompanhar. – O que? Fala devagar.
— Você não está vendo o gato que está vindo? – Olhei para o corredor e um garoto que andava despreocupadamente em nossa direção, com os olhos vagos e de fone de ouvido. O que era aquilo? Tinha um palito de pirulito na boca e o movia com a mão. – Lindo demais, não é?
Ele tinha a pele clara, os olhos castanhos e cabelos escuros. Parecia forte por baixo da camisa verde que usava. Passou por nós duas e entrou na sala. Eu nem sabia o que pensar, ele realmente era bonito, mas a Carol já estava exagerando.
— Mulher, eu faria qualquer coisa para ficar com ele. – E ela continuou falando alguma coisa com muito mais e eu já não estava mais ouvindo. A nossa frente estavam outras dúzias de meninas cochichando e falando sobre o novo aluno.
— Para que esse alvoroço todo? É só um garoto. – Falei baixinho comigo mesma enquanto Carol fantasiava com ele.
— Preciso falar com ele e descobrir o nome do meu futuro namorado. – Ela correu para dentro da sala e a segui, tranquilamente.
Encontrei a Carol como uma estátua no meio do caminho.
— O que foi agora? – Falei sem olhar que mais à frente ele sentado na carteira na frente da minha e ao lado da de Carol. Não acredito, pensei. – Vamos Carol.
Tentei fazê-la andar, ele nem estava olhando, escutava sua música de cabeça baixa. O professor chegou e pediu para sentarmos e foi assim que ela saiu do transe.
— Há alguém que ainda não está na lista de frequência? – Perguntou o professor. O novato levantou-se e entregou um papel ao professor e ele anotou algo na lista de frequência. – Obrigado, pode sentar-se agora.
— Ah. – Carol deu um suspiro de frustração. – Eu quero saber o nome dele.
— Se quer tanto saber, pergunta. Não há nada demais. – Eu sussurrei para ela. Lá vinha ele, e vi a Carol se preparando para falar com ele de repente a Bruna interrompeu ele no meio do caminho.
— Oi, gatinho, sou Bruna, qual é mesmo seu nome? – Ela falou bem perto dele.
— João Victor. – Ele respondeu simplesmente, mas não se moveu do lugar.
— Hum... Certo, João Victor, quando precisar de algo estou a sua inteira disposição, ok?
— Ok. – Ele respondeu e passou por ela e se sentou. Vi a Carol ficar vermelha olhando para a Bruna. Isso não vai dar certo.
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